sábado, fevereiro 19, 2011

ANCELMO GÓIS

DOSE DUPLA 
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 19/02/11

Lula saiu da temporada carioca animado com o que ouviu de intelectuais e do amigo Sérgio Cabral.
Continua resistindo à criação de um instituto com seu nome, como fazem ex-presidentes mundo afora.

MAS... 
Nas conversas, a ideia evoluiu para a criação de dois projetos ligados a seu nome.
Um seria o Memorial da Democracia, em São Paulo. Outro, o Instituto de Políticas Públicas, no Rio.

DOAÇÃO... 
O Instituto de Políticas Públicas pode ficar mesmo no palacete que pertenceu à família Guinle Paula Machado, em Botafogo.
A ideia é que o imóvel, avaliado em uns R$ 10 milhões, seja doado por empresários e não comprado diretamente pela prefeitura.

SAPUCAÍ COLORIDA 
O “M” desenhado por Oscar Niemeyer no fim Passarela do Samba ganhará iluminação especial da Prefeitura do Rio para os desfiles de 2011.
O símbolo, um dos cartões-postais do carnaval, ficará das cores da escola que estiver na avenida.

MUSEU DE SANT’ANA 
A mecena das artes Angela Gutierrez, cansada de tourear com a burocracia do Iphan em Minas, deve desistir de criar o Museu de Sant’Ana, na antiga Cadeia Pública de Tiradentes.
O museu abrigaria 270 imagens da santa, esculpidas entre os séculos 17 e 20.

FUNDO DE QUINTAL 
O grupo Fundo de Quintal, que completou 33 anos em janeiro, voltará a estúdio, depois de cinco anos, para gravar o CD de sambas inéditos Nossa verdade.
O novo disco vai sair pela Biscoito Fino.

DILMA É “MAIS VOCÊ” 
Dilma vai participar, no Dia Internacional da Mulher, 8 de março, do programa Mais Você, de Ana Maria Braga, na TV Globo.
São duas vencedoras da luta contra o câncer e se aproximaram por isto.

ELE É O CARA 
As merecidas homenagens a Ronaldo em sua decisão de se aposentar dos campos deixaram mais tranquila gente próxima ao Fenômeno.
O temor, provavelmente infundado, era que, com a decisão, Ronaldo perdesse alguns contratos de publicidade.

ALIÁS... 
Ronaldo, até mês passado, pretendia esperar o fim do Campeonato Paulista para pendurar as chuteiras.
Terminou antecipando.

TEMPLO DAS CANÇÕES 
Elymar Santos, o cantor que alugou o Canecão para seu primeiro grande show, há 26 anos, também tem sugestão de nome para a casa de espetáculos, que a UFRJ, dona do imóvel, planeja reabrir: Templo das Canções.

SOLAR DA MÚSICA...
Já Sérgio Cabral, pai, prefere Solar da Música.
O mestre se inspirou na sugestão de Ruy Castro (Solar), para lembrar o velho Solar da Fossa, que existiu nas redondezas.

FONTE DA SAUDADE
Um grupo de moradores da Fonte da Saudade, no Rio, entre eles Ziraldo, prepara uma vigília para tentar impedir a demolição de dois imóveis na Rua Carvalho Azevedo (números 60 e 72), onde se planeja erguer um prédio.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Chegou a Transexual Surda!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 19/02/11

Tensão no mundo árabe: Egito, Iêmen, Líbia, Bahrein. Falta pouco pra chegar na 25 de Março!


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E olha o anúncio da "Tribuna de Santos": "Natalia, transexual surda". Cortou o som também? Cadê o pingolim que tava aqui? HEIN? Rarará. Programa sem áudio!
Tensão no mundo árabe: Egito, Iêmen, Líbia, Bahrein. Falta pouco pra chegar na 25 de Março!
E mais uma do Sensacionalista: "Elefante alega hipotireoidismo e se aposenta do circo". Ih, esqueci que não pode mais fazer piada com o Ronaldo gordo, me acusam de bullying! Rarará!
E mais essa: "Para evitar intermediários, Nem da Rocinha é o novo chefe da polícia do Rio". Rarará! Diz que os bandidos têm que trabalhar em dobro. Pra pagar os policiais corruptos e pra tirar o lucro!
E desde quando o Sarney sofre de HIPERNEPOTISMO? Desde 1500! Pegou do Cabral! Mas eu tenho uma foto de dois meninos fantasiados de múmias. Devem ser os bisnetinhos do Sarney. As Muminhas. Tem Sarney até 2060!
E esse Carnaval que não chega? Pensamento pré-carnavalesco: se a Gretchen soltar um pum num saco de confete, é carnaval o ano inteiro! Então o que ela tá esperando?! Rarará!
Tô adorando os blocos de 2011. Direto do Recife, o bloco dos psicanalistas: Nem Freud Nem Sai de Cima! E direto de Mossoró, no Rio Grande do Norte, umas coroas fizeram um bloco da terceira idade: As Fiscais do Sarney. Rarará! E direto de São Luís do Maranhão: Chupa Mas Não Morde.
Eu recebi a foto do bloco com uma agência do Bradesco atrás. Porque toda foto que a gente tira no Brasil tem uma agência do Bradesco?!
E São Paulo? Chove tanto em São Paulo que um amigo meu foi transar com a namorada e ela estava MOFADA! Rarará!
O Brasileiro é Cordial! E essa seguidora do Gervásio: "Se eu pegar o deputado petista cabrunco que votou no mínimo de R$ 545, vou fazer ele beijar de língua a Erenice Guerra até ela se convencer que é a Gisele Bündchen e gritar: "Vai com tudo, Brad Pitt". Conto com todos. Assinado: DILMA". Rarará. Ela é a nossa Gervásia! Rarará.
E a polícia de São Paulo é polícia de ditador árabe? Dá cacetada e joga bomba de gás em manifestante! A situação está uma goma arábica! Rarará.
Nóis sofre mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA

GUILHERME FIUZA

Dilma no país das maravilhas
GUILHERME FIUZA
O GLOBO - 19/02/11
A "presidenta" assumiu e sumiu. Ninguém sente falta
Os brasileiros estão encantados com as manifestações de rua no Egito. Nem bem Dilma Rousseff assumiu a Presidência, Hosni Mubarak tomou conta das manchetes. Deve ser difícil viver num país cheio de pirâmides e problemas. Por aqui está tudo bem. A "presidenta" assumiu e sumiu. Ninguém sente falta. Dilma acionou o piloto automático e foi cuidar de suas pirâmides.

Uma das mais visíveis fica na Câmara dos Deputados, e não é obra de Niemeyer. Num impressionante trabalho de engenharia, a "presidenta" colocou no alto da comissão mais importante do Legislativo uma peça de colecionador. Importado diretamente do escândalo do mensalão, João Paulo Cunha será o presidente da Comissão de Constituição e Justiça. Nada mais justo. A comissão que decide o que poderá ou não ser lei no país tinha mesmo que ficar nas mãos de um réu. É uma questão de notória especialização.

O PT também está muito interessado nas manifestações populares no Oriente Médio. Quanto mais o Brasil olha para lá, mais fácil fica a reabilitação de seus faraós por aqui. José Dirceu e Delúbio Soares já estão se aquecendo à beira do gramado. Erenice e sua pirâmide familiar terão que esperar um pouco mais. Mas o gerente da Caixa Econômica que violou o sigilo do caseiro já está na área: foi nomeado assessor do Gabinete Pessoal de Dilma Rousseff. Como se vê, os egípcios estão em maus lençóis.

A opinião pública está cada vez mais fascinada com tudo que Dilma não fala. Dizem que é o silêncio de quem trabalha. É verdade. A "presidenta" trabalhou como ninguém para manter o faraó do Maranhão na presidência do Senado. As sete vidas de José Sarney no poder têm hoje o PT como principal acionista. É um investimento plenamente justificável: um político que é flagrado fazendo tráfico de influência e se mantém intocável tem mesmo é que comandar o Poder Legislativo. De lei ele entende.

Na pirâmide de Sarney, além dos simpatizantes empregados no Senado, tem ministro de Estado. Seu afilhado mais célebre no momento é Edison Lobão, o explicador de apagões. Se o Brasil ficar às escuras de novo, ninguém precisa se preocupar, porque Lobão já tranquilizou todos: "O sistema é robusto." Para o sujeito que está preso no elevador, não pode haver alívio maior do que saber que o sistema é robusto.

Essa robustez teve grande impulso na gestão de Dilma como ministra de Minas e Energia. Como especialista em gestão, ela comprimiu as tarifas para o consumidor sentir toda a bondade do governo popular - seguindo a escola dos Kirchner, o casal que levou a economia argentina ao pântano. O setor elétrico buscou então a solução mais criativa contra a falência: parar de investir no sistema.

Isso não chega a ser um problema, quando se tem um ministro eloquente e bem apadrinhado como Lobão. Agora a conta da Light vai subir acima da meta de inflação, mas tudo bem, porque o sistema é robusto.

Sob um governo que trabalha em silêncio, a população pode dormir em paz. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, por exemplo, anunciou na posse que vai espalhar UPPs "pelos quatro cantos do país". Não se sabe exatamente o que significa essa precisão científica toda, mas também não interessa. Depois que as tropas de elite passaram a vender as armas do tráfico para as facções rivais, o ministro não disse mais nada. Deve estar em algum dos outros três cantos do país, talvez pedindo conselhos ao Capitão Nascimento.

Mesmo com toda essa eficiência, silêncio tem limite. E Dilma resolveu falar. Convocou cadeia nacional de rádio e TV para um pronunciamento à nação. Devia ser algo muito importante, a ponto de levá-la a interromper sua rotina laboriosa. Quem sabe, era o momento de tirar o véu por sobre os grandes projetos que o Brasil resolveu imaginar estarem sendo geridos pelo novo governo. Mas não era bem isso.

Forjada na lábia populista de Lula, Dilma estava com saudades dos comícios - que, como se sabe, são a alma do negócio. Ela caprichou. O gancho era um programa de apoio ao ensino técnico, desses que se anuncia com um press-release do segundo escalão. Naturalmente, o tal programa tomou só alguns segundos do pronunciamento à nação. A grande mensagem da "presidenta", essencial e inadiável, era um paralelo conceitual entre educação e pobreza (a especialidade da casa).

O Brasil foi convocado a ver e ouvir Dilma Rousseff explicar que o país tem agora que enfrentar a "fome do saber".

Não se sabe o que seria desta pobre nação sem os slogans do PT. Depois dessa emocionante ordem unida em cadeia nacional, teremos certamente um sistema educacional robusto. E tecnologias como a do Enem e do Sisu serão espalhadas pelos quatro cantos do país.

Quem depois disso continuar com fome de saber que vá se alimentar do noticiário sobre o Egito. Por aqui, estamos de barriga cheia.

MERVAL PEREIRA

Manobra petista
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 19/02/11
A indicação, pelo PT, do deputado João Paulo Cunha como presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, além de ser um menosprezo à opinião pública e uma demonstração de que a Câmara já não tem mais força moral para impedir gestos que a desmoralizem, faz parte de uma ampla manobra petista para constranger o Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão que se avizinha, tratando os acusados como virtualmente absolvidos.

Dessa manobra participa, sobretudo, o ex-presidente Lula, que, depois de ter feito um discurso à nação dizendo-se traído, ainda em 2005, tem se dedicado nos últimos anos a tentar apagar da História do país o maior escândalo de corrupção já registrado, alegando que se tratou de uma tentativa de golpe para tirá-lo do governo.

Ainda na Presidência da República, Lula recebeu no Palácio o ex-ministro José Dirceu, acusado pelo procurador-geral da República de ser o "chefe da quadrilha" do mensalão.

Dirceu saiu alardeando que Lula se dedicaria, quando deixasse a Presidência, a esclarecer "a farsa" do mensalão para provar que ele não passara de um golpe político. Ele, que dissera anteriormente que "mensalão não é corrupção, é financiamento de campanha com caixa 2", agora adota a teoria conspiratória que transforma o episódio em uma luta dos legalistas do PT contra os golpistas.

O próprio Lula adotou o discurso, sendo essa pelo menos a terceira versão que abraçou. Primeiro se disse "traído", sem acusar ninguém - insinuou que quando deixasse a Presidência revelaria -, depois alegou que o caso não passava de uso do caixa 2 em campanha eleitoral, o que seria tradicional no Brasil, e agora vem com essa história de golpe antidemocrático.

"Vocês viram o que aconteceu comigo em 2005?", gritou em recente comício. "Mais uma vez se tentou truncar o mandato de um presidente democraticamente eleito."

Dentro do PT há também diversos movimentos concatenados para tratar os acusados do mensalão como se tivessem sido virtualmente absolvidos dos crimes de que são acusados.

O ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, por exemplo, expulso do partido ainda em 2005, quando o escândalo de que foi protagonista estava quente, agora está querendo que a direção partidária reconsidere sua situação. Ele, que se diz um "petista histórico", quer ser reinserido nos quadros do PT.

Delúbio ficou famoso ao cunhar a expressão "dinheiro não contabilizado" para tentar explicar a fortuna que ele fez circular entre petistas e aliados no episódio do mensalão, dinheiro que, segundo a acusação aceita pelo Supremo Tribunal Federal, foi desviado dos cofres públicos e de empresas privadas para comprar votos no Congresso a favor do governo.

Ele foi responsabilizado pelos empréstimos fraudados com o empresário Marcos Valério, feitos em nome do partido, mas hoje tem apoio da principal corrente, à qual continua ligado - o antigo Campo Majoritário, hoje chamado de Construindo um Novo Brasil -, para retornar oficialmente ao grupo, do qual nunca se separou mesmo depois de expulso.

Delúbio tem uma visão particular do mensalão: disse em entrevista, ao completar 50 anos, que o caso acabaria "virando piada de salão". Da sua parte, está fazendo o possível para tornar a previsão realidade.

Também o ex-secretário-geral do partido Silvio Pereira, que pediu desfiliação na mesma época para evitar a expulsão, pretende pedir a reintegração partidária. Silvinho, como era conhecido nos meios políticos, era quem fazia as seleções dos "companheiros" e aliados para os cargos públicos, e entrou no noticiário do mensalão por meio de uma prova ostensiva de corrupção: ele recebeu um jipe Land Rover de um empresário, na intermediação de uma negociata na Petrobras.

Segundo a denúncia do procurador-geral da República, Pereira "atuava nos bastidores do governo, negociando indicações políticas espúrias que proporcionavam desvio de recursos em prol de parlamentares, partidos e particulares".

Silvinho não está mais entre os acusados pelo mensalão do processo do Supremo: ele fez um acordo com a Procuradoria Geral da República e aceitou fazer 750 horas de serviços comunitários em três anos, numa aceitação de culpa.

O crime de que ele era acusado, o de formação de quadrilha, pode prescrever ainda em agosto deste ano caso a condenação venha a ser de apenas um ano. Outras nove pessoas, entre elas, José Dirceu, estão acusadas nesse crime e podem ser beneficiadas pela prescrição.

Apesar dos esforços do relator, ministro Joaquim Barbosa, para acelerar o processo - e de fato, apesar de já terem corrido três anos, o processo do mensalão está acelerado pelos padrões do Supremo -, o julgamento só deverá ocorrer no fim deste ano ou no início de 2012.

A complexidade do caso e o grande número de envolvidos (38 réus) fizeram com que o procurador-geral da República na época, Antonio Fernando de Souza, só formulasse a denúncia perante o STF em abril de 2006, que viria a aceitá-la em agosto de 2007.

Barbosa tem conseguido, com o apoio de seus pares no Supremo, evitar boa parte dos recursos protelatórios, utilizados especialmente por dois dos réus: o ex-deputado Roberto Jefferson, que detonou o episódio ao denunciar o mensalão em uma entrevista à "Folha", e o empresário Marcos Valério.

Não consigo ver onde se caracteriza a perda de poder do Congresso com a aprovação do projeto de lei que define a regra para o aumento do salário mínimo até 2015.

A Câmara estabeleceu que o governo deverá aumentar o mínimo com base no crescimento do PIB dos dois últimos anos e mais a inflação do período anterior de 12 meses. Ao governo caberá apenas colocar os números dentro dos parâmetros definidos pelo Congresso.

