sábado, março 26, 2011

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Mil e uma inutilidades
FERNANDO DE BARROS E SILVA

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/03/11

SÃO PAULO - Lula estreou como palestrante remunerado há poucas semanas. Falou a funcionários de uma empresa de eletroeletrônicos e não teve nenhum pudor ao fazer propaganda dos seus artefatos.
O ex-presidente agora aparece como personagem oculto de uma propaganda de produtos de limpeza que está no ar. Muitos leitores já devem ter visto. Rodeada por uma parafernália de desinfentantes e congêneres, a atriz locutora diz à câmera ter recebido centenas de cartas, "como essa da dona Marisa, de São Bernardo, reclamando que depois que o marido largou o emprego fica o dia inteiro em casa enchendo o saco dela".
Vem então o conselho da apresentadora a dona Marisa: "Pede para Sua Excelência limpar a casa, as janelas, o banheiro, a louça, porque ele até podia ser o cara lá no serviço, mas em casa pode botar a barbinha de molho porque quem manda é a mulher, meu bem".
Não é a primeira vez que a publicidade apela à imagem de Lula de forma jocosa. Em 2009, numa peça destinada a vender papel higiênico, um sósia do então presidente dizia "nunca antes na história deste país o povo teve tanta maciez".
No caso em questão, não há dúvida de que Lula virou garoto-propaganda à revelia em função da sua popularidade. Mas o núcleo do enredo cômico da publicidade se constrói em torno do ostracismo do ex-presidente. Ele "fica o dia inteiro em casa enchendo o saco".
Trata-se, é óbvio, de uma peça de ficção, mas que não deixa de evocar uma situação real -quem manda na casa agora é a mulher; a Lula só resta limpar as janelas.
É incrível a rapidez com que os ex-presidentes envelhecem. É claro que Lula é o líder político mais querido do país. E será por um bom tempo. Mas também é evidente que sua figura já começa a ficar amarelada, como um retrato antigo na parede. Efêmera, fútil, pueril, a publicidade, sem perceber, transporta "o cara" do presente mundano para as páginas solenes da história.

GOSTOSA

CESAR MAIA

Deputados: 1947 a 2010
CESAR MAIA

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/03/11

As referências político-ideológicas no Brasil são tênues. A República Velha (1889-1930) produziu um regime de partido único descentralizado. A Revolução de 1930 abriu espaço para os partidos, mas, com o Estado Novo, isso durou pouco. O Partido Comunista foi uma exceção a essa regra.
A redemocratização gerou três partidos. Na UDN estavam também os socialistas. Era o partido dos governadores que se negaram a ser interventores em 1937. Seu perfil ideológico como partido liberal-urbano-cosmopolita veio depois.
O PSD era o partido dos interventores, com enorme atratividade. Os dois partidos se beneficiaram de seus candidatos a presidente em 1945: Eurico Gaspar Dutra (PSD) e Eduardo Gomes (UDN).
O trabalhismo surge na relação DF-sindicatos criada pelo prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, em 1933. Vargas o aprimorou como base social de sustentação.
O PTB, de início sem articulação com o governo Dutra, não deu frutos eleitorais. Assim vai ser com o PT pós-democratização. O PTB cresce de 1950 a 1964, quando os sindicatos passam a ter vida dentro dos governos. Em 1947, o PSD elegeu 51,8% dos deputados federais. A UDN, 25,9%, o PTB, 7,9%, e o PCB, 4,6%.
O PSD atraía um voto difuso. No final da República de 1946, nas eleições de 1962, 15 anos depois, o quadro é diferente. O PSD elege 28,8% dos deputados, o PTB, 28,4%, a UDN, 22,2%, e o PSP, populista, 5,1%.
Agregando o PSD, direita rural, e a UDN, direita urbana, são 51% dos deputados, que darão base política ao golpe de 1964. Os conflitos entre eles são pelo controle da máquina e pelas concessões do PSD ao PTB nos governos Vargas e JK, o que capilarizou a máquina trabalhista-sindical de esquerda. O PTB, somado ao PSP, alcança um patamar de 30%, de centro para a esquerda.
Em 1986, vem a eleição pós-democratização. O PMDB, impulsionado pelo Plano Cruzado, repete o PSD pós-1945, com 53,4% dos deputados. O PDS e o PFL, de centro-direita, somam 31%, e o PT e o PDT, 8,2%, similar ao PTB de 1947.
Em 1989, voltam ao patamar do PTB dos anos 60,com 32%, somando Brizola e Lula. O PMDB vai se dissolvendo na Constituinte, dando origem ao PSDB e a outros partidos menores. O PT no poder ampliou essa pulverização.
Fica difícil fazer agregações programáticas. Mas se pode reunir partidos por perfis de seus deputados. Nas eleições de 2010, agregando por perfis, teremos DEM, PP e deputados ideologicamente afins: são 174 ou 34%. PMDB e PSDB somam 132 deputados (25,7%). E PT e partidos de centro-esquerda, 194 (38%).
Um excepcional avanço desde os 12,5% de 1947.
Com a aproximação da esquerda e da centro-direita ao centro, todos se tornam plásticos e difusos.

MERVAL PEREIRA

Cenários para o bicentenário
MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 26/03/11 

Em 2022 o Brasil fará 200 anos como nação independente, e a data já se transformou em referência para se pensar estrategicamente o futuro do país. É com essa visão que os economistas Fábio Giambiagi, do BNDES, e Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan, organizaram o livro "2022: propostas para um Brasil melhor no ano do bicentenário" (Elsevier/Campus), que será lançado dia 31 no Rio e dia 4 de abril em São Paulo.
O livro reúne reflexões de 31 expoentes do pensamento nacional sobre a evolução recente e a situação atual do país, e apresenta propostas concretas para que o Brasil chegue em 2022 a um estágio superior de desenvolvimento.
O Brasil que elegeu em 2010 a primeira presidente mulher de sua História está entrando em seu 26º ano de democracia, o mais longo período consecutivo na História política do país, o suficiente para que mudanças se cristalizem e passem a fazer parte da História.
É um espaço de tempo suficiente também para implantar mudanças estruturais em um país, dentro de um processo permanente de avanços que estamos vivendo, apesar de alguns retrocessos.
Dos avanços conquistados, o livro destaca a consolidação da democracia, progressos sociais inquestionáveis e a transformação econômica e institucional digna de país maduro.
Outros pontos relevantes são a estabilização, o fim da hiperinflação da economia, alcance de capacidade para se financiar mediante a entrada de investimentos, redução do endividamento externo líquido e obtenção da confiança dos investidores estrangeiros.
Apesar das vitórias, os organizadores do livro alertam, à moda dos bancos de investimento, que os ganhos passados não são garantia de repetição da performance no futuro.
Ambos classificam as carências e desafios que o país tem pela frente de "maiúsculos": baixos níveis de investimento, taxa de inflação ainda elevada para parâmetros internacionais, escassez de poupança interna, deficiências graves de infraestrutura e nos sistemas logísticos, baixa capacidade de inovação, restrições à competitividade sistêmica (burocracia, legislação, carga tributária, brechas regulatórias) e má qualidade do gasto público. Além disso, consideram "preocupante" a situação de degradação do meio ambiente e, ainda mais grave, os níveis flagrantemente insatisfatórios dos indicadores educacionais e baixo nível de capacitação da população, assim como a proporção "ainda inaceitavelmente elevada" de pessoas pobres e extremamente pobres (1/5 da população é composta por pobres, e 1/10, por extremamente pobres).
Para Porto, cuja consultoria tem especial apreço por análises de cenários futuros, o livro é uma contribuição para a reflexão prospectiva de longo prazo, que se mostra ainda escassa no Brasil. "Temos uma cultura imediatista e há ênfase excessiva no curto prazo", comenta.
Com este pano de fundo, Porto, Giambiagi e Andréa Belfort descrevem diferentes cenários que o Brasil pode vir a percorrer nos próximos 11 anos.
Para o estudo foram montados quatro cenários, sempre levando em conta a presença do Estado na economia, pois consideram que é certo, ou quase, que, no horizonte dos próximos dez anos, o Estado continuará a ter peso econômico relevante na economia nacional.
No primeiro cenário, denominado "De volta aos anos 70", o Brasil faz ajustes na economia tendo como pilar a presença ativa do Estado na economia, em face de um cenário externo desfavorável, com riscos de ciclos de crise econômica e recrudescimento do protecionismo. O país mantém uma trajetória de crescimento razoável ? entre 3% e 4%.
Outra possibilidade é o cenário "Capitalismo chinês à brasileira", no qual a economia global oferece amplas possibilidades para países emergentes mais bem posicionados. O cenário mostra o Brasil com forte inserção econômica global, mas também presença ampla do Estado na economia. A trajetória de crescimento sustentado se mantém entre 4 e 5%.
O terceiro cenário, "Um choque ortodoxo de capitalismo", do ponto de visa político parece pouco provável, mas pode ocorrer na medida que o equilíbrio fiscal tornar-se muito ameaçado e houver reação dos agentes econômicos e políticos no sentido de um ajuste competitivo. Neste cenário, o Brasil faz fortes ajustes no seu modelo econômico, mantendo presença seletiva do Estado na economia, para garantir ampla inserção econômica global. O país segue uma trajetória de crescimento entre 4,5% e 5,5%.
O último cenário, "Um novo recolhimento", é o menos provável e antecipa uma trajetória de dificuldades crescentes no mundo que obrigam o Brasil a fazer fortes ajustes no seu modelo econômico. O Estado passa a ter presença moderada na economia, e o país tem uma inserção econômica global limitada. A trajetória de crescimento positivo gira entre 2% e 3%.
Também a economista Monica de Bolle, autora de outro capítulo do livro, indica a possibilidade de caminhos distintos para o país no ano do Bicentenário da Independência. Analisando o cenário mundial e seus impactos para o Brasil em 2022, afirma que é possível vislumbrar tanto um cenário "otimista", marcado por um esforço de ajuste, com o setor público reduzindo os gastos correntes como proporção do PIB, quanto um "sombrio", com o retorno do intervencionismo estatal e expansão do crédito público.
Para ela, há uma possível bifurcação da economia brasileira diante dos desafios impostos pelo quadro global: "Cabe ao governo decidir se quer continuar a aprofundar as reformas institucionais e macroeconômicas dos últimos 15 anos, que construíram as bases da prosperidade recente, ou retornar às velhas políticas intervencionistas, cujos resultados costumam ser, na melhor das hipóteses, ruins, e na pior, desastrosos", diz ela.
Para que o Brasil siga a trajetória dos melhores cenários até 2022, Porto e Giambiagi propuseram algumas metas para que o país aproveite a janela de oportunidades que anteveem:
- Meta de crescimento médio: 4,5 % a.a.;
- Inflação em 2022: 3% (previsão 2011: 5%);
- Taxa de investimento em 2022: 24% do PIB (previsão 2011: 19%);
- Poupança doméstica em 2022: 22-23% do PIB (previsão 2011: 16%);
- Proporção de pobres em 2022: 5% (previsão 2011: 20%);
- Proporção de extremamente pobres em 2002: 0% (previsão 2011: 7%).
(Amanhã: desafios da gestão) 

