terça-feira, fevereiro 15, 2011

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Concorrência derrubou preços de passagens aéreas em Campinas
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/11

O aumento da concorrência em Campinas alterou os preços das passagens aéreas depois da entrada da Azul na disputa.
A chegada da empresa no aeroporto de Viracopos, em dezembro de 2008, fez despencar o valor cobrado pelos bilhetes.
Antes da Azul, TAM e Gol cobravam R$ 329 e R$ 299, respectivamente, para voar de Campinas para Curitiba, Belo Horizonte ou Rio de Janeiro (Galeão).
Dois anos depois, a passagem para o Galeão custa R$ 155 na TAM, R$ 189 na Gol e R$ 149 na Azul.
Para Belo Horizonte, o passageiro paga hoje R$ 199 para voar por Azul ou Gol, e R$ 293 para voar pela TAM.
Para Curitiba, são pagos R$ 408 na TAM, e R$ 159 para voar de Gol ou de Azul.
Os três são alguns dos destinos operados por TAM e Gol a partir Campinas sem escalas ou conexões. A Gol opera para Salvador, Brasília, Porto Alegre e Recife.
Os valores das tarifas foram coletados pelo sistema da Azul e se referem a compras feitas sem antecedência. Quando a compra é feita antecipadamente, os preços podem ser mais baixos.
O número de passageiros embarcados em Viracopos chegou a aproximadamente 5 milhões em 2010. Dois anos antes era cerca de 1 milhão.

LASER

O grupo alemão Trumpf, fabricante de máquinas e ferramentas para processamento flexível de chapas metálicas com uso de laser, planeja aumentar a participação de sua operação brasileira, um dos mercados de maior crescimento para a companhia.
A meta é dobrar o faturamento no Brasil nos próximos três anos, segundo Nicola Leibinger-Kammüller, presidente mundial do grupo, que fez sua primeira visita ao Brasil nos últimos dias.
Após a crise, as vendas totais do grupo caíram para 1,34 bilhão no último ano fiscal, encerrado em junho.
Para o próximo é esperada alta de 20%. A ideia é aproveitar a demanda crescente no Brasil por ferro e chapas metálicas para a infraestrutura. Os mercados de Rio e Recife, devido aos portos, são o foco no curto prazo.
O setor automotivo, de máquinas e implementos agrícolas, tratores e escavadeiras são, atualmente, os principais nichos de atuação da subsidiária brasileira.

SMARTPHONES EM ALTA

O aumento nas vendas de smartphones foi o principal destaque do setor no ano passado, segundo estudo da consultoria Nielsen.
A comercialização desse tipo de aparelho cresceu 279% em relação a 2009.
Mesmo com a alta, a participação dos smartphones sobre o total de celulares vendidos em 2010 foi de 3,4%.
Os líderes do mercado são os aparelhos com rádio, câmera e MP3, responsáveis por 96% das vendas no país, de acordo com a Nielsen.
O aumento das vendas desses modelos ficou entre 121% e 166% ante 2009.
Na soma de todas as categorias, o crescimento nas compras de celular no Brasil foi de 101%.
Além dos smartphones, os aparelhos com função de TV Digital foram outro destaque.
A realização da Copa do Mundo está relacionada com o aumento desse setor, já que as vendas ficaram concentradas em junho e dezembro, segundo a Nielsen.
Apesar de o preço desses aparelhos ser 197% superior à média da categoria, a sua participação no mercado chegou a 2,75% em 2010.

PIPOCA

O estúdio canadense Imarion, de efeitos visuais e animação, foi comprado pelo produtor de cinema e TV Roberto d'Avila e pelos empresários Percival Palesel e Effi Wisen.
A compra foi concluída em dezembro, após oito meses de negociação.
Através da Imarion, os investidores querem viabilizar coproduções Brasil-Canadá de filmes em 3D. A primeira é um longa metragem orçado em R$ 9 milhões, com lançamento em 2012.
O estúdio fará filmes voltados também para o mercado norte-americano. "A nossa ideia é ter como canal de distribuição os Estados Unidos", diz Palesel.
A Imarion pretende, ainda, fazer efeitos visuais para filmes de outras produtoras e para publicidade.
"Queremos aumentar o faturamento a partir de uma base complexa de clientes", diz D'Avila, que produziu o filme "Ilha Rá-Tim-Bum" com a TV Cultura e Warner.

Internacional 
A Future Group, agência de mobile marketing, abrirá no México sua primeira unidade no exterior. O novo escritório já tem clientes dos setores bancário, de bebidas e eletrônico. A companhia teve faturamento de R$ 70 milhões em 2010.

Encontro 
Começa hoje em São Paulo a 12ª edição do CEO Conference, organizado pelo BTG Pactual. O evento reunirá mais de 3.000 participantes de 136 companhias de capital aberto do Brasil.

Adão... 
O Terminal Portuário de Navegantes (SC) quer exportar mais de 2.000 contêineres de maçãs neste ano. A Europa é o principal destino.

... e Eva 
Em 2010, o terminal enviou 71% das maçãs exportadas por portos do Estado, o maior produtor do país.

Carnaval 
O volume movimentado pela compra de bebidas e fantasias infantis durante o feriado deve crescer 15% neste ano ante 2010, segundo o supermercado Extra.

Copa... 
O economista Ian McKee, um dos responsáveis pela certificação LEED Platinum para o Estádio Nacional de Brasília, vai participar de palestra na feira Feicon Batimat, dia 18 de março, em SP.

...verde 
A certificação coloca o empreendimento de R$ 696 milhões entre os estádios mais sustentáveis do mundo.


com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION, ANDRÉA MACIEL e MARIANA BARBOSA

SANDRA CAVALCANTI

Deslizes das naturezas

Sandra Cavalcanti 

O Estado de S.Paulo - 15/02/11

Costumo começar meu dia rezando uma linda oração de São Patrício, padroeiro da brava Irlanda. Ela diz assim: "Meu Deus, dê-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar o que eu puder e sabedoria para perceber a diferença".

Fui educada prestando atenção ao mundo à minha volta: criaturas racionais e criaturas irracionais. Naturezas criadas por Deus: a nossa e a outra. Bem distintas,, aliás. A nossa, a humana, tem consciência de si, capacidade de raciocinar, criar e decidir. Nosso mais precioso dom é a liberdade. A outra natureza não tem nenhuma dessas características. Nossa liberdade de decidir gera responsabilidades. Uma delas não vem sendo levada a sério: a de não estragar a obra do Criador. Respeitar a natureza, vegetal, animal, mineral. Proteger as águas. Defender, e sustentar, tudo o que foi criado para garantir a nossa presença no planeta. É o legado que o Criador confiou aos nossos cuidados.

Tão grave quanto matar, roubar, mentir, praticar crueldades é agredir, devastar e desrespeitar essa outra natureza, da qual dependemos para sobreviver. Nosso planeta, nossas terras, nossos ares, nossas águas, nossos animais, nossos alimentos.

Infelizmente, porém, a natureza humana sucumbe muitas vezes diante de suas próprias fraquezas. Nós mesmos criamos nossas calamidades. Nós mesmos, agredindo a outra natureza, provocamos nela as catástrofes que desabam sobre nós.

O meio ambiente não tem como se defender. Um gato será sempre um gato. Uma trepadeira não muda seu destino. Os rios correm sempre em busca do desaguadouro, não sobem colinas e montanhas. As chuvas formam-se sempre pelo mesmo processo e seguem, inexoravelmente, as regras ditadas pela Terra e pelo Sol. É claro que, em muitos casos, alguns desses clamorosos desastres não dependem da ação dos humanos. Terremotos, maremotos, tsunamis, tufões, tornados, geleiras, icebergs, tudo isso não depende da ação do homem.

Mas o conhecimento das tragédias naturais, bem estudado e bem divulgado, pode ajudar muito na hora de se proteger. Providências podem ser tomadas. Defesas podem ser erguidas. Bens podem ser resguardados. As autoridades devem ter meios para impedir que vilas se instalem em áreas vulcânicas, cidades cresçam perigosamente à beira-mar, estradas sejam erradamente projetadas, favelas se multipliquem no cocuruto ou nas encostas de morros geologicamente inseguros ou às margens de rios, cujos níveis sobem sempre, assustadoramente, nas épocas de chuvas.

Todos os anos, em vários países, no auge da seca, incêndios devastam tudo morro acima e torrentes destroem tudo morro abaixo, na época chuvosa. Em muitos deles há todo um programa de enfrentamento. As providencias já estão todas a postos e as pessoas estão treinadas. Se as pessoas forem previdentes, e se prepararem bem, os sofrimentos serão menores. Em pleno século 21, é inadmissível que nossas grandes metrópoles ainda vivam à mercê de chuvas de verão! É criminosa a leniência das autoridades diante dessas catástrofes anunciadas. As torrentes devastadoras nas serras do Rio de Janeiro estão registradas, fartamente, em livros e documentos, desde os primórdios de nossa colonização. Continuarão a ser problema insolúvel?

Em 1960, quando Carlos Lacerda assumiu o governo do Estado da Guanabara, o Rio sofria com vários problemas até então insolúveis. Ele listou os desafios como suas principais metas. Acabar com a falta d"água que, por quatro décadas, atormentava a vida dos cariocas. Acabar com a fila de pais e mães, madrugada adentro, para matricular os filhos na rede pública de ensino. Acabar com as enchentes, já nas primeiras chuvas de verão. Retirar das áreas de risco a população favelada. Retirar das áreas de mata atlântica as edificações instaladas contra a legislação.

Para isso Lacerda criou a Cohab. Providenciou recursos e poderes para os geólogos da Sursan mapearem as áreas de risco da cidade. Construiu novas redes de esgotos e galerias pluviais. Criou a Comlurb, que até hoje é a mais moderna e ágil empresa de coleta do lixo e limpeza urbana do País.

Cinco anos depois, quando Carlos Lacerda deixou o governo, não faltava mais água em todo o Estado da Guanabara. O sistema do Guandu foi considerado, no livro Guinness de 2009, a "maior obra de engenharia de captação, tratamento e distribuição de água do século 20". Todos os rios e canais estavam limpos e desassoreados. Mais de 25 mil ex-favelados já estavam morando em bairros ótimos, na Vila Aliança, na Vila Kennedy e na Vila Esperança. Os morros, liberados, devidamente reflorestados.

Para azar nosso, administrações que vieram depois conseguiram a façanha de convencer a opinião pública de que é maldade retirar favelados de áreas de risco! Aqui, e fora daqui, os "coronéis urbanos" morrem de medo de perder seus currais eleitorais... Morador ilegal é matéria-prima preciosa para o populismo e a corrupção. Prova disso tivemos, aqui, em 1983. Usando de total arbítrio, contra todas as leis e posturas municipais, Leonel Brizola autorizou construções de alvenaria em todas as favelas. O exemplo correu o País. Traficantes, milícias e cabos eleitorais adoraram. As consequências foram trágicas. Na natureza humana, cidadelas do crime. Na natureza ambiental, a degradação. O solo, agredido, desmorona. Assoreados, os rios se enfurecem. Aterros e lixões deslizam morro abaixo. A culpa é da natureza, dizem as compungidas autoridades, já correndo atrás de verbas. A lama seca. As lágrimas, talvez. As vidas perdidas não voltam. Mas as próximas eleições municipais já começam a ser assunto. A natureza humana vai, de novo, agredir a outra natureza.

PROFESSORA, JORNALISTA, FOI DEPUTADA FEDERAL CONSTITUINTE, FUNDOU E PRESIDIU O BNH NO GOVERNO CASTELO BRANCO

O PODEROSO CHEFÃO

MERVAL PEREIRA

A rainha imaginária
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 15/02/11
Na galeria de retratos de presidentes no Palácio do Planalto, a foto de Dilma Rousseff é a única colorida, contrastando com as demais, todas de homens em preto e branco. Desde ontem, há também no Planalto um retrato a óleo da presidente, presenteado por Romero Britto, pintor brasileiro que vive nos Estados Unidos, mais especificamente em Miami, que se tornou de uns anos para cá, com seu colorido infantil e estereotipadamente tropical, objeto de desejo de novos-ricos em geral.

A presidente, que se quer "presidenta" para marcar sua singularidade na política brasileira, vai ocupando assim o que o marqueteiro João Santana chamou de "espaço imaginário de uma rainha".

Segundo ele, em entrevista à "Folha de S. Paulo", haveria "na mitologia política e sentimental brasileira uma imensa cadeira vazia" que chama metaforicamente "de cadeira da rainha", e que "poderá ser ocupada por Dilma".

Santana acha que nem mesmo a Princesa Isabel preencheu esse lugar inteiramente.

Num momento em que as mulheres italianas marcham contra o comportamento machista do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, aqui na terra tentam erigir uma imagem endeusada da mulher-presidente.

Mas ainda temos dificuldades com esse poder feminino. Nessa mesma entrevista, João Santana revela que a decisão de fazer a operação plástica foi de Dilma.