Entendo, no entanto, que há problema técnico na decisão, que a torna inconstitucional. Como, pela Constituição, é uma lei que deve definir o salário mínimo, um decreto não pode substituí-la. Provavelmente o governo terá que fazer aprovar uma lei delegada no Congresso, que exige um quórum maior.

Embora tenha uma ampla maioria, é possível que essa discussão traga problemas para o governo, se o clima ficar muito emocional com acusação de que o Congresso está abrindo mão de suas prerrogativas.

É possível também que esse dispositivo do projeto do mínimo nem vá a votação no Senado, pois, enquanto está em tramitação, qualquer senador pode pedir ao Supremo que o retire de pauta até que sua constitucionalidade seja decidida.

TROCANDO DE MERDA

MÍRIAM LEITÃO

Os pontos do G-20
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 19/02/11
Se o assunto é desequilíbrio cambial, o Brasil não pode se alinhar nem com a China nem com os Estados Unidos. A China, ontem, deu mais um apertinho no compulsório dos seus bancos, mas o yuan se valoriza a passos lentos, controlados pelo governo, e sua política é a parte mais relevante do desequilíbrio. O Japão disse que o G-20 está dividido ao meio sobre o uso de indicadores de taxas de câmbio para medir desequilíbrios macroeconômicos, ou seja, não apenas a China se opõe à interferência externa na fixação da política cambial. Os Estados Unidos despejam dólares através da recompra de títulos americanos e esse fenômeno que os economistas chamam de "relaxamento quantitativo" da política monetária americana derruba mais o dólar.

Mais dinheiro circulando está ajudando a retomada da economia americana, que é o que o governo dos Estados Unidos quer. Isso ajuda o mundo, de certa forma, porque, afinal, a economia americana mesmo combalida ainda tem um PIB que é o triplo da segunda maior economia do mundo.

A retomada americana é magra em criação de empregos e perigosamente forte na recuperação das bolsas. Nada explica uma recuperação tão forte como a que está acontecendo na mercado de ações dos Estados Unidos. O S&P, uma das medidas da Bolsa de Nova York, dobrou de valor em 23 meses. É a duplicação de valor mais rápida da história do índice, que existe desde 1957. Desde o fim da depressão de 1929, nos anos 32 a 35, é a temporada de corrida mais forte para o mercado de ações. Na bolha dos anos 1990, a bolsa levou três anos para fazer o mesmo percurso.

A alta da bolsa americana não é exatamente uma boa notícia. Primeiro, porque a economia do país ainda está afundada em déficit público, o mercado de trabalho fraco denuncia que as empresas, mesmo se recuperando, não acreditam na sustentabilidade desse crescimento, tanto que não empregam. Ou seja, a economia americana não está essa Coca-Cola toda. Parte da alta é fuga de capitais da Europa com medo da crise da dívida europeia. Parte da alta é turbinada pela inundação de dólar da política que nos afeta aqui, derrubando o valor da moeda americana. O que está se formando tem mais a cara de bolha do que a de recuperação (veja o gráfico abaixo do S&P500).

Quando o assunto é preço de commodities, de novo, não pode haver base para qualquer consenso entre as partes que se reúnem no G-20. A França quer controle de preço de matérias-primas, mas a alta é em parte provocada pelo crescimento chinês, e para países exportadores desses produtos, como o Brasil, não é conveniente qualquer tipo de controle desses preços. Os Estados Unidos, que exportam alimentos, também não querem teto de preços. A França diz falar em nome dos pobres, ao advogar controle de preços de commodities agrícolas, mas foi a política de forte subsídios que matou parte da agricultura africana, como o caso relatado pelo embaixador Rubens Ricupero: a produção de tomate do Senegal foi dizimada pelo tomate francês e italiano subsidiados.

O presidente do Banco Central chinês avisou que os países e organizações internacionais deveriam estudar uma forma de controlar os fluxos de capitais especulativos, mas a verdade é que ninguém sabe muito bem como fazer isso. O presidente do Fed, banco central americano, Ben Bernanke, concordou inteiramente e disse que esse fluxo está colocando em risco a estabilidade global e culpou esses fluxos pela crise de 2008. O capital sem pátria e sem controle foge atrás de retornos altos, exacerbando os movimentos de desequilíbrio. Se as commodities estão em alta pela demanda, eles correm para lá e elevam ainda mais a alta; se um país paga juros altos, como o Brasil, eles correm para cá e elevam mais o valor da moeda local; se há incertezas novas no Oriente Médio, como agora, eles forçam novas bolhas em vários mercados. O Brasil já passou três trancas na porta e nada funcionou porque o capital de curto prazo continua entrando.

No G-20, as alianças e conflitos se formam e se desfazem com muita rapidez. Não é mais o mundo dos emergentes contra os ricos velhos. Subgrupos de acordos e divergências se formam dependendo do tema, do enfoque, da solução, da proposta.

Uma coisa parece certa: todos eles juntos, brigando brigas localizadas, não conseguem ver toda a cena do verdadeiro risco: novas bolhas estão se formando na ressaca da crise de 2008, fingindo ser apenas recuperação.

Os pontos do G-20

O G-20 parece mais com o mundo atual, mas suas contradições vão levá-lo sempre a impasses. O mundo dos velhos ricos que se reuniam no G-7 era de uma simplicidade que parece tosca hoje: Estados Unidos, Japão e alguns europeus tomavam decisões que os favoreciam contra os outros. Hoje, os outros entraram, mas mesmo entre os recém-chegados no clube há contradições.

JOSÉ MILTON DALLARI SOARES

O risco da reindexação
JOSÉ MILTON DALLARI SOARES
O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/02/11
O Brasil está diante de um novo desafio: o de evitar que a inflação coloque novamente em risco a estabilidade da economia e volte a corroer o poder de compra do consumidor e a capacidade das empresas de traçar estratégias de médio e longo prazos. Nos últimos meses, o aumento mundial nos preços das commodities chegou ao bolso do consumidor, especialmente na área de alimentos. Muitos reajustes ainda estão em plena negociação e devem chegar às prateleiras nos próximos meses.

O maior risco que o País corre hoje, com a pressão dos preços e a aprovação do novo valor do salário mínimo, é a volta da indexação da economia. Não podemos esquecer que o mínimo dita o tamanho da folha de pagamentos de inúmeras empresas e prefeituras. A volta da indexação levaria à necessidade de um novo plano de estabilização econômica, revivendo um passado que a maioria dos brasileiros não quer ver repetido.

A economia tem quatro grandes grupos de preços capazes de ditar reajustes em cadeia: o da energia, dos minerais, dos alimentos e dos produtos químicos. Formam, na prática, os preços diretores da economia, capazes de contaminar cadeias produtivas inteiras.

Embora a economia brasileira, como a de todos os países, sofra os efeitos do aumento mundial das commodities, o governo tem motivos para se preocupar. São dois os setores que merecem atenção neste momento: o dos minérios e o da energia. São monopólios ou oligopólios que ditam as regras e os reajustes para o resto da economia.

A falta de concorrência entre as empresas de alguns setores permite que elas repassem totalmente os custos aos preços, criando a bola de neve que chega ao consumidor e aos índices de preços e faz ressurgir a indexação.

Agências reguladoras, hoje ainda frágeis, são instrumentos de acompanhamento de setores e estímulo à entrada de novos players no mercado, gerando mais concorrência e reduzindo poder de manipulação de preços. Do ponto de vista mais imediato, o governo tem instrumentos para conter o risco, como as tarifas de importação e exportação e os demais mecanismos que regulam o comércio internacional. O governo não pode se descuidar, nem abrir mão dos instrumentos que dispõe para acompanhar os preços. O risco para o País é alto demais para apostar na inércia.

JOSÉ MILTON DALLARI SOARES CONSULTOR DE PREÇOS, EX-SECRETÁRIO DE ACOMPANHAMENTO ECONÔMICO DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

GOSTOSA

FERNANDO RODRIGUES

O poder de Dilma
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SÃO PAULO - 19/02/11
BRASÍLIA - A votação do salário mínimo comprovou na prática o já conhecido em tese. Dilma Rousseff começa seu mandato com mais poder real sobre os congressistas do que os seus dois antecessores imediatos, Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
O tucano FHC estava no auge ao tomar posse, em 1995. Surfava na onda do Plano Real. No dia 19 de abril daquele ano, a Câmara votou um projeto de lei elevando de R$ 70 para R$ 100 o salário mínimo. Era um ganho inédito de 42,9%. O Planalto venceu na única votação nominal naquela data com o apoio de 339 deputados -o PT e a oposição queriam uma correção diferente no valor das aposentadorias.
Oito anos depois, o petista Lula aumentou o salário mínimo de R$ 200 para R$ 240. Ou seja, uma correção de 20%. Tucanos defendiam R$ 252. Perderam. O Planalto ganhou na Câmara, em 28 de maio de 2003, com 278 votos a favor.
Nesta semana, como se sabe, Dilma Rousseff obteve 361 votos e barrou a proposta da oposição de elevar o salário mínimo a R$ 560. O valor ficou em R$ 545, como desejavam a presidente e sua equipe.
Em percentuais, Dilma começa sua vida de presidente com 30% mais apoio do que Lula e 6% a mais que FHC -na Câmara. Pode-se argumentar que esse apoio é relativo, pois trata-se só do início do mandato. Ou que os partidos aliados vão agora cobrar a fatura na forma de cargos e emendas ao Orçamento. E que tudo depende de como estará a economia nos próximos meses.
É verdade. Mas também é inegável a existência de uma taxa de conforto muito maior para Dilma do que a desfrutada por seus dois antecessores. Resta saber o uso que a presidente fará de todo esse poder.

CELSO MING

Vai fracassando

CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 19/02/11

À medida que a crise global vai refluindo fica mais difícil encontrar utilidade para esses encontros do Grupo dos 20 (G-20). Não há acordo sobre nada. Será que para sair alguma coisa daí é preciso que tudo volte a piorar?

A ideia de reunir os maiorais do mundo para discutir os grandes problemas surgiu em 1975, quando Valery Giscard D"Estaing era presidente da França. A globalização já tinha avançado e os governos dos Estados nacionais já não conseguiam dar conta deles. Foi então que os dirigentes de Estados Unidos, Canadá, Japão, Inglaterra, Alemanha, França e Itália passaram a se encontrar em caráter informal no que passou a ser chamado de Grupo dos Sete (G-7), para avaliar em conjunto os problemas e coordenar políticas.

A partir de 1997, foi incorporada a Rússia, já transformada pela Perestroika e pela queda do Muro de Berlim, e, assim, o G-7 virou G-8. A partir de 1999, os próprios senhores do mundo sentiram a necessidade de incorporar os emergentes, porque não poderiam definir políticas conjuntas sem o compromisso de China, Índia, Brasil e Argentina.

Em novembro de 2010, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, passou a exercer a presidência rotativa do G-20. E é prerrogativa do presidente apresentar a pauta das discussões. Sarkozy sempre se mostrou impressionado com o que chamou de grandes desequilíbrios globais e com a necessidade de redesenhar o sistema financeiro mundial. Segunda-feira, a ministra de Finanças da França, Christine Lagarde, sintetizou em entrevista as preocupações do seu governo: "A China poupa e exporta, a Europa consome, os Estados Unidos tomam dinheiro emprestado e consomem. Por acaso é este um modelo equilibrado?"

As propostas de Sarkozy pretenderam provocar uma revolução. Sugeriu a reforma do Sistema Monetário Internacional para que outras moedas, e não apenas o dólar, passassem à condição de reserva internacional de valor. Quis o nivelamento dos saldos em conta corrente dos principais países. Falou insistentemente em intervenção nos mercados internacionais de commodities para controlar o mercado de alimentos de modo a impedir disparadas de preços, como as de agora.

Desde logo se viu que não há consenso nem sequer em torno da identificação dos desequilíbrios globais e dos indicadores para medi-los. Despejo excessivo de moeda no mundo é uma fonte de desequilíbrios? Sim, claro que é. Mas os Estados Unidos não admitem que estejam emitindo moeda demais. Argumentam que assim agem para recolocar a locomotiva global em movimento e que os demais vagões terão tudo a ganhar quando isso acontecer.

Montanhas de reservas externas são, sim, um sinal de que há enormes superávits de um lado e gigantescos déficits de outro. Mas Japão, China e Brasil avisam que não tem cabimento limitar o volume de reservas, medida que seria outro jeito de exigir revalorização da própria moeda.

Os preços dos alimentos disparam e produzem distorções? Sim, mas Estados Unidos, Brasil e Argentina argumentam que não faz sentido controlar o mercado internacional de alimentos. E o que acabará sobrando será a proposta de dar mais transparência aos mercados internacionais de commodities, sem que se saiba o que fazer depois com essa transparência.

Enfim, o G-20, como fórum global para identificação de problemas e coordenação de políticas, vai fracassando.
*
A escalada de preços atinge todas as matérias-primas e não apenas os alimentos. É o que mostra um dos mais respeitados indicadores de preços de commodities, o CRB.

Na contramão

O representante do Brasil e candidato ao cargo de diretor geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), José Graziano da Silva, defendeu ontem a proposta da França a favor da regulação do mercado de commodities alimentares. E, nessa defesa, assumiu posição contrária à do governo brasileiro.

DE BARRIGA

CESAR MAIA

Herança perversa
CESAR MAIA
FOLHA DE SÃO PAULO - 19/02/11
As primeiras medidas do governo Dilma em relação aos cortes nos gastos públicos, ao câmbio, aos juros e à política externa são apresentadas como herança recebida do governo Lula. São vistas como produto das distorções eleitorais relativas aos anos de 2009 e 2010. Por isso, sua abordagem cria no governo um certo constrangimento.
Mas nada disso é problema. Ao contrário. Dilma aparece como mais centrada, mais racional e mais dedicada às questões administrativas, o que a eleva ao andar de cima do meio acadêmico, empresarial, jornalístico e político.
Com todos os desdobramentos relativos a essa herança, ela certamente não é o problema que Dilma e seu governo terão de enfrentar.
Todas as pesquisas nos últimos anos, em relação às funções do governo, mostraram uma avaliação mais próxima do regular. Mas as mesmas pesquisas mostraram uma avaliação ótima de Lula.
É como se o personagem que criou, inserido nas massas e confundido com elas, nada tivesse a ver com seu governo.
Até o fato de a crise financeira de 2008/2009 não ter chegado aos países emergentes como chegou aos desenvolvidos foi percebido como efeito Lula.
Seus atos são sempre confundidos com seu populismo retórico. As inaugurações de pedras fundamentais eram percebidas como realizações, e a "caravana holiday" de seus comícios inaugurava nada, mas que -em outras partes do país, via satélite- era percebido como tudo.
Com o mensalão de 2005, Lula abandonou o uniforme de líder operário urbano e incorporou o jeito de líder retirante num populismo protorreligioso que tão bem se conhece Brasil afora, desde a segunda metade do século 19.
Essa condição é que é a herança perversa. Nem Dilma nem nenhum outro nome cogitado no processo pré-eleitoral desde 2008 teria condições de parecer-se com o personagem criado e mitificado por Lula.
Todos sabem que o ano de 2011 será um ano de desconforto social, com a economia crescendo metade da de 2010, com inflação acima da meta, especialmente nos alimentos, e os juros mais altos. Há ainda a economia europeia desacelerada, a crise nos países árabes e seus reflexos etc e tal.
Esse desconforto social se acentuará com a menor capacidade de compensação pelos Estados e municípios, maior desemprego, alguma reversão de expectativas e muito maior assanhamento dos políticos da base aliada e da oposição.
E o imaginário popular, tão acostumado ao estilo anterior, vai suspirar nas esquinas: "Ah, com Lula isso não estaria acontecendo". Nesse momento, a popularidade de Dilma despencará. E Lula correrá em seu auxílio, piorando a situação. Como disse Bertolt Brecht: "Infeliz a nação que precisa de heróis".

HÉLIO SCHWARTSMAN

País não pode prescindir de professores, ilegais ou não
HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SÃO PAULO - 19/02/11


Excluí-los do sistema resultaria em milhões de alunos sem aulas



É BOM RECICLAR PROFESSORES, MAS É POUCO PROVÁVEL QUE UM CURSO, PRESENCIAL OU NÃO, TRANSFORME UM MESTRE SOFRÍVEL NUM GÊNIO DA DIDÁTICA



Ilegais ou não, os professores sem titulação formam um contingente de 208 mil educadores dos quais o país não pode, por razões práticas, prescindir. Excluí-los do sistema resultaria em milhões de alunos sem aulas, especialmente nas áreas mais remotas e desassistidas.
Goste-se ou não, são essas as pessoas que, nas condições de trabalho hoje oferecidas, estão dispostas a dar aulas e é com elas que as escolas vão ter de se virar.
Podem-se criar as oportunidades para que esses profissionais consigam seus diplomas, através de cursos à distância e outras facilidades. Isso já foi feito em algumas redes e é provavelmente o melhor modo de conciliar as necessidades do mundo real com as exigências da lei.
A questão é que o diploma, às vezes, não passa de um pedaço de papel. É sempre bom reciclar velhos professores, mas é pouco provável que um curso, presencial ou não, transforme um mestre sofrível num gênio da didática.
O motivo principal de o legislador ter introduzido a titulação como requisito para dar aulas não foi oferecer oportunidades de professores estudarem um pouco mais, mas sim promover ganhos de qualidade para o sistema. O pressuposto, apenas parcialmente correto, é o de que diplomas são um bom jeito de aferir essa qualidade.
O diagnóstico geral, ao menos, parece correto. O que os estudos internacionais mostram é que a qualidade do professor é determinante para a qualidade da educação ministrada.
Nessa seara, apesar das boas intenções de políticos, burocratas e da torcida do Corinthians, o Brasil faz feio.
Um estudo de 2008 da Fundação Lemann mostrou que apenas 5% dos melhores alunos (os que ficaram entre os 20% mais bem colocados no Enem) cogitam trabalhar como docentes da educação básica. A maioria dos "top 20" pensa em virar médico (31%) ou engenheiro (18%).
O contraste com os países campeões da educação não poderia ser maior. Na Coreia do Sul, para atuar no magistério é necessário estar entre os 5% mais bem avaliados no exame nacional de ingresso no ensino superior. Na Fin- lândia, os professores vêm dos 10% melhores alunos.
Inverter essa situação exige não só recursos vultosos -é preciso oferecer salários atrativos para 2,5 milhões de professores- como uma mudança cultural que devolva à categoria o prestígio social de que já gozou. Não vai acontecer do dia para a noite.

GOSTOSA

CORA RÓNAI

Fotolog em miniatura
CORA RÓNAI
O GLOBO - 19/02/11
Em outubro do ano passado, foi lançado um pequeno aplicativo fotográfico para o iPhone, o Instagram. Parecia ser apenas mais um entre uma espécie particularmente fértil nos jardins da Apple, a dos filtros que dão um trato às fotos precárias do aparelho. Como o Camera Bag, para ficar num só exemplo, ele também traz um conjunto de filtros capazes de dar um ar retrô e interessante ao produto chinfrim das câmeras que equipavam os iPhones até sua última versão, a 4, de cujos 5 Megapixels ninguém pode se queixar.

Mas o Instagram é muito mais do que um pacote de filtros. Na verdade, eles são só o detalhe por trás do qual se esconde uma ferramenta de compartilhamento e uma vibrante comunidade de fotógrafos: em dezembro o Instagram já havia sido baixado por um milhão de usuários e, agora, está perto de chegar aos dois milhões.

O segredo é a simplicidade da coisa. Tira-se uma foto com o Instagram, ou pega-se uma das que já estão armazenadas no iPhone; escolhe-se um filtro (uma das alternativas é "normal", ou seja, a imagem segue como nasceu) e clica-se OK. No mesmo instante, ela pode ser visualizada no iPhone de quem quer que tenha o programa instalado e seja seguidor de quem a enviou. Com a mesma velocidade, o Instagram pode subir fotos para Twitter, Facebook, Flickr, Posterous, Tumblr e Foursquare. Quem quiser pode adicionar tags às imagens, o que facilitará a sua integração a grupos semelhantes; por exemplo, #gatos, #Rio de Janeiro, #carnaval.

Uma vez no ar, as fotos podem ser curtidas pelos usuários do sistema e receber comentários. No painel do Instagram pode-se ver as mais populares (um bom meio para descobrir outros fotógrafos e passar a segui-los) e checar a quantas anda a nossa própria produção no gosto dos colegas.

O sistema lembra o antigo Fotolog, primeira comunidade de compartilhamento de fotos a fazer sucesso na internet. Ainda tem o que crescer e o que melhorar, mas isso fatalmente acabará acontecendo, já que os desenvolvedores receberam um bom aporte financeiro para, entre outras coisas, desenvolver uma versão Android.

O Instagram é gratuito e assim pretende permanecer. É possível que, no futuro, passe a cobrar por novos pacotes de filtros, por exemplo, ou algum tipo de funcionalidade extra - uma forma simpática e democrática de, perdão pela palavra, "monetização".

Se você tem um iPhone e ainda não usa o Instagram, não perca mais tempo. Vá à Appstore, baixe o bichinho e entre na onda mais divertida do seu aparelho.

Por falar em iPhone: com o carnaval aí na esquina, surgem as apps da temporada. O Pocket Samba, gratuito, traz três instrumentos fundamentais para um bom batuque: caixinha de fósforos, agogô e garrafa de cerveja. Os dois primeiros usam-se batendo dedo, sendo que a caixinha de fósforos também pode ser sacudida, e a garrafa de cerveja tem que ser soprada no microfone, como a nossa velha conhecida Ocarina. Muito legal! Um conjunto de três iPhones bem harmonizados certamente há de produzir um barulhinho bom.

Outra app, também gratuita, é o Samba Matchbox, caixinha de fósforos com três batidas diferentes e, de quebra, a gravação do samba enredo da Mangueira. O patrocínio é da Unimed.

Pegou absurdamente mal entre os usuários da Nokia a parceria com a Microsoft. Segundo os analistas mais desapaixonados, a união pode servir para conquistar uma fatia do mercado americano, viciado em Windows; acontece que a base mais fiel da Nokia não está nos Estados Unidos, e sim na Europa, onde a Microsoft é detestada. O Symbian já estava defasado, é verdade, e não sei até que ponto o MeeGo - sistema que vinha sendo desenvolvido em parceria com a Intel - poderia salvar a situação, mas a lógica teria sido fechar com Android, um sistema bom, aberto, que cresce a olhos vistos. Para quem argumenta que os europeus são fracos em apps, a mina de ouro dos smartphones, tenho apenas duas palavras: "Angry Birds". Os passarinhos furiosos, que foram a sensação de 2010, são tão finlandeses quanto é a Nokia. Ou, melhor dizendo, quanto era a Nokia.

LUIZ FERNANDO JANOT

Arquitetura com qualidade
LUIZ FERNANDO JANOT
O GLOBO - 19/02/11
O crescimento populacional e a valorização imobiliária nas cidades contemporâneas têm contribuído significativamente para a expansão urbana e a formação de núcleos habitacionais espalhados pelas periferias. Esse fenômeno se observa, inclusive, em algumas grandes cidades europeias onde as regiões periféricas formam densos aglomerados urbanos. Do ponto de vista arquitetônico, é visivelmente acentuado o contraste existente entre as edificações no núcleo central e nas periferias.

Se tomarmos como exemplo a cidade do Rio de Janeiro, esse contraste adquire maior proporção na medida em que entram em cena as favelas e os loteamentos irregulares. A maioria das habitações construídas nesses locais carece de requisitos mínimos de habitabilidade em decorrência da falta de recursos financeiros das camadas mais pobres da população. E o que dizer, então, da qualidade arquitetônica dessas moradias? Essa é uma questão relevante que precisa ser enfrentada com determinação. Um programa de melhorias habitacionais torna-se, neste momento, indispensável não apenas para elevar a qualidade de vida e a autoestima dos moradores, mas, sobretudo, para propiciar um upgrade na ambiência local e na imagem da própria cidade.

Esse esforço comunitário e governamental para melhorar o padrão de qualidade das habitações não pode ficar restrito, unicamente, aos assentamentos populares. É necessário, também, que o empresariado da construção civil se empenhe na melhoria da qualidade das construções, evitando que elas interfiram negativamente na paisagem do Rio de Janeiro. Difícil não generalizar esse pensamento em relação aos empreendimentos imobiliários na Barra da Tijuca, onde consumidores e incorporadores se mostram mais preocupados com a segurança e o status social do que propriamente com a produção de uma arquitetura verdadeiramente de qualidade. Os condomínios residenciais e empresariais lá construídos, em sua grande maioria, são formados por edificações de gosto duvidoso identificadas com o mainstream internacional. A concepção formal desses edifícios, quase sempre, incorpora elementos cenográficos descartáveis que encontram no simulacro a sua mais perfeita tradução.

Poderíamos relacionar uma quantidade expressiva de edificações que se enquadram nessas condições. Entretanto, preferimos deixar para os leitores o exercício de identificá-las em seus trajetos cotidianos. Deve-se privilegiar como enfoque uma arquitetura que sobressai às demais apenas pela sua extravagância e espetaculosidade. Para que se possa traçar um paralelo comparativo com prédios de expressivo valor arquitetônico, relacionamos alguns exemplos paradigmáticos de edifícios que marcaram a arquitetura carioca do início do século XX até a década de 80, quando essa fonte de referência, lamentavelmente, começou a ser desprezada.

São eles, os edifícios art decó nos bairros de Copacabana e Flamengo, destacando-se o Biarritz. Os prédios da Mesbla e do Hotel Serrador, nas imediações do Passeio Público. Os edifícios-sede do Banco Boavista (hoje Bradesco), de Oscar Niemeyer, e do Banco Aliança (hoje Itaú), de Lúcio Costa, ambos, na Praça Pio X. Os criativos edifícios residenciais projetados pelos irmãos Roberto no Parque Guinle, na Rua Farani e na Rua República do Peru. A sede da Fininvest, na Rua da Passagem, e o edifício empresarial Leonel Miranda, na Rua do Ouvidor, projetados pelo arquiteto Paulo Casé. E, obviamente, o Palácio Capanema (antigo MEC), a ABI, o MAM, o Monumento dos Pracinhas, o Aeroporto Santos Dumont, a Maison de France, o Consulado Americano e o Conjunto Habitacional Pedregulho, projetado por Reydi.

A verdade é que os interesses que envolvem atualmente a produção arquitetônica carioca diferem substancialmente daqueles que condicionaram os projetos citados. O modelo consumista, que vem condenando à obsolescência diversos prédios e bairros importantes do Rio, precisa ser revisto para evitar que a cidade continue sendo tratada como um bem descartável qualquer. Para reverter esse processo é imprescindível evitar a vulgarização da arquitetura que vem sobressaindo nos últimos anos.

Neste momento histórico em que se vislumbra a retomada do desenvolvimento econômico do Rio, não se pode mais submeter a cidade a certos modismos arquitetônicos caricatos que comprometem irremediavelmente a sua paisagem urbana e natural. Para se contrapor a essa tendência é necessário investir na formação acadêmica e profissional dos arquitetos e promover uma reflexão crítica sobre o amplo repertório arquitetônico e urbanístico divulgado no Brasil e no exterior. Somente a partir de uma base conceitual sólida é que poderemos convencer o empresariado e o poder público da necessidade de realizar concursos de projetos para se extrair, como resultado, uma arquitetura efetivamente de qualidade.

LUIZ FERNANDO JANOT é arquiteto urbanista e professor da FAU-UFRJ.

BRAZIU: O PUTEIRO

UMBERTO CORDANI

Deslizamentos e inundações - o que fazer?

UMBERTO CORDANI 

 O Estado de S.Paulo - 19/02/11

As tragédias do Estado do Rio de Janeiro ainda ecoam. Muito se fala sobre fatalidade, vulnerabilidade, falta de medidas preventivas e falta de alertas. Todos os anos os mesmos desastres se repetem. O que fazer?

No Brasil não ocorrem os desastres naturais que mais vítimas fazem no mundo. Não há terremotos, vulcões, tsunamis nem ciclones tropicais. Por outro lado, nossos flagelos são as inundações e os deslizamentos de terra, que voltam a ocorrer todo ano. Para ambos a causa é climática, as chuvas sazonais de verão. Não há como brecar a chuva e, consequentemente, não podem ser evitados os fenômenos da dinâmica da superfície da Terra que a ela se associam. Trata-se dos processos de erosão, sedimentação, alteração de rochas e formação dos solos, bem conhecidos dos profissionais de Ciências da Terra.

Como todo mundo sabe, inundações ocorrem como estágio evolutivo anual de qualquer rio, quando ele se alarga e ocupa a sua várzea, cujo nome técnico é o de "planície de inundação", denominação, aliás, bem sugestiva. Por sua vez, deslizamentos de terra são fenômenos normais do processo erosivo, que ocorrem sempre que existir relevo abrupto, formado por rochas alteradas, capeadas, por sua vez, por solo inconsolidado.

Pelo exposto, não há como impedir inundações e deslizamentos. Entretanto, eles podem deixar de ser desastres, se medidas preventivas forem tomadas a tempo. Ou seja, muitas perdas de vida poderão ser evitadas e os danos materiais poderão ser muito menores. O fatalismo associado a desastres naturais não é mais aceitável. Não se pode confiar na sorte, nas áreas de risco geológico conhecido, para depois ter de tomar medidas de remediação após as prenunciadas tragédias.

No Brasil, inundações periódicas ocorrem normalmente, não só ao longo dos rios, mas também nas zonas urbanas, como é o caso de São Paulo, sempre que a capacidade de escoamento é superada pela quantidade da água alimentadora. Apesar de trazerem enormes perdas materiais, as inundações não provocam grande número de vítimas, visto que normalmente há tempo suficiente para que as populações afetadas busquem abrigo em lugares seguros. Além disso, o competente sistema meteorológico brasileiro tem conhecimento das chuvas em tempo real e há controle das maiores drenagens, de modo que não haveria maiores dificuldades para implementar sistemas adequados de alerta para todo o território nacional.

Por outro lado, esse não é o caso dos deslizamentos de terra, maiores responsáveis pela perda de dezenas ou centenas de vidas em todos os verões, como no presente, em que cerca de mil vítimas foram contadas na região serrana do Estado do Rio de Janeiro.

Para prevenir deslizamentos ou mitigar os seus danos, não são suficientes o conhecimento meteorológico e a previsão de chuvas em qualquer escala de tempo. É necessário conhecer com propriedade as condicionantes geológicas locais das regiões com relevo importante. Tipos de rocha, de solos, inclinação das vertentes, características de alteração das rochas, etc. Entre outros, esses indicadores estão inseridos nas "cartas geotécnicas", elaboradas por meio de mapeamentos de detalhe por profissionais competentes em Geologia de Engenharia. Elas dão os elementos necessários ao planejamento de municípios quanto ao zoneamento urbano, tipos de ocupação, uso da terra, etc. e se constituem em ferramentas de caráter preventivo naquelas áreas sujeitas a desastres naturais. Infelizmente, em nosso país, poucos municípios as possuem.

Em todas as grandes cidades brasileiras - e os casos mais emblemáticos são os de São Paulo e do Rio de Janeiro -, áreas sujeitas a inundações e deslizamentos são ocupadas, muitas vezes clandestinamente, por moradores de baixa renda. É penoso constatar que as autoridades municipais responsáveis não conseguem coibir esses assentamentos, apesar das tragédias anunciadas. O que fazer? Diante do fait accompli, é imperioso remover, imediatamente, para áreas seguras moradores que vivem em áreas de grande risco. Por outro lado, medidas de reurbanização progressiva têm de ser planejadas para remover, a médio prazo, as demais comunidades vulneráveis, que ao mesmo tempo têm de receber instruções de prevenção. Em última análise, todos os municípios sujeitos a desastres naturais precisam implantar uma regulação técnica adequada ao crescimento populacional, controlando o processo de urbanização e organizando a Defesa Civil em razão do tipo de risco e das características do meio físico ocupado.

O novo ministro da Ciência e Tecnologia, corretamente, pretende criar condições para implantar no País a cultura de prevenção, preparação e alerta para desastres naturais. Pelas primeiras manifestações do Ministério, parece que os principais planos são os de melhorar a precisão das previsões meteorológicas e de implantar sistemas de alerta em todo o território nacional. Seguramente, isso poderá melhorar a prevenção e a mitigação dos danos causados pelas inundações. Entretanto, para os desastres mais agudos, mais contundentes relacionados com deslizamentos de terra, de pouco adiantará ter computadores mais potentes, radares meteorológicos mais precisos e uma quantidade colossal de sirenes. As condicionantes geológicas locais são os parâmetros mais importantes para poder antever, com alguma probabilidade, a ocorrência de deslizamentos de terra em lugares críticos. Cartas geotécnicas são indispensáveis e os recursos atuais de conhecimento e capacidade técnica da Geologia de Engenharia brasileira estão entre os mais respeitados do mundo.

Que o Ministério da Ciência e Tecnologia não deixe de utilizar essas áreas de competência.

DIRETOR DO INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

RONALDO DE BREYNE SALVAGNI


Precisamos mesmo de mais engenheiros?

RONALDO DE BREYNE SALVAGNI

O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/02/11

Os noticiários têm destacado a falta de engenheiros no País. Enquanto a China forma 400 mil engenheiros por ano e a Índia uns 300 mil, formamos menos de 40 mil. Nossos dirigentes e líderes falam em PACs e concluem que nos faltam engenheiros. Mesmo que não levemos em conta a diferença de população, será mesmo verdade? Será que não estão faltando apenas técnicos um pouco mais qualificados e administradores mais competentes?

A atividade fundamental do engenheiro é o projeto de novos produtos ou processos. Num segundo nível, ele atua também na operação - obra ou chão de fábrica - para fiscalizar ou resolver imprevistos. A engenharia tem que ver com projeto, o que significa tecnologia, inovação, know-how, patentes, conhecimento próprio e independência. No Brasil, com raras e honrosas exceções, empresas apenas fabricam ou montam produtos aqui. O projeto e a tecnologia vêm de fora, empregamos nossos engenheiros só na operação, geralmente em funções que técnicos mais bem treinados ou administradores capazes poderiam desempenhar.

No setor automotivo, por exemplo, que está batendo recordes de produção e vendas (perto de 4 milhões de veículos, em 2010), o Brasil tem 25 montadoras e 500 fornecedores de autopeças, segundo a Anfavea. Algumas dessas empresas desenvolvem projetos aqui, mas a maioria apenas fabrica (eventualmente, com pequenas adaptações) ou importa peças, e monta os veículos no Brasil, com projeto e tecnologia estrangeiros. A Zona Franca de Manaus é um exemplo acabado da "indústria" de simples montagem de kits importados (os CKDs), mas que recebem o selinho de "indústria brasileira" (!).

Diz-se que o problema brasileiro está no cumprimento de prazos e qualidade. Isso, entretanto, não é problema de engenharia, é mais de administração. Engenheiros costumam assumir a administração no País, mas isso é "desvio de função". Empresas querem engenheiros com "capacidade de liderança", "formação multidisciplinar", "iniciativa e espírito de competição", isso é, um super-homem com profundos conhecimentos técnicos e, além disso, um administrador extremamente competente. Como formar esse "administrador de luxo" em cinco anos de curso? Isso não acontece em países civilizados. Lá se formam engenheiros competentes, em engenharia, e administradores competentes, em administração.

Por paradoxal que pareça, um dos empecilhos ao desenvolvimento nacional é a política industrial, simplista e obsoleta, de substituição de importações, adotada recorrentemente por sucessivos governos. Isso só leva ao protecionismo e à estagnação do desenvolvimento local. A China (ver New York Times, http://nyti.ms/dL2zp3) e a Coreia do Sul, ao contrário, adotaram a política de produção industrial voltada para a exportação, expondo suas indústrias à competição internacional e forçando seu desenvolvimento de forma fantástica. A estratégia sadia e correta não é impedir empresas estrangeiras de virem aqui competir com as nossas. O certo seria incentivar e apoiar empresas brasileiras para competirem com (e ganharem das) estrangeiras na arena global.

O Brasil tem se destacado em pesquisa científica, com crescente produção de papers, estando agora entre os 15 países mais produtivos. Porém sua produção tecnológica é quase zero, insignificante. Isso implica total dependência de tecnologia estrangeira. Aqui, as universidades só fazem pesquisas acadêmicas. Novamente com raras e honrosas exceções, empresas não fazem pesquisa nem projeto no Brasil - multinacionais, porque fazem isso na matriz, e nacionais, porque não fazem mesmo, apenas compram ou licenciam projetos no exterior.

Não tem havido a noção de que tecnologia própria é estratégica para o País. Se o Brasil quiser ocupar um espaço real no cenário global, precisa ter independência tecnológica. Não precisa propriamente de mais engenheiros. Precisa é de empresas nacionais que precisam realmente de engenheiros. Aí sim, eles vão faltar, sem dúvida.

GOSTOSA

WANDERLEY MESSIAS DA COSTA

O colapso do Enem não é acidental
WANDERLEY MESSIAS DA COSTA

O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/02/11

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi criado pelo Ministério da Educação (MEC) há pouco mais de uma década para avaliação anual de desempenho de alunos e escolas do País, a exemplo do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, do Exame Nacional de Desempenho do Estudante e das avaliações trienais dos cursos de pós-graduação conduzidas pela Capes. Sob esse aspecto, estamos ajustados à atual tendência internacional em que governos de países ricos (como os EUA) ou emergentes (como o Brasil) lutam para reverter o declínio da qualidade da educação dos seus sistemas públicos e fazem uso intensivo de avaliações nacionais para subsidiar políticas no setor.

O que os resultados do Enem têm revelado sobre o nosso ensino médio? Basicamente, o de sempre. Excelente desempenho dos alunos das escolas privadas mais caras e níveis muito baixos de qualidade do sistema público, com as exceções de praxe, casos de alguns estabelecimentos tradicionais de prestígio, escolas militares e escolas técnicas. Em suma, um instrumento de avaliação que se tem limitado a apontar a cada ano os males de um sistema que padece de grave crise e sobre o qual o governo federal tem reduzido poder de interferência, pois o ensino médio do País é basicamente da responsabilidade dos governos estaduais. Além do mais, está demonstrado que a prioridade do governo federal nos últimos anos tem sido a ampliação da oferta de vagas no ensino superior, expressa nos pesados investimentos nas universidades federais e no programa de bolsas em instituições privadas.

Há dois anos o MEC decidiu introduzir ajustes no Enem e, na prática, acoplou o ensino médio ao ensino superior - este sob seu controle -, transformando-o em exame nacional unificado com a ambição de substituir os vestibulares até então descentralizados das universidades públicas federais. Um argumento então utilizado e exposto em documento na ocasião é que esse novo sistema, baseado na aplicação de uma única prova, propiciaria uma "racionalização da disputa por essas vagas, de forma a democratizar a participação nos processos de seleção para vagas em diferentes regiões do País". Outro argumento defende a adoção de exame nacional que seja ao mesmo tempo unificado, sofisticado e inovador e que tivesse o poder de reduzir a "influência dos vestibulares tradicionais nos conteúdos ministrados no ensino médio". Por essa estratégia, tratava-se ao cabo de delegar às universidades federais o papel de "protagonistas no processo de repensar o ensino médio" do País. E é sob a batuta do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC que ali se intitula detentor de "absoluto know how para conduzir com sucesso esse processo", que nossos milhões de jovens vestibulandos são instados a participar desse novo e grandioso sistema de seleção.

O que nos ensinam as experiências de 2009 e 2010 com esse Enem renovado? Primeiro, que a adesão das universidades federais não correspondeu às expectativas iniciais e, apesar da sua reduzida autonomia (administrativa e financeira) e do esforço de convencimento do MEC, parte delas reluta em substituir integralmente seus vestibulares pelo exame unificado. Segundo, a análise das duas provas aplicadas revela que, apesar da metodologia expressa nos seus cinco complexos "eixos cognitivos", há dúvidas sobre sua propalada inovação para aferir conhecimentos, e colegas da academia as veem como convencionais. Há até os que avaliam que elas têm qualidade geral inferior à dos exames vestibulares das melhores universidades do País. Terceiro, que inexistem indicadores seguros de que tenha ocorrido de fato a almejada "migração interna" de candidatos das regiões pobres para as ricas, ou vice-versa. Afinal, apesar do vistoso programa de assistência estudantil criado às pressas no ano passado, as universidades federais em sua maioria não dispõem de moradias e sistemas de apoio suficientes e, portanto, é remota a possibilidade de que estudantes carentes de regiões distantes tenham condições, por exemplo, de estudar em instituições das grandes metrópoles do Sudeste.

Por último, e mais grave, a sucessão de desastres na sua execução. Em 2009 o País assistiu perplexo à descoberta da escandalosa fraude com o vazamento e a tentativa de venda da prova, o que levou à anulação do certame. Concluído o novo exame, milhares de estudantes não conseguiram acessar o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para fazer as suas inscrições nos cursos de sua preferência e para os quais foram aprovados. Na edição de 2010, cerca de 20 mil alunos foram eliminados porque havia discrepâncias entre provas e gabaritos e, após batalha judicial, foi oferecido às vítimas aplicação de nova prova. Apurados os resultados finais, novamente o sistema eletrônico central entrou em colapso, naufragou diante dos mais de 4 milhões de inscritos e, mais uma vez, muitos dos aprovados não conseguiram efetivar suas inscrições e matrículas. Existem ainda hoje milhares de vagas não preenchidas e é incerto o desfecho de toda essa confusão.

Em síntese, está comprovado que ambições excessivas nessa área, ainda que ancoradas em concepções e premissas inovadoras, pecam no mais das vezes por ignorar o que é evidente para a maioria dos cidadãos, e esse é o caso do atual Enem. Veja-se a logística precária. Apenas 1/3 das famílias do País dispõem de computadores, as infovias são limitadas e sempre congestionadas e os servidores centrais de modo geral são incapazes de suportar demandas concentradas. Além disso, como assegurar a lisura de grandes exames nacionais num país em que concursos públicos são sistematicamente fraudados, como os da Polícia Federal, Abin, Receita Federal, Polícia Rodoviária e os da OAB?

*WANDERLEY MESSIAS DA COSTA PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DA USP, AUTOR DE CINCO LIVROS, É UM DOS IDEALIZADORES DO CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA AMAZÔNIA

CLÁUDIO HUMBERTO

Protógenes vai se casar com neta de banqueiro


O delegado e deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), chefe da Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas, deve ser casar com Roberta Luchsinger, herdeira do banco Credite Suisse. Ela é neta do banqueiro Peter Paul Arnold Luchsinger, que já teria abençoado a união. Em processo de separação de sua primeira mulher, Queiroz conheceu a noiva durante sua campanha eleitoral.

NADA MAL... 
O banco Credit Suisse, da futura mulher de Protógenes, emprega 48 mil pessoas e teve lucro de 7,8 bilhões de francos suíços, em 2010. 

JÚNIOR A CAMINHO 
A noiva de Protógenes estaria grávida, segundo apurou o repórter Sergio Pardellas, de IstoÉ, mas a família ainda não confirma.

RODA E AVISA 
O Planalto reservou R$ 126,2 mil para abastecer seis carros dos seguranças de Dilma e parentes do escritório em Porto Alegre (RS).

TRABALHO ESCRAVO 
O deputado Claudio Puty (PT-PA) está colhendo assinaturas para instalar uma CPI sobre o trabalho escravo na Câmara.

LÍDERES DA CÂMARA PRIORIZAM O CÓDIGO FLORESTAL 
O presidente da Câmara, deputado Marco Maia (RS), e os líderes do PT, Paulo Teixeira (SP), e do governo, Cândido Vaccarezza (SP), assumiram compromisso com a bancada ruralista de votar ainda no primeiro semestre o relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) sobre a lei do Código Florestal. Em reuniões fechadas, Marco Maia tem dito ser favorável à proposta e que não aceitará projeto substitutivo.

PÕE NA CONTA 
Acertado no governo do “cara”, o Ministério da Saúde doou US$ 7 milhões para o Haiti comprar vacinas e equipamentos médicos. 

TAPETE VOADOR 
Somente foram entregues estes dias os tapetes novos que seriam usados na rampa do Congresso, para a posse da presidente Dilma. 

VELHOS DE GUERRA 
Mais uma sigla quer dividir a carga da “feliz idade”: o Partido dos Pensionistas e Idosos do Brasil tenta o registro na Justiça Eleitoral. 

LULAZINHO TRINTA 
O escritor e novelista Aguinaldo Silva perguntou ontem no Twitter se em vez de uma mansão aristocrática no Rio, não seria mais apropriado o Instituto Lula no ABC paulista. E concluiu: “É como dizia Joãozinho Trinta: pobre gosta de luxo...”. Lula poderia poupar nosso bolso dessa.

MINISTRA LUCIANA 
Advogada eleitoralista muito admirada em Brasília, Luciana Lossio foi incluída pelo Supremo Tribunal Federal, onde seu fã-clube é enorme, na lista tríplice para a vaga de ministro do Tribunal Superior Eleitoral.

BARRIGA CHEIA 
No Brasil, uma democracia onde ninguém protesta, o salário mínimo é de R$ 545. Na ditadura da Líbia, onde o pau está quebrando, a renda per capita supera a brasileira. 

QUE LULA? 
Uma multidão foi ontem à agora célebre praça Tahir, no Cairo, lembrar uma semana da queda do ditador do Egito, Hosni Murabarak. Lula saiu há dois meses e não
apareceu ninguém nem na Praça é Nossa.

ELE É ASSIM 
O ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal, almoçou ontem no modesto restaurante “Traíra sem Espinha”, na Vila Planalto, em Brasília. Sem seguranças, carro oficial, mordomias, nada.

BYE, BYE 
Solange Vieira não deseja ser reconduzida à presidência da Agência Nacional de Aviação Civil, em 15 de março, ao final do seu mandato. Não foi convidada a ficar, tampouco aceitaria: é contra a recondução.

BAFAFÁ JURÍDICO-DOMÉSTICO... 
O episódio parece contornado, após a vítima, uma juíza, levar dois bofetões do marido, um advogado, durante o jantar da Associação dos Magistrados do Rio de Janeiro, sexta (11), no iate Pink Fleet, do bilionário Eike Batista. Ela ameaçou com a Lei Maria da Penha. 

...CONSTRANGE MAGISTRADOS 
Enciumado, o advogado só parou após intervenção dos colegas. Esbofeteou a mulher a meio metro da mesa do presidente da Amaerj, desembagador Antonio Siqueira. O homenageado, ex-presidente do TJ Luiz Zveiter, também estava muito próximo.

PENSANDO BEM... 
...Lula poderia ser o mediador da crise. Bastava pagar o chope no Barhein. 

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“O partido [PMDB] é governo e por isso votou com o governo”
VICE MICHEL TEMER CELEBRANDO OS 100% DE VOTOS DO PMDB AO SALÁRIO MÍNIMO DE R$ 545

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PODER SEM PUDOR 
PICOLÉ DA ESTRADA 
Ainda embevecidos com uma homenagem em Mossoró ao vice-governador do Rio Grande do Norte, Fernando Freire, deputados deram uma paradinha num restaurante de estrada para forrar a barriga. Tarde da noite, foram recebidos por um garçom alto e forte, que lhes exibiu o cardápio de comidas típicas. O deputado Nelson Freire tentou quebrar o gelo e se deu mal:
– O que se come aqui, fora o garçom?
O homem devolveu na bucha, com cara fechada:
– Garçom, aqui, não se come. Se chupa....

BRAZIU: O PUTEIRO

SÁBADO NOS JORNAIS

Globo: Regimes ampliam repressão a onda de protestos pós-Egito
Folha: País tem 17% dos docentes com estudo insuficiente
Estadão: Protestos são reprimidos a tiros na Líbia e no Bahrein
Correio: MP defende venda de inibidores de apetite
Estado de Minas: Filé e picanha perdem espaço para avestruz
Jornal do Commercio: Itacuruba indicada para usina nuclear
Zero Hora: Detran adota modelo de blitz carioca para fazer valer a Lei Seca