segunda-feira, maio 09, 2011

DENIS LERRER ROSENFIELD - Democracia e pesquisas de opinião


Democracia e pesquisas de opinião
DENIS LERRER ROSENFIELD
O Estado de S.Paulo - 09/05/11

O jogo político em sociedades democráticas passa pela formação da opinião pública. Ideias, concepções e valores fazem parte do contexto de lutas públicas, partidárias ou não, em que diferentes propostas se confrontam. Começam, dessa maneira, a se formar determinados apoios majoritários ou mesmo consensuais a certas ideias, que passam, então, a ser consideradas "normais" - precisamente por serem tidas por mais usuais, como se sua frequência fosse indicativa de sua "normalidade".

Eis por que surgem distintas maneiras de legitimar decisões, recorrendo aos mais diferentes instrumentos, tendo como objetivo ganhar a adesão dos cidadãos. Decisões que não passem por esse "ritual" correm o risco de ser ineficazes. Pesquisas de opinião, dos mais distintos tipos, cumprem, também, essa função.

Observe-se que muitas notícias e manchetes de jornais e revistas estampam que teria havido uma mudança de comportamento dos brasileiros em relação a determinados hábitos, sem que sejam expostas as condições mínimas a partir das quais tais pesquisas foram realizadas. Qual foi a margem de erro dessas pesquisas? Qual o rigor de sua amostragem ou do uso de sistemas de cotas, como gênero e região do País, e modo de entrevistas? Surge, simplesmente, a notícia como se ela retratasse a realidade, sem que indagações ou precauções mínimas sejam tomadas.

Há pouco tempo, o Ministério da Saúde divulgou uma pesquisa com 55 mil pessoas, feita por telefone, sobre os hábitos de brasileiros referentes a fumo, bebidas alcoólicas e obesidade. Imediatamente foram divulgados os resultados, a partir de certas correlações com pesquisas anteriores que indicariam aumento ou queda de certos comportamentos. A margem era tão estreita entre uma e outra que nem se poderia falar de uma mudança de hábito. Qual a sua credibilidade?

Algumas perguntas deveriam impor-se. Qual era a margem de erro dessas pesquisas? Qual a confiabilidade de uma pesquisa desse tipo, na medida em que não há uma listagem pública de telefones celulares no País? Quem não tem telefone fixo não poderia, por princípio, ser entrevistado? Não convém esquecer que o número de celulares no País ultrapassa atualmente o de convencionais.

Notícias, no entanto, foram apresentadas como se esses comportamentos, já tidos valorativamente como nocivos, devessem ser ainda mais controlados. Era evidente o propósito de que tais "pesquisas" servissem de antessala para novas medidas restritivas. Para que elas possam ser tomadas, porém, torna-se necessária uma preparação preliminar, que seria preenchida precisamente pela pesquisa de opinião. O objetivo reside no convencimento, e não numa radiografia fiel da realidade. O mais surpreendente ainda é que outras pesquisas não sejam feitas justamente para contestar ou ao menos equilibrar, do ponto de vista da formação pública, tal tipo de expediente.

Outro caso bastante em voga, e que se acentuará nos próximos meses, é o da campanha do desarmamento. As pesquisas aqui em pauta têm igualmente um forte componente retórico, feito para o convencimento dos cidadãos. Depois do referendo que terminou com a acachapante vitória do não, em inequívoca decisão favorável à liberdade de escolha, toda a política governamental consistiu em desconsiderar o resultado da vontade do povo. O povo, em eleições livres, decidiu pela liberdade de escolha. O que fez o governo? Decidiu estabelecer tal número de restrições à compra de armas que acabou por inviabilizá-la. Se tal tivesse sido o resultado da consulta, nada haveria a objetar. Como não o foi, a pergunta concerne ao próprio respeito a procedimentos democráticos.

Com o intuito de dar legitimidade a esse desrespeito a uma decisão democrática, o subterfúgio usado consistiu em produzir supostos estudos que estabelecem correlações estatísticas tendo como pressuposto que o "povo decidiu mal". A pesquisa visaria, então, a corrigir tal "anomalia". Assim, estudos são produzidos dizendo que a violência diminuiu graças ao desarmamento da população civil. Ora, correlações estatísticas podem ser feitas entre os mais distintos fatores, não indicando necessariamente uma relação causal. Por exemplo, a violência pode ter diminuído por outras causas, como maior eficiência da polícia, decisões judiciais, maior apreensão de armas de bandidos, políticas sociais para populações de baixa renda, unidades pacificadores em morros e favelas, e assim por diante. Privilegiar o desarmamento de pessoas de bem carece de qualquer base científica. No entanto, é essa aparência que procura ser "vendida" à sociedade, em nome de uma suposta "cientificidade" do estudo ou de uma pesquisa.

Outro caso que já povoa as páginas de jornais é o de pesquisas de opinião eleitoral relativas à apreciação dos graus de satisfação com os atuais governadores e prefeitos, além de outras ainda que já procuram medir o potencial dos candidatos às eleições municipais do próximo ano.

A margem estimada de erro de pesquisas de opinião se faz segundo o universo dos entrevistados. Assim, se uma pesquisa de opinião pública for feita com mil entrevistas, sua margem de erro é de 3 pontos porcentuais para mais ou para menos (total de 6 pontos). Se for com 600 entrevistas, a margem de erro sobe para 4 pontos para mais ou para menos (total de 8 pontos). Neste último caso, se se analisar apenas o comportamento das mulheres, metade aproximada da amostra por gênero, o problema se agrava. A margem de erro sobe, então, para 6 pontos para cima ou para baixo (total de 12 pontos).

Eis por que se deve ter o maior cuidado na leitura de certas notícias, pois pode acontecer que seu objetivo seja meramente retórico, o convencimento do outro, e não um retrato, embora momentâneo, da realidade. Contudo esse é, do ponto de vista público, o processo mesmo de formação da opinião pública.

A. P. QUARTIM DE MORAES - As duas faces do lulopetismo


As duas faces do lulopetismo
A. P. QUARTIM DE MORAES
O Estado de S.Paulo - 09/05/11

Num mesmo dia, 4 de maio último, os principais jornais brasileiros estamparam duas notícias distintas, aparentemente sem nenhuma relação uma com a outra, que revelam claramente o que significaram para o Brasil os oito anos de lulopetismo. A primeira: a pobreza no País caiu 50,64% entre dezembro de 2002 e dezembro de 2010, período dos dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva. A segunda: os quatro filhos e três netos de Lula recusavam-se até então a devolver os passaportes diplomáticos que lhes foram concedidos irregularmente nos últimos dias do governo do chefe do clã, levando o Ministério Público Federal a cogitar de recorrer à Justiça para corrigir a anomalia.

Quem se sentir chocado com a colocação dessas duas notícias num mesmo nível de importância para efeito de avaliação do governo Lula deve atentar para o seguinte: o sentido de justiça que impele os bons governantes a lutar pela diminuição das desigualdades é inspirado pelos mesmos valores humanos universais que estabelecem que não pode haver justiça enquanto houver regalias e privilégios aos quais, por definição, só poucos podem ter a oportunidade de acesso. Por mais bem-sucedido que tenha sido no combate à pobreza - e em grande medida realmente o foi -, Lula deixou a obra pela metade ao não ter tido capacidade, ou preparo, para entender que ele próprio é e continuará sendo beneficiário dos mesmos direitos e submisso aos mesmos deveres, nem mais nem menos, do mais humilde dos cidadãos que seu trabalho como presidente resgatou da pobreza. É a igualdade perante a lei, fundamento da organização de qualquer sociedade minimamente civilizada.

Mas não é apenas a atitude antiética de agir como se fosse "mais igual" do que o cidadão comum que compromete o desempenho de Lula como chefe de governo e o coloca muito distante da condição de estadista. Muito piores, do ponto de vista do bem comum, são as consequências da generalização desse comportamento, por contaminação, pelos quadros da administração estatal, estimulados, pelo exemplo que vem de cima, a cultivar privilégios e regalias. Se o chefe pode, por que não eu? É assim que os desmandos e a corrupção prosperam, na razão inversa em que, inevitavelmente, decai a eficiência da máquina governamental.

Lula e o PT sabem perfeitamente disso, pois durante mais de 20 anos combateram ferozmente os privilégios das "elites", acusaram todos os governos, mesmo depois da redemocratização do País em 1985, de se colocarem a serviço de interesses de potências ou do capital internacional e das castas e dos estamentos sociais que o dominavam, em prejuízo da grande maioria da população. Pois bastou chegar lá para o lulopetismo pôr em prática tudo o que sempre combateu. Desde aliar-se às mais retrógradas oligarquias regionais e envolver-se - segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal - em esquemas de compra de votos de deputados federais em troca de apoio político até promover um aparelhamento do Estado como nunca antes visto neste país e emascular completamente as grandes organizações sindicais, com a criação de um neopeleguismo alimentado a fundos de pensão.

É claro que esse novo tipo de apropriação privada do poder público teve reflexos negativos, que, com toda a certeza, prejudicaram o desempenho do próprio governo Lula. Não estivessem os coronéis que dominam o Congresso Nacional, os partidos que manipulam a máquina do Estado e os neopelegos deslumbrados com seu novo status social - não estivessem todos tão completamente envolvidos na defesa de seus próprios interesses, como a ampliação de suas regalias e de seus privilégios -, certamente os dois mandatos de Lula teriam um saldo de realizações concretas muito mais amplo a apresentar.

Não é à toa que os mais expressivos resultados desses oito anos se concentram nos programas que representam bandeiras históricas e prioritárias do PT - e, não por acaso, se traduzem em votos -, como a incorporação ao mercado de consumo de milhões de brasileiros antes marginalizados. Contudo metas com menores visibilidade e implicação eleitoral imediata, como todas aquelas que dizem respeito à infraestrutura indispensável ao desenvolvimento - estradas, aeroportos, saneamento básico, geração de energia, etc. -, sem falar no descontrole fiscal decorrente da gastança de recursos públicos, o que hoje começa a ameaçar o controle da inflação, quase todas essas ações, cujo implemento depende não apenas de investimentos adequados, mas também de gestão eficiente, ficaram a dever no governo Lula e hoje constituem uma verdadeira herança maldita para Dilma Rousseff.

Assim, a arrogância da família Lula da Silva na recusa a devolver os passaportes diplomáticos que obteve, indevidamente, ao apagar das luzes do "seu" governo não é um fato isolado e "da maior irrelevância", como já declarou um dos mais notórios aduladores do chefe, Marco Aurélio Garcia. Trata-se de mais um triste exemplo da falta de compostura ética e moral que caracterizou e prejudicou oito anos de lulopetismo no comando da República.

Se Lula não conseguiu, ou não soube, ou não quis transmitir certos valores éticos a seus descendentes, não é de admirar que não se tenha preocupado em fazê-lo em relação a seu partido e, principalmente, à enorme massa de seus eleitores. O que importa é ser "pragmático", levar vantagem. Daí a leniência com que ele próprio sempre passou a mão na cabeça dos seus "aloprados", com que o PT absolve um corrupto confesso como Delúbio Soares, com que todos juntos proclamam descaradamente que o mensalão nunca existiu.

Claro, é uma invenção das "elites". Nas quais, hoje, Lula e o PT, e suas duas faces, estão confortavelmente instalados. Ou não?

CARLOS ALBERTO SARDENBERG - Mais inflação, menos crescimento


Mais inflação, menos crescimento
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O Estado de S. Paulo - 09/05/2011

"Eu não vou permitir que a inflação volte no Brasil. Não permitirei que a inflação, sob qualquer circunstância, volte. Também não acredito nas regras que falam (em março) que o Brasil não crescerá este ano. Tenho certeza de que o Brasil vai crescer entre 4,5% e 5% este ano."

Assim a presidente Dilma Rousseff definiu seus objetivos econômicos em entrevista à jornalista Claudia Safatle, ainda em março. A presidente também garantia: "E também não acho que a inflação no Brasil seja de demanda".

Juntando isso com as manifestações de membros da equipe econômica, o novo governo passava o seguinte recado: certo, vamos ter de novo inflação acima da meta - em torno dos 5% -, mas menor do que a do ano passado. E, sobretudo, não vamos derrubar o crescimento econômico nem cortar investimentos importantes.

Na sexta-feira passada saiu o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril, que jogou a inflação acumulada nos últimos 12 meses para 6,51%, no limite do teto de tolerância.

Qual o cenário hoje?

O governo não confessa oficialmente, mas já se sabe que vai lutar para que a inflação chegue ao final do ano abaixo dos 6,5%. Algo como 6,45% já será considerado uma vitória.

E o crescimento econômico? Se der 4%, será sensacional. Mas o governo espera mesmo que não seja inferior a 3,5%.

Resumo da ópera: o governo topava um pouco mais de inflação para garantir um pouco mais de crescimento.

