terça-feira, abril 19, 2011

CELSO MING - Dívida sob dúvida


Dívida sob dúvida
CELSO MING

O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/04/11

O impensável ainda não aconteceu, mas desde ontem não ficou tão absurdo admiti-lo. Foi quando a Standard & Poor"s, uma das três mais importantes agências globais de análise de risco, avisou que colocou "em perspectiva negativa" os títulos de dívida do Tesouro dos Estados Unidos.
Isso não significa ainda rebaixamento. Significa apenas que, comparáveis aos títulos de outros países com dívida AAA (de primeiríssima classe), como os da Alemanha e da Suíça, os títulos americanos já não merecem o mesmo grau de confiança. Nessas condições, provavelmente deixarão de ser a referência (benchmark) do mercado mundial.
A questão central são os problemas fiscais dos Estados Unidos, uma economia cujo rombo orçamentário em 12 meses avança para US$ 1,4 trilhão. A dívida do Tesouro americano ultrapassa os US$ 14 trilhões (84% do PIB) e as projeções para 2016 são de que atinja US$ 21 trilhões. Em meio de uma batalha política altamente arriscada, o presidente Barack Obama conseguiu que o Congresso afinal cortasse US$ 4 trilhões desse total em 12 anos.
É a primeira vez, provavelmente em mais de 100 anos, que uma instituição encarregada de examinar a qualidade das dívidas soberanas coloca em dúvida a capacidade futura dos Estados Unidos de honrar seus títulos nas condições estipuladas nos contratos. E isso explica em boa parte o tombo das bolsas e a corrida ao ouro que se viu ontem.
Ontem também, Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), advertiu que a crise da dívida ficara grande demais e que, por isso, pediu o fim imediato das isenções tributárias autorizadas pelo governo Bush, como medida destinada a ajudar a sair da crise. Greenspan não é o único nem foi o primeiro a chamar a atenção para a gravidade da questão orçamentária dos Estados Unidos. O atual presidente do Fed, Ben Bernanke, tem insistido em que é preciso virada urgente na situação fiscal.
O fantasma da perda de qualidade dos Treasuries, como são chamados os títulos do Tesouro americano, paira sobre a enorme poupança mundial, que não tem lá muitas opções onde buscar refúgio para seu dinheiro. Se sair dos Treasuries, terá de voltar para os Treasuries.
As reservas externas dos países ricos e emergentes, hoje avaliadas em alguma coisa ao redor dos US$ 9,3 trilhões, estão majoritariamente aplicadas nesses ativos. O Brasil tem hoje reservas de US$ 324 bilhões, das quais 90% estão em títulos, a grande maioria dos quais em dívida dos Estados Unidos.
Também ficam sob foco as reservas técnicas das seguradoras e os investimentos dos fundos de pensão de todo o planeta, majoritariamente aplicados em títulos do Tesouro americano.
Ao contrário do que acontece com as demais economias devedoras, os Estados Unidos podem, em tese, deixar de rolar sua dívida. Ou seja, em vez de emitir nova dívida para pagar as que estiverem vencendo, podem imprimir dólares para resgatá-la. O governo americano sabe que não há outro ativo no mundo em condições de se apresentar como moeda internacional de reserva.
CONFIRA
Novo corte orçamentário?

Boa pergunta consiste em saber se a posição da Standard & Poor"s vai concorrer agora para apressar um ajuste fiscal nos Estados Unidos.
Impacto sobre o PIB?
De todo modo, para que seja eficaz, esse ajuste pode exigir uma nova contração da atividade econômica nos Estados Unidos. A conferir. 

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Licitação de conta do BB será a primeira de Dilma
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 19/04/11

A licitação para a escolha das agências de publicidade para a conta do Banco do Brasil será a primeira concorrência do segmento em estatal no governo da presidente Dilma Rousseff.
Publicitários afirmam esperar "seriedade" no processo dessa licitação "inaugural", diferentemente do que ocorreu na concorrência para a conta da Petrobras, no ano passado. A petrolífera teve de cancelar a licitação, em razão do vazamento dos nomes das agências mais bem classificadas.
A licitação do BB ainda chama atenção do mercado pelo tamanho do contrato anual, de R$ 420 milhões, um dos mais polpudos, a ser dividido entre as agências.
O gasto hoje é de R$ 250 milhões. Artplan e Master venceram a última licitação, feita em outubro de 2006. De lá para cá, o BB afirma que o número de seus clientes praticamente dobrou, enquanto em ativos totais, o banco saltou de R$ 296,35 bilhões para R$ 811,2 bilhões, em dezembro passado.
A abertura dos envelopes está prevista para o próximo dia 25. Serão, ao menos, três agências de publicidade. Segundo o edital, as concorrentes classificadas devem ter patrimônio líquido igual ou equivalente a R$ 4,2 milhões, 1% do valor orçado.
O resultado sai em até quatro meses. As vencedoras começam a atuar em outubro próximo, quando vence o atual contrato, de um ano, que foi prorrogado.
Uma subcomissão técnica será sorteada com pelo menos seis membros, dois deles de fora do banco, a partir de lista de 23 pessoas já publicada no Diário Oficial.

DEMISSÕES
A Hypermarcas demite mais 200 pessoas do laboratório Mantecorp, empresa que adquiriu no final do ano passado por aproximadamente R$ 2,5 bilhões.
Em março, a companhia já havia demitido quase cem funcionários do setor administrativo.
João Alves de Queiroz Filho, controlador da Hypermarcas, conhecido como Júnior, estaria empenhado nos últimos meses em enxugar custos.

Empresa disputa terreno com prefeitura em Goiás
A IBG (Indústria Brasileira de Gases) entrou em disputa contra um município da região metropolitana de Goiânia por conta de um terreno onde quer expandir sua fábrica de oxigênio e nitrogênio que fornece a hospitais.
A prefeitura de Aparecida de Goiânia quer reaver uma área doada à empresa em 2006 em caráter definitivo.
A ideia é instalar uma farmacêutica no lugar.
"A IBG não está sendo retirada. O terreno foi só desmembrado e uma parte será cedida a outra", diz Marcos Campos, secretário de Indústria da cidade, que justifica a retirada por descumprimento contratual. "Ela não deu a contrapartida de contribuir com investimento em galeria pluvial e asfaltamento."
A empresa, que informa não ter reconhecido as cobranças, quer agora investir na produção de argônio.
"Já demitimos alguns funcionários, pois estamos nesta insegurança em fazer a ampliação", diz Newton de Oliveira, presidente da IBG.
A companhia pediu liminar para impedir a ocupação da farmacêutica. O pedido foi negado e a IBG recorreu ao Tribunal do Estado de Goiás.

ANTIIDADE NATURAL
A Weleda, marca suíça de produtos naturais, vai lançar mais cosméticos no Brasil. No final deste ano, a empresa trará uma linha antiidade, com "comprovação científica de resultado" pela Anvisa, segundo a empresa.
A Weleda, que tem selo de qualidade de grau máximo (mais de 90% dos ingredientes são naturais), é, porém, mais forte na área de remédios no Brasil, onde está presente há mais de 50 anos.
O país tem cerca de 400 médicos antroposóficos que receitam medicamentos da empresa- na Espanha, por exemplo, há entre 30 e 40. "Todos os remédios são feitos com plantas vivas, não secas, e a dinamização é feita por mãos, não por máquinas, com em algumas empresas de medicação homeopata", disse a nova diretora para América Latina, a alemã Ulrike Weber.
A Weleda não sentiu a crise nem na Europa, segundo a executiva que veio ao Brasil na semana passada.
"Continuamos a crescer em dois dígitos. As vendas de cosméticos avançaram, em 2010, 20,7% no Brasil e 19,6% na Alemanha."

PATENTES
O número de pedidos de patentes no Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) aumentou em 45% nos últimos cinco anos.
Para atender esse crescimento da demanda, o instituto permitirá, a partir de março do ano que vem, que as solicitações sejam feitas pela internet.
Hoje é preciso entregar, no Inpi, um papel com o pedido ou enviá-lo pelo correio.
"O crescimento [no número de solicitações] deve-se a uma maior preocupação das empresas e das universidades brasileiras de proteger suas pesquisas", diz o presidente do Inpi, Jorge Ávila.
O aumento também é consequência do interesse de empresas estrangeiras em atuar no Brasil.
O número de pedidos ainda acompanha o ritmo da economia.

Na palma... 
Quatro mil clientes do Bradesco se cadastraram no sistema de senhas biométricas, que usa a leitura das veias da palma da mão como senha adicional para acesso aos caixas eletrônicos. No total, 20 mil máquinas do banco utilizam o sistema.

...da mão A Caixa Econômica Federal adotou, por um período de testes, uma tecnologia semelhante. O Banco do Brasil inicia seu projeto piloto, na segunda quinzena de maio, em 30 terminais do Rio, de São Paulo e de Brasília. O Itaú também também já utiliza as senhas biométricas.

CALENDÁRIO

Na agenda da capital paulista, 1.075 eventos devem ocorrer até o final do ano, segundo o São Paulo Convention & Visitors Bureau.
O número representa 61,7% dos eventos realizados em 2010. A entidade espera crescimento de 10% no número de eventos em 2011.

Fiscalização O governo da Bahia e o Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial lançam hoje sistema de inteligência desenvolvido com base em notas fiscais eletrônicas e que tem o objetivo de combater a sonegação. Outros Estados poderão adquirir o serviço.

Global 
O ex-presidente da Febraban Fabio Barbosa confirmou presença no evento da entidade sobre tecnologia. O executivo fará um seminário sobre a interdependência entre os países na atualidade no dia 15 de junho, na cidade de São Paulo.

OCUPAÇÃO

Rio Branco (AC) e São Luís (MA) foram as únicas capitais do país que registraram queda no número de pessoas empregadas no primeiro bimestre de 2011, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego.
Somadas as capitais dos 26 Estados do Brasil e do Distrito Federal, foram criadas 136,9 mil vagas nos dois primeiros meses deste ano.
São Paulo e Belo Horizonte foram as principais cidades responsáveis pela criação de postos de trabalho.
Do total de novos empregos, 38,5% estavam na capital paulista.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

GOSTOSA

VLADIMIR SAFATLE - Brasília


Brasília
VLADIMIR SAFATLE

FOLHA DE SÃO PAULO - 19/04/11

Em dois dias, Brasília completará 51 anos. Mas ela continua sendo um corpo estranho no interior do Brasil.
Talvez nenhuma outra capital no mundo seja tão incompreendida por seu próprio povo. Muito desta incompreensão diz respeito à "ideia" de Brasília: a crença modernista na força formadora da ideia.
A natureza modernista da ideia de Brasília encontra-se, principalmente, em seu desejo inicial de reconfiguração do que poderíamos chamar de "gramática urbana". Toda verdadeira ideia é sempre um movimento de reconstrução destes dados elementares que pareciam, até então, absolutamente naturais e que, no caso de uma cidade, compõem a gramática dos modos de ocupação do espaço.
Brasília foi, desde o início, um modo diferente de ocupar o espaço. Não por outra razão, seu desenho urbano fora inspirado no gesto mais elementar de tomar posse, ao abrir os braços diante do vazio.
Desta forma, seu projeto tinha a força de suspender dicotomias que, até hoje, destroem nossas cidades. A diferença entre espaço público e espaço privado (no projeto inicial, os elevadores abriam-se diretamente para o espaço público), entre espaço vazio e espaço pleno (nada em Brasília é tão pleno que não possa ser atravessado pela abertura do vazio), entre vegetação original e intervenção humana.
Tudo parecia procurar uma nova configuração em uma cidade, graças ao gênio de Lucio Costa, que foi capaz de aliar alta circulação em suas artérias e lentidão silenciosa em torno de suas habitações.
Esta força da ideia de Brasília trazia, principalmente, a promessa de construir seu próprio tempo. Em um cerrado onde a natureza parece, a todo momento, querer voltar ao nada, onde as árvores tortuosas parecem querer voltar ao chão, Brasília era a afirmação de que toda verdadeira criação alimenta-se de um impulso "ex nihilo", que vem do nada, impondo um corte que nos faz ver, de uma forma bem diversa, o passado e o futuro.
Mas costuma-se dizer que o tempo de Brasília não se realizou, que ela ficou velha. Suas utopias de igualdade social não se realizaram, mesmo sua arquitetura foi ferida pelo lixo neoclássico produzido pela especulação imobiliária com seus delírios de ostentação.
Porém podemos dizer também outra coisa. Uma ideia, quando encontra seu tempo, guarda-o, mesmo que ele não se realize. Este tempo fica em latência, como um corpo estranho a assombrar o presente. Como uma promessa que mostra um desejo de ruptura que, às vezes, consegue alcançar a superfície e cortar o contínuo da história.
Este desejo é a marca maior de uma outra história do nosso país. Uma história que passa por Brasília.

MIRIAM LEITÃO - Cenário da decisão


Cenário da decisão 
MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 19/04/11

A semana era para ser leve e curta, para que todos pudessem ir diminuindo o ritmo até os feriados de quinta e sexta. Começou cheia de assuntos na economia: a inflação não está em queda, há reunião do Copom, a S&P pôs em perspectiva negativa a dívida americana e o euro caiu com medo da renegociação da dívida de alguns países do bloco. No Brasil, além dos índices altos de inflação, há muito ruído em torno do tema.

O IPC-S divulgado ontem deu 0,83%. É um dos muitos índices do país, mas não é dos mais conhecidos. O IPCA-15 de abril, uma espécie de prévia do índice oficial, vai ser divulgado exatamente no dia em que o Banco Central decidirá a taxa de juros. Ele deve ficar em 0,80%, na opinião do professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio. As apostas mais moderadas são de 0,70%, como faz o Bradesco.

O problema é que ela permanece alta, mesmo com o começo da queda da inflação de alimentos. Se o IPCA do mês ficar nesta faixa de 0,80%, a inflação no acumulado de 12 meses vai para o teto da meta. Há grande risco de que o índice chegue a 7% nos próximos meses.

Em maio, o índice deve cair em relação a abril, mas o acumulado do ano continuará no limite da meta. Vai cair porque alguns grãos estão entrando na safra, o álcool está sendo moído, as verduras e legumes estão mais fartos nessa época do ano. Isso afetará favoravelmente os preços de alimentos, alimentos in natura e combustível. Mesmo assim, a conta em 12 meses ficará alta principalmente em junho, julho e agosto. No ano passado, nesses três meses houve inflação próxima de zero, explica Luiz Roberto Cunha. Isso significa que qualquer alta elevará o acumulado em um ano.

- Quando estiver em torno de 7% começará a negociação de setembro dos dissídios de categorias fortes como bancários, petroleiros e metalúrgicos. O mercado de trabalho está aquecido e a economia ainda é muito indexada. Isso fará com que os sindicatos pressionem por aumentos elevados.

Nos últimos três meses do ano, há chances de a inflação em 12 meses cair, porque no ano passado os índices ficaram muito altos no fim do ano. É nisso que aposta o Banco Central, mas qualquer choque que houver será perigoso.

- O ano de 2012 entrará sob o peso de um aumento forte de salário mínimo. Isso significa que há pouca chance de a inflação de serviços cair - disse o economista.

O que torna esse quadro mais preocupante é o fato de que as expectativas não estão ancoradas. Não se sabe se o governo vai de fato pagar o preço de derrubar a inflação. Esse é sempre o ambiente no qual as remarcações aumentam, principalmente nos mercados onde há pouca competição.

A MB Associados avalia que os preços das commodities vão cair, superando o efeito que a consultoria define como "devastador" do La Niña, no final do ano passado. Mas da mesma forma que Luiz Roberto Cunha, a MB explica que os preços caem, mas não voltam a patamares de 2009. A demanda mundial por commodities, principalmente as agrícolas, continua muito alta. O cenário de queda forte desses preços só ocorre em momentos de crise, como foi em 2009.

No resto do mundo, as dúvidas continuam. A decisão da Standard&Poors de pôr em perspectiva negativa a dívida americana espanta pelo inusitado, mas não quer dizer que a dívida será rebaixada. Tem alguma possibilidade de nos próximos anos isso acontecer, caso não haja alguma mudança das perspectivas. Mas esse movimento foi o suficiente para provocar queda nas bolsas do mundo inteiro.

Na Europa, as dúvidas que sempre reaparecem é de que haja uma onda de reestruturação das dívidas de alguns países, com tudo o que isso pode representar de contágio pela estreita ligação entre os sistemas bancários.

O Japão continua se debatendo para encerrar a crise nuclear; a recuperação econômica passou a ser assunto a ser tratado no futuro. Na China, a inflação alta ameaça seu papel de fornecedor de produtos de baixo custo. A inflação chinesa tem sido alimentada também pelo crescimento econômico que não obedece a ordem de reduzir o ritmo dada pelas autoridades. Há avaliações de que os números reais de inflação são piores do que os que são informados pelo governo.

Não é um bom momento para tanta dúvida sobre qual é, afinal, a política econômica e o diagnóstico do governo sobre a inflação. O diagnóstico do Ministério da Fazenda é de que este é um problema mundial, provocado pelas commodities, e que estão sendo tomadas todas as medidas necessárias para evitar que ele se propague na economia. É um pouco isso, mas é mais complicado. É um problema mundial, mas há características locais que o tornam ainda mais complexo.

O Brasil tem uma longa história de superinflação indexada, tem ainda muita indexação na economia, há outras fontes de pressão inflacionária, o índice de serviços está acima de 8%, e os estudos mostram que a inflação já está com um nível alto de dispersão na economia. Até a explicação que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles teve que dar sobre o que aconteceu, ou deixou de acontecer no governo anterior, mostra como o ambiente está sensível e cheio de ruídos.

O atual presidente, Alexandre Tombini, disse que o país está no meio de um ciclo de aperto monetário, mas depois teve que se explicar melhor. Enfim, o governo Dilma ainda não conseguiu se comunicar nessa área. Num momento de expectativas fluidas, crise externa e inflação perto do teto, o Banco Central decidirá os juros amanhã. 

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


De foice
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/04/11

Mais um capítulo da briga entre as famílias Odebrecht e Gradin.

O Grupo Odebrecht está convocando Assembleia Extraordinária na qual pretende mudar o estatuto da holding e interromper o mandato de dois anos do conselheiro Victor Gradin, que venceria somente em 2012. Victor é sócio do grupo há 40 anos e pai de Bernardo e Miguel, ex-presidentes da Braskem e da Odebrecht Óleo e Gás, demitidos por Marcelo Odebrecht.

Os Gradin aguardam comunicação formal para se manifestar.

De foice 2
Mais um capítulo também na disputa entre o Departamento Nacional de Produção Mineral e Vale.

Dentro da briga por maior pagamento de royalties, a 4ª Vara Federal de Brasília proibiu o DNPM de instalar procedimento administrativo para cassar a licença da ex-estatal de explorar a mina de Carajás.

De foice 3
E por falar em Vale e empreiteiras, o destino de Murilo Ferreira, novo presidente da Vale, teria sido outro caso Roger Agnelli permanecesse à frente da empresa.

Ferreira já havia aceitado proposta para trabalhar na Camargo Corrêa.

De foice 4
Roberto Minczuk, centro da polêmica com músicos da OSB, está sofrendo bullying na... Wikipédia.

Os que não gostam dele aproveitam para atacá-lo com coisas como classificação de sua versão para a segunda sinfonia de Brahms na BBC Scottish Symphony de "criminosa e medíocre" ou chamando-o de "ríspido e autoritário".

Há quem acredite que John Neschling, ex-Osesp, esteja por trás do movimento de desestabilização do maestro.

O sem-carta
Aécio Neves desistiu de participar de solenidade em Belo Horizonte, ontem.

A confirmarO grupo de Marina Silva e José Luiz Penna começou conversas preliminares para a reforma do Partido Verde.

Oz
Claudio Botelho e Charles Möeller montarão a versão brasileira de End of the Rainbow, no Rio. O musical retrata os últimos anos de Judy Garland. Ainda bem que é para o segundo semestre. Claudio pegou dengue.

Rá tim tim?
Mauro Garcia, criador da TV Rá Tim Bum, da TV Cultura, e Elifas Andreato estão abrindo a Fábula. Empresa para desenvolver e licenciar conteúdo para crianças.

Controvérsia

Para pânico dos pediatras, a novela Insensato Coração deu um fora sexta. A personagem de Camila Pitanga foi orientada a, depois de amamentar, colocar o bebê recém-nascido para dormir de lado ou de bruços.

Até a Pastoral da Criança alerta que a melhor posição para evitar morte súbita é de barriga para cima.

Ao que consta, os ânimos acalmaram, pois Penna parece aceitar marcar convenção para eleger nova cúpula verde.

Na frente


Wanessa canta hoje na reinauguração da La Perla, de Tatiana e Antonia Thomaz Monteiro de Barros. Com mostra da coleção de JP Gaultier, no Shopping Cidade Jardim.

Afastado do mercado financeiro há anos, Maurício Leite Barbosa abre hoje sua própria galeria de arte, a M. Leite Barbosa. Curiosamente, na rua do... Mercado, no centro do Rio de Janeiro.

O MAM abre duas mostras hoje: a Morada Ecológica e Razão e Ambiente.

Rodrigo Trussardi pilota almoço, hoje, em torno de Mariah Bernardes. No restaurante Sal, na Galeria Vermelho.

Correção: há um zero a mais no relatório do Jockey. O faturamento anual do clube é de R$ 40 milhões.

Da vovó do rock Rita Lee, sábado, durante a abertura da Virada Cultural, no centro: "Sou irmã gêmea do Ozzy (Osbourne)".

XICO GRAZIANO - Índio é gente


Índio é gente
XICO GRAZIANO
O Estado de S.Paulo - 19/04/11

Hoje é o Dia do Índio. Merecido. A data ajuda a valorizar as origens da sociedade, provoca reflexão sobre o presente. Difícil é descobrir o que guarda o futuro para os remanescentes indígenas. Haverá espaço para eles na sociedade pós-moderna?

Talvez 5 milhões de nativos, ninguém sabe ao certo quantos, viviam no Brasil na época do descobrimento. Distintamente da colonização espanhola na América Central, os portugueses aqui não atuaram para dizimá-los. Longe do confronto, os índios mantiveram espírito colaborativo com os colonizadores.

Eram rudimentares e dispersos os índios brasileiros. Viviam como na Idade da Pedra. Ignoravam a faca e o anzol, nunca haviam visto uma galinha ou um cavalo, comiam mandioca, desconheciam a banana. Não ergueram castelos nem usavam joias. Esse "atraso" histórico os levou ao encantamento com as bugigangas tecnológicas trazidas pelos portugueses.

Sabe-se que as doenças europeias - gripe, sífilis, rubéola - causaram elevada mortandade nos povos originais das Américas. A perda de territórios e a miscigenação também foram causas de decréscimo populacional. Resultado: hoje se contam 460 mil índios nas aldeias, distribuídos entre 225 tribos. As línguas originais, estimadas em 1.300, reduziram-se a 180 dialetos.

Somam 107 milhões de hectares as reservas indígenas brasileiras, distribuídas em 611 territórios, dos quais 98% pertencem à Amazônia. Não é pouco. Tais espaços, protegidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai), ultrapassam em 48,6% a área cultivada no País, exceto pastagens. Significa que cada índio, contando crianças e mulheres, domina uma média de 228 hectares. Na agricultura, a área média dos estabelecimentos rurais, segundo o IBGE, soma 68,2 hectares.

Pode parecer muita terra para pouco índio. Mas faz sentido. Além da necessidade de preservação florestal das imensas glebas, tornado viáveis a caça e a pesca artesanal, as reservas indígenas cumprem, simultaneamente, função ambiental relevante, protegendo valiosos ecossistemas naturais. Justificam-se, assim, duplamente.

O núcleo da questão indígena não reside no tamanho da área que eles ocupam. Nem na recente, e controversa, demarcação de novos territórios, que avançam sobre terras agricultadas há décadas, particularmente em Roraima e em Mato Grosso do Sul. O dilema, mais complexo, advém do papel destinado aos remanescentes indígenas na sociedade atual. A dúvida parece ser eterna: é melhor mantê-los distantes, isolados, ou certo seria promover sua integração na sociedade? Tutela ou suicídio étnico?

A prudência indica o caminho do meio. Mas a rota é difícil. Os vetores da modernidade, alimentados pela facilidade da comunicação, atingem em cheio as aldeias indígenas, afetando seus costumes e danificando sua cultura secular. Levam, ao mesmo tempo, qualidade de vida e alcoolismo, televisão e prostituição. Como se opor ao progresso?

Jean-Jacques Rousseau, em seu famoso Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755), provocou uma grande polêmica ao defender o "nobre selvagem". Dizia o filósofo suíço que o "estado de natureza" primitivo era moralmente superior à civilização, pois esta deformava a essência humana. Deu o que falar.

É aristotélica a discussão, que nunca perdeu sua pertinência, sobre o caráter da natureza humana. Agora, sob os imperativos da sociedade tecnológica e globalizada, a pergunta permanece: serão os povos tradicionais naturalmente bons? A pergunta nunca esboçou fácil resposta.

Recentemente estive no México visitando as ruínas das civilizações pré-hispânicas, desde a cidade sagrada de Chichén Itzá, símbolo da civilização maia, até o recém-descoberto Templo Mayor dos astecas e o mistério de Teotihuacán, com suas magníficas pirâmides do Sol e da Lua.

Curtir aquela estranha beleza histórica não suplanta o horror de descobrir que templos, pirâmides e cenotes eram, na verdade, venerados locais de sacrifícios humanos. Princesas se assassinavam barbaramente em rituais religiosos, alimentando o poder macabro daquelas sociedades antigas. Para os astecas, o equilíbrio cósmico só seria mantido se os deuses fossem alimentados com "corações palpitantes". Crueldade pura.

Nós somos levados a ser condescendentes com os povos primitivos, talvez por buscarmos um subterfúgio que esconda as mazelas da sociedade atual. Esse esconderijo mental, ultimamente, inventou que os indígenas seriam "ecológicos". Um conceito idílico, falso.

Os tupiniquins foram grandes incendiários da floresta virgem, utilizando o fogo para abrir roça - a conhecida "coivara" - e encurralar a caça. A devastação da floresta atlântica começou com a aliança entre portugueses e índios. Juntos, com machado afiado, derrubaram todas as árvores de pau-brasil que conheciam.

Questionar a santidade dos antepassados explica parte do sucesso do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, imperdível livro de Leandro Narloch. Ele "joga tomates" na historiografia oficial e contesta o mito do índio como homem puro, vivendo em harmonia com a natureza, ideia comum na cabeça das pessoas, das crianças principalmente.

Nas comemorações do Dia do Índio, a melhor forma de valorizá-los será tratá-los dentro da sua própria vivência, jamais os estereotipando como sublimes representantes da bondade celestial. Há índios perversos, como perversos são aqueles que não os toleram.

Apostar na diversidade étnica e cultural mistura respeito com realismo. As famílias indígenas carecem ter oportunidades, educação, vida saudável, cuidados do Estado. Nada que ver com a tutela que os trata como se incapazes fossem.

Índio é gente, ser humano, não bicho estranho.

CORAÇÃO

Foi chegando sorrateiro E antes que eu dissesse não, Se instalou feito posseiro Dentro do meu coração. Teresinha de Chico buarque

CARLOS HEITOR CONY - Os plebiscitos


Os plebiscitos
CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SÃO PAULO - 19/04/11

RIO DE JANEIRO - O trauma provocado pela tragédia de Realengo fez o senador José Sarney pensar em propor um plebiscito (na verdade, um referendum) sobre o uso e a venda de armas.
O argumento brandido contra a ideia é fraco: já tivemos recentemente uma consulta popular sobre o assunto, em 2005. Mas "quod abundat non nocet" -diziam os latinos. O problema mudou para pior e alguma coisa deve ser feita em termos institucionais.
Contudo acho necessário um plebiscito sobre outro problema. O governo promete ampliar a energia nuclear concluindo Angra 3 e construindo mais quatro usinas, isso numa época em que países mais industrializados, como a Suécia e a Itália, estão desativando seus programas nucleares. O governo da Alemanha também estuda a possibilidade de reduzir ou acabar com suas usinas.
O investimento é vultoso (pelo menos R$ 8 bilhões cada uma) e os riscos de um acidente como o de Three Mile Island (1979), de Tchernobil (1986) e, agora, o de Fukushima, cujos efeitos ainda estão se manifestando, exigem uma consulta popular justamente num país que tem numerosos recursos naturais para gerar energia, como as hidrelétricas, além de opções que a tecnologia vai criando sem cessar, como a eólica, a solar etc.
Tamanha verba poderia ser em parte aplicada num programa para tornar mais seguras as usinas que temos em Angra dos Reis (RJ), onde ainda não há condições de retirada imediata da população.
Um acidente de grande proporção no litoral fluminense colocaria em risco as duas maiores cidades brasileiras, além de causar devastação em várias cidades próximas.
Um plebiscito daria ao governo e à sociedade uma orientação mais democrática sobre o programa de energia nuclear, importante demais para ser da agenda exclusiva de técnicos e funcionários.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Tucanos feridos
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 19/04/11

Maior do que previam aliados do governador Geraldo Alckmin, a debandada de 5 dos 13 vereadores tucanos projeta um cenário de isolamento para o PSDB na eleição paulistana. Tudo caminha para que os polos aglutinadores do apoio de partidos -e portanto de tempo de TV- sejam os candidatos do PT, de um lado, e do prefeito Gilberto Kassab (PSD), de outro.
Essa escrita poderá se romper se José Serra aceitar concorrer, o que amarraria Kassab. Mas não apenas Serra diz que não topa como, a esta altura da desagregação, é incerto que sua presença na cabeça da chapa baste para fazer aquilo que um dia foi a aliança demotucana em São Paulo trabalhar por objetivo comum.

Jogo de cena 

Nem os alckmistas, recém-instalados no comando do diretório paulistano, nem os vereadores, insatisfeitos com a nova ordem, fizeram esforço real para impedir a implosão. Os primeiros não confiam na bancada, eminentemente kassabista. Os segundos buscavam um expediente legal para deixar o PSDB.