E explica: "Como toda mulher, quando se trata de estética, ela gosta de ela mesma tomar iniciativa. Ou pelo menos de pensar que foi dela a decisão."

O sentido é o mesmo da declaração do fotógrafo Antonio Guerreiro na Revista de domingo do GLOBO. O preferido das celebridades dos anos 70 e 80 do século passado, Guerreiro é considerado um especialista em mulheres e contou que uma vez foi procurado pela deputada de esquerda Heloneida Studart para fazer uma foto, e a única exigência era que ficasse "linda".

Comenta Guerreiro: "Toda mulher quer ficar bem na foto".

Além dessa construção imagética, há também a construção política, que quer distanciar o governo Dilma dos problemas trazidos pelos últimos anos do governo Lula.

Como se ela não tivesse nada a ver com o que aconteceu nos anos anteriores, que justificou sua eleição, inclusive os gastos públicos exacerbados dos últimos dois anos.

Tratados como anticíclicos, a maioria desses gastos aconteceram antes de a crise de 2008 estourar, e só foram justificados a posteriori.

Toda a campanha de marketing eleitoral foi baseada justamente na tentativa, que deu certo, de transformar o Gabinete Civil quase em um gabinete presidencial paralelo, para transferir para Dilma os sucessos do governo Lula.

Mas só os sucessos, não os problemas, que hoje afloram, como a inflação quase saindo do controle, o desequilíbrio das contas públicas, o inchaço da máquina federal, o aumento dos juros.

O próprio Santana admite que a situação mais difícil aconteceu quando estourou o caso de tráfico de influência envolvendo a ministra Erenice Guerra, nomeada para o Gabinete Civil por influência de Dilma.

Toda a fantasia que se criara para transformar Dilma em copresidente da República a transformava também em corresponsável pelos escândalos da família Guerra.

O marqueteiro João Santana, aliás, é um dos melhores analistas políticos da cena brasileira, com a vantagem de vivê-la por dentro, e não perde o hábito de jornalista quando relata suas campanhas passadas.

Logo depois da eleição de 2006, em entrevista ao mesmo Fernando Rodrigues da "Folha", revelara que a discussão sobre as privatizações fora utilizada como maneira de reavivar "emoções políticas" no imaginário do brasileiro comum.

Santana admitia na entrevista que a impressão de que "algo obscuro" acontecera nas privatizações deveu-se a um "erro de comunicação do governo FH, que poderia ter vendido o benefício das privatizações de maneira mais clara".

O erro do PSDB fora, segundo ele, "não ter defendido as privatizações como maneira de alcançar o desenvolvimento". No caso da telefonia, "teve um sucesso fabuloso" que não foi capitalizado pela oposição, dizia ele.

João Santana foi claro quando respondeu se não seria desonesto explorar sentimentos que ele sabia não exprimirem a verdade: "Trabalho com o imaginário da população. Numa campanha, trabalhamos com produções simbólicas."

Hoje, a produção simbólica tenta transformar Dilma em uma soberana, acima das divergências partidárias. E transformar a realidade também.

Durante a campanha eleitoral, a candidata Dilma Rousseff garantia, naquela sua maneira rude de falar que anda sumida, pelo sucesso da quase mudez: "Não vou fazer ajuste fiscal em hipótese alguma. O Brasil não precisa de ajuste fiscal."

O "ajuste fiscal" de R$50 bilhões anunciado agora pelo governo, necessário para reequilibrar as contas públicas, não é chamado de "ajuste fiscal", e sim de "consolidação orçamentária".

E assim o novo governo vai seguindo os passos do antecessor, fazendo as inevitáveis maldades nos primeiros momentos, por uma necessidade criada por ele mesmo.

Em 2003, Lula assumiu o governo com a inflação em alta, teve que chamar para chefiar o Banco Central um banqueiro tucano que aumentou os juros sem piedade, tudo pelo pavor que inspirava ao mercado financeiro a eleição daquele revolucionário petista que já não existia mais, mas cuja imagem persistia assombrando os mercados internacionais.

Hoje, os mercados dão de barato que o governo não deixará que a situação saia de controle, e por isso fizeram vistas grossas aos gastos excessivos dos últimos anos, aos déficits de conta corrente, à inflação fugindo do centro da meta em direção ao teto, querendo ultrapassá-lo, principalmente para as classes mais baixas.

Ao conter o aumento real do salário mínimo dentro da regra acertada, a presidente Dilma Rousseff nada mais está fazendo do que tentar tapar os buracos que foram feitos para elegê-la.

É uma dura realidade, cujas consequências não serão superadas com "produções simbólicas" nem "espaços imaginários", com os quais a "rainha" consiga satisfazer seus "súditos".

MÍRIAM LEITÃO


Alimento do mundo

MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 15/02/11
A inflação está na ordem do dia. Nada como no passado, mas o Brasil hoje é mais sensível à elevação de preços. A deste ano é provocada por vários fatores. Há a inflação de alimentos, a de serviços, a provocada por demanda e por excesso de gastos públicos. Alguém tem que recuar e é por isso que se defende que o governo corte gastos.Tudo não cabe no mesmo mercado de consumo.

Uma das teses defendidas com mais frequência ultimamente é que parte dessa inflação é provocada pela alta recorde nos preços das commodities agrícolas, e que a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) teria inclusive provado isso porque seu índice teria chegado ao nível histórico mais alto.

Uma conversa que tive com o diplomata Rubens Ricupero mostra que não é bem assim. Ele acha que tudo é uma questão de base de cálculo. A FAO está comparando o preço atual com o do começo dos anos oitenta, quando houve uma baixa histórica nos preços.

- Se fizermos um cálculo com a média histórica dos 35 anos entre 1945 e 1980, corrigindo pela inflação, vamos constatar que na maioria dos produtos, sobretudo na agricultura tropical, só agora os preços estão se recuperando - disse o ex-ministro.

O economista Fernando Ribeiro, da Funcex, também considera que análises mais longas mostram outros fatos:

- Desde o final dos anos 70 houve uma queda grande de preço das commodities. Nos anos 1990, houve uma recuperação abortada pela crise asiática. De fato, é preciso olhar dados mais longos. O índice de preços de exportação mostra que houve uma perda dos anos 70 até meados dos anos 90. O que impressiona é a rapidez com que as cotações subiram agora. Surpreende mais que a alta continue mesmo depois da crise internacional.