Está colhendo mais inflação e menos crescimento - como diziam os assim chamados "ortodoxos" tão criticados pela presidente Dilma e por alguns de seus ministros.

Em tempo: deem uma olhada nos documentos do Banco Central. Procurem por "inflação de demanda". Vão encontrar.

Governança. A Vale anunciou um baita lucro no primeiro trimestre deste ano. Verdade que os preços do minério de ferro estiveram no pico em janeiro e fevereiro. Mas é verdade, também, que a Vale é uma companhia bem administrada, capaz de aproveitar as oportunidades do mercado.

Entretanto, suas ações em bolsa se têm valorizado menos do que as das concorrentes multinacionais. A causa? Governança. Ou seja, séria desconfiança em relação aos futuros resultados da empresa, dada a ostensiva interferência do governo Dilma no comando da companhia.

Demitiram os frentistas... Antes da operação que apanhou Osama bin Laden, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, estava com a popularidade em baixa. Uma das causas era o preço da gasolina, que passava dos US$ 4 o galão, algo em torno de R$ 2 o litro. Mais barato do que no Brasil ou na Europa, por exemplo, porém mais alto do que as médias históricas norte-americanas.

Gasolina nos Estados Unidos paga pouco imposto, o preço é livre e responde direta e imediatamente às flutuações do mercado mundial.

Se o galão passar dos US$ 5 e ficar nisso - diziam então os analistas -, a reeleição de Obama estará seriamente comprometida. E, se chegar a US$ 6, completavam, estará perdida.

Gasolina é um preço político em qualquer país. Mas sempre pareceu que, nos Estados Unidos, o impacto eleitoral é muito maior.

Qual seria a causa disso? Uma explicação óbvia: os americanos adoram automóvel e usam mais o carro particular do que, por exemplo, os europeus - estes mais propensos ao transporte público.

Mas há uma outra explicação, comportamental. O problema é que nos Estados Unidos não há mais frentistas nos postos de gasolina.

Isso mesmo. Em nome da eficiência e da redução de custos, a profissão do frentista foi sendo eliminada. Como ocorreu no caso dos bancos - você mesmo faz os depósitos e pagamentos no seu computador -, o serviço de encher o tanque foi transferido para o consumidor.

O motorista para o carro ao lado da bomba, desce, passa seu cartão de crédito, o que destrava a mangueira, e faz a operação. Em certos postos, o motorista precisa entrar no escritório do posto e passar o cartão de crédito lá dentro. Depois volta e opera a bomba.

Em qualquer caso, eis a diferença: o consumidor fica ali, vendo a maquininha rodar o preço. Ele quer colocar dez galões (quase 38 litros) e é obrigado a ver o mostrador registrar: US$ 1, US$ 5, US$ 10... US$ 40 e tantos.

Diferentemente, por exemplo, do motorista brasileiro, que encosta o carro no posto, pede 30 paus da comum e fica ali, ouvindo música ou checando e-mails.

Pode ser? Pode. Estudos mostraram que o consumidor americano fica nervoso diante do avanço dos números na bomba. E se deprime em seguida.

A morte de Osama bin Laden dominou os noticiários e jogou para cima a popularidade do presidente Obama. Mas os americanos não esqueceram o dia a dia.

Vi na revista eletrônica Slate uma charge significativa. O carro está parado ao lado da bomba, na qual se lê o preço, US$ 4,31 o galão. O motorista comenta com o carona, que agita uma bandeira americana pela janela: "Não vamos mais à manifestação pela morte de Bin Laden, não temos grana para a gasolina".

Para sorte de Barack Obama, os preços do petróleo estão em queda, depois de semanas de alta. Mas esse mercado continua muito instável, na política e na economia.

ROBERTO ZENTGRAF - Que encontro!


Que encontro!
ROBERTO ZENTGRAF
O Globo - 09/05/2011

Recente pesquisa feita pelo Instituto Ipsos a pedido da Fecomércio-RJ revelou que muitas famílias que conseguem chegar ao fim do mês com alguma sobra no orçamento optam por gastar a sobra ao invés de poupá-la. E o motivo não parece ser a falta de dinheiro, pois, no primeiro trimestre de 2011, um terço dos entrevistados terminou o mês com dinheiro sobrando, fatia maior do que a observada no mesmo período do ano passado, apesar de ter caído o percentual dos poupadores. Posto de outra forma: consumo de mais, poupança de menos!

Atento a isso, o próprio presidente do Banco Central veio a público se pronunciar, incentivando o brasileiro a aproveitar a recente alta dos juros para guardar um pouco mais. Estou com ele, e vou mesmo além: a exemplo do que ocorre em outras economias mundo afora, o saudável hábito de poupar já deveria estar consolidado aqui entre nós. A velha desculpa de que a inflação comerá todo o ganho não mais funciona, pois, como bem salientam as manchetes, ainda somos o país campeão dos juros altos.

E você, meu querido leitor, joga em qual time: o dos gastadores ou o dos poupadores? Considerando que torço pelo segundo, no artigo de hoje trarei uns incentivos a mais para você passar para o lado de cá, ou daqui nunca sair! A palavra chave é paciência, conforme você perceberá na simulação seguinte onde três amigas resolvem guardar R$100 mensais cada, aplicando-os a uma taxa de rentabilidade de 0,4% ao mês.

1. Lúcia manteve-se em sua meta durante dez anos (120 meses) quando então, ao ver R$15.424 acumulados, contou-me: "Puxa, após esse tempo todo, do total que possuo, 22% foi o dinheiro trabalhando para mim (R$3.424 de juros), enquanto que os 78% restantes (R$12 mil) vieram do meu sacrifício... Desisto, vou me divertir no shopping mais próximo".

2. Recentemente estive com Ana, que após 20 anos fiel ao seu propósito, estava toda feliz por ter adquirido um carro zerinho. Contou-me que optou pelo consumo, pois, tendo acumulado R$40.328, dos quais R$24 mil (ou 59,5%) vieram do seu esforço, achou que era o momento de aproveitar: "Fui eu quem mais contribuiu para esse bolo, nada mais justo do que usufruir, não é mesmo?"

3. Mas legal mesmo foi ter encontrado a Luciana... Que encontro! Estava rindo à toa, pois, demonstrando uma paciência de proporções industriais, aceitou essa pequena renúncia mensal durante 30 anos. Acumulou R$80.535, dos quais menos da metade (R$36 mil ou 45% do total) vieram do seu esforço. Radiante, ainda me revelou ter planos para guardar por mais dez anos, quando então, do total acumulado (R$145.451), apenas 1/3 (R$48 mil) viriam de seu sacrifício. E, como gosta de compartilhar suas boas novidades com os amigos, ainda me deu uma dica: "Minha primeira vitória foi quando percebi que no meio do 15º ano, os juros que ganhava sobre o que tinha acumulado já eram maiores do que o que eu deixava de gastar. Foi um incentivo a continuar com o meu propósito. Hoje por exemplo, os R$80.535 já rendem R$322, mais que o triplo de minha contribuição, não é o máximo?"

Bem, e antes que você me pergunte, já aviso: 0,4% líquidos ao mês, equivalem a 5,77% ao ano antes da mordida do Leão, algo que as NTN-B garantem, além da inflação pelo IPCA, que tal?

Um grande abraço e até a próxima semana!

GOSTOSA

FRANCISCO DORNELLES - Direto e secreto



Direto e secreto
FRANCISCO DORNELLES
O Globo - 09/05/2011

Considero o sistema de eleição proporcional para deputado o grande responsável pela desorganização do sistema político do país.

O sistema proporcional leva o eleitor a votar em um candidato, vê-lo derrotado e, com o voto a ele dado, eleger outro. Permite que candidato sem voto seja eleito e que candidato com grande votação seja derrotado.

O sistema proporcional encarece enormemente a eleição, pois cada partido é obrigado a apresentar um grande número de candidatos, sendo a maioria deles sem possibilidade de sucesso, mas apenas para somar legenda. Essa situação encarece as despesas do partido com os programas de televisão, rádio, papel, gráfica e transporte, sem falar em outros custos administrativos.

Defendo a adoção do sistema majoritário para as eleições de deputados.

Tenho preferência pelo Sistema Distrital Puro. Cada estado seria dividido em distritos e cada um elegeria o seu representante. Considero, entretanto, totalmente impossível, na prática, a divisão em distritos. Os conflitos regionais tornam impossível o entendimento sobre os critérios a serem adotados para essa divisão.

Na impossibilidade da adoção do distrital puro, defendo a adoção de um sistema majoritário chamado Distritão. Cada estado seria considerado um distrito e os candidatos com maior votação seriam eleitos deputados.

No Distritão é eleito quem tem voto. Muitos dos candidatos sem voto, que hoje participam das eleições com expectativa de serem eleitos com o voto de outros, nem seriam candidatos, pois sem o voto de legenda, os partidos políticos não teriam nenhum interesse nessas candidaturas. Essa situação iria reduzir, em aproximadamente 90%, o número de candidatos a deputado, o que, como disse anteriormente, reduziria enormemente o seu custo.

Não existe, no voto majoritário chamado Distritão, a mais remota possibilidade de ser eleito o sem voto e ser derrotado o bem votado.

Nas eleições para deputados seriam eleitos, pelo voto direto e secreto, os candidatos mais votados. No Rio de Janeiro, por exemplo, seriam eleitos os 46 candidatos a deputado mais votados.

Existem contra o voto majoritário duras objeções que a meu ver não procedem.

A primeira delas é a de que no Distritão aumenta a possibilidade de eleição de candidatos com maior poder econômico.

O "endinheirado" pode ser eleito pelo sistema proporcional vigente e o voto por ele recebido pode eleger ele e outros candidatos de sua legenda. O "endinheirado" pode comprar um lugar na lista proporcional fechada conseguindo até mesmo uma boa colocação na lista. No voto majoritário, chamado Distritão, o "endinheirado" pode se eleger, mas os seus votos não elegem outros.

A outra crítica de que o voto majoritário, chamado Distritão, enfraquece o partido não prevalece também. No voto proporcional, hoje vigente no Brasil, o eleitor vota sobretudo na pessoa, sabendo que ela pertence a um partido, e que, em decorrência do princípio da fidelidade partidária, não poderá mudar sua filiação. No Distritão nada muda na relação do candidato com o partido.

Resumindo, o voto proporcional para deputado leva à eleição de candidato sem voto, à derrota do candidato com voto, permite que o voto dado a um determinado candidato eleja outro, encarece enormemente o custo da eleição. No caso do voto proporcional com lista fechada, ele retira ainda do eleitor e transfere a prioridade para eleger os deputados às cúpulas partidárias.

O voto majoritário corrige essas distorções e se baseia em princípio simples do regime democrático: é eleito quem recebe o voto direto e secreto do eleitor, ou seja, é eleito quem tem voto.

J. R. GUZZO - Mais um portento


Mais um portento
J. R. GUZZO
REVISTA VEJA


No meio de todo o ruído levantado nesses últimos tempos para saudar a subida da classe “C”, ou o aparecimento da nova “classe média”, a verdade é que pouco se ouve falar de um fenômeno ainda mais interessante - o surgimento de algo que se poderia descrever como a classe “AAA”. Ela não é mencionada na propaganda oficial; ao contrário, sua existência é um constrangimento nas áreas ligadas ao poder público. Também não tem despertado a menção dos analistas políticos, mais preocupados, ultimamente, em descobrir se os emergentes são lulistas, dilmistas ou neoconservadores. Essa nova classe, enfim, parece não ter atraído até agora o interesse dos departamentos de marketing de empresas em busca de consumidores de bolso cheio - ou, se já atraiu, ninguém está disposto a ficar falando disso. Numa pátria-mãe menos distraída do que o Brasil de hoje, porém, a classe AAA provavelmente despenaria um pouco mais de curiosidade. Ela é formada por gente que, de uma forma ou de outra, prospera recebendo dinheiro do governo, inclusive por meios lícitos - e aí estamos falando de cada vez mais gente, cada vez mais prosperidade e cada vez mais dinheiro, a ponto, talvez, de colocar este país diante de uma nova espécie de portento econômico. 

Não se trata, no caso, de qualquer dinheiro público. Nada de povão por aqui - não entram na classe AAA, por exemplo, os brasileiros que vivem do Bolsa Família e de outras obras de caridade do governo. Também estão fora funcionários públicos de posição e remuneração modestas ou que, se ocupam cargos mais altos e têm salários melhores, trabalham de verdade, como qualquer cidadão comum. A população que habita esse mundo é formada por todos os que têm a ventura, hoje em dia, de vender algo ao governo, especialmente quando vendem caro e, melhor ainda, quando conseguem vender sem entregar. A seu lado, subindo de vida dentro do mesmo pesqueiro, estão os que não vendem mas recebem - o caso clássico é o dos controladores de ONGs que, através dos seus amigos dentro do governo, e dos amigos dos amigos, recebem doações do Erário para realizar tarefas vagas, isentas de prestação de contas ou simplesmente inexistentes. Estão nessa classe emergente, também, os milhares de companheiros presenteados com cargos na máquina pública e na constelação de altos empregos que se espalha em torno dela - conselhos de empresas estatais, autarquias, diretorias de fundos de pensão, institutos disso, secretarias daquilo. Há todo um meio de campo, com fronteiras mal definidas, cada vez maior e cada vez mais caro, de intermediários entre o poder público e as empresas privadas que fazem negócios com ele. Completam o bloco, enfim, os beneficiários da corrupção pura e simples - os que sempre trabalharam no ramo e uma aguerrida turma de novos talentos. É gente que gasta depressa, consome muito e, frequentemente, paga em dinheiro vivo - da mesma forma, aliás, como recebe.

Nunca houve tanto dinheiro em circulação nesse mercado - cerca de 1 trilhão de dólares em 2011, 1 belo e redondo trilhão, levando-se em conta que o governo, o grande cliente, representa cerca de 40% do PIB nacional, que deve fechar o ano com um total aproximado de 2,5 trilhões de dólares. O cofre está aberto para os mais variados tipos de transação. Podem-se vender estádios de futebol, aeroportos e trens-bala - ou trens não-bala, que, por sua vez, tanto podem ir na direção norte-sul como na leste-oeste. Também há, nesse mar de oportunidades, a chance de negociar instalações para uma Olimpíada inteira, serviços terceirizados de mão de obra e campanhas de publicidade informando ao público que o Brasil é de todos. É possível receber dinheiro do Erário em troca de usinas hidrelétricas, organização de festas juninas e recitais de poesia. Há excelentes perspectivas, na área judicial, para arrancar indenizações do Tesouro Nacional - e por ai segue a procissão. Ela passeia pelo país inteiro, mas é Brasília, obviamente, a sua cidade predileta - nada mais natural que a renda per capita na capital esteja a caminho dos 30000 dólares anuais, cerca de três vezes a média nacional. É o progresso.



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Acabamos de ficar sabendo, com base no último censo do IBGE, que há exatamente 16267197 miseráveis no Brasil de hoje; são os cidadãos com renda mensal de até 70 reais. É uma boa notícia e, ao mesmo tempo, um mistério. A boa notícia é que eles são apenas 8,5% da população total. O mistério é saber como alguém consegue ganhar 71 reais por mês, por exemplo, e não viver na miséria.

LUIZ FELIPE PONDÉ - Fetiche intelectual


Fetiche intelectual
LUIZ FELIPE PONDÉ
 Folha de Sao Paulo - 09/05/11

Há duas semanas (A burca), eu disse que era a favor da lei francesa contra a burca (que muita gente confunde com o véu, que não é proibido na França). Aliás, com aquele véu, a mulher muçulmana parece uma Afrodite em versão corânica. Uma deusa de sensualidade. Andam pelas ruas juntas, como um vento que varre nossos olhos com seus olhos.

São a prova viva de que a invisibilidade da forma do corpo (ou a visibilidade apenas pressentida) é muito mais sensual do que a obscena explicitação da forma.

Um mar de e-mails e protestos contra a minha "intolerância com o outro". Obrigado.

Mas adianto: de todos os argumentos dos tranquilos defensores do "direito à burca" (acho a expressão engraçada por si só), um me parece o mais absurdo. Já vou dizer qual é.

Digo àqueles que discursam a favor da burca desde seus apartamentos com TV a cabo, de seus cursos de história da arte, de seus direitos de ir e vir e praticar sexo sadomasô, se assim o quiser, enfim, da condição de adorar Elvis, ETs, o nada, a mãe-natureza (pra mim está mais pra madrasta) ou seu próprio e pequeno "eu", que não acredito que nenhuma mulher use uma burca porque "quer".

O argumento mais absurdo é "as mulheres usam a burca porque querem". Não acredito nesse papinho multiculturalista.

O argumento "fulana nasceu na cultura X, a cultura X implica Y, logo fulana quer Y" é um sofisma barato. Quer ver?

Acho que um desses assinantes de TV a cabo, defensores do "direito à burca" provavelmente defenderia hoje o direito a "ser escravo" na medida em que "alguém foi acostumado pela cultura a isso". Será?

Que tal a "lapidação" (corte ritual do clitóris) que alguns praticam por aí? Também algo que devemos "achar objeto do direito da cultura". Azar de quem nasceu num lugar desses?

O debate contemporâneo é como uma guerra de trincheiras. Ninguém consegue ver muito longe, não existe mais nenhuma teoria grandiosa e definitiva, mas nem por isso é menos sangrento e sério. De minha parte, não tenho dúvida de qual lado da trincheira estou: daquele contra o fundamentalismo religioso seja qual ele for.

E fundamentalismo não é a mesma coisa que terrorismo islâmico (que alguns dizem que está acabando...). Muitas vezes o fundamentalismo é silencioso e invisível em seus modos de tortura. Fundamentalismo religioso é uma forma de reação aos "costumes modernos".

Nos dias seguintes a esse meu texto sobre a burca, uma mulher me abordou contando o seguinte. Em férias num país de maioria muçulmana, ela vira lado a lado uma alemã de férias com um shortinho desses de parar o trânsito e uma mulher com uma dessas burcas de mau gosto (o "de mau gosto" é por minha conta, ou melhor, minha culpa, minha máxima culpa).

Isso seria índice de como as "culturas" são diferentes. Uso as aspas aqui para a palavra "culturas" porque "cultura" virou um segundo grande fetiche da burguesia (o primeiro, segundo Theodor Adorno, seria a ciência). A inteligência burguesa blasé gosta de citar a "cultura" como prova de sua "generosa aceitação do outro" e de ausência de preconceitos. Quem diz que não tem preconceito é mentiroso.

A questão, caros defensores do "direito à burca", é que, no mundo do fundamentalismo religioso (e tem gente que acha que não existe fundamentalismo religioso...), a menina alemã não teria o direito de usar seu shortinho que para o transito. Ela também teria que usar a burca (claro, mas ela aceitaria porque afinal, a "cultura" a faria aceitar, ou a sua filha, no futuro).

A burca é o fundamentalismo religioso. Só cego não vê isso. Os talibãs (essa gente democrática, doce e respeitadora do "outro") adoravam as burcas e, de certa forma, a "inventaram".

Mas esses relativistas assinantes de TV a cabo, na realidade, são como gente de 18 anos que diz para o professor "cada um é cada um" a fim de que ele pare de encher o saco com perguntas difíceis.