AZARADO

MÍRIAM LEITÃO

Suprema incerteza
MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 26/03/11 

A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a Lei da Ficha Limpa conseguiu a proeza de tornar incertos o passado e o futuro. Por demorar tanto a decidir, na incapacidade do presidente do STF de exercer suas prerrogativas, a decisão vai refazer em parte o resultado da eleição de 2010. Por não decidir sobre outros aspectos da lei, estende a insegurança jurídica para 2012 e além.
O presidente Cezar Peluso poderia ter decidido, quando houve o impasse no ano passado. Havia dois caminhos. Um seria usar o voto de minerva. Mas ele argumentou que isso o faria mais poderoso que os outros. Se usasse esse poder, o resultado seria o mesmo de agora, ou seja, a lei não valeria para 2010, mas a vantagem teria sido esclarecer a situação antes da eleição, e o pleito não teria ocorrido em ambiente de insegurança jurídica. Outro caminho seria olhar o regimento do Supremo que diz que em caso de empate, vale a lei contestada.
Por não ter usado nem as prerrogativas do presidente, nem recorrido ao regimento, o STF levou o país à estranha situação de rever o passado. Cálculos de quociente eleitoral terão que ser refeitos; políticos que assumiram e votaram nas matérias da pauta serão considerados não eleitos, exerceram mandatos que não tinham. Isso porque o Judiciário lavou as mãos diante da demora do Executivo na nomeação do décimo primeiro ministro, aquele que já entrou com superpoderes, porque dependia apenas dele uma decisão que afeta milhões de votos. O voto do ministro Luiz Fux foi decepcionante não por ir contra a opinião pública, mas pela fraqueza técnica de seus argumentos. Ele admitiu que se "sentiu tentado a votar a favor." Assim decide o novo ministro: no jogo das suas tentações.
A frustração do eleitor com a decisão do Supremo é maior pelo tamanho do percurso feito pela Lei da Ficha Limpa. Foi uma mobilização popular com método e propósito, que colheu 1,6 milhão de assinaturas, que seguiu a tramitação no Congresso.
O cidadão que se mobilizou, superou cada etapa do processo legal, que se emocionou com cada vitória, está diante de uma desconcertante derrota. É certo que o Supremo tem que ter a coragem de se opor a uma lei, mesmo popular, se ela ferir o Direito. Mas a questão é: será que fere? Se fosse tão líquido e certo o Supremo não teria se dividido. Os argumentos do TSE e dos que votaram pela lei são fortes: a lei foi sancionada antes das convenções, portanto não revogou direitos; candidatos que desfilam pelo Código Penal com suas biografias ferem o princípio da moralidade pública; a inelegibilidade não é uma pena, é um estado.
A lei propõe barrar a candidatura de quem foi condenado em segunda instância, porque o julgamento de uma única cabeça, a decisão de um juiz, tem mais risco de ser falha. Numa decisão colegiada, a condenação passa por escrutínio de vários juízes. É uma confirmação, portanto, e assim trabalha a Justiça: para que o colegiado corrija eventuais erros de julgamento da decisão de um único juiz. A lei pega quem praticou crimes dolosos, onde há intenção, e para quem foi condenado acima de dois anos por tráfico de entorpecentes, crimes contra a vida, a economia popular, o meio ambiente, os condenados por abusos de poder econômico, por corrupção eleitoral, por improbidade administrativa. Mas apenas crimes com penas acima de dois anos, e sentenças confirmadas em segunda instância. Não é para pequenos casos, onde há controvérsias sobre a culpa, ou o peso do crime cometido.
Mas a maioria decidiu que fere o princípio da anterioridade. Assim, muda-se o passado, mas salva-se o futuro. Outra vã esperança. Hoje, a insegurança continua, segundo informa o ministro Ricardo Lewandovsky. Não se sabe em que contexto legal se votará em 2012. Questões e questiúnculas levadas por réus à Corte podem fatiar a lei e torná-la cada vez mais fraca. A falha do Supremo mantém a dúvida em vigor.
O princípio da presunção da inocência tem que ser entendido em sua essência. Até que ponto vai o princípio? Fernandinho Beira-Mar pode ser eleito? O jornalista Pimenta Neves, assassino confesso, julgado por duas instâncias, aguardando recursos ao Supremo, além de permanecer livre enquanto durarem as artimanhas de seu advogado, é elegível? Do que estão falando os magistrados superiores que defendem aos estertores a presunção da inocência? Será que ignoram que advogados bem pagos sabem sempre como encontrar uma vírgula na qual prolongar os processos da labiríntica Justiça brasileira?
O ministro Cezar Peluso usou um argumento revelador de oceânico despreparo: "Essa exclusão da vida pública com base em fatos acontecidos antes da vigência da lei é uma circunstância histórica que nem as ditaduras ousaram fazer. As ditaduras cassaram. Nunca foi editada uma lei para punir fatos praticados antes de sua vigência." Esse raciocínio é tão raso e torto que constrange. Ora, o que foram as cassações da primeira hora da ditadura de 1964 senão a punição ao que foi praticado antes da vigência da ordem ditatorial e com base em leis baixadas para punir atos anteriores? E que nem eram crimes. É de se esperar que um ministro da corte constitucional não legitime atos de um regime fundado sobre a suspensão das garantias constitucionais. Por favor, ministro, não revogue nossa memória e inteligência. Esclareça que crimes cometeram - antes ou durante a ditadura - os ministros do Supremo Evandro Lins e Silva e Victor Nunes Leal, cassados em 1969, pelo Ato Institucional número 6. Ministros a cuja memória, biografias e conhecimento jurídico Peluso deve, ao menos, respeito. 