O que é inflação no bolso de quem compra é também valorização dos preços dos produtos que o Brasil exporta. Dois lados da moeda de um produtor líquido de alimentos, como o Brasil. A África poderia ser também um grande fornecedor de commodities agrícolas para o mundo. Se fosse, estaria reduzindo suas necessidades, aproveitando a onda de preços que agora favorece o produtor e, quem sabe, até impedindo a alta forte. Mas o protecionismo, explica Fernando Ribeiro, acabou desestimulando a produção em muitos países:

- Até agora, as forças negociadoras dos grandes países desenvolvidos não estavam interessadas numa regulação que impedisse a volatilidade dos preços.

Ricupero concorda que a interferência indevida dos países ricos nos mecanismos naturais de mercado acabou reduzindo a oferta de alimentos. Hoje, a França quer encontrar formas de impedir a alta dos preços desses produtos e argumenta, em defesa da ideia, que os países pobres da África sofrem porque são importadores líquidos de alimentos. Mas esquece de dizer que foi a política agrícola da própria Europa que acabou destruindo a capacidade produtiva dos países pobres.

- Concordo com o que disse o Fernando e queria dar dois exemplos. A produção africana de tomates é um deles. Houve uma indústria promissora de tomates no Senegal e ela foi completamente dizimada pelo tomate subsidiado produzido por Itália e França. A mesma coisa aconteceu com o algodão. Nos países mais pobres, como Mali, Benin, Burkina Faso, há estrangulamento pela indústria americana subsidiada - disse Ricupero.

O embaixador disse que o Brasil não se deixou contaminar por essa política que sufocou produtores africanos, investiu em tecnologia com a Embrapa e agora está indo para a África com sua tecnologia de produção. A Embrapa já tem dois escritórios lá.

O que Fernando Ribeiro explica é que o mundo vive um problema tipicamente de oferta, que foi desestimulada pelos preços distorcidos pelos subsídios americano e europeu. Agora, esses incentivos estão sendo reduzidos após sucessivas negociações comerciais, mas o que Ricupero teme é que por trás do discurso de um país como a França, que pede regulação no preços das commodities, o que se esconde é o velho protecionismo:

- Vamos continuar aumentando a produção, temos toda a capacidade para isso. O que temos de dizer internacionalmente é: regulação não, porque já temos demais, vamos trabalhar em cima da oferta. Houve um aumento estrutural forte no mercado de alimentos que foi o crescimento da demanda da China e da Índia.

Ricupero, que foi ministro do Meio Ambiente e da Amazônia do governo Itamar Franco, acha perfeitamente possível conciliar aumento da produção com respeito ao meio ambiente. Uma das formas é aumentar a produtividade. Na pecuária, por exemplo, o Brasil pode aumentar a produtividade liberando terra para as plantações. Hoje, parte do desequilíbrio de oferta é causada por problemas climáticos. Ele conta que na crise de 2008 a produção de arroz caiu fortemente por causa da seca na Austrália. O produtor ficou desestimulado porque lá a água é um bem mais caro que a terra, segundo o embaixador.

Para o brasileiro que vai às compras, é difícil entender como um país que está entre os primeiros produtores de uma série de alimentos, como a carne, por exemplo, pode estar enfrentando problema de preços altos. Como a economia é aberta, o produtor vende aqui pelo preço que ele pode exportar, portanto, somos afetados independentemente de quanto o Brasil produza.

Mas este é apenas um dos motivos da inflação. Há dez semanas o Focus vem elevando as previsões da inflação do ano e já se começa a achar que em 2012 o Brasil também não ficará no centro da meta. O governo não convenceu com seu corte de gastos. Tudo leva a crer que a taxa continuará em torno de 6%. O que é muito para os novos padrões brasileiro e mundial.

GOSTOSA

ILIMAR FRANCO

Acerto de contas
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 15/02/11

O governo Dilma desistiu de criar a empresa Brasil 2016, que seria responsável por executar obras e serviços nas Olimpíadas de 2016. A decisão foi tomada em função da austeridade gerada pelo corte de R$50 bilhões no Orçamento. A única estrutura que vai ser criada será a da Autoridade Pública Olímpica, e a responsabilidade por obras e serviços será compartilhada pelos governos federal e estadual (RJ) e pela prefeitura do Rio.

Divididos
A oposição não consegue se unir nem na votação do salário mínimo. Enquanto o grupo do PSDB liderado por José Serra e o PPS defendem R$600, a ala do PSDB dirigida por Aécio Neves e o DEM apoiam que ele seja fixado em R$560.

O distritão é igual jabuticaba. Só existe no Brasil. Nenhum país do mundo adota esse tipo de voto” — Roberto Freire, deputado federal (PE) e presidente do PPS, criticando proposta do vice-presidente Michel Temer e do presidente do PP, senador Francisco Dornelles (RJ) NO BOLSA FAMÍLIA, 1,3 milhão de famílias precisam atualizar seu cadastro até outubro sob pena de ter o benefício bloqueado. No ano passado, 387 mil famílias tiveram o pagamento suspenso por causa disso. 

PROMOVIDO. O embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman, está sendo transferido para a embaixada brasileira de Nova Déli, na Índia.
ESTREIA. O ministro Antonio Palocci apareceu pela primeira vez neste ano no twitter, ontem, no final do dia. “Os primeiros dias do ano têm sido bastante cheios. Bom sinal para o nosso país”, escreveu ele. 

Operação de guerra
Mesmo confiante em uma vitória folgada da proposta de R$545 para o salário mínimo, o governo não quer surpresas. O ministro Luiz Sérgio (Relações Institucionais) vai conversar até quarta-feira com os ministros “políticos”, pedindo que eles controlem suas bancadas. A cobrança tem endereço certo: o ministro Carlos Lupi (Trabalho), do PDT, cuja bancada lidera o movimento a favor da elevação do mínimo para R$560.

Contas
O líder do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), fala em 120 votos a favor do salário mínimo de R$560, mas aliados apostam que a tese terá o apoio de 180 a 200 deputados. No PMDB, esse valor deve ter o apoio de 13 a 18 deputados.

Em campos opostos

O vice Michel Temer está mesmo empenhado em defender o distritão. Amanhã, ele vai se reunir com a bancada do PMDB na Câmara e explicar sua proposta. Se o partido encampá-la, ficará contra o PT, que defende voto em lista fechada.

Movimento Cansei
O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) participa de almoço-debate, dia 21 de março, organizado pelo empresário João Dória, o do Cansei, movimento contra o presidente Lula e o PT. O tema será “Crescimento Sustentável”. 