No fundo, o segredo de dizer "é a cultura dela", ou "cada um tem um ponto de vista", é soar chique. É posar de estar em dia com o "respeito ao outro". Puro fetiche.

GOSTOSA

MÔNICA BERGAMO - PARADA OBRIGATÓRIA


PARADA OBRIGATÓRIA
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 09/05/11

A Câmara dos Deputados pode votar até o fim do mês um projeto que proíbe a cobrança de estacionamento em shoppings, hipermercados e aeroportos, entre outros estabelecimentos de prestação de serviços.

NA GAVETA
O projeto, apresentado pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP) há 14 anos, rodou por várias comissões no Legislativo, recebeu dezenas de apensos e chegou a entrar na pauta da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), presidida por Cunha, na semana passada, mas não foi apreciado por falta de quorum. Os setores atingidos, em especial os shoppings, fazem forte pressão para que ele seja rejeitado.

PONTO MÁXIMO
A proposta prevê que os clientes estacionem por até quatro horas de graça -desde que façam compras ou utilizem os serviços oferecidos.

MAIS TARDE

E o presidente da Infraero, Gustavo Valle, decidiu adiar a licitação de R$ 250 milhões para a construção de um novo estacionamento no aeroporto de Guarulhos. A ideia é detalhar mais o processo. O novo estacionamento deve ter cerca de 7.000 vagas -atualmente, o terminal tem cerca de 3.000.

TERCEIRA DIMENSÃO
A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula viram juntos há alguns dias, em Brasília, um filme sobre os bastidores da posse dela realizado em 3D. Com 23 minutos, o curta é dirigido por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial do governo Lula, em parceria com a Casablanca. A ideia é lançá-lo em julho.

NO PEITO
Numa das cenas, Lula visita José Alencar no hospital em SP depois da posse. O ex-presidente fez de tudo para ele ir à cerimônia. Mariza, mulher do vice, diz que não deixou. Chegou a dizer ao marido que se separaria, depois de 53 anos, se ele teimasse em sair do hospital.

DEBATE

E a jornalista Olga Curado, que treinou Dilma para os debates em 2010, está em Portugal. Ela foi contratada por Pedro Passos Coelho, que disputa as eleições com o ex-primeiro-ministro José Sócrates.

CONSUMO EXTERNO
A obra de Candido Portinari em mais de 30 países deixará de ser cuidada exclusivamente por João Candido Portinari, filho do artista. A Associação Brasileira dos Direitos de Autores Visuais (Autvis) representará o artista no exterior.

POP TV
A exposição "Warhol TV", com os principais trabalhos do artista americano para a televisão, desembarca em SP em julho, no Sesc Pinheiros. A mostra, que ficou em cartaz no Oi Futuro, no Rio, recebeu 26.769 visitantes.

ADIÓS, FLUFFY
A apresentadora Didi Wagner desistiu de trazer de volta dos EUA o hamster Fluffy, de sua filha Laura. Em fevereiro, o roedor foi proibido de entrar no Brasil junto com a família dela por falta de documentos. "Tentamos desvendar todas as requisições do Ministério da Agricultura, mas virou uma solução tão complexa que optamos por doar o hamster para uma amiguinha da Laura de Nova York e compramos um novo aqui no Brasil", conta.

MAPA
O Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo fará, em esquema de mutirão, 2.200 testes de paternidade no interior do Estado, em junho e julho.

O exame de DNA estará disponível para quem já recebeu intimação judicial para fazê-lo e será centralizado em Ribeirão Preto e em São José do Rio Preto.

MELHORES AMIGOS
Marcos Hermes

Um dos shows da turnê que Caetano Veloso e Maria Gadú fizeram juntos se transformou no DVD "Multishow ao Vivo", que será lançado no dia 23. A dupla avisa que pretende repetir a parceria nos palcos. "Da primeira vez que a vi, ela parecia um moleque de favela "movie'; um garotinho com voz de princesa", disse Caetano à gravadora Universal.

"JÁ SOU CASADO HÁ 16 ANOS!"
O estilista Carlos Tufvesson, 38, que chefia a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual do Rio, falou com a coluna sobre o julgamento do STF que decidiu que casais homossexuais formam uma família com os mesmos direitos e deveres dos heterossexuais.

Folha - Como vê a decisão?
Carlos Tufvesson- É importante. Vale dizer que a decisão não equipara os gays aos heterossexuais. Mas faz valer alguns dos 112 direitos civis que nós [homossexuais] não tínhamos. Foi divino o ministro Ayres Britto dizer que heteroafetivos não serão danificados.

Você quer se casar, caso um dia seja permitido?
Sou casado há 16 anos [com o arquiteto André Piva]. Como é que eu vou dizer que o André não é meu marido? Ele é meu marido, porra! De acordo com a lei, o casamento de duas pessoas é a união delas para constituir uma família.

Há mais do que os 60 mil casais gays em união estável apontados no Censo 2010?
Quando o Censo foi na minha casa, não perguntaram se eu formava um casal. Ainda assim, achei que o número fosse ser bem menor, que levaríamos uma lavada. São 60 mil famílias à margem dos seus direitos!

"NEM OS GAYS ESPERAVAM!"
O vereador paulistano Carlos Apolinário (DEM), 59, que propôs a criação do Dia do Orgulho Hétero, comentou a decisão do STF.

Folha - Como vê a decisão?

Carlos Apolinário - Os ministros votam em dez. Com todo o respeito, deputados e senadores estão na rua, ouvem a sociedade. O Brasil não está maduro para receber essa decisão. Nem os gays esperavam isso! Se tivesse sido votado pelo Congresso, eu reconheceria.

Os casais gays não estavam privados de direitos?
Não. Agora, dão aos gays 100% dos direitos dos héteros. Uma mulher pode ter filho com um homem. Um homem com outro homem não pode ter filho. Como terão os mesmos direitos?

É o momento para a criação do Dia do Orgulho Hétero?
Uma coisa não tem a ver com a outra. O Dia do Hétero é a oportunidade de protestar contra o excesso de valorização do gay. Não precisa dizer ao gay: "Ei, camarada, que bom!".

E a violência homofóbica?
É isolado! Na [av.] Paulista aparece endemoniado querendo bater em tudo. Em gay, em nordestino...

ARTE EM JOGO
Eduardo Coimbra tem 14 obras na mostra "Arquitetura do Jogo", na galeria Nara Roesler; foram à abertura Artur Lescher e Renata Castro e Silva.