CELSO MING

Disfarçado de investimento
CELSO MING

O ESTADO DE SÃO PAULO - 26/03/11

Nesta semana, mais um balão de ensaio avisava que o Ministério da Fazenda está fortemente desconfiado de que um bom pedaço do Investimento Estrangeiro Direto (IED) vem desembarcando no Brasil apenas para tirar proveito dos juros altos e não para aumentar a capacidade de produção.
Explica-se: em outubro de 2010, o governo impôs um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% nos capitais destinados a aplicações financeiras. O governo quer evitar as denominadas carry trade que, em resumo, consiste em levantar recursos lá fora a juros baixos para aplicar no Brasil e ganhar os juros generosos aqui vigentes.
Para evitar o pagamento dos 6%, capitais vêm disfarçados de IOF para não pagar esse imposto.
Quando não sabe o que fazer, o governo tenta segurar no grito: avisou que poderá (não deu certeza) colocar a Receita Federal no encalço dos fraudadores. A tentativa é acionar o lado medroso do empresário, disposto a qualquer coisa (até a deixar de burlar determinações) para manter a distância fiscal da Receita Federal.
Essas burlas deveriam ser recebidas como lição de humildade. O governo não faz o que tem de ser feito (reduzir despesas públicas) para abrir espaço para a quebra dos juros e inventa controles em alguns dos fluxos de capital, não de todos. Tenta controlar o capital especulativo, mas quer desestimular o investimento de que o País precisa para garantir o crescimento futuro. Porém os capitais são como água. Se não entram pelos canais normais, entram por uma fenda qualquer.
Muitas empresas de capital estrangeiro instaladas no Brasil, por exemplo, geraram com seus negócios os reais para cobrir seus programas de investimento, mas trazem mais capitais do exterior, supostamente, para investir. Mas o dinheiro (não importa se é o que já estava aqui ou se o que acaba de chegar) é rolado no mercado financeiro interno.
Esse não é o único jeito de burlar o governo. Qualquer diretor financeiro de empresa tem à sua disposição consultores que indicam mil e uma formas de driblar esses e outros dispositivos do governo.
No gráfico, você tem a evolução do IED no Brasil. Não dá para dizer quanto dessas magnitudes vêm para ampliar a capacidade de produção e quanto se destina às tesourarias para produção de retorno financeiro. O que se pode dizer é que, depois de o governo taxar a entrada de capitais para evitar maior valorização do real, esses recursos só têm aumentado.
O Banco Central iniciou o ano projetando uma entrada de IED de US$ 45 bilhões e, já em fevereiro, se viu obrigado a aumentá-lo em mais de 22% (para US$ 55 bilhões). E se o afluxo de moeda estrangeira continuar como nesses três meses do ano, logo o Banco Central se verá na obrigação de rever para cima suas projeções.
A enxurrada de capitais que chega não tem só a ver com a fartura de liquidez internacional, mas, sim, com o tamanho dos juros aqui praticados. O modo mais racional de reduzir esse afluxo para que a valorização do real não tire competitividade da produção nacional não é enxugar essa água com rodinho e pano de chão. É reduzir corajosamente os juros e baixar o custo Brasil. Mas, para isso, é preciso reduzir ainda mais as despesas públicas.
Aí está a evolução do rombo em Conta Corrente. Como os preços das commodities exportadas subiu, o Banco Central reduziu o rombo externo previsto para 2011, de US$ 64 bilhões para US$ 60 bilhões.
Arrecadar mais. Se o que o governo quer é que saiam mais dólares, fica difícil entender essa decisão de aumentar a taxação com o IOF das despesas com cartões de crédito no exterior. Deve ser uma medida com o objetivo de arrecadar. Se for isso, será um imposto regulatório, o IOF, sendo usado para finalidades arrecadatórias.

GOSTOSA

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Deixa comigo
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 26/03/11

Em comunicado interno, o ministro Wagner Rossi (Agricultura) deu ultimato aos fiscais da defesa agropecuária, estabelecendo limite de seis meses para conclusão de qualquer procedimento administrativo. Sob a justificativa de "responder com agilidade" às demandas do agronegócio, Rossi prometeu intervir pessoalmente nos processos que se prolonguem.
Somada ao contingenciamento orçamentário no setor, a medida é considerada por servidores uma ameaça ao consumidor final, já que análises de risco da entrada e da saída de produtos de origem animal e vegetal do país exigem grandes deslocamentos e minuciosa inspeção contra eventuais contaminações.

Público... 
Para o governo, a ação direta do ministro nos processos permitirá verificar se há razões para a demora nas inspeções. As decisões, diz a Agricultura, serão baseadas na lei e fundamentadas em critérios técnicos.

...e privado 
"O discurso da modernização do ministério dá margem a dúvidas. Os interesses comerciais não podem prevalecer sobre as questões de saúde pública", diz Wilson Roberto de Sá, da associação de fiscais.

Estrela 1 
O afastamento temporário do presidente José Eduardo Dutra, por motivo de saúde, preocupa setores petistas insatisfeitos com a movimentação do secretário-geral, Elói Pietá. O ex-prefeito de Guarulhos é da tendência Mensagem ao Partido. Dutra, da majoritária Construindo um Novo Brasil.

Estrela 2 
A eventual necessidade de antecipar a sucessão no PT deixa diferentes alas de cabelo em pé.

Leões... 
Pela segunda vez, deputados e senadores aliados se sentaram com Dilma Rousseff cheios de pendências a resolver e saíram do Planalto sem ter feito uma única queixa à presidente.

...e gatinhos 
Até Giovani Queiroz (PDT-PA), excluído do primeiro encontro por ter votado contra o mínimo de R$ 540, despejou elogios no governo, limitando-se a reclamar da política de juros.

Credo 
Com o noticiário ainda povoado de relatos sobre desavenças entre Guido Mantega e Antonio Palocci, o chefe da Casa Civil fez um discurso, na reunião do conselho político, endossando as ações da Fazenda.

Insônia 
Indio da Costa aderiu ao fuso horário de seu ex-companheiro de chapa José Serra (PSDB). Ontem, o ex-deputado passou a madrugada contando no Twitter a razão de sua saída do DEM, até postar, às 4h: "Boa noite. Sonhem com os anjos".

Eu não 
O deputado Rodrigo Garcia contesta percepção de tucanos segundo a qual ele estaria, por meio de aliados, ajudando a recrutar filiados para o partido do prefeito paulistano. "Kassab e eu seguimos rumos distintos. O caminho dele é construir o PSD. O meu é fortalecer o DEM, em aliança nacional e local com o PSDB".

Secos e molhados 
A Assembleia instalou as cinco primeiras CPIs da legislatura, todas nascidas na base de Geraldo Alckmin (PSDB). Os temas vão de dentaduras a TV a cabo. Vale tudo, menos investigações incômodas.

Aderiu 
Após retirar apoio à natimorta CPI dos Pedágios, o PRB, com dois deputados, foi a reunião de líderes com o secretário Sidney Beraldo (Casa Civil) para definir prioridades governistas na pauta legislativa.

Visita à Folha 
Luiz Barretto, diretor-presidente do Sebrae nacional, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Denise Chaves, assessora de imprensa.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio


"Se até o Gaddafi está saindo, por que o Ricardo Teixeira não pode sair também?" Tem que haver rodízio na instituição.
DO DEPUTADO FERNANDO FERRO (PT-PE), usando o noticiário internacional como gancho para defender a substituição do presidente da CBF.

contraponto

Linha direta


No lançamento de campanha do governo paulista contra o racismo, Jorge Pagura foi abordado no Palácio dos Bandeirantes por um participante do evento que pretendia marcar audiência com o secretário de Esportes. Este abriu a agenda do celular na letra "m".
-Ué, o senhor tem armazenado o número do telefone do Mario Covas?- perguntou o homem.
O neurocirurgião Pagura explicou que se trata do nome de hospital no qual trabalha, acrescentando:
-Infelizmente, o governador não poderá atender...

ANTONIO MACHADO

Mina de vaidades
ANTONIO MACHADO

CORREIO BRAZILIENSE - 26/03/11

A mudança de comando da Vale — potência avaliada em quase US$ 200 bilhões, a 2ª no ranking mundial das mineradoras, 1ª em minério de ferro, maior exportadora nacional, com presença em 36 países, 115 mil funcionários, com ferrovias, portos e navios próprios, ações nas bolsas de São Paulo, Nova York, Madri, Paris e Hong Kong — é notícia quente no Brasil e na imprensa econômica internacional.

A saída do executivo Roger Agnelli depois de 10 anos presidindo essa ex-estatal privatizada em 1997, no entanto, está nas páginas do noticiário político no Brasil, não de negócios, como se a troca de guarda no mundo corporativo fosse um acontecimento incomum. Ela ainda não se consumou. Mas é dada como certa durante a assembleia geral dos acionistas da empresa, marcada para 19 de abril.

A mistura de vaidade e deslumbramento com interferências externas mal encaminhadas pela governança de uma empresa operacionalmente bem-sucedida, com lucro recorde de R$ 30,1 bilhões e receita de R$ 85,3 bilhões no ano passado, só menor que as da Petrobras, faz da substituição de Agnelli parecer uma trama com interesses escusos.

Ele está sob observação desde o fim de 2008, ao se indispor com o então presidente Lula por questões de decisões administrativas e de estratégia de investimento. Mas balançou e não caiu, sendo esse um ponto do imbróglio entre Agnelli e o governo pouco considerado.

No início de janeiro passado, atingido por outra onda de rumores, dando a sua demissão como iminente por vontade da presidente Dilma Rousseff, ele pediu e recebeu uma carta da Valepar — a holding dos sócios controladores da Vale —, negando que estivesse em pauta sua substituição. A leitura, à época, foi clara, embora ignorada pela maioria dos observadores. Tal carta trazia o recado do desconforto dos acionistas com o assédio do governo sobre a direção da Vale.

Mais que apoio ao presidente executivo da empresa, os sócios que subscrevem o acordo de acionistas da Vale, entre os quais a Previ, dos funcionários do Banco do Brasil (à frente do grupo de fundos de pensão de empresas estatais que possui o grosso das ações com direito a voto), defendiam o princípio de que a empresa é privada.

Os fatos e as versões
Essa é toda a questão. Como empresa detentora de grandes reservas de minérios, como na área de Carajás, no Pará, e maior exportadora brasileira, é legítimo ao governo discutir com os acionistas a sua estratégia de investimentos. A Vale, como a Petrobras, é quase um enclave, tal o seu tamanho dentro da economia. Mas aceitar que o governo influencie a sua gerência implica a reestatização de fato, embora não de direito. Agnelli tirou proveito desse conflito.

Os fatos esclarecem as versões. Agnelli, ex-diretor do Bradesco, um dos sócios da Valepar, sempre geriu a Vale com muita autonomia. E isso apesar de BNDES e Previ terem 67,6% das ações da Valepar, contra 17,4% do Bradesco e 15% da trading japonesa Mitsui — bloco que forma o acordo de acionistas que assegura o controle da Vale.

O defeito de origem
Essa autonomia veio dos resultados que sua diretoria entregou aos acionistas representados no Conselho de Administração, sublimando o defeito de origem de sua estrutura de controle. Qual? A presença maciça da Previ, secundada pelo BNDES, no controle do capital da mineradora. Isso criou a percepção no governo Lula de que ela não seria bem uma empresa privada, mas paraestatal. É aí que pegou.

Enquanto esteve alinhado aos interesses dos sócios, dando-lhes lucros avantajados com a estratégia de investir para tornar a Vale a maior do mundo em minério de ferro, vendendo para siderúrgicas da China, Japão, Coreia do Sul, além de fazer grandes aquisições no exterior, tudo lhe sorriu. Agnelli tinha a confiança dos donos.

A orientação de Dilma
De executivo incensado pelos políticos, frequentador do gabinete de Lula, capa de revistas de negócios, a “inimigo” do governo, tudo foi rápido depois da grande crise externa no fim de 2008. Lula foi à TV pedir ao consumidor para não parar de comprar — a crise seria uma “marolinha” —, enquanto Agnelli demitia 1,3 mil funcionários.

Lula ficou agastado, passou a exigir da Vale a exportação de aço e não minério bruto. Agnelli reagiu aumentando o lucro, e com uma campanha publicitária, tomada pelo PT como resposta a Lula, em que a Vale aparecia como campeã nacional. Enfim, o vaso rachou.

A autonomia da Vale está em causa, mas Dilma, ainda em dezembro, definiu que fosse qual fosse o encaminhamento dos sócios da Vale o governo não deveria interferir na escolha do sucessor de Agnelli. É isso. A Vale é importante demais para ser submetida a caprichos.

Governança dos fundos
Nas entrelinhas dessa discussão, o status da Vale como empresa privada pesa mais que as razões de Agnelli — deslumbrado com os holofotes sem entender o que o rodeia. Ou entende, mas não atribui relevância ao substrato em jogo: a mudança do sistema de decisões consensuais entre os fundos de pensão e o governo.

Essa é uma parte, mas não o todo. Os fundos estão pressionados a investir em projetos de infraestrutura de baixo retorno, como Belo Monte, sem garantia de subsídio à taxa atuarial que tem de buscar.

Não é só a Vale, portanto, a discussão, mas outras tratadas com pouca transparência. A Vale, um sucesso empresarial, nada tem a ver com isso. Se ela mudar, será para conservar a sua essência. 

BRAZIU: O PUTEIRO

PAUL KRUGMAN

A ilusão da austeridade
PAUL KRUGMAN
O ESTADO DE SÃO PAULO - 26/03/11

Defensores dos cortes nos gastos dos governo afirmavam que a medida traria mais [br]confiança aos mercados, com o fortalecimento das economias, o que não ocorreu

O governo de Portugal acaba de cair em decorrência de uma disputa envolvendo propostas de austeridade. O rendimento das obrigações irlandesas superou os 10% pela primeira vez. E o governo britânico acaba de revisar suas previsões, esperando um resultado econômico pior e um aumento em seu déficit. O que há em comum entre estes fatos? Todos eles são prova de que cortar os gastos diante de uma situação de alto desemprego é um erro.

Os defensores da austeridade previram que os cortes nos gastos trariam dividendos rápidos com aumento na confiança, mas eles estavam errados. É uma pena que hoje em dia uma pessoa só seja considerada séria em Washington se declarar sua fidelidade à mesma doutrina que agora fracassa na Europa.

Mas as coisas não foram sempre assim. Dois anos atrás, diante de um desemprego cada vez maior e de imensos déficits orçamentários, a maioria dos líderes dos países avançados pareceu compreender que os problemas tinham de ser abordados sequencialmente, com um foco na criação de empregos.

Por que não cortar os déficits imediatamente? Porque os aumentos nos impostos e os cortes nos gastos do governo deprimiriam a economia ainda mais. E cortar gastos numa economia deprimida é uma estratégia fracassada.

Assim, criar empregos agora e reduzir o déficit depois ainda é a estratégia correta. Trata-se de uma estratégia que foi abandonada. Por um lado, ouvimos que, se não cortarmos os gastos, acabaremos como a Grécia, incapazes de conseguir empréstimos. Pelo outro, dizem-nos para não nos preocuparmos com o corte de gastos porque a austeridade fiscal aumentará a confiança.

Mas será que isto está dando certo? Os ditos falcões do déficit têm soado o alarme em relação às obrigações americanas desde que a crise começou a amainar, usando cada aumento nos juros como prova de que os mercados estariam se voltando contra os EUA.

Mas será que os EUA ainda podem acabar como a Grécia? É claro que sim. Se os investidores decidirem que somos uma república das bananas, eles realmente deixarão de comprar os títulos de nossa dívida. Mas esta perspectiva não depende da nossa decisão de castigar a nós mesmos por meio de cortes imediatos nos gastos.