Despachante 

Ex-secretário municipal de Esportes, o tucano Walter Feldman negocia com siglas da base de Kassab o destino dos dissidentes. A meta, além de adensar o PSD, é vitaminar partidos como PV e PPS, parceiros do prefeito em 2012.

Opções 

A aliados Kassab diz não acreditar que Serra venha a ser candidato. No momento, o prefeito promove Eduardo Jorge (PV), seu secretário de Meio Ambiente.

Resta um 
Diante da terra arrasada, Alckmin abraçou o que restou do DEM paulista. Assim o partido ganhou força para desalojar Guilherme Afif, sócio-fundador do PSD, da Secretaria de Desenvolvimento do Estado.

Hiperativo 

Pressionado a deixar a pasta, o vice fez chegar a Alckmin relatórios sobre o programa "Via Rápida do Emprego", a implantação da Universidade Virtual e a reestruturação do Centro Paula Souza, mantenedor da rede de escolas técnicas.

Cadê? 

No clipping de jornais distribuído ontem na Assembleia de Minas, deputados notaram a ausência de menções à blitz que flagrou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) com a carteira de habilitação vencida no Rio.

Limpando a barra 
De responsabilidade do consórcio Norte Energia, a campanha publicitária sobre a usina de Belo Monte entra no ar hoje com a exibição de animações gráficas de 30 segundos em sistemas internos de TV de 13 aeroportos brasileiros. Tratará da questão indígena, entre outros temas.

Reencontro 
Entre os agraciados com a medalha da Inconfidência, a ser entregue em solenidade que terá Dilma Rousseff como oradora, nesta quinta-feira em Ouro Preto (MG), está seu ex-assessor na área de energia Valter Cardeal. Diretor de Geração da Eletrobras, ele foi citado em denúncias de fraude e favorecimento durante a campanha presidencial.

Porta de saída 
A ministra Tereza Campello (Desenvolvimento Social) promove rodada de reuniões com governadores para negociar ações complementares ao Bolsa-Família. Ela já esteve com Agnelo Queiroz (PT-DF), Teotonio Vilela (PSDB-AL) e Renato Casagrande (PSB-ES). Nas conversas, pede que os Estados ofereçam opções de colocação profissional a egressos do programa.

Eu? Imagina... 
O PSB paulista nega ter cerceado o espaço de Gabriel Chalita em suas inserções de propaganda de televisão, um dos motivos alegados por dirigentes do PMDB para levar o passe do deputado federal.
com FABIO ZAMBELI e ANA FLOR

tiroteio

"Ao entrar no debate da reforma política, espero que Lula não tente incluir no projeto a prescrição do mensalão."
DO DEPUTADO VANDERLEI MACRIS (PSDB-SP), sobre o pedido do PT para que o ex-presidente ajude a mobilizar as centrais sindicais em defesa dos pontos que o partido deseja implementar na reforma política.

contraponto

Ministério da Saúde adverte

Reunida na Câmara, a bancada federal do PMDB assistia à palestra de Áquila Mendes, doutor em economia da saúde pela Universidade de São Paulo. Falando alto, rápido e abusando das provocações, no estilo de professores de cursinhos pré-vestibular, ele acabou deixando alguns deputados perturbados. Na saída do evento, um deles desabafou, ofegante:
-Estou atordoado com tanta informação e esse professor falando alto. Precisam advertir que esse tipo de palestra pode fazer mal à saúde!

DORA KRAMER - Favas contadas


Favas contadas
DORA KRAMER

O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/04/11

Não é bem uma rebelião, mas um queixume que se propaga pela base parlamentar governista e mais dia menos dia pode se expressar em contrariedade aos interesses do Palácio do Planalto no Congresso, notadamente no Senado.
O descontentamento em questão inclui os petistas e, pelo menos nesse caso, exclui a sempre complicada distribuição de cargos. O problema guarda relação mesmo é com o medo de suas excelências de perderem importância. Sentem-se negligenciadas pelo governo, em particular pela presidente Dilma Rousseff.
O estilo objetivo de Dilma, festejado exatamente por privilegiar o mundo do trabalho em detrimento do emocionalismo tão ao gosto do antecessor, não tem feito o mesmo sucesso entre seus aliados no Parlamento.
O "exagero de formalidade", alegam governistas e petistas, mantém a presidente longe dos senadores que, depois de quase três meses de bons serviços prestados ao Planalto, ainda não receberam dela a deferência que consideram merecida pelo empenho que a maioria no Senado tem apresentado na defesa do governo.
O ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, não exibe credenciais nem atributos para fazer a interlocução, o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, está assoberbado em suas funções e "Dilma não fala com ninguém".
Esse, o resumo da reclamação da maioria ampla que se sente tratada como se no Senado estivesse tudo resolvido e nada pudesse alterar a situação de conforto.
Em relação à bancada do PT isso pode até ser verdade, mas não é no tocante a aliados menos comprometidos com o projeto de poder nem exclui a hipótese de os petistas, amanhã ou depois, surfarem na onda da insatisfação só para mostrar que maioria é condição, mas não são favas contadas.
Vida pública. De dirigir com a carteira de habilitação vencida ninguém está livre, por descuido, displicência ou acaso.
Até aí, nada de muito especial no episódio envolvendo o senador Aécio Neves em uma blitz da Operação Lei Seca, no Rio.
O ponto torto é a recusa do senador ao teste do bafômetro. Com isso, deu margem à presunção de que infringiu a lei. Assim como se presume a paternidade de quem se recusa a fazer exame de DNA.
Um fato menor diante dos descalabros correntes? Não para quem se pretende líder da oposição, encarnando a representação dos 44 milhões de brasileiros que não votaram em Dilma e a partir desse patrimônio se candidatar à Presidência da República.
Aécio Neves sempre diz que não abre mão de seu estilo de vida e que, se for para mudar, prefere deixar a política. Até agora tratada como algo hipotético, a situação poderá se impor como realidade ao senador conforme indica a repercussão desse caso.
A menos que reformule seu conceito sobre a possibilidade de conciliação entre vida pública e "dolce vita", sem o ônus inerente ao escrutínio constante da imprensa nacional.
Note-se, não é julgamento moral - inclusive porque a questão não se presta a isso -, mas uma ponderação sobre as escolhas, seus respectivos riscos, o exemplo que vem de cima e a autoridade da oposição para criticar adversários, cujas condutas são marcadas pela tolerância com infrações.
Coisa esquisita. Reportagem da revista Veja conta que o ministro do Superior Tribunal de Justiça Cesar Asfor Rocha aponta o ex-presidente Lula como responsável pelo boato de que ele, Asfor, teria recebido propina para dar um voto no STJ.
Conforme o ministro, Lula recebeu a informação de seu compadre, o advogado Roberto Teixeira, que, segundo a revista, fora o intermediário da proposta de propina.
Não se exibem provas materiais de que tenha havido mesmo a oferta. De concreto, só a desistência do então presidente de indicar Asfor Rocha para o Supremo. Se, como alega o ministro, o recuo se deveu mesmo à suspeita sobre a moral do magistrado, fica a dúvida: e por que o então presidente não se indignou com a conduta do compadre?