CURTO-CICUITO

A empresária Heloisa Levy faz coquetel hoje no restaurante Dui para representantes da rede de hotéis e resorts de luxo Shangri-La.

O designer de jóias Ara Vartanian apresenta a caneta Graf von Faber-Castell em jantar da marca hoje a partir das 20h no Fasano.

Paulo Skaf, da Fiesp, dará palestras a alunos da FMU amanhã às 19h30.

A Luciana Brito Galeria abre exposição de Anthony McCall hoje às 20h.

O restaurante Trindade será inaugurado hoje às 19h no Iguatemi de Alphaville.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Tempo de tela
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 09/05/11

Fadado a medir forças com o PSD possivelmente em 2012 e com certeza em 2014, Geraldo Alckmin se movimenta para atrair partidos com representação modesta em São Paulo, mas tempo de TV significativo. O tucano quer explorar a principal fragilidade da nova sigla do prefeito, que, sem bancada empossada, participará do rateio de apenas um terço dos programas eleitorais -os outros dois são distribuídos conforme o número de deputados federais das legendas.
Enquanto Kassab corteja PC do B, PDT e PSB, o governador deve ceder espaço a PP, PSC e PRB, recém-vitaminados. Assim, faz frente à iminente defecção do PMDB, aliado em 2010 que agora prepara voo solo.

Malufou? 
Na tentativa de consolidar o novo arco de alianças, Alckmin estuda dar ao PP de Paulo Maluf o comando da CDHU, estatal responsável pela construção de casas populares.

Novo rolo 1 
Além do impasse na definição do futuro secretário-geral, o PSDB paulista terá de desatar outro nó até a próxima quinta-feira, quando pretende definir os cargos da Executiva estadual. Insatisfeitos com o espaço que lhes foi reservado no novo comando, membros da atual direção ameaçaram anteontem lançar uma chapa alternativa.

Novo rolo 2
Como esses descontentes detêm influência sobre os diretórios das cidades menores, muitos reformulados recentemente, o movimento preocupa o grupo de Alckmin.

Estreia 
José Serra coloca hoje no ar seu site (www.joseserra.com.br), dotado de ferramenta de interação direta e abastecido com fórum de debates sobre políticas públicas, além de artigos do ex-governador e candidato derrotado à Presidência.

Opções 
O novo número um do PT, Rui Falcão, conversou com Lula na quinta-feira passada. A pauta incluiu a sucessão de Gilberto Kassab. O ex-presidente ainda enxerga com muito carinho a ideia do "nome novo".

Em resumo 
De um integrante do primeiro escalão do governo federal, sobre o nome ideal para a eleição paulistana: "O Lula e a Dilma gostariam que Fernando Haddad fosse o candidato do PT. O Lula porque gosta dele. A Dilma porque não gosta".

Precedente 
Até o final da semana passada, o núcleo do governo tinha a esperança de que a ministra Ana de Hollanda (Cultura) vivesse processo semelhante ao do colega Orlando Silva (Esporte), que passou por período de desestabilização, com intenso "fogo amigo", e depois se consolidou no cargo.

02 
No Planalto, porém, há quem reconheça que faltam a Ana tanto a experiência política quanto o "drive" de Orlando. Se ela tiver de sair, o governo gostaria que fosse a pedido.

Eureka! 
A empolgação com que Aloizio Mercadante fala sobre feixe de elétrons, luz sincroton e semicondutores desde que assumiu o Ministério de Ciência e Tecnologia é tamanha que colegas e jornalistas passaram a chamá-lo de "Professor Pardal".

Litígio 1 
Às turras com o governo pelos "restos a pagar", prefeitos que baixam em Brasília amanhã para a marcha comprarão nova briga ao pressionar o Congresso a derrubar o veto de Lula sobre royalties do petróleo. Vão fazer concentração na Casa.

Litígio 2 
Em campanha para obrigar uma distribuição igual dos royalties a todas as cidades do país, os prefeitos vão criar um impostômetro às avessas, medindo quanto cada município do país deixa de ganhar.
com FABIO ZAMBELI e ANA FLOR

tiroteio
"O fortalecimento dos partidos é cláusula pétrea da reforma política. Ao colocar este caviloso artigo que permite a infidelidade, o PSD consegue quebrar esta pedra."
DO SENADOR JOSÉ AGRIPINO (DEM-RN) sobre a inclusão, no estatuto do PSD, da garantia de que a nova sigla não pedirá o mandato de quem a deixar.

contraponto

27 e contando

No dia em que a Câmara aprovou a realização de plebiscito para dividir o Pará, deputados passaram a discutir as mais diversas propostas de criação de novos Estados, como São Paulo do Leste, Triângulo e Amazonas Oriental. Ao ponderar que aquele "festival pseudofederativo" era uma irresponsabilidade, Chico Alencar (PSOL-RJ) foi repreendido por um colega:
-Você é historiador. Sabe que a pujança dos EUA está em seus 50 estados. Temos que chegar lá!
-Mas nem sempre o que é bom para os EUA é bom para o Brasil...- retrucou Alencar, rindo solto.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - Controlar Kassab


Controlar Kassab
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 09/05/11

SÃO PAULO – Gilberto Kassab passou três horas da tarde da última sexta-feira na sede do Ministério Público Estadual de São Paulo. O prefeito foi depor no inquérito que apura irregularidades no contrato entre o município e a empresa Controlar, responsável pela inspeção veicular na cidade.
O detalhe, curioso, é que Kassab se esforçou para ficar incógnito. Um fotógrafo do jornal “O Estado de S. Paulo” flagrou o instante em que o prefeito, ao deixar o prédio, de carro, se abaixou no banco de trás para não ser colhido pelas câmeras. Ficou pior: vemos apenas meio rosto de Kassab, inclinado atrás do motorista.
Fosse um astro pop, poderíamos atribuir a cena à inconveniência dos paparazzi. Sendo ele um administrador público eleito pelo voto popular, é uma imagem que não sugere coisas boas.
Ao chegar no local, Kassab se escondeu atrás de uma parede, depois de desembarcar pelo lado do carro em que estava sentado o seu secretário de Negócios Jurídicos, Claudio Lembo.
Lá dentro, o prefeito tentou fazer um acordo, segundo o qual o Executivo se comprometeria a fazer um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), corrigindo pontos problemáticos do contrato. O Ministério Público recusou a proposta.
Este é um caso que remonta à gestão Paulo Maluf. A Controlar venceu a licitação em 1996. O contrato tinha duração de dez anos e chegou a ser anulado pela Justiça na gestão de Celso Pitta (da qual Kassab foi secretário).
Kassab revalidou o contrato em 2007, contrariando parecer técnico da prefeitura, que recomendava nova licitação. A Controlar começou a fazer o serviço em 2008, 12 anos depois de vencer sob Maluf.
Cada inspeção obrigatória custa, este ano, R$ 61,98. É um negócio da China. O prefeito precisa parar de se esconder no banco do carro e dar explicações à sociedade. Há no ar muita fumaça preta sendo produzida em nome da causa ambiental.

QUEIMANDO A ROSCA

RICARDO SEMLER - Professores são obsoletos


Professores são obsoletos
RICARDO SEMLER

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/05/11
Investimentos deveriam criar novas soluções em educação, possibilitando a formação de tutores
A Westinghouse era um gigante nos anos 20. Numa fábrica com 12 mil funcionários, conduziram uma experiência seminal. Aumentaram a iluminação e a produtividade aumentou. Depois, voltaram ao que era. A produtividade aumentou mais! Esse experimento provou que a intervenção gera mudanças temporárias, e não difere dos empresários que intervêm em escolas.
No começo a diretora faz cursos de gestão, aparecem computadores e reciclagem para professores. Com o tempo, tudo volta ao que era. E os valores que são colocados nessas escolas "mexidas" tornariam o orçamento da rede publica inviável, portanto, são artificiais.
Duas boas entidades, Instituto Ayrton Senna e Todos Pela Educação colocaram pesquisadores para achar o denominador comum de centenas de estudos sobre melhorias na sala de aula -o resultado, logicamente, não passa de um conjunto de platitudes.
São quatro as conclusões: um, o professor tem que ser bom. Os 20% melhores ensinam mais do que os 20% piores. Ué...
Segundo, que turmas menores aprendem mais -ou seja, não é bom ter 48 alunos na classe. Certo.
Terceiro, que é melhor que a turma seja homogênea -se for para aprender mais matemática e português-, mas seria melhor que fosse heterogênea -se for para outras matérias. Ops...
Quarto, que alunos aprendem mais se houver mais aulas.
Hmmm... Sei que faço uma caricatura, mas não difere disso. A culpa não é dos empresários -têm boas intenções-, mas cabe lembrar que 92,3% das empresas quebram ou são vendidas a cada 20 anos, o que sugere que o empresário tem dificuldade de entender do seu próprio métier, quem dirá educação.
Que empresários escolheriam um professor de sociologia, depois um torneiro mecânico e por fim uma guerrilheira para comandar o país?
Teriam acertado na mosca, o país nunca andou tão para a frente.
Perguntei, numa palestra em Londres para 59 ministros de Educação: por que as férias são tão compridas no verão? Nem um deles sabia -é assim porque as escolas eram rurais, e os pais precisavam da criançada para ajudar na colheita, por dois meses. É assim até hoje.
Melhorias marginais na escola são como motor novo e pintura metálica num Fusca 77.
O papel do professor está obsoletado. Pede-se demais: que entenda de uma matéria, mas cruze com outras; que saiba manter 39 meninos quietos; que lide com as sacanagens da carreira, com diretoras ranzinzas e pais perdidos; e ainda aprendam tudo sobre bullying e "bullshit".
Os investimentos e estudos deveriam ir para formatos novos, com professores virando os tutores esclarecidos da paideia grega e chamando à escola os milhões de recém-formados e aposentados que poderiam partilhar suas paixões.
Ficar tirando a média de um conceito medíocre é inócuo. Correr atrás de resultados melhores no Pisa parece avanço, mas não passa de uma polida no capô do Fusca.

CLÁUDIO HUMBERTO



"A tendência é uma queda crescente dos preços do etanol"
Ministro Edison Lobão (Minas e Energia), prevendo aumento na oferta do etanol

Presidente do PT quer derrubar Pimentel
O cargo de presidente do PT subiu à cabeça do deputado estadual paulista Rui Falcão. Ele agora está empenhado em forçar a demissão do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento), assim como tentou afastá-lo da campanha presidencial, em 2010. Falcão é quem teria vazado que o comitê de Dilma, coordenado por Pimentel, estaria supostamente produzindo dossiês contra adversários tucanos.

Desprezo

O "vazamento" da suposta produção de dossiês gerou a mais séria crise política da campanha, por isso Dilma despreza Rui Falcão.

Veto ao

'traíra'
Com a doença do presidente do PT José Eduardo Dutra, Dilma vetou o vice Rui Falcão, o "traíra", nas reuniões do seu conselho político.

Projeto paulista

O projeto de derrubar Fernando Pimentel não é só de Rui Falcão, mas do grupo paulista que, desafiando Dilma, fez dele presidente do PT.

Imposição

O novo presidente do PT foi imposto pelos deputados do PT-SP, com apoio do ex-ministro José Dirceu, apesar do veto da presidenta Dilma.

Marina e o lobby

Parlamentares no Congresso ameaçam denunciar a senadora Marina Silva (PV-AC) ao Conselho de Ética, por sua associação ao lobby de ONGs estrangeiras contrárias ao novo Código Florestal. Grande parte dessas ONG é financiada sobretudo por produtores agrícolas dos Estados Unidos, que temem uma maior competitividade do Brasil no bilionário negócio de produção e exportação de alimentos.

Muito suspeito

Marina Silva usou seu prestígio para forçar uma audiência de ONGs estrangeiras com autoridades como o ministro Antonio Palocci.

Prefeito Ratinho?

O comunicador Ratinho sonha eleger prefeito de Curitiba o filho Ratinho Junior (PSC), um d os deputados mais prestigiados no Planalto.

De volta

Eduardo Braga (PMDB-AM) não parece à vontade no Senado. Já estimula articulações para sua candidatura à prefeitura de Manaus.

Fala que eu te escuto

A suspeita de que a Polícia Federal faria escutas até em locais como restaurantes, introduziu uma nova forma de políticos, lobistas e autoridades conversarem em público: troca de bilhetes sobre a mesa.
PODER SEM PUDOR

Elegante pregador
Durante a Constituinte de 1988, o senador Afonso Arinos (PSDB-RJ) não relaxava sua pregação parlamentarista. Certa vez, em conversa com repórteres que cobriam o Congresso, ele começou a discorrer sobre as crises do presidencialismo, ao longo da História. Os jovens jornalistas não pareciam muito interessados. Afonso Arinos captou a mensagem:
- Meus filhos, isto para vocês é História, mas entendam: para mim, é memória...