Basta perguntar aos irlandeses, cujo governo tentou assegurar aos mercados ao impor aos cidadãos medidas de austeridade. As pessoas que insistem em pedir cortes nos gastos nos EUA festejaram. "A Irlanda nos dá uma admirável lição de responsabilidade fiscal", disse Alan Reynolds, do Cato Institute.

Isso foi em junho de 2009. Desde então, os juros sobre a dívida irlandesa dobraram; o desemprego está agora em 13,5%. E temos também a situação vivida pela Grã-Bretanha. Como os EUA, a Grã-Bretanha é vista como solvente pelos mercados financeiros, o que lhe dá espaço para buscar uma estratégia que lide primeiro com o desemprego. Mas o governo do primeiro-ministro David Cameron preferiu promover uma austeridade imediata na crença de que os gastos do setor privado cobririam os efeitos do recuo do governo. Apesar das medidas, o crescimento britânico perdeu força e o governo piorou suas projeções para o déficit.

O que me leva a comentar aquilo que se passa por debate orçamentário em Washington hoje em dia. Um plano fiscal sério para os EUA cuidaria dos fatores que estimulam os gastos no longo prazo, principalmente o custo do sistema de saúde. Mas não somos pessoas sérias: qualquer menção à tentativa de usar os recursos da saúde leva os opositores a gritar "comissões da morte!", e a posição oficial do Partido Republicano parece ser a de que ninguém deveria ser obrigado a pagar impostos mais altos. Em vez disso, fala-se apenas em cortes imediatistas nos gastos.

Em resumo, temos um clima político no qual os ditos falcões do déficit querem castigar os desempregados enquanto se opõem a toda medida que possa corrigir nossos problemas orçamentários no longo prazo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

Nascido para complicar

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

O Estado de S.Paulo - 26/03/11

O Partido Social Democrático (PSD) anunciado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, no último dia 21 de março nasceu com uma mácula difícil de ser apagada: ninguém o levou a sério ou o tratou com algum respeito.

Veio à luz sob o signo da dúvida e da especulação. Afinal, o que pretendem seus criadores? Liberar o prefeito paulistano das asas protetoras do ex-governador José Serra, verdadeiro promotor da sua entrada no grande circuito da política nacional? Pavimentar o caminho para uma aproximação com a base governista no Congresso Nacional? Criar uma "terceira força" para combater a polarização PT-PSDB, que domina a cena eleitoral? Ou tudo se limita a fazer poeira para cegar os transeuntes e colher alguns frutos mais à frente?

As interrogações poderiam estender-se ao infinito. Se o plano for, por exemplo, estragar o pas-de-deux PT-PSDB, seria preciso esclarecer com que trunfos o partido acredita contar. Aqueles que o estão pondo de pé não são propriamente políticos carismáticos, não arrebatam multidões, não detêm particulares atributos de liderança. Podem, no máximo, atrapalhar o jogo, a serviço de causas ainda mal esclarecidas, mas é discutível que consigam articular alguma opção que repercuta para elevar a qualidade do quadro partidário brasileiro. Tudo leva a crer que continuarão a flutuar numa zona pouco relevante, à espera de alguém que deles necessite e os promova.

A criação do PSD não se ajusta a nenhuma consideração criteriosa do sistema político brasileiro. O País voltou a falar em reforma política, e agora de modo mais sensato, menos apocalíptico. Cresceu o consenso de que algo pode ser feito para melhorar o sistema representativo e a maneira como as forças políticas disputam eleições, chegam ao poder e governam. Para o nascente PSD, nada disso merece consideração: ele se lança não para racionalizar o quadro, mas para complicá-lo um pouco mais. Funciona como uma câmara de eco: o que está ruim terá em mim sua mais perfeita tradução.

Não temos déficit de partidos. Eles existem aos montes, deprimidos ou eufóricos, em crise alguns, inexpressivos ou fisiológicos outros, quase todos manchados por algum tipo de imprecisão, vazio doutrinário ou incoerência. O excesso de partidos não é por si só um problema. Pode mesmo ser visto como uma virtude, expressão de um sistema aberto, democrático, competitivo. No Brasil eles são muitos, mas só alguns poucos realmente contam. Com isso a mixórdia de siglas acaba por confundir os eleitores e empurrá-los para a indiferença. Em sua maioria, os partidos representam pouco, não fornecem parâmetros valorativos para a cidadania nem conseguem dizer o que pretendem e como farão para dar vida às suas pretensões. São organizações frágeis, sem magnetismo para manter agregado um punhado de seguidores e parlamentares que, em tese, se associaram por ter convicções parecidas e querer coisas parecidas. Não foram feitos para isso e não há fidelidade partidária que possa corrigi-los.

Se há algo que não se necessita no Brasil é de mais um partido tapa-buracos, sem caráter programático, concebido para acomodar pretensões eleitorais tópicas e estratégias políticas imprecisas.

Pois o PSD nasceu respingando isso por todos os poros. Nele cabe o mundo, exceção feita aos desafetos. Comunistas, ou quase, como o ex-delegado e deputado federal Protógenes Queiróz, socialistas do PSB, tratados como irmãos de estrada, liberais, conservadores, desenvolvimentistas, aliados ou companheiros da presidente Dilma, bem como apoiadores e assessores do governador Geraldo Alckmin. O PSD nasce "independente", mas sua independência é condicionada: está disposto a ajudar o governo federal e a honrar uma "aliança" com o governo de São Paulo, além de permanecer, firme como uma rocha, ao lado do ex-governador José Serra. Para ele, oposição e situação não são coisas para se levar a sério, deve-se mesmo transitar de uma a outra sem arrependimento. Idem quanto ao programa partidário, que deve abarcar o que for mais útil, atraente e oportuno no momento, do direito de propriedade à modernização das leis trabalhistas, passando por outras tantas platitudes.

A flexibilidade do novo partido é radical, tanto quanto sua generosidade retórica: "Viemos para ajudar o Brasil a crescer. O PSD é um partido que nasce do povo, com o povo e para o povo brasileiro". Deseja ocupar um espaço etéreo, acima de diferenças entre esquerda e direita, coisas que nem existiriam mais. Seu interesse é ser "o partido que vai em frente", ciente de que o País é "maior que as siglas partidárias".

O lugar a ser ocupado pelo PSD, portanto, seria uma espécie de terra de ninguém que abrigaria todos os que se sentem predestinados a ter relevo na política nacional. Um desaguadouro dos que querem manter equidistância de posições tidas como polares e antitéticas, uma plataforma de onde atrair trânsfugas e incomodados variados, flertar com os poderosos e jogar o jogo do poder. Se chamarem isso de centro, devemos desconfiar. Não se trata de um centro, mas de um nada.

O ato de criação de um partido político deveria ser saudado como um movimento para emprestar clareza, dignidade e substância à representação política e às disputas eleitorais. O surgimento do PSD não vai nessa direção: é algo feito por políticos para políticos e em nome de conveniências políticas menores. Não diz respeito à sociedade e aos cidadãos. Sendo assim, destina-se a ter vida curta, ou marginal.

O prefeito Kassab não é dono exclusivo da iniciativa. Está acompanhado por políticos que com ele compartilham projetos de poder, interesses e trajetórias. São políticos que já vestiram muitas camisas e se vincularam a siglas, lideranças e projetos diversificados, nem sempre coerentes entre si. Não devem ser condenados por isso, mas não há como converter o trajeto que seguiram e as opções que fizeram em exemplo de conduta.

PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UNESP.

GOSTOSA

ZUENIR VENTURA

A perigosa tesourinha
 ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 26/03/11

Vieram dois agentes, e eu procurei fazer ver que aquele idoso ali na frente deles - avô de Alice, com endereço certo, ficha limpa e profissão pública - não oferecia qualquer risco à segurança nacional, ainda mais que fora a BH em missão de paz, para uma palestra na Academia Mineira de Letras. Expliquei que apoiava as medidas de precaução e não queria privilégio, apenas o direito que todos têm à exceção que toda regra permite. Se eu tinha viajado para lá sem cometer qualquer desatino, não seria na volta para casa que eu iria tentar um ato insano. Um poste teria sido mais sensível aos meus argumentos. Foi então que aprendi que as leis, regulamentos e regras talvez tenham sido feitos para poupar burocratas do penoso esforço de raciocinar.
Aquela incrível mistura de ridículo e absurdo demorou mais de meia hora, até que exausto de argumentar em vão e incapaz de injetar um raio de bom senso que fosse naquelas cabeças herméticas à razão, resolvi me livrar da arma assassina. Avisei o que ia fazer e, com um gesto teatral, atirei a tesourinha no lixo, para espanto dos que assistiam à cena e satisfação dos dois bravos representantes da lei e da ordem, que deram um sorriso alvar e fizeram cara de orgulho por terem cumprido enfim seu dever cívico. Acabavam de evitar o atentado terrorista que seria perpetrado por um dissimulado idoso com sua perigosa tesourinha de unha. Mereciam por isso, quem sabe, um elogio na folha de serviço.
Melhor que não tivesse dito nada. Depois de classificar a Lei da Ficha Limpa como "um dos mais belos espetáculos democráticos", instrumento de "purificação do mundo político", o ministro Luiz Fux estreou no STF contrariando a expectativa que ele próprio nos fez criar dele. Optou por dar mais dois anos de bem-bom aos corruptos. Apegou-se ao artigo 16 da Constituição e desprezou o 14, que prega a moralidade na vida pública. Na prática, preferiu beneficiar a banda suja. Pois eu e a consciência democrática do país, que não entendemos de leguleio, preferimos a companhia de Cármen Lucia, Ellen Grace, Ayres Brito, Ricardo Lewandowski e Joaquim Barbosa. Em compensação, Jader Barbalho não sabe como agradecer ao novel ministro Fux pelo desempate. 

ROBERTO RODRIGUES

Rousseff & Obama 
ROBERTO RODRIGUES
FOLHA DE SÃO PAULO - 26/03/11

O ponto mais relevante foi a assinatura do Acordo de Comércio e Cooperação Econômica entre os países


ESTÁ PRATICAMENTE esgotado o tema ligado à visita do presidente Obama ao Brasil, de tanto que já se falou e escreveu sobre isso.
No entanto, vale a pena assinalar alguns pontos ligados ao setor rural que não foram totalmente iluminados, começando com o discurso da presidente Dilma Rousseff, que deixou claro os itens que afetam o agronegócio brasileiro.
Foi direto aos pontos: tarifas sobre o etanol e sobre o suco de laranja, abertura para carnes e açúcar, subsídios para o algodão: ela foi objetiva na defesa dos interesses legítimos do campo que vêm sendo discutidos há anos, sem resultado.
Por outro lado, embora os discursos do presidente americano tenham sido protocolares -e assim mesmo positivos, sobretudo quando assinalou a posição estratégica do Brasil como parceiro no cenário global-, os dois líderes assinaram dez acordos bilaterais que podem representar avanços importantes para os produtores brasileiros.
- Na área da energia foi ratificado o interesse de ação conjunta em terceiros países, assinado em 2007 por Lula e Bush, estabelecendo as bases para a produção do etanol na América Central e no Caribe. Ainda nesse capítulo, a parceria firmada para o uso de biocombustíveis na aviação é alvissareira: já temos no Brasil o avião agrícola Ipanema movido a etanol, e a ideia é o seu uso em aviões maiores.
- Na área da educação, o MOU entre a Capes e a Fundação Fulbright para o Programa de Diálogos Estratégicos pode dar bons frutos.
Mas sem dúvida o ponto mais relevante foi a assinatura do Acordo de Comércio e Cooperação Econômica entre os dois países.
O texto é muito animador. Na exposição de motivos que embasa o acordo está enfatizado: "Levando em conta a conveniência de reduzir as barreiras não tarifárias e os subsídios que distorcem o comércio, a fim de facilitar o incremento do comércio..."
É uma forte afirmação de interesses. Pena que fique apenas nas "barreiras não tarifárias", o que limita o alcance do acordo para etanol e suco de laranja, por exemplo.
Mas reduzir subsídios distorcivos de mercado é excelente! Outra das considerações: "... Desejando incrementar o envolvimento de seus setores privados no comércio bilateral e em questões de investimento..." Trata-se de uma boa oportunidade a nossos empresários.
Mas o mais significativo do acordo está na criação da Comissão Brasil-Estados Unidos com o objetivo de ampliar a cooperação econômica e comercial bilateral.
Nesse documento se afirma que a comissão "promoverá a remoção de obstáculos desnecessários ao comércio bilateral e ao investimento, particularmente no campo regulamentar".
E no anexo do acordo, que define os assuntos a serem enfrentados, estão consideradas as "medidas sanitárias e fitossanitárias" e as "barreiras técnicas ao comércio..."
Em suma, houve uma concreta manifestação de vontade de mudar.
Lá na roça a gente diz que, quando não se quer resolver um assunto, cria-se uma comissão. Ou, então, que grupo de trabalho bom é o de três pessoas: uma que fica doente, outra que falta e a terceira que faz tudo.
Seja como for, a bola agora está conosco. Temos que agitar essa comissão levando aos nossos representantes os interesses do setor privado que devem ser resolvidos.
É bem verdade que tudo isso vai depender da aprovação do Congresso americano, onde o lobby agrícola é poderoso.
Estamos cansados de negociar acordos com o Executivo americano e, depois do acordado, o Congresso veta a decisão. Isso tira um pouco da expectativa, mas, assim mesmo, é um avanço considerável.
Por último, resta um comentário. Não apareceu em nenhum noticiário o interesse brasileiro em eleger o ex-ministro José Graziano da Silva para o cargo de diretor geral da FAO, em eleição que será realizada no mês de junho.
Parece que perdemos a oportunidade de defender essa candidatura que, apoiada pelos Estados Unidos, terá grande chance de sucesso.
Já que não houve um compromisso firme quanto a um posto no Conselho de Segurança da ONU, a FAO nos interessa mais...

BRAZIU: O PUTEIRO

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Negócios à parte
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 26/03/11

Kassab pegou no fígado e exonerou anteontem 11 assessores políticos nomeados diretamente pelo seu ex-secretário Rodrigo Garcia durante sua gestão na pasta do Planejamento municipal.
Não teria gostado de ver seu antigo aliado e amigo bater o pé e permanecer no DEM. Menos ainda da sua aproximação com o Palácio dos Bandeirantes.
O PSDB aprovou tanto o gesto de Garcia que há quem queira colocá-lo na pasta de Desenvolvimento. No lugar de Afif.

A grande família

Um dos temores do grupo de Marina Silva é que José Luiz Penna coloque o PV na órbita da nova legenda de Kassab.
Motivos para desconfiança não faltam: a relação dos dois é pra lá de próxima. Kassab é, inclusive, padrinho de casamento do presidente do PV.

Belo Monte

Não teve jeito de arrancar de Arnold Schwarzenegger opinião sobre Belo Monte. "Não seria sábio fazer declarações, não sou especialista em hidrelétricas no Brasil", se esquivou o ex- governador da Califórnia no debate sobre o projeto no Fórum Mundial de Sustentabilidade. O evento começou nesta semana e termina amanhã, em Manaus.

Belo Monte 2

James Cameron, por sua vez, não se inibiu. Lembrou ter feito apelo a Lula, ano passado, para que o projeto não fosse levado adiante. "Fui um gringo arrogante tentando influenciar um debate brasileiro", declarou.
Desde então, disse que conversou com gente afetada pelo projeto e com especialistas. "Hoje o que sinto é que temos que ser inclusivos. Toda a comunidade mundial deve estar envolvida quando o tema é meio ambiente", concluiu.

Termômetro

Débora Bloch está rezando para não adoecer durante as gravações de Cordel Encantado, próxima novela das seis da Globo.
Depois de rodar cenas no Vale do Loire, na França, sob frio de 3 graus negativos, foi imediatamente enviada a Canindé do São Francisco, no sertão de Sergipe, onde fez... 40 graus. Detalhe: com o mesmo figurino de época nas duas locações.

Quem vem
Roberto Benigni deve vir ao Brasil em 2012. Está no elenco de O Paraíso de Dante Alighieri, do Movimento Itália-Brasil.

Boa causa

O projeto Turma do Bem, de Fábio Bibancos, começa a virar item de exportação. Depois de Portugal, é a vez de Angola se interessar pela iniciativa de levar dentistas à população carente. O vice-governador da província de Luanda-Norte, Porfírio Muacassange, pediu para estruturar o projeto na capital.
A saber: enquanto o Brasil tem 22 mil dentistas, a Angola possui apenas... 22, segundo Bibancos.

Boa causa 2
Giorgio Armani, em parceria com a Cruz Verde, tentará promover o acesso à água potável nas regiões que sofrem dessa escassez. Cada frasco vendido dos perfumes Acqua di Gio e Acqua di Gioia será "revertido"em doação de 100 litros de água potável por ano.

Campo das letras

Raí ataca de escritor infantojuvenil. O ex-jogador lança Turma do Infinito em maio, pela Cosac Naify. "A inspiração foi uma redação da minha neta Naira", afirma. "E já estou até com outras ideias".

Na frente

Eliane Gamal, Tuca Reinés e Chiara Gadalleta dão rasante no Vila Naiá Hotel, em Corumbau, na Bahia, neste fim de semana. O hotel acabou de receber prêmio como o melhor da América do Sul pelo Guia Condé Nast Johansens.
Fúlvio Stefanini terá sua biografia lançada, segunda, na Cinemateca Brasileira. Escrita por Nilu Lebert.
Quem passar hoje pela Marginal Pinheiros, notará algo diferente no edifício espelhado do Santander. O banco aderiu ao movimento Hora do Planeta e apagará suas luzes.
Abre hoje no Museu Lasar Segall mostras de Andreas Feininger e Lygia Reinach.
Acontece hoje o lançamento do livro Gerty Saruê, na Livraria da Vila da Lorena.
Cláudia Jaguaribe palestra hoje, no auditório da OCA.
O mundo pós-Japão e o futuro do Oriente Médio
Para tentar captar tendências da situação econômica no mundo, a coluna deu um giro pela Europa. "A maior incógnita é mesmo o Japão. Sinceramente, não sei qual será o impacto deste enorme desastre, mas a Ásia certamente sofrerá mais", analisa Pascal Lamy, da OMC.
Na Suíça, Philipp Hildebrand, dirigente do BC local, admite que a crise da dívida na Europa é ainda uma "ameaça real". E que a complacência é uma atitude errada. "Problemas em vários países continuam a colocar uma sombra de incertezas e de riscos na economia mundial".
Segundo ele, a situação de Portugal não é o único problema. A crise já prolongada no Oriente Médio promete manter os preços do petróleo em patamar elevado.
O BC inglês, por sua vez, alerta para os riscos à recuperação ante dos novos incidentes. "A incerteza nos mercados financeiros cresceu em resposta às tensões políticas em diversos países no Norte da África e Oriente Médio", afirmou o banco em nota.
No entanto, seu principal economista, Andrew Sentance, acredita que o mundo poderá superar os eventos no Oriente Médio e no Japão. Isso, graças ao crescimento dos países emergentes./JAMIL CHADE

RUY CASTRO

Dilemas de 1940
RUY CASTRO

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/03/11

RIO DE JANEIRO - O centenário de nascimento de Assis Valente, sábado último, levou a que se lembrasse -até quando?- que Carmen Miranda recusou gravar seu samba "Brasil Pandeiro". E que, por Assis ser "apaixonado" por Carmen, sentiu-se "rejeitado" e se jogou do Corcovado (não morreu).
Vejamos. A paixão entre eles era recíproca -e platônica (os dois tinham namorado). Até ali, em oito anos de colaboração, Carmen gravara 22 músicas de Assis. Ainda gravaria uma 23ª, a insuperável "Recenseamento", dada a ela por Assis na mesma noite de setembro de 1940 em que ela dispensou "Brasil Pandeiro". E por que Carmen dispensou este samba que, gravado depois pelos Anjos do Inferno, já nasceu clássico?
Porque "Brasil Pandeiro" era uma ode à própria Carmen. Falava de seu estouro em Nova York, desde que ela fora trabalhar lá, em 1939, a convite do empresário Shubert: "O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada/ Está dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato/ Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará/ Na Casa Branca já dançou a batucada com ioiô e iaiá" -referência à visita de Carmen a Roosevelt, com o elenco do musical "Streets of Paris".
Mas Carmen não era de se vangloriar. E havia outro problema: a letra de "Brasil Pandeiro" vibrava com o sucesso de uma brasileira nos EUA. Dois meses antes, em julho, participando de um show oficial no Cassino da Urca, Carmen enfrentara o gelo da plateia de convidados da ditadura Vargas, todos de flerte com os alemães e, daí, hostis ao que soasse inglês ou americano.
Por Carmen ter dito uma ou duas frases em inglês, os muitos pró-Hitler ali rosnaram que ela voltara "americanizada". Logo Carmen, que, na hora das comidas, era do camarão ensopadinho com chuchu. Mas tal era o clima. E Assis jogou-se do Corcovado por suas tormentas pessoais, só isso.

GOSTOSA

SÉRGIO AUGUSTO

À espera do fim do mundo

SÉRGIO AUGUSTO

O Estado de S.Paulo - 26/03/11

No Japão as catástrofes naturais e as que o homem fabrica (desastres nucleares, atentados terroristas) se alternam com tal frequência que não seria exagero dizer que, ao menos lá, a história não costuma se repetir como farsa, mas como tragédia mesmo. E assim tem sido desde a aurora dos tempos. "Nós já nascemos esperando o fim do mundo", desabafou-se comigo um jornalista japonês que conheci em Tóquio no final do século passado. Parecia conformado, que jeito?, com o carma histórico do país, de resto, fartamente retratado no cinema, na prosa, na poesia, nos quadrinhos e nas artes plásticas.

O estoicismo nasceu na Grécia, mas se naturalizou japonês sobre os escombros dos primeiros terremotos na ilha. Impressionado com o devastador sismo de 1185, um sujeito chamado Kamo no Chomei entregou-se, na época, a uma reflexão sobre a maneira mais adequada de enfrentar calamidades daquela magnitude (com força de espírito e serenidade) e a partir delas aprender a desprezar a vaidade e as demais mesquinharias deste mundo. Um clássico da autoajuda sísmica, com a mesma dose de moralismo daquela parábola da casa em chamas do Sutra de Lótus.

Avancemos no tempo. O terremoto que arrasou Tóquio em 1923, por exemplo, foi uma "referência espiritual" permanente nas carnificinas encenadas por Akira Kurosawa em seus filmes de samurai. Kurosawa tinha 13 anos quando testemunhou os estragos daquele daishinsai, que, além do saldo de 100 mil mortos, contabilizou 6 mil baixas entre os coreanos residentes na cidade, todos trucidados como bodes expiatórios pelos mais insanos e crueis sobreviventes do terremoto.

Depois dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, e dos mais de 20 testes com bombas de hidrogênio no Atol de Bikini, entre 1946 e 1958, o imaginário japonês ganhou um espectro imbatível, sem o aval da teodiceia: o cataclismo nuclear. Só Masuji Ibuse escreveu dois romances inspirados na destruição de Hiroshima. Não li o primeiro (Kakitsubata, 1951), mas o segundo, Chuva Negra, articulado em torno dos diários dos sobreviventes, merece o prestígio que desfruta há 45 anos. Foi reeditado num dos piques da paranoia apocalíptica japonesa, em 1995, quando do terremoto de Kobe e daqueles atentados a gás venenoso no metrô de Tóquio. A reputada tradução de John Bester sai por US$ 9,50 na versão Kindle.

O Atol de Bikini fica a 3.700km do Japão, mas a poeira radioativa liberada por um teste nuclear, em 1954, similar àquela que envolve Grant Williams na sequência de abertura de O Incrível Homem Que Encolheu, contaminou a tripulação de um pesqueiro de atum japonês. Foi um escândalo internacional, imediatamente aproveitado pelo cineasta japonês Ishiro Honda, expert em pesadelos de ficção científica. Do acidente com o pesqueiro nasceu o mais famoso kaiju (monstro ficcional) gerado pelo pânico nuclear: Godzilla, ao qual logo faria companhia aquela mariposa gigantesca chamada Mothra. Ambos descendem de Namazu, o mitológico bagre que ao abanar o rabo provocava, como o celacanto, os mais terríveis maremotos, então entendidos pelo vulgo como um desequilíbrio entre as forças do yin (água) e do yang (fogo) no interior da terra.

Na revista The New Yorker desta semana, o Nobel de Literatura Kenzaburo Oe conta que, na véspera do flagelo do dia 14, publicara um artigo no diário Asahi Shimbun sobre a luta pertinaz de um pescador que sobreviveu à contaminação de 1954 contra as usinas atômicas instaladas no Japão. Oe, que só consegue ver a história do país pelo prisma dos que morreram em Hiroshima-Nagasaki ou sobreviveram àquelas e outras desgraças mais recentes, considera a opção japonesa de crescer economicamente com ajuda da energia nuclear "uma traição à memória de suas vítimas".

A primeira Constituição do Japão do pós-guerra proibia ao país possuir forças armadas e artefatos nucleares. Os Estados Unidos revogaram essas imposições na década de 1960 porque necessitavam de uma potência militar na Ásia, para conter a Rússia, a China e a Coreia do Norte. Oe começou a escrever um romance sobre essa insana decisão, cuja frase de abertura são as últimas palavras do Inferno de Dante: "E então saímos para ver de novo as estrelas". Promete.

Na mesma New Yorker, reaparece o conto de Haruki Murakami, Ufo in Kushiro, publicado originalmente na revista anos atrás e uma das seis narrativas de after the quake (em minúsculas por exigência do escritor), todas motivadas pelo abalo sísmico em Kobe (1995), mas com ele lidando de forma indireta ou alegórica. Seus personagens vivem longe da devastação causada pelo terremoto, acompanham tudo pela TV e pelos jornais, mas não conseguem evitar que ela afete suas cabeças e suas vidas de forma traumática. Em Ufo in Kushiro, a mulher de um vendedor de aparelhos eletrônicos abandona o marido inopinadamente, deixando-lhe uma carta desconcertante. Pobre Komura, o marido abandonado, vítima indireta de um desastre natural.

Pior destino tiveram os protagonistas e figurantes de Nihon Chinbotsu, romance desastre de Sakyo Komatsu, traduzido mundo afora como O Japão Afunda. Lançado em 1973, voltou às livrarias depois da catástrofe de Kobe, e pelo visto jamais será encalhe. Oferece o que seu título promete: o afundamento da ilha por um conluio de terremotos, explosões e tsunamis, apocalipticamente mais intensos que os do dia 14. E sem direito a um Noé, ainda uma exclusividade, naquelas bandas, de The Ark Sakura, de Kobo Abe, um cultor beckettiano da angústia nuclear, o narrador mais cool do holocausto japonês.

CLÁUDIO HUMBERTO

“O prefeito jamais tratou desse assunto comigo”
MARIA ESTELA KUBITSCHEK, NEGANDO AUTORIZAÇÃO PARA KASSAB USAR AS INICIAIS DE SEU PAI

JUIZ PROÍBE DELEGACIA DA CRIANÇA DE PRENDER DURVAL 
O operador e delator do esquema de corrupção no DF, Durval Barbosa, ganhou salvo conduto que impede sua prisão pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente de Brasília, após sua ex-mulher Fabiane Christine registrar queixa contra ele. O juiz Sebastião Coelho da Silva, da 6ª Vara Criminal, onde Durval responde a duas ações penais, afirmou que a prisão “traria consequência e abalo à credibilidade do grande trabalho” da Operação Caixa de Pandora.

OUTRO LADO
Procuramos os advogados, mas foi Edson Sombra quem defendeu Durval: “É uma vingança. Durval não é um monstro, é um ótimo pai”.

COMPROVAÇÃO 
Para justificar a decisão, o juiz alega que os “fatos de natureza familiar” que ameaçam Durval de prisão “dependem de maior comprovação”.

“É ARMAÇÃO” 
Para Edson Sombra, amigo e porta-voz, o objetivo das acusações contra Durval Barbosa é “colocar por terra o benefício de delação premiada”.

CASAL LIVRE 
O habeas-corpus também blindou a atual mulher de Durval, Kelly, que também não poderá ser presa pela Delegacia de Proteção à Criança.

ITAMAR QUER SERVIÇO DO SENADO FAZENDO POLÍTICA 
O senador Itamar Franco (PPS-MG) apresentou projeto de resolução, no Senado, para “ampliar a competência do Serviço de Assistência Social do Senado”. Entre as mudanças propostas está o atendimento a pessoas “não servidoras da Casa”, mas somente quando encaminhadas, é claro, por gabinetes dos senadores ou outros órgãos da Casa. Ou seja, fazer política (ou politicagem) com recursos públicos.

MUNDO TEATRAL 
Os líderes mundiais ainda desconhecem a melhor estratégia para derrubar Gaddafi. Simples: obrigando-o a vestir terno. Sem medalhas.

O PETRÓLEO NÃO É NOSSO 
A gasolina, das mais caras do mundo, também está faltando no Brasil. E pensar que “o cara” garantiu que a Petrobras era autossuficiente.

SUSPEITO 
Dilma acha que Roger Agnelli, presidente da Vale, vazou a reunião do ministro Guido Mantega (Fazenda) com o banqueiro Lázaro Brandão.

AUSÊNCIA ILUSTRE 
Nelson Jobim (Defesa) não apareceu na posse do novo presidente da Infraero, Gustavo Vale – cuja indicação, aliás, soube pelos jornais. E Infraero não é mais com ele, e nem com a Anac. Felizmente.

NÃO É BEM ISSO 
Na posse do novo presidente da estatal Infraero, um dos convidados mais ilustres, o almirante-de-esquadra Henrique Sabóia, foi chamado pelo mestre de cerimônias de “almirante de esquerda”.

PAÍS PACÍFICO 
A imagem chocante dos cinco policiais atirando contra um menor desarmado em Manaus (AM) foi destaque ontem na imprensa internacional. Com direito ao vídeo, de embrulhar o estômago.

A SEGUNDA FEZ “TCHAN” 
Após a tumultuada primeira tentativa, finalmente os vereadores de Teresópolis (RJ) aprovaram uma CPI, solicitada por 5.759 assinaturas, para apurar supostas fraudes do prefeito petista Jorge Mário.

DOBRADINHA 
O petista Claudio Puty (PA) e Sandro Mabel (PR-GO) prometem dobradinha para agilizar a reforma tributária. Puty preside a Comissão de Tributação e Finanças e Mabel é relator do projeto de reforma.

CONTINUÍSMO É VERDE 
O PV prorrogou por um ano o mandato dos dirigentes como deputado José Luiz Penna (SP) já há 13 anos à frente do partido. O deputado Roberto Santiago promete brigar contra os “ditadores” verdes.

HUMOR 
Pelo twitter, o senador Cassio Cunha Lima (PSDB-PB) ofereceu a confirmação de sua vitória nas urnas, na questão do Ficha Limpa, ao humorista Shaolin, internado desde um grave acidente na Paraíba.

INCOMPETÊNCIA 
O publicitário Márcio Mascarenhas ganhou indenização de 40 salários mínimos, na Justiça do Rio, por clonarem seu cartão no banco Santander – que nem compareceu à audiência, apesar de notificado.

SÓ ASSIM 
Hoje tem “A Hora do Planeta”, apagando a luz “para ver o mundo melhor”. É para preservar os recursos naturais, não a sanidade.

PODER SEM PUDOR
CARECA CONVENCIDO 
Candidato a presidente, em 1994, o careca catarinense Esperidião Amin, feio de dar dó, foi surpreendido por uma eleitora gentil, em Natal:
– Sabe que o senhor é mais bonito do que eu imaginava?
Ele respondeu em cima da bucha:
– Assim vou me convencer de que sou mais bonito do que eu já pensava...

TREM-BALA

SÁBADO NOS JORNAIS

O Globo: Bradesco cede a governo e aceita tirar Agnelli da Vale

Folha de S. Paulo: Contra alta de preços, gasolina terá mais água

O Estado de S. Paulo: Irã desafia a ONU e diz que não aceita investigação

Correio Braziliense: Se você gosta de beber ou viajar ao exterior...

Estado de Minas: Álcool encosta no preço da gasolina

Jornal do Commercio: Imposto maior para compras no exterior

Zero Hora: O segredo da cidade dos gêmeos