GOSTOSA


MERVAL PEREIRA - "Partidocracia"


"Partidocracia"
MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 19/04/11 

O ex-presidente Lula escolheu uma tarefa árdua para reassumir sua atividade política, a de coordenar o apoio à reforma política que seu partido, o PT, pretende ver aprovada. Acontece que os pontos mais importantes defendidos pelo PT são o financiamento público de campanha e o voto em lista fechada, dois temas impopulares que dependem um do outro: só é possível haver financiamento público de campanha se o dinheiro for para o partido, e não para os candidatos.

De acordo com uma proposta que existe desde 2003 e precisaria ser reavaliada hoje, cada voto seria financiado com R$7. Como temos 135.804.433 eleitores registrados na última eleição, os cofres públicos teriam que gastar no mínimo quase R$1 bilhão no financiamento, fora o que já se gasta para custear o horário eleitoral gratuito durante a campanha e os fundos partidários.

Mesmo que não se criem mais impostos para financiar esse gasto, ficará a sensação no cidadão de que mais verba está sendo desviada do orçamento para custear os políticos.

Também o voto em lista fechada não tem grande receptividade entre os eleitores, acostumados a votar diretamente em seu candidato.

O PT é o partido que mais votos de legenda recebe nas eleições, e também o preferido pelo eleitor. E, por isso, é a favor do voto em lista fechada, onde o partido é votado e escolhe quais os candidatos serão eleitos em uma lista organizada internamente por critérios próprios a cada legenda.

Na primeira tentativa de aprovar o voto em lista fechada, anos atrás, seus opositores passaram a defender o direito de o eleitor escolher pessoalmente seu candidato e conseguiram abortar a iniciativa.

Sobre o assunto, o site do The Brookings Institution, um centro de estudos e pesquisas nos Estados Unidos sem vínculos governamentais, geralmente considerado de centro-esquerda, publicou um artigo de dois cientistas políticos brasileiros, Carlos Pereira, professor visitante, e Marcus Andre Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, intitulado "Pode o sistema eleitoral brasileiro aprender com os erros da África do Sul?", onde os autores relatam um caso exemplar de como o voto em lista fechada pode favorecer a corrupção eleitoral, ao contrário do que seus defensores dizem.

O caso da África do Sul ilustra o que pode acontecer quando o partido ganha poderes incontrastáveis, que os políticos chamam de "partidocracia".

Segundo os autores, o maior escândalo político da História daquele país - e um dos maiores do mundo pelo volume de recursos em jogo - envolveu a compra de caças, helicópteros e submarinos no valor de 32 bilhões de rands (moeda local) entre 1996 e 2000 (mais ou menos R$10 bi) pelo Ministério da Defesa da África do Sul quando o hoje presidente Jacob Zuma era vice-presidente.

Ele e seus assessores diretos, os irmãos Shaik, comandaram o esquema de corrupção na compra dos armamentos das empresas envolvidas como fornecedoras, o consórcio British Aerospace-SAAB, Aerommachi e Thomson CSF, e vários fornecedores locais, ligados ao Partido Nacional Africano (ANC), que participaram dos consórcios como subcontratadas.

O desvio massivo de milhões de dólares foi utilizado para o financiamento do partido. Um relatório elaborado pelo auditor-geral, espécie de Tribunal de Contas, apontou irregularidades nas compras, e foi aceito pela comissão de fundos públicos (SCOPA), uma "CPI permanente" sobre a utilização de fundos públicos, existente em todos os países membros da antiga comunidade britânica de nações, e cujo presidente tem que vir da oposição.

Presidida desde 1999 por um parlamentar e professor de finanças públicas do minúsculo partido de oposição - o Inkatha National Party -, a comissão teve seu trabalho sob forte fogo cruzado do ANC, que controlava mais de 2/3 das cadeiras do Congresso.

Membros isolados da comissão - tais como Andrew Feinstein - iniciaram cruzadas pessoais para garantir a independência dos seus trabalhos.

Devido à sua enorme dedicação à causa e à sua formação técnica, Feinstein - um economista com mestrado em Cambridge (Inglaterra) - tornou-se o símbolo da cruzada de moralização da política que repercutiu espetacularmente na mídia.

Com a escalada do escândalo, Zuma foi forçado a pedir demissão. Uma forma de boicote foi o veto a que as investigações fossem realizadas por uma unidade independente criada para o controle da corrupção.

A ANC queria criar uma comissão especial sobre a qual tivesse mais controle, e um grupo de trabalho foi criado, com membros que de uma maneira ou outra eram subordinados ao governo. A mídia desempenhou papel central em manter a questão na agenda. Jornais independentes com linha ativa de jornalismo investigativo, tais como "The Mail and Guardian", "Business Day" e "Sunday Independent", mantiveram o foco e eram bombardeados pelo ANC, que os acusava de tentativa de "golpe mediático".

Acusado de interferir no trabalho da comissão, o presidente Mbeki acabou se demitindo. A evolução dos fatos após isso é sugestiva, comentam os autores: Zuma foi eleito presidente do ANC e do país, e Shaik e outros cúmplices, que estavam presos, logo foram soltos em virtude do empenho pessoal de Zuma no caso.

Mas o que aconteceu com Andrew Feinstein? O caso, segundo os autores do artigo, revela o que acontece com a utilização de listas fechadas "sobre a capacidade dos cidadãos de premiar ou punir o comportamento de parlamentares que defendem o interesse público mesmo quando isso implique se voltar contra o partido".

Estrela do partido e com enorme popularidade na classe média informada do país, Feinstein foi excluído da lista de candidatos da ANC nas eleições legislativas seguintes, pediu demissão, hoje mora em Londres e trabalha em uma ONG.

Em entrevista que concedeu ao cientista político pernambucano Marcus Melo no aeroporto de Johannesburgo, disse que todas as portas estavam fechadas para ele na África do Sul, a despeito do grande apoio pessoal que recebera de Mandela.

Mais importante para o debate que se trava no Brasil hoje, ele afirmou: "O grande problema institucional da África do Sul é a utilização da lista fechada". Melo comentou que, se ele estivesse no Brasil, provavelmente seria reeleito em uma votação individual espetacular e consistente com seu prestígio devido à nossa lista aberta.

Ele garantiu que essa seria uma de suas bandeiras de reforma política a partir de então. 

CLAUDIO HUMBERTO



“FHC é passado e Lula ainda é uma coisa extremamente presente”
Senador Humberto Costa (PT-PE), ao comentar o bate-boca dos ex-presidentes

Governador propõe fundo para custear segurança 
O governador do Amazonas, Omar Aziz, comunicou ao ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) que vai provocar o debate sobre financiamento da segurança pública. Ele não pretende uma espécie de CPMF para segurança, mas acha que alguma forma de custeá-la precisa ser definida com urgência: “Depois de Realengo, os cidadãos nem mesmo têm a certeza de que os filhos estão seguros na escola”.

Resposta lenta 
Omar Aziz adverte que o agravamento da insegurança é muito maior que a capacidade de resposta dos governos federal e estaduais.

Polícia de fronteira já 
Ex-secretário de Segurança, Omar Aziz acha urgente o controle das fronteiras, para impedir a entrada livre de armas e drogas no Brasil.

Über pé-frio 
A maldição agora é internacional: antes do jogo com o Barcelona, na Liga dos Campeões, o Real Madri deu camiseta a Lula. Perdeu. 

O barquinho vai... 
O ex-senador tucano Tasso Jereissati rompe os últimos laços com Brasília: está vendendo o título de socio-proprietário do Iate Clube. 

Aliados suspeitam de ‘armação’ contra Aécio 
Aliados acham que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) foi vítima de “armação”, na blitz da PM do Rio, que o teria “monitorado” desde o restaurante onde jantou. O Estado é governado por aliados do governo Dilma, a quem faz oposição. Aécio jamais se queixou de ameaças, no Rio. Mas quando lutou para ser o candidato tucano a presidente, tinha a certeza de que era seguido por arapongas a serviço de José Serra.

Alvo 24 horas 
Ao relatar que era seguido 24 horas por paulistas, Aécio afirmou: “Se eu cometer qualquer erro, eles me filmam, me gravam, me destroem”.

Inabilitado 
É possível que adversários políticos tenham “armado” a blitz policial para flagrar Aécio, mas não o impediram de renovar a habilitação.

Aécio Walker 
O tucano Aécio Neves revelou na revista Alfa, ainda em 2010, que bebe uísque “no geral”, e cachaça, mas “na fazenda da família”.

Recuo tardio 
Coração mole, Lula esqueceu desfeitas e tentou demover Dilma de ajudar a derrubar o então presidente da Vale Roger Agnelli. Era tarde demais: o novo presidente, Murilo Ferreira, já havia sido convidado. 

Rei da cocada preta 
Roger Agnelli se achava. Quando presidia a Vale, um dos dois jatinhos da empresa era para uso exclusivo dele e da mulher, segundo revelou um colega de diretoria. os demais diretores não viajavam No jato de Agnelli, ainda que todos se dirigissem ao mesmo destino.

Águas turvas 
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP), que quer plantar maconha em cooperativas para reduzir o tráfico, propôs sessão solene na Câmara, dia 28 de junho, em homenagem ao Dia do Pescador. De maconha?

Maçã bichada 
O anúncio da taiwanesa Foxconn de investir US$ 12 milhões no Brasil, para produzir o iPad da Apple, embute um armadilha: a carência de profissionais de alta tecnologia. Vai dar emprego a estrangeiros. 

Reconhecimento 
O jornalista Luiz Cláudio Cunha vai receber em 9 de maio, às 16h, o título de “Notório Saber” da Universidade de Brasília, que levou em conta, além do trabalho de quatro décadas como premiado repórter, sua atuação no combate à ditadura e na defesa dos direitos humanos. 

Quase surdos 
Funcionários de restaurantes no piso superior do aeroporto de Brasília não sabem mais a quem reclamar do barulho ensurdecedor das turbinas dos aviões. O excesso de decibéis maltrata os coitados. 

Pior, impossível 
Candidato a prefeito de Itapuranga em 2008, Daves Soares (PTdoB-GO), levou um lero com o adversário Tito Cardoso, que topou R$ 150 mil e cargos públicos para renunciar. Soares cumpriu, e com Tito foi denunciado pelo Ministério Público Eleitoral, pelo cavalheiresco acordo. 

O xis da questão 
Era da marca Rossi, vendida apenas para empresas de segurança, uma das armas do maníaco de Realengo. Quando essas empresas quebram ou fecham, suas armas acabam no câmbio negro, numeração raspada, em vez de serem entregues à Polícia Federal, por exemplo.

Pensando bem... 
...a sorte é que, ao contrário de Aécio Neves, Lula nunca dirigiu nada. 

PODER SEM PUDOR 
Bicho solto 
Ao ser corrigida quando chamou o deputado João Leão (PL-BA) de “João Leitão”, a então deputada Denise Frossard (PPS-RJ) se explicou:
– Nunca tive intimidade com bichos...
Foi ela, como juíza, quem prendeu os bicheiros do Rio.