Ministério do Esporte queria criar empresa
A criação da Empresa Brasileira de Legado Esportivo SA (Brasil 2016) constava de medida provisória enviada pelo expresidente Lula em maio de 2010. Ela foi aprovada pelo Congresso. Já a MP que cria a Autoridade Pública Olímpica ainda não foi votada. Em agosto, o governo Lula editou decreto definindo que a empresa teria um presidente executivo e cinco conselheiros. A criação da empresa foi sugerida pelo ministro Orlando Silva (Esporte). Agora, a presidente Dilma Rousseff, após conversar com o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes, decidiu que não fará as nomeações, inviabilizando a empresa.

CELSO MING

Sarkozy quer intervenção
Celso Ming 
O Estado de S.Paulo - 15/02/11

Sexta e sábado os ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais do Grupo dos 20 (G-20) estarão reunidos em Paris para a segunda reunião preparatória para mudanças na ordem econômica mundial.

Em novembro, a França passou a exercer a presidência rotativa do G-20 e a decisão foi colocar em pauta e, em seguida, em votação propostas altamente polêmicas, como decisões para reduzir os desequilíbrios mundiais, o controle dos preços das commodities, do fluxo de capitais e a criação de uma taxa global sobre as transferências de capital. A falta de perspectiva de acordo não é motivo para redução da mobilização em torno desses programas. Há duas semanas, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Tim Geithner, desembarcou em Brasília com o objetivo de coordenar posições conjuntas entre Estados Unidos e Brasil no G-20. O governo Barack Obama parece temer o excessivo intervencionismo do presidente da França e, em parte, o governo Dilma também quer evitar manobras que prejudiquem os interesses do País.

Uma das ideias de Sarkozy é arrancar mecanismos que passem a controlar a produção de commodities agrícolas de maneira a evitar a elevação dos preços. Ele parte do princípio de que esse mercado é manipulado pelos especuladores, que hoje têm mais bala do que os próprios Estados soberanos para impor os preços e, assim, provocar insegurança.

Estados Unidos e Brasil já se manifestaram contra intervenções no mercado de alimentos, sob o argumento de que, se for bem-sucedido no curto prazo, acabará prejudicando a produção e provocará ainda mais escassez no longo prazo.

A outra proposta é um tanto vaga, mas provavelmente ainda mais intervencionista. Quer identificar os grandes desequilíbrios e definir instrumentos de controle. Esses desequilíbrios podem ser as grandes diferenças entre saldos em contas correntes (cuja maior expressão é o rombo dos Estados Unidos e o grande superávit da China); os sistemas nacionais de poupança e dívidas soberanas (enormes rombos orçamentários, de um lado, como o dos Estados Unidos e da União Europeia, e enormes reservas, de outro, como as da China e do Japão); e o elevado fluxo de capitais. Por enquanto, não há acordo nem mesmo na definição do que sejam os principais desequilíbrios globais.

Sarkozy também embala uma velha proposta da social-democracia europeia, que é a imposição de uma taxa sobre fluxos financeiros internacionais. A ideia original foi do economista James Tobin, que, em 1972, sugeriu a criação de um imposto nos negócios de câmbio que logo ficou conhecida como Taxa Tobin, com o objetivo de coibir a especulação financeira. Para ele, o resultado da arrecadação seria usado no financiamento do desenvolvimento dos países pobres.

Sarkozy parece interessado mais na arrecadação do que na regulação dos mercados financeiros propriamente dita. E é com esse especial apelo que parece pretender arrancar a aprovação dos dirigentes globais: quase todos eles enfrentam uma enorme secura de recursos fiscais, num mundo fortemente atolado nos déficits orçamentários e nas dívidas soberanas, e poderiam finalmente concordar com a adoção da novidade.

O principal problema para Sarkozy é a perda do melhor momento para essas intervenções. Mal ou bem, a crise vai sendo superada e já não há mais a mesma urgência em encontrar saídas.

CONFIRA

Forte avanço

No mês passado cresceram as dúvidas sobre a sustentabilidade do dinamismo da economia da China. Mas os dados do comércio exterior de janeiro foram mais fortes.

O que mais conta

O avanço das importações (mais 51% sobre janeiro de 2010) mostra que os chineses estão ajudando a recuperação da economia mundial. E o das exportações (mais 26%), que continuam crescendo com força.

SEM CONCURSO

ELIANE CANTANHÊDE


Tangos, milongas e tesouras 
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/11
BRASÍLIA - A perspectiva de crescimento baixou de 5,5% para 5%, a inflação de janeiro foi de 0,83%, a maior desde 2005, os juros continuam com tendência de alta e a conta da campanha de Lula, ops!, de Dilma está chegando.
A presidente, pois, não tinha outra saída senão anunciar um corte recorde de R$ 50 bi no Orçamento para tentar manter o trem nos trilhos. Mas isso não é indolor.
Não é minimamente justo nem politicamente correto meter a tesoura em Saúde, Educação e área social em geral. Não convém descaracterizar as obras de infraestrutura, que renderam à candidata o título de "mãe do PAC". E seria pura burrice (com esses apagões todos) cortar na área de energia, que catapultou Dilma para a Casa Civil e enfim para a Presidência.
Adivinha que área (entre outras) será retalhada? Defesa. É esperar para ver. Os caças da FAB não decolam, navios-patrulha da Marinha ficaram à deriva, recrutas e botinas do Exército estão ameaçados.
Na sexta-feira, o ministro Nelson Jobim se reuniu por mais de uma hora com Dilma e com a eminência parda Antonio Palocci. Para desanuviar, deu de presente para a chefe o CD "Tangos & Milongas", com versos de Borges musicados por Piazzolla. Depois, desandaram a falar gauchês e contar "causos".
Foi um aquecimento para o duelo de verdade, que ficou para hoje, quando Jobim senta com Guido Mantega e Miriam Belchior para atirar no Orçamento da Defesa, mas sem estraçalhá-lo. Assim como os demais colegas de ministério, ele está disposto a sofrer calado.
Bem... pelo menos neste primeiro momento, em que o fundamental é o teste de Dilma no Congresso: os cortes das emendas parlamentares e seus efeitos na votação do salário mínimo amanhã e na correção da tabela do IR depois.
Mas, em algum momento, Jobim vai ter que dar satisfação para o seu público interno também. Aí, disco de Piazzolla não cola.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Ótica do vizinho
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/11

Tariq Ali acaba de lançar no Brasil, pela Record, Duelo - livro que faz análise política e profunda sobre seu país natal, o Paquistão. De Londres, onde vive, enviou à coluna algumas considerações sobre a revolta no Egito.

Primeiro ponto: a quem comparou as manifestações no Cairo, que levaram à queda de Mubarak, às do Leste Europeu, em 1989, o escritor e ativista avisa: os movimentos pouco têm em comum. "Na época, o desejo da população era de se unir para ser como o Ocidente, aceitar a sua "civilização"", situa. "O mundo árabe quer é independência e democracia. O que estamos presenciando naquela região é, sim, o equivalente à onda de revoluções na Europa de 1848 (Primavera dos Povos)".

Do vizinho 2

A dimensão da transformação é tão grande que Ali adverte entusiastas para o fato de que só o movimento popular não basta: "As massas egípcias surpreenderam a todos. Contudo, só isso não é
suficiente. É necessário um milagre de organização".

E conclui: "A remoção de Mubarak sozinho, sem quaisquer outras reformas, se resume apenas a um
triunfo político para região".

OscarNa pré-estreia do lançamento de Lixo Extraordinário, na Phillips de Pury, em Londres, Vik Muniz foi surpreendido por dois pedidos: Bill Clinton e príncipe Charles querem cópia do documentário indicado ao Oscar.

Oscar 2

Melissa Leo ganhou coquetel de Michelle Alves na semana passada, em Los Angeles. A top convidou 150 pessoas, dentre eles Amy Adams, para pedir votos para candidata ao Oscar pela sua atuação no filme O Vencedor.

Detalhe: Melissa e Amy concorrem na mesma categoria e pelo mesmo filme.

Se a moda pega...

Uma fiel comprou "toalha milagrosa", vendida pela Igreja Mundial do Poder de Deus. Animada, a moça comeu pedaço do tecido e se disse curada.

Ouvindo o testemunho, Valdemiro Santiago, fundador da igreja, alertou: "Se virar moda, tem muitos que não vão almoçar outra coisa", segundo site da IMPD. Mas não explicou que comer pano pode fazer mal à saúde.

Bola na área

Nem bem aposentou as chuteiras e Ronaldo pode abraçar mais uma profissão: a de comentarista de futebol. Band, Record e Globo estão de olho no seu passe.

Na Globo, pelo que se apurou, ele poderia ocupar a vaga de Falcão, que não deve renovar seu contrato com a emissora.

Espaço na terra

Nada ainda sobre novos aeroportos. Mas a iniciativa privada avança e faz sua parte.

Para tanto, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa assinaram a compra de terreno em Caieiras.

Detalhe positivo
Na Aeronáutica já se nota um esforço para fazer economia nos voos oficiais.

Domingo retrasado, embarcaram no mesmo voo para Brasília Antonio Palocci, Guido Mantega, Fernando Haddad e José Eduardo Cardozo.

Os ministros têm, legalmente, a prerrogativa de voarem solo.

A despeitoQuem conversou fim de semana com Kassab afirma que o prefeito já se decidiu: para o PMDB ele não vai.

Na frente

Karen Berg, mãe de Yehuda Berg, do Kabbalah Center, chega ao Brasil essa semana. Além de palestras, deve se encontrar com Marina Lima e Ronaldo, cuja mulher, é frequentadora assídua do centro

Mario Prata prepara a reedição de Diário de um Magro. Com cortes mínimos e pequenos acréscimos. Mês que vem pela editora Planeta.

A Daslu organiza desfile da coleção de inverno 2011. Hoje, na Villa Daslu.

Ney Matogrosso lança o DVD Beijo Bandido. Com show no HSBC Brasil, dia 18.

Denis Kozukhin, pianista russo, virá ao país em março. O moço de 24 anos fará recitais na Sala São Paulo.

A mostra Revolução na Fotografia, de Aleksandr Ródtchenko, organizada pelo Moscow House of Photography Museum, será aberta dia 19. Na Pinacoteca do Estado.

Sábado, perdidas no trânsito, duas jovens pediram informação a policiais que estavam em uma viatura em Interlagos. Eles se ofereceram para escoltar as meninas até o endereço procurado com uma condição: que elas... dessem seus números de telefone.

GOSTOSA

ALEXANDRE BARROS

Os direitos dos brasileiros no exterior

Alexandre Barros 

O Estado de S.Paulo - 15/02/11

Recentemente a presidente Dilma Rousseff determinou ao ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, a revisão da política de direitos humanos do governo brasileiro. A providência veio em boa hora. O governo passado escorregou no apoio aos direitos humanos pelo mundo. Seja em Cuba, por um antiamericanismo atávico herdado dos tempos da ditadura militar, seja no Irã, por um cálculo que só a História provará se estava certo ou errado. Ele considerou que era importante defender as pretensões nucleares iranianas como um habeas corpus preventivo em relação à postura brasileira vis-à-vis o poder nuclear.

Explico. Apesar da retórica oficial, o Brasil vem desenvolvendo um programa nuclear que, quase seguramente, nos próximos 10 a 20 anos, colocará o Brasil numa situação internacional semelhante à do Irã hoje: enfrentando oposição das potências nucleares em relação às suas ambições.

Não foi acidente que o aliado brasileiro neste caso foi a Turquia, distante e pouco conhecida do Brasil, mas que tem no cenário internacional uma posição semelhante à brasileira: tem ambições nucleares.

No fundo, Brasil e Turquia quiseram garantir, com a oferta de mediação entre o Irã e os Estados Unidos, um aliado potencial para enfrentar no futuro a oposição que deve ocorrer às políticas nucleares de ambos os países.

Outra área em que a diplomacia brasileira se vem destacando é a comercial. Nesta tem agido com mais velocidade e mais energia em defesa dos investimentos brasileiros no exterior, sejam comerciais, financeiros ou industriais. Pelo andar da carruagem, tudo indica que a expansão financeira, econômica e comercial do Brasil se acelerará, e a diplomacia brasileira vem-se adaptando a esse novo ritmo.

Falta, entretanto, uma área ainda mais fraca - como todas as que congregam consumidores difusos, e não grandes empresas capazes de se organizar e contratar profissionais para defender seus interesses: os cidadãos brasileiros no exterior.

Graças ao progresso de transportes e comunicações no mundo, pessoas viajam mais. Além disso, o crescimento econômico brasileiro, especialmente nos últimos 16 anos, aumentou a capacidade financeira dos brasileiros de viajar para o exterior (melhor distribuição de renda e maior valorização do real), bem como os desejos e as necessidades de viagem de brasileiros, seja por curiosidade turística, por necessidade de estudo, trabalho, aperfeiçoamento ou crenças religiosas.

Nessa área os brasileiros infelizmente ainda estão num estado próximo da orfandade. Já que não fomos parte de um grande ex-império recente, como no caso da França e da Inglaterra, os brasileiros não gozam de algumas proteções que aqueles países estendem a cidadãos de suas ex-colônias. Esse é o lado externo.

Do lado interno, como os brasileiros não viajavam tanto, os consulados brasileiros no exterior levavam uma vida mais tranquila. Não tinham muito o que fazer, em razão mesmo da inexistência de uma grande clientela brasileira para atender no exterior.

Isso está mudando rapidamente. Os disparadores recentes foram a detenção e o repatriamento de uma brasileira, professora da Universidade de Brasília, impedida de entrar na Espanha na última semana de janeiro. Detida, interrogada e repatriada sem nem sequer entrar formalmente em território espanhol. Estamos diante de uma atitude desagradável, mas, até certo ponto, legal, de agentes fronteiriços espanhóis que optaram por exercer suas funções de maneira inflexível. Problema das relações Brasil-Espanha. Pode ser encaminhado pelo governo brasileiro com uma negociação tranquila ou com um aumento do tom na discussão diplomática. O episódio não é novo, tem-se repetido ciclicamente.

Do lado de cá, segundo o depoimento da professora, entretanto, a situação tem nuances envolvendo o governo brasileiro: ela contatou o consulado brasileiro em Madri por telefone e foi informada de que o consulado não poderia fazer muito. No máximo, poderia mandar um fax.

Segundo ela, em algum momento apareceram um homem que se identificou como advogado (não se sabe se mandado pelo consulado ou não) e uma intérprete. Após uma conversa breve e algumas horas de detenção no Aeroporto de Madri, ela foi recolocada sob escolta num avião e mandada de volta para o Brasil.

A afirmação do funcionário do consulado que atendeu o telefonema lembra um desastrado episódio vivido por José Serra na campanha presidencial de 2002, quando, abordado por uma eleitora numa favela de São Paulo, mal ouviu o que ela tinha a dizer e sugeriu que ela lhe mandasse um fax.

Ou seja, mudou o status do Brasil no mundo, está mudando o mundo e os brasileiros têm necessidades diferentes e maiores em suas viagens ao exterior, cada vez mais constantes.

Chegou a hora de estender o recado da presidente Dilma ao ministro da Relações Exteriores para que o Brasil e nossas embaixadas revejam a postura do Estado brasileiro perante os direitos humanos e os consulados. Estes, que são subordinados às embaixadas brasileiras (de facto), também precisam rever rápida e seriamente sua postura em relação à defesa dos brasileiros no exterior.

Brasileiros viajam mais, ganham mais dinheiro, pagam impostos altos e são quem sustenta toda a caríssima estrutura estatal, no Brasil e no exterior.

Não se trata apenas de providenciar que as enchentes não parem as metrópoles brasileiras ou que pessoas não apodreçam nas cadeias nacionais por descuido burocrático, mas também de dar todo o apoio aos cidadãos brasileiros que estão no exterior, passeando, trabalhando, estudando ou cultuando. Todos são direitos civis que temos e são sustentados por impostos que pagamos.

CIENTISTA POLÍTICO, É DIRETOR GERENTE DA EARLY WARNING: RISCO POLÍTICO E POLÍTICA PÚBLICA (BRASÍLIA)

CLÁUDIO HUMBERTO

“[O adversário Neudo Campos] age de forma sórdida e irresponsável”
JOSÉ DE ANCHIETA JR (PSDB), GOVERNADOR DE RORAIMA, QUE TENTA SE LIVRAR DE CASSAÇÃO

CORTES NO ORÇAMENTO ATINGEM FORÇAS ARMADAS 
É grande a preocupação nas Forças Armadas. Além da compra dos aviões de combate, o projeto do submarino nuclear brasileiro, estimado em R$ 1,1 bilhão, também está ameaçado com o corte de R$ 50 bilhões nos recursos para investimento, previstos no Orçamento e anunciados pela presidenta Dilma. Os cortes também podem atingir os programas criados para recuperar e reequipar o Exército Brasileiro.

O SEM-PRESTÍGIO 
Os cortes na Defesa são motivo de insônia para o ministro Nelson Jobim, que, com o prestígio em baixa, tem dificuldades de revertê-los. 

JOIA DA FRANÇA 
O presidente de honra da Dassault, Serge Dassault, atribuiu ao euro o encalhe dos caças Rafale. Ele admitiu que “é o mais caro” do mercado. 

ESQUEÇA O QUE PROMETI 
Em debate na TV com o rival tucano José Serra, a candidata Dilma prometeu: o salário mínimo estaria acima de R$ 600 no fim de 2011. 

MIDAS DE PERUCA A AUX 
Canadá Aquisition, de Eike Batista, comprou por US$1,5 bilhão a mineradora canadense Ventana Gold, que explora ouro na Colômbia. 

DF: MP DEVASSA GASTOS COM PUBLICIDADE OFICIAL 
O Ministério Público faz devassa nos contratos de publicidade dos dois últimos anos, no governo do DF, nas gestões de José Roberto Arruda e Rogério Rosso. Segundo fonte do MP, o depoimento de Haroldo Meira, um dos operadores do esquema, comprometendo até o parceiro dele, ex-secretário de Comunicação Welinton Morais, seria um instrumento valioso na investigação. A agência AV Comunicação, de Meira, controlava na prática 80% da verba de publicidade do governo do DF.

IMPRESSIONANTE 
Incluindo estatais, o governo do DF gastou cerca de R$ 400 milhões em propaganda nos os dois anos sob investigação do MP. 

DENGUE ERA PRETEXTO 
O governo do DF chegou a fazer campanha contra dengue em junho, quando o mosquito não sobrevive à seca e à umidade muito baixa.

ESQUISITO 
O MP quer entender por que veículos de mídia indoor, em elevadores, tiveram a maior fatia de publicidade do governo do DF: R$ 12 milhões.

CAÇA AO TESOURO 
A ONG Justiça Global ameaça responsabilizar criminalmente o governo do Rio pelos roubos e invasões de domicílio no Alemão. Não cogita processar traficantes pelo longo domínio da área, sob a mira de armas.

VANGUARDA DO ATRASO 
Mulheres, anotem este nome: deputado André Vargas (PT-PR). Quer uma Frente Parlamentar Brasil-Irã, de relevância zero, para bajular o regime do maluco Mahmud Ahmadinejad, que sufoca as liberdades e maltrata mulheres, condenando-as até à morte por apedrejamento. 

CARTÃO CORREIOS 
Os Correios pretendem introduzir modificações em seu Banco Postal, no caminho da profissionalização. Uma delas é a criação de um cartão de crédito próprio, para ganhar algum na ciranda financeira. 

SUSPENSE 
A lista dos portadores de passaporte diplomático, requisitada ao Itamaraty pelo Ministério Público Federal, e que deverá sair mês que vem, vai aborrecer senadora plastificada e seu intragável ex-marido. 

É FOGO 
Em nome da alegria e do turismo, a prefeitura do Rio liberou R$ 3 milhões para escolas de samba incendiadas. Já o hospital Pedro II, na Zona Oeste, está fechado há três meses, após pegar fogo. 

IMPASSE 
O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) quer indicar André Barbosa para a vaga de conselheiro da Anatel. O ministro Antonio Palocci (Casa Civil) resiste. A decisão vai para as mãos da presidente Dilma.

ESTOU FORA 
O senador Gilvam Borges (PMDB-AP) garante que não participa, nem indiretamente, das emissoras da família. A Constituição proíbe que deputados e senadores exerçam cargos em estações de rádio e televisão.

SEM DIVERGÊNCIAS 
O deputado Gabriel Chalita (PSB-SP) garante que não pretende brigar com a entidade católica Canção Nova, onde milita há anos e em cujas emissoras apresenta programas: “Defendemos os mesmos valores”.

PERGUNTA NA PRAIA 
Já acabaram as “férias” de Lula, para ele falar dos passaportes diplomáticos dos filhotes e neto, como prometeu? 

PODER SEM PUDOR
ADESÕES IMPORTANTES 
Em 1996, a atriz Ruth Escobar promoveu almoço de adesão de mulheres à candidatura de José Serra à prefeitura paulistana. Compareceu gente importante, como a então primeira-dama Ruth Cardoso. Elas se apresentaram:
– Eu sou a secretária estadual de...
– Eu presido a associação...
Até chegar a vez de a atriz Dercy Gonçalves quebrar a monotonia:
– Eu não sou p(*) nenhuma!

SEM BALANÇA

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Sem choradeira
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/11

Não bastasse o esforço para enquadrar os aliados na votação do salário mínimo, amanhã, o Planalto prepara um cerco aos ocupantes da Esplanada, que em breve tomarão ciência do detalhamento do anunciado corte de R$ 50 bilhões no Orçamento de 2011. A ideia, discutida ontem na reunião de coordenação do governo, é que os ministros sofram calados.
Nem todos, porém, poderão ser colocados sob a lei do silêncio. Já existe mobilização para que Dilma Rousseff seja questionada sobre o tema no Fórum de Governadores do Nordeste, que tem encontro marcado para a próxima segunda-feira em Aracaju.

A ver 
De Marcelo Déda (PT-SE), anfitrião do fórum: "Estamos vivendo uma ansiedade com os cortes anunciados. Não sabemos sobre que itens do Orçamento eles vão incidir, que programas vão atingir nos ministérios onde nós temos nossa agenda cotidiana em Brasília. São esses os detalhes que nos deixam em total ansiedade".

Veja bem 
Repercutiu mal no Planalto a declaração do deputado Vicentinho (PT), relator do projeto que reajusta o salário mínimo, de que "seria bom" se houvesse negociação para antecipar parte do aumento previsto para 2012. Na reunião de coordenação do governo, ontem, ele foi bombardeado. Coube ao líder governista na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT), esfriar os ânimos.

Para registro
Dirigentes de partidos aliados não digeriram bem a ameaça de Vaccarezza contra eventuais dissidências na votação. Avaliam que as palavras do petista "só serviram para constranger" a base.

Enviado 
O governo pediu ao secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, que fique à disposição dos partidos hoje para tratar do mínimo. Na véspera da votação, as bancadas buscam "argumentos técnicos" que ajudem a sustentar os R$ 545 defendidos por Dilma.

Classificados 

Ex-ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB-MG) recebeu convite para trabalhar na TIM. Ele ainda prospecta vaga no governo Dilma. Mas não descarta a hipótese de ir para a iniciativa privada.

Muita calma Enquanto o PT paulistano rechaçou qualquer alinhamento a Gilberto Kassab (DEM), a direção estadual petista, reunida ontem, decidiu "avaliar melhor" o destino político do prefeito da capital. Em documento que deve ser aprovado no sábado, defende a composição de um novo campo político com o PMDB.

Santo de casa 
Enquanto persiste o impasse sobre a criação das regiões metropolitanas do Vale do Paraíba e de Sorocaba, propostas pelo PT, Geraldo Alckmin anunciará hoje o envio de projeto à Assembleia que regulamenta o "aglomerado urbano" de Jundiaí, administrada pelo PSDB há 20 anos. O texto dá tratamento diferenciado na captação de verbas às cidades do seu entorno.

Reciclagem 
Renato Viegas, ex-diretor do Metrô, assume a Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano). A estatal terá em seu conselho de administração nomes como José Goldenberg, Marcos Mendonça, Miguel Bucalem, Regina Meyer e Frederico Bussinger.

Antena 

Depois da polêmica contratação da Fundac para produzir o conteúdo da TV legislativa por nove meses, a Assembleia paulista e a Câmara de SP criaram ontem grupo de trabalho que terá como objetivo definir o "melhor modelo" para gestão do canal compartilhado.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

Não é só no aumento dos apagões que os petistas se destacam. Eles também aproveitam o apagar das luzes para adotar medidas que passaram a vida criticando.
DO LÍDER DO PSDB NA CÂMARA, DUARTE NOGUEIRA (SP), sobre a orientação do Ministério da Educação contrária à reprovação de alunos no ciclo básico.

contraponto

#tetrafeelings


Um grupo de deputados discutia dias atrás a expressiva quantidade de votos em branco registrada na eleição para os postos da Mesa Diretora da Câmara. Em busca de uma explicação para o fenômeno, o primeiro-secretário, Eduardo Gomes (PSDB-TO), apontou para o colega e ex-craque que circulava pelo plenário:
-O problema está ali. As pessoas se confundiram. Em vez de votar no Romário, optaram pelo Branco. Os dois foram muito bons de bola.

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Crise na polícia se amplia com novos investigados
- Folha: O adeus do fenômeno
- Estadão: Dilma fecha questão e exige mínimo de R$ 545
- JB: O poodle no poder
- Correio: O dia em que o Fenômeno parou
- Valor: Indústria aumenta preços e sofistica linhas de produtos
- Estado de Minas: Licitação da feira em BH deixa brecha para fraude
- Jornal do Commercio: PMs intimidam família de vítima de abuso 
- Zero Hora: O Fenômeno se despede