sábado, fevereiro 12, 2011

IVAN ÂNGELO

Perna de homem
IVAN ÂNGELO
REVISTA VEJA - SP



Constato: não há mais meninos de calças curtas. Eles usam calças compridas desde o início da vida bípede; os homens adultos é que usam calças curtas quando não estão no escritório.


As meninas estão entrando mais cedo na adolescência e os meninos mais tarde. Suspeito que para eles faltem indicações externas, falta daquilo que os estudiosos do comportamento humano chamavam de rituais de passagem. Agora os garotos começam a beijar muito mais cedo e a trabalhar muito mais tarde. Bagunçou. O beijo precoce, em idade ainda lúdica, não tem aquele poder de movimentar hormônios, é brincadeira de criança, não sei se ajuda a crescer.


Uma das indicações mais importantes de que alguma coisa estava mudando na vida dos meninos eram as calças compridas, e com elas algumas responsabilidades. Chegava uma época em que mãe e pai conferenciavam e decidiam: já está na hora de o menino usar calças compridas. Mais ou menos na mesma época em que ele começava a mudar de voz. Havia como que um cerimonial em torno disso, desde a compra da calça comprida até a saída à rua. Daqui a alguns anos, quando um leitor encontrar no meio de um texto uma frase como “Fulano era ainda um menino de calças curtas”, não vai saber do que se trata.


Pois era isso: a partir de certa idade, na época do aparecimento de pelos mais grossos e fartos pelo corpo, tomava-se o cuidado de cobrir as pernas masculinas. E elas permaneciam cobertas até o fim da vida. É de supor que a sociedade as considerasse feias, ou não as cobriria. Escoteiros eram olhados como meninões sem autocrítica, a exibir pelos, joelhões e batatonas de pernas. Os ingleses, povo meio esquisito, usavam aquelas calças curtas na Índia. Os escoceses, também peculiares, digamos assim, utilizavam saiotes nos dias de festa. Eram exceções, e distantes de nós.


As mulheres eram treinadas na discrição. Podiam opinar somente sobre aspectos mais delicados, como a beleza do rosto dos atores, da voz dos cantores e locutores. Os homens tinham de ser avaliados por critérios genéricos e fluidos como caráter, masculinidade, segurança. Quando levadas a particularizar um pouco mais suas preferências, as mulheres falavam de altos ou médios, gordos ou magros, louros ou morenos, com bigodes ou sem bigodes, com barba ou sem barba.


Agora não. Agora falam sem pejo do corpo dos homens, na base do vamos por partes.


Talvez elas já o apreciassem em silêncio. Por que começaram a falar abertamente do assunto de uns anos para cá? Um dos primeiros a jogar o tema na praça nacional foi Fernando Gabeira, num conto que publicou em 1979, logo que voltou do exílio. Falava de um homem sul-americano que ficava intrigado porque a namorada europeia dizia que gostava do traseiro dele. Nos anos 70, os homens não sabiam exatamente o que seduzia as mulheres. Abafadas, elas disfarçaram por muito tempo sua mirada.


Na década de 80, uma revista já elegia, com o voto delas, as pernas do goleiro Leão como as melhores do país. Homens comuns passaram a modelar as suas, a moda masculina começou a autorizar a exibição de pernas. Shorts migraram do litoral para os parques urbanos, avenidas, pistas de jogging, e logo, no estilo “bermuda social”, invadiram festas, almoços ao ar livre, bares, restaurantes sabatinos. Os homens conquistaram definitivamente o direito de exibir pernas fora das praias, como as moças faziam desde os anos 60 com suas minissaias e shortinhos. O que era tosco, feio, mal-acabado e grosseiro adquiriu status de atração sensual.


Ficamos devendo às mulheres mais essa pequena liberdade. Logo que chegaram aos postos de decisão na sociedade, elas passaram a ditar não só o que queriam mostrar, mas também o que queriam ver.

RUY CASTRO

Apagando o Yolanda

RUY CASTRO

FOLHA DE SÃO PAULO - 12/02/11

RIO DE JANEIRO - A estação do morro do Adeus, no teleférico do Complexo do Alemão, vai ganhar um painel em homenagem a Noel Rosa. Nos anos 30, Noel foi um dos primeiros brancos a subir os morros -a pé, pelas trilhas, picadas e escadinhas- para compor com seus sambistas, um deles Cartola. E nenhum outro, até hoje, teve mais parceiros negros.
A foto usada no painel é aquela clássica, em que Noel está de terno branco, camisa preta, gravata branca -quase um gângster de filme da Warner- e acendendo um cigarro. No painel do morro do Adeus, o cigarro de Noel será apagado eletronicamente. Espero que não o substituam por um pirulito.
Os politicamente corretos atacam outra vez. Para eles, é feio mostrar Noel fumando. Seria mau exemplo para os jovens, que, por causa dele, poderiam querer fumar também. Isto num país em que a legalização da maconha é defendida até na TV. Uma provocação: se Noel estivesse acendendo um baseado, e não suas marcas favoritas, Yolanda e Liberty ovais, podia?
Noel fumava três maços por dia e, em suas autocaricaturas, sempre se desenhava fumando. Bebia cerveja Cascatinha (que chamava de água benta) e cachaça. Passava as noites no Mangue, na Lapa, em Vila Isabel, onde houvesse birita, violão, mulheres e amigos. Acordava com o dia longe, raramente via o sol. E se alimentava muito mal. Essa receita de suicídio levou-o à tuberculose e à morte aos 26 anos. Levou-o também a ser Noel Rosa.
A soma disso é sua obra. Em apenas sete anos e meio de vida musical (de 1930 a meados de 1937, quando morreu), compôs 259 sambas -cerca de 35 por ano, ou mais de um a cada 15 dias. Muitos deles, obras-primas. Em média, nem Ary Barroso e Cole Porter produziram tanto. Soa falso e bobo tentar "corrigir" sua imagem pelos padrões de saúde de hoje. Noel Rosa fumava e era Noel Rosa.

GOSTOSA

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO

Generalidades sobre educação
EDITORIAL

 O Estado de S.Paulo - 12/02/11

Em seu primeiro pronunciamento oficial em cadeia de rádio e televisão, a presidente Dilma Rousseff se comportou mais como uma candidata do que como a nova presidente da República que anuncia suas políticas. A cadeia nacional de rádio e televisão foi convocada sob a justificativa de comemorar a abertura do ano letivo, apresentar a educação como uma das prioridades do governo e anunciar a criação do Programa Nacional de Acesso à Escola Técnica (Pronatec). A ideia é oferecer ensino técnico aos estudantes da rede pública de ensino médio, por meio do Sistema S - que é formado pelas entidades sociais dos setores produtivos (agricultura, indústria, comércio, transportes e cooperativas) e mantido por uma contribuição de 2,5% sobre a folha salarial das empresas. Com isso, o ensino médio passaria a tempo integral.

Na campanha presidencial de 2010, a proposta foi defendida tanto por Dilma quanto por seu adversário José Serra (PSDB) - que reivindica sua autoria. Como o Pronatec até agora só foi esboçado e o projeto só ficará pronto dentro de um a dois meses, Dilma não tinha nada de substantivo para dizer em seu pronunciamento. O governo não definiu nem mesmo a fonte de financiamento do projeto - uma das possibilidades é a abertura de uma linha de financiamento do BNDES no valor de R$ 40 bilhões, que seriam usados para equipar as escolas; outra possibilidade seria negociar com o Sistema S o perdão de uma dívida - que não é reconhecida pelas confederações empresariais - em troca do aumento do número de vagas em cursos como os do Sesi e do Senac.

Por isso, a chefe da Nação acabou repetindo frases feitas sobre o papel do ensino básico, nos 5 minutos e 46 segundos de duração de seu discurso. "Nenhum país poderá se desenvolver sem educar bem o seu jovem e capacitá-lo plenamente para o emprego", afirmou Dilma. A educação é "a grande ferramenta de construção dos sonhos dos brasileiros"; é "a ferramenta para superarmos a pobreza e a miséria"; é "um desafio que somente será vencido se o governo e a sociedade se unirem de fato nessa luta, com toda força, coragem e convicção", disse a presidente - repetindo o que já falara durante a campanha eleitoral.

Além de prometer agilizar a implementação do plano nacional de banda larga e fazer do Pronatec uma espécie de ProUni do ensino técnico e profissionalizante, ela afirmou que vai corrigir as falhas que têm ocorrido no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), com o objetivo de recuperar a credibilidade dos mecanismos de avaliação. E também defendeu mais investimentos para a formação de professores e anunciou que irá ampliar o número de creches e pré-escolas e coibir a evasão escolar.

Em seu discurso, que foi orientado pelos publicitários João Santana e Marcelo Kertz, responsáveis por sua campanha à Presidência, Dilma disse que "a luta mais obstinada" do governo será o combate à miséria, mediante a ampliação do emprego e o aperfeiçoamento das políticas sociais. E, sobre um fundo verde-amarelo que substituiu a marca "Brasil, um país de todos", do governo Lula, ela anunciou o slogan de sua gestão - País rico é país sem pobreza. "Esse será o lema de arrancada do meu governo. Ele está aí para alertar permanentemente a nós do governo e a todos os setores da sociedade que só realizaremos o destino de grandeza do Brasil quando acabarmos com a miséria", disse ela.

No Palácio do Planalto, a troca de slogans foi justificada como uma estratégia de marketing para passar para a população a ideia de que o País teria mudado de patamar, podendo buscar padrões mais ambiciosos que a mensagem da igualdade social, enfatizada pelo governo Lula. Nos meios políticos, porém, a fala de Dilma e o lançamento de um novo lema foram interpretados como uma tentativa de contornar os efeitos negativos para a imagem do governo causados pelos problemas ocorridos com o Sistema de Seleção Unificada, nos primeiros dias da nova administração.

O primeiro pronunciamento em cadeia nacional de Dilma foi apenas um exercício de retórica, com muitos adjetivos e poucos substantivos.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Próximo capítulo
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 12/02/11


A ação que resultou ontem na cassação do mandato de José de Anchieta Jr. (PSDB) foi a primeira a chegar a julgamento entre 30 que pesam contra o governador reeleito de Roraima, acusado de uso irregular de meios de comunicação na mais acirrada campanha do país, decidida por 1.700 votos.
O material reunido nas representações que ainda tramitam no TRE, referentes ao segundo turno, tem considerável potencial de estrago. Ali está a gravação em que a mulher do tucano, Shéridan, oferece a inclusão de uma eleitora como beneficiária de projeto social em troca do voto no governador, com a frase: "O que a senhora quer pra votar no Anchieta?".


Moratória Tão logo empossado, Neudo Campos (PP) deve suspender todos os pagamentos do governo.

Vamos ver 1 Um veterano em negociações no Congresso desdenha da ameaça do governo de retaliar aliados que votarem por salário mínimo superior a R$ 545: "Quero saber se o ministro Carlos Lupi vai cair, já que o PDT, partido dele, liderou o movimento pelos R$ 580.

Vamos ver 2 No Planalto, admite-se que dificilmente Lupi sofreria abalo na esteira deste primeiro teste. Mas os palacianos lembram que há vários pedetistas na fila por cargos no governo. É o caso de Osmar Dias (PR).

Calorias 1 Ao receber das mãos de Marisa Letícia uma fatia de bolo no aniversário do PT, Dilma Rousseff agradeceu, despejou metade do doce em outro prato e se justificou: "Estou de regime".

Calorias 2 Na véspera, quando Lula jantou no Alvorada, a presidente e o ex trocaram dicas sobre suas respectivas dietas. Ele contou que está fazendo 1 hora e 20 minutos de esteira por dia.

Superpop A volta de Lula de Brasília, ontem, foi ainda mais animada do que a ida. Ao final do voo, formou-se longa fila de passageiros que queriam ser fotografados ao lado do ex-presidente.

Blitz Liderados por Carlos Jereissati Filho, dirigentes dos principais shoppings centers de São Paulo serão recebidos na próxima quarta-feira pela cúpula de Segurança Pública do Estado. Discutirão com o secretário Antonio Ferreira Pinto uma força-tarefa para conter a onda de assaltos aos centros de compras da capital.

Ambientado Otávio Okano será o novo presidente da Cetesb, companhia responsável pela concessão de licenças ambientais e fiscalização de atividades poluidoras em São Paulo. Engenheiro químico, Okano já dirigiu a empresa em 2006, no final do mandato anterior de Geraldo Alckmin, quando substituiu Rubens Lara, então promovido à Casa Civil.

Vaivém O PV indicou o prefeito de Ribeirão Pires, Clóvis Volpi, para o comando do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica), autarquia incumbida do planejamento e execução das obras antienchentes na Grande SP. Para assumir, o "verde" teria que renunciar ao mandato. O nome de Volpi, contudo, ainda não passou pelo crivo da Casa Civil.

Centésimo O secretário da Saúde de SP, Giovanni Cerri, corre para apresentar, nos cem dias do mandato de Alckmin, um amplo programa antidrogas e álcool nas escolas da rede estadual, desenvolvido em parceria com a Secretaria da Educação.

Melhor não Alckmin pediu que José Bernardo Ortiz reconsidere a nomeação do ex-secretário de Assuntos Jurídicos de Pindamonhangaba Luiz Gustavo Mello para assessoria na FDE.
Com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"Quem está com o governo votará a favor dos R$ 545. Quem votar em outra proposta estará fazendo oposição."
DO LÍDER DO GOVERNO NA CÂMARA, CÂNDIDO VACCAREZZA (PT-SP), sobre o comportamento que o Planalto espera de sua base aliada na votação do salário mínimo, marcada para a próxima quarta-feira.


contraponto

Acima de tudo

Ao encontrar o senador Aécio Neves (PSDB-MG) pelos corredores do Congresso na abertura do ano legislativo, o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) repreendeu-o por ter recrutado para a chefia de seu gabinete o funcionário Mozart Vianna, longevo secretário-geral da Câmara e especialista em regimento.
-Você está nos roubando o 514º deputado, a única unanimidade entre nós!
-Já fui presidente da Casa e desfrutei das qualidades dele. Além disso, o doutor Mozart é mineiro...

SEMPRE ATRASADO

ANCELMO GÓIS

VERMELHO CASSADO 
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 12/02/11

Um sábio reparou que a logomarca do governo Dilma só tem as cores da pátria. Diferente da logo de Lula, que incluía também preto (no “I”) e vermelho (no “L”).
Ou seja: não é nada, não é nada... não é nada.

HABLA ESPANHOL? 
Guido Mantega, que não fala bem inglês, atacou de espanhol, ontem, na reunião com o ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou.
Teve um “la recuperação” e até “ter fecho mais políticas”.

ROYALTIES DO PETRÓLEO 
Sérgio Cabral já avisou a Carlos Minc, seu secretário do Ambiente, que vai mandar à Assembleia um projeto de emenda constitucional que duplica de 5% para 10% dos royalties do petróleo os recursos do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam).
O Fundo gera, atualmente, entre R$ 250 milhões e R$ 320 milhões.

EM TEMPO... 
A alíquota original do Fecam era de 20% e foi reduzida para 5% no governo Rosinha Garotinho.

NO MAIS 
Como dizem os versos de Castro Alves, a praça é do povo como o céu é do condor.
Viva a Praça Tahrir, no Cairo!

MÉTODO DA GUERRILHA 
A editora italiana Mondadori adquiriu os direitos de “Método prático da guerrilha”, de Marcelo Ferroni, que saiu aqui pela Companhia das Letras.
O livro, sobre os últimos dias de Che na Bolívia, sairá ainda na Espanha e em Portugal.

AS VOLTAS QUE 
Na campanha eleitoral, o PT acusou José Serra de planejar, caso eleito, a suspensão de concursos e contratações de servidores públicos — o que o governo petista anunciou ontem.

REPÚBLICA DAS ALAGOAS 
A denúncia é da Associação Nacional do Ministério Público de Contas.
Desde agosto do ano de 2004, o TCE de Alagoas julga as contas do Estado e de seus municípios sem a presença de um único integrante do MP, o que pode levar à nulidade todos os seus pronunciamentos.

FLAGRANTE ILEGAL 
A 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do RJ concedeu habeas-corpus à professora de matemática Cristiane Teixeira Maciel Barreiras.
Em janeiro, ela havia sido condenada a 12 anos, em regime fechado, por ter mantido relacionamento afetivo com uma aluna de 13 anos.
Voltará gordo O embaixador George Prata, que está de saída da nossa representação em Praga, cumpre uma agenda tão vasta de despedidas que chamou a atenção de colegas de Itamaraty.
São, acredite, mais de 40 almoços e jantares.

DOM ODILO P. SCHERER

Questão ecológica, questão moral

DOM ODILO P. SCHERER 

 O Estado de S.Paulo 12/02/11

Sempre mais nos damos conta de quanto o nosso planeta é precioso e único no universo. Sem excluir que possa haver vida em algum outro lugar na imensidão do cosmo, o certo é que, com todo o seu potencial para esquadrinhar o espaço sideral, os estudiosos ainda não conseguiram detectar nada que se pareça com a vida no nosso Planeta Azul; nem mesmo com suas formas mais elementares.

A Terra é a casa da vida, o espaço privilegiado que abriga uma diversidade enorme de seres vivos. Ela é o condomínio da família humana, com suas raças, seus povos e suas culturas diferentes; lentamente, e com certa relutância, vamos aprendendo que ninguém é dono absoluto de pedaço algum deste globo e que todos fazem parte de uma imensa comunidade humana, que tem tanto em comum.

Todos são responsáveis por todos nesta comunidade e o bem de cada um só será completo se também for o bem de todos os demais; da mesma forma, o mal de um é o mal de todos. Comum deve ser também o zelo para que este condomínio não seja descuidado e tornado inabitável com o passar do tempo. Está em jogo o bem de todos.

Embora a questão ambiental entre, aos poucos, nas preocupações diárias, ainda estamos longe de ter alcançado uma consciência coletiva que seja capaz de frear os estragos causados pela intervenção humana na natureza; no âmbito dos comportamentos individuais, há muito que fazer para que o zelo pelo ambiente se torne habitual e cultural; no campo das decisões políticas, em todos os níveis, está difícil chegar a consensos que levem plenamente a sério a questão ambiental; de fato, procura-se salvar, geralmente, mais os interesses imediatos e particulares do que a sustentabilidade, a médio e longo prazos, desta casa comum que nos abriga.

A Igreja Católica, no Brasil, por intermédio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), já pela terceira vez, realiza a Campanha da Fraternidade sobre a ecologia. Neste ano, o assunto é abordado de maneira ampla, com o tema "Fraternidade e Vida no Planeta". Chama-se a atenção para o fenômeno do aquecimento global, as causas que o provocam e as consequências que poderá trazer, ou já vai tendo; mostra-se, sobretudo, que o comprometimento das condições ambientais para o futuro da vida na Terra não tem, geralmente, a sua causa em fenômenos espontâneos da dinâmica do universo, mas em ações do homem, que interferem no equilíbrio ecológico. Tais intervenções foram aceleradas, sobretudo, pelo sistema industrial e pelos modelos econômicos adotados a partir dos últimos três séculos. A comunidade humana está cuidando mal da natureza, dela exigindo mais que ela pode dar, destruindo a própria casa, pouco a pouco.

Vamos deixar correr, fazendo de conta que o problema não existe, ou que é só dos outros? Manter o mesmo ritmo de consumo e de interferência na natureza, sem nos importarmos com as consequências?

Num condomínio, quando aparecem problemas e riscos, é normal que todos os condôminos se reúnam e decidam sobre o que fazer, pois o bem de todos está relacionado intimamente com o bem do próprio condomínio. Não deveria ser diferente com nosso planeta: descuidar da Terra faz mal a todos; cuidar bem da Terra é bom para todos.

O papa João Paulo II advertiu que a questão ecológica representa um problema moral, cujas implicações são, basicamente, duas: a solidariedade para com os pobres e o direito das futuras gerações. De fato, os maiores prejudicados com a deterioração ambiental são, e o serão ainda mais no futuro, os pobres do mundo, os mais fracos e desprotegidos da família humana. E não é moralmente honesto viver e agir apenas pensando em si, sem levar em conta o bem dos membros mais frágeis da família. Por outro lado, esta é uma questão de respeito e de justiça para com as gerações futuras, que habitarão este planeta depois de nós. Em que estado deixaremos este condomínio para nossos pósteros?

A questão ecológica demanda com urgência uma nova consciência solidária. O zelo pelo planeta é um desafio moral, que a humanidade precisa enfrentar com políticas adequadas de convivência e de interação responsável com a natureza.

Recentemente, na encíclica Caritas in Veritate (32), o papa Bento XVI apontou para a necessidade de uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e do sentido da economia e seus objetivos, para corrigir disfunções e deturpações, que têm implicação direta na deterioração do ambiente da vida na Terra. Por outro lado, não menos necessária é uma renovação cultural, para redescobrir os valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir o futuro melhor para todos.

Para os cristãos e para os crentes em Deus, de modo geral, há um motivo a mais para tratar a natureza com profundo respeito e responsabilidade: ela é dádiva do Criador para todas as suas criaturas, não, certamente, para que a depredem e destruam, mas para que dela vivam e louvem a Deus. De modo especial, o ser humano foi feito "zelador do jardim" e colaborador inteligente e responsável no cuidado pela obra de Deus. Tratar mal a dádiva é desprezar e ofender o doador; e a vontade de potência absoluta do homem sobre a natureza é irresponsável, pois introduz a desordem no mundo; as consequências só podem ser desastrosas, como aquelas que já constatamos e lamentamos.

A Campanha da Fraternidade deste ano é um convite à reflexão e à ação para manter acolhedora e vivível para todos a nossa preciosa casa no universo. E também para aqueles que a ocuparão depois de nós.

É questão moral, questão de fraternidade.

CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

GOSTOSA

CLAIRE CAIN MILLER

Na rede, o que importa são as palavras-chave
CLAIRE CAIN MILLER 
O Estado de S.Paulo - 12/02/11

Para ganhar audiência, sites adaptam conteúdo para a atração de leitores em serviços de buscas, e não na qualidade editorial


O site The Huffington Post contratou jornalistas veteranos para melhorar o conteúdo do seu noticiário. Entretanto, parte significativa dos seus leitores prefere artigos como o que foi publicado esta semana: "Chelsy Davy e o príncipe Harry: felizes juntos?" O texto de duas sentenças foi apenas um veículo para um conjunto de fotos do casal, sem qualquer notícia. Mas "Chelsy Davy" foi um dos nomes mais procurados no Google naquele dia e, logo depois da publicação, o artigo se tornou um dos primeiros links que explodiram nos resultados de busca do Google.

Este é um exemplo de uma arte e ciência na qual The Huffington Post se destaca: a otimização para mecanismos de busca (SEO, na sigla em inglês). O termo se refere a uma ampla variedade de táticas para fazer com que os usuários visitem um site na internet, como escolher tópicos para artigos baseados nas palavras-chave mais procuradas.

Como o Google é a porta de entrada da rede para vários usuários, a SEO tornou-se uma obsessão para muitos editores da rede, e os mais bem-sucedidos usam a estratégia em graus variados. Mas o consenso é que o aumento da concorrência por leitores entre jornais, revistas, blogs e sites transformaram a busca em prioridade - com isso, as empresas passaram a adotar novas técnicas, como explorar ao máximo as mídias sociais.

A capacidade do Huffington Post de usar essas táticas a fim de aumentar o número de leitores foi uma das razões que levou a AOL a adquiri-lo por US$ 315 milhões. A Demand Media, que administra sites como o eHow e Answerbag.com e valoriza a otimização para mecanismos de busca provavelmente mais que qualquer outro veículo, captou US$ 151 milhões em uma oferta pública de ações em janeiro.

Qualidade. Modelos como estes poderão preparar o caminho para um jornalismo lucrativo na era "pós-impressão", segundo analistas - ou, como outros temem, levar a mídia online a publicar artigos de baixa qualidade escritos para apelar aos buscadores e não aos leitores.

A SEO é "absolutamente essencial", afirma Rich Skrenta, diretor executivo do motor de busca Blekko. No entanto, ela acrescenta que a ferramenta pode ser o fim da qualidade da mídia online. "No início, os sites tinham um conteúdo realmente ótimo, mas agora se deram conta de que quanto maior a SEO, maior o lucro, e a pressão faz realmente com que a qualidade caia."

Existe uma indústria da otimização do motor de busca e de mídias sociais, e muitos profissionais com esse tipo de conhecimento encontraram emprego nas empresas de mídia online. Algumas das estratégias incluem a inclusão de palavras-chave que as pessoas podem pesquisar, títulos enigmáticos que leitores não resistem em clicar e numerosos links para outros artigos.

Além de escrever artigos baseados nas buscas mais comuns no Google, o Huffington Post escreve títulos como "Veja: Christina Aguilera se atrapalha com o hino nacional". Muitas vezes, usa as frases mais buscas no Google em seus artigos. Com essas técnicas, 35% das visitas ao site em janeiro vieram de buscadores, contra os 20% da CNN.com, informa a consultoria Hitwise. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

ISSANDR EL AMRANI

O fim de uma piada de três décadas
ISSANDR EL AMRANI 
O Estado de S.Paulo - 12/02/11

O humor egípcio chega aonde sua política não consegue

O que ocorreria se você passasse 30 anos fazendo piadas a respeito do mesmo homem? E se, na última década, tivesse zombado da sua morte iminente - mas ele continuou vivo, fazendo com que todas as histórias sobre sua imortalidade pareçam, de uma maneira incômoda, próximas da verdade?

Os egípcios, conhecidos pelo seu subversivo humor político, vivenciaram até ontem este cenário: Hosni Mubarak, seu presidente octogenário, às vésperas de entrar na sua quarta década de governo, agarrando-se ao poder e à vida com uma enorme força de vontade. Os piadistas egípcios, que de início caricaturavam seu líder nada carismático como um matuto ganancioso, passaram os últimos anos nervosamente fazendo piadas sobre sua insistência tenaz em permanecer no trono. E justamente agora, quando o humor começava a parecer um pouco obsoleto, veio a renúncia do ditador.

Um amigo meu adorava contar esta piada: "Qual é o dia perfeito para Mubarak? Aquele em que nada acontece". O agora ex-presidente egípcio preferia o status quo e não apreciava mudanças, mas a sua fantasia com o Dia da Marmota afetava enormemente os egípcios. Mubarak sobreviveu a tentativas de assassinato e a uma cirurgia complicada. Depois de passar a maior parte de 2010 convalescendo, todo mundo no Cairo -de motoristas de táxi a políticos e espiões estrangeiros - estava convencido de que ele morreria em questão de semanas. Mas ele se recuperou, aparentemente pensando em concorrer a um sexto mandato em setembro. Os prolíficos piadistas, com sua longa tradição de satirizar os poderosos, poderiam ficar sem material.

Fazer piada de autoridades tirânicas é uma parte essencial da vida egípcia desde a época dos faraós. Um comentário datado de 4.600 anos registrado em papiro gracejava que a única maneira de convencer o rei a pescar era colocar garotas nuas nas redes de pesca. Sob o império romano, os advogados egípcios foram proibidos de exercer a profissão por causa do hábito que tinham de fazer piadas, o que para os austeros romanos corroía a seriedade própria dos tribunais. Até Ibn Khaldun, o grande filósofo árabe do século 14, de Túnis, observou que os egípcios eram um povo extraordinariamente irreverente e hilário. O ator egípcio Kamal al-Shinnawi, também um mestre do sarcasmo, disse certa vez que "a piada é a arma devastadora que os egípcios sempre usaram contra invasores e ocupantes. Foi a corajosa guerrilha que penetrou nos palácios dos dirigentes e nos bastiões dos tiranos, interrompendo o seu descanso e deixando-os em pânico".

Existe muito material sobre os últimos 50 anos no Egito, marcado que foi por uma sucessão de líderes militares com pouco respeito pela democracia ou pelos direitos humanos. Embora até esta semana os egípcios estivessem virtualmente impotentes para mudar seus governantes, eles sempre tiveram uma ampla liberdade para ridicularizá-los com pilhérias, ao contrário da Síria, onde uma piada pode levá-lo à prisão. Nos povoados e cidades muito densos, onde a socialização é mais intensa, as piadas funcionam como uma maneira quase universal de "quebrar o gelo", ou dar início a uma conversa, e os temas básicos, que transcendem os governantes, as ideologias, as barreiras de classe, quase sempre são os mesmos: nossos líderes são idiotas, nosso país, uma confusão, mas pelo menos conseguimos fazer piadas juntos.

Os que governaram o Egito antes de Mubarak, o nacionalista Gamal Abdel Nasser e o prêmio Nobel da Paz Anwar Sadat, eram personagens exuberantes, e as piadas contadas sobre eles refletiam sua personalidade fora do comum. O paranoico Nasser teria mobilizado sua polícia secreta para recolher as piadas sobre ele e seu governo autoritário, da mesma maneira que a KGB monitorava nervosamente as legendárias anekdoty feitas na mesa da cozinha sobre o governo gerontocrático, para compreender realmente o que sucedia nos derradeiros dias da União Soviética. Sadat, apesar de conhecido no Ocidente pela paz firmada com o vizinho Israel, foi alvo de inúmeras piadas envolvendo seu governo corrupto e sua atraente esposa, Jehan.

Após o assassinato de Sadat, Mubarak assumiu o poder e foi recebido com alívio e ceticismo - alívio, pois parecia ter pulso mais firme do que o seu antecessor, que se tornou esquizofrênico um ano antes da sua morte, e ceticismo porque Mubarak não tinha absolutamente nada que se assemelhasse ao governo carismático que Sadat e Nasser encarnaram. Mubarak também era, pelo menos no começo, um piadista. Não muito tempo depois de assumir o poder, ele mesmo gracejou que jamais esperara ser nomeado vice-presidente. "Quando fui chamado por Sadat", disse ele a um entrevistador, "achei que seria nomeado chefe da EgiptAir".

Por décadas Mubarak foi ridicularizado, chamado de "La Vache qui Rit" (A vaca que ri) - numa referência ao queijo francês que apareceu no Egito nos anos 70, com a abertura do mercado - por causa das suas raízes rurais e seu estilo bonachão. A imagem que persistia nas piadas a seu respeito na época era a de um arquétipo egípcio, o camponês bufão e ganancioso.

Uma piada que me lembro bem dos anos 80 satirizava a decisão de Mubarak de não nomear um vice-presidente depois de assumir a presidência. "Quando Nasser tornou-se presidente, ele queria um vice mais estúpido do que ele para não ter um concorrente, então escolheu Sadat. Quando Sadat tornou-se presidente, escolheu Mubarak pela mesma razão. Mas Mubarak não tem um vice porque não existe no Egito ninguém mais estúpido do que ele."

As piadas ficaram mais acerbas nos anos 90, à medida que Mubarak consolidou seu poder e começou a vencer eleições com mais de 90% dos votos, expurgando seus rivais no Exército. Uma história sempre relatada é a de que ele enviou seus assessores políticos para Washington para ajudarem na campanha de reeleição de Bill Clinton, em 1996, pois o presidente dos Estados Unidos admirava a popularidade do egípcio. Ao chegarem os resultados, Mubarak é que teria sido eleito o presidente dos EUA.

Mas as piadas sobre o presidente egípcio na verdade viraram uma mania no inicio de 2000, quando ele completou 70 anos e começou uma vigília nacional. Uma delas, por exemplo, fala de Mubarak no seu leito de morte, lamentando para o seu assessor: "O que o povo egípcio fará sem mim?" Procurando confortá-lo, o assessor, respondeu: "Senhor presidente, não se preocupe com os egípcios. É um povo forte que conseguirá sobreviver mesmo comendo pedra!". Mubarak faz uma pausa, reflete sobre isso e depois diz ao assessor que era preciso dar ao seu filho Alaa o monopólio do comércio de pedras.

Numa outra cena, Azrael, o arcanjo da morte, chega ao presidente egípcio e diz que ele precisa se despedir do seu povo. E ele indaga: "Por que, aonde estão indo?". Azrael tornou-se uma figura comum nas piadas, e a mais famosa delas faz alusão à reviravolta brutal do governo Mubarak nos anos 90. Deus convoca Azrael e lhe diz: "É hora de buscar Hosni Mubarak"."O senhor tem certeza?", pergunta Azrael, timidamente.

Deus insiste: "Sim, chegou a hora dele; vá e traga-me a sua alma".

Azrael desce para a Terra e dirige-se ao palácio presidencial. Chegando lá, tenta entrar, mas é capturado pela Segurança do Estado. É jogado numa cela, espancado e torturado. Depois de alguns meses, é libertado.

De volta ao céu, Deus, ao vê-lo todo machucado e arrebentado, pergunta: "O que aconteceu?"

"A Segurança de Estado de Mubarak me espancou e me torturou", Azrael responde. "E agora me mandaram de volta." Deus fica pálido e, com uma voz apavorada, pergunta: "Você não disse que fui eu que o mandei, não é?"

Não é somente Deus que tem pavor de Mubarak - mas também o demônio. Outras anedotas falam de Mubarak deixando o diabo em estado de choque com suas ideias para martirizar o povo egípcio, ou morrendo e tendo sua entrada recusada tanto no céu como no inferno, porque é considerado uma pessoa abominável por Deus e pelo Satanás.

A internet abriu novas janelas para o humor. Comentários sarcásticos que costumavam circular online nas mensagens de texto agora são transmitidas pelo Twitter, enquanto no Facebook foram criadas identidades falsas e páginas satíricas sobre políticos conhecidos do país.

Mas hoje a maior parte dessas sátiras é sobre a tenacidade com que Mubarak se agarra à vida e ao poder. Hishan Kassem, conhecido editor e uma figura da oposição liberal, contou-me esta :

Hosni Mubarak, Barack Obama e Vladimir Putin estão reunidos quando de repente Deus aparece para eles: "Vim aqui para lhes dizer que o fim do mundo será daqui a dois dias. Avisem o seu povo".

Assim, cada um dos líderes volta para sua capital e prepara um discurso pela TV para fazer o comunicado.

Em Washington, Obama diz: "Meus caros americanos. Tenho uma boa e uma má notícia. A boa é que posso confirmar que Deus existe. A má notícia é que ele me disse que o mundo vai acabar em dois dias".

Em Moscou, Putin declara: "Povo da Rússia, lamento lhes dar duas más notícias. A primeira é que Deus existe, o que significa que tudo aquilo em que nosso país acreditou durante todo o último século era falso. Em segundo lugar, o mundo estará acabando dentro de dois dias".

No Cairo, Mubarak diz: "Egípcios, venho lhes dar duas excelentes notícias! Primeira, Deus e eu tivemos uma importante reunião. A segunda é que ele me disse que serei o seu presidente até o fim dos tempos".

Para Hishan Kassem, o principal legado do governo Mubarak talvez seja a abundância de chacotas sobre seu líder. "No governo de Nasser, era a elite, cuja propriedade ele nacionalizou, que fazia piadas sobre o presidente". E, no governo de Sadat, "foram os pobres que ficaram abandonados pela liberalização econômica que faziam piadas. Mas no caso de Mubarak, são todos que o satirizam".

Mas um grande número de egípcios não achava mais que a situação do seu país era assim tão divertida e estava transformando o talento nacional para a sátira numa arma agressiva de dissidência política. O movimento Kifaya, contra Mubarak, usou o humor mais pungente para manifestar a indignação de uma nação inteira que se tornou um país de segunda mão para a família do presidente, com os planos de Mubarak para indicar seu filho Gamal como seu herdeiro. Outros manifestantes, queixando-se do alto custo de vida e dos salários estagnados, usaram caricaturas para representar políticos e magnatas roubando o país. E desde o início de 2010, o laureado com o prêmio Nobel Mohamed ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e um candidato potencial à presidência, tornou-se o símbolo de uma liderança digna que a oposição egípcia busca há décadas. O interessante é que, recentemente, Baradei censurou Mubarak por um comentário engraçado sobre um acidente com uma balsa que provocou a morte de mais de mil egípcios em 2006.

Mas mesmo que os democratas do Egito tenham conseguido impedir que o herdeiro de Mubarak o suceda no cargo, com certeza continuarão fazendo piadas sobre Gamal, filho do agora ex-presidente. Uma sátira épica foi criada na forma de um blog popular chamado Ezba Abu Gamal (O vilarejo do pai de Gamal). O blog é uma coleção de comentários, normalmente da perspectiva de Abu Gamal, prefeito de um vilarejo. A esposa está sempre insistindo para o filho ser promovido, mas Gamal tem muitas dúvidas a respeito: o rapaz não entende nada de reformas, laptops e assim por diante. É uma descrição mordaz para os iniciados na política egípcia. A persona de "camponês astuto" de Mubarak ressurge no seu filho e Gamal é descrito como um indivíduo inexperiente e incompetente, manipulado pelos amigos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITOR EGÍPCIO. FOI ANALISTA PARA O NORTE DA ÁFRICA DO INTERNATIONAL CRISIS GROUP

DIFÍCIL DE MORRER - PARTE ...21, 22, 23...

ROBERTO ROMANO

Municípios e corrupção política

ROBERTO ROMANO 

 O Estado de S.Paulo 12/02/11

Todo ano os jornais noticiam marchas de prefeitos rumo a Brasília para exigirem recursos. Os mesmos periódicos trazem respostas evasivas ou demagógicas do poder central. E como resultado temos as notícias de corrupção, cujos focos passam pelos municípios. Estes, se olharmos bem, constituem o começo e o fim do imenso assalto ao erário. Mas a ausência de uma Federação verdadeira é o que gera os assaltos de políticos e seus comparsas na vida civil.

É difícil entender o que se passa hoje sem revisar a história das instituições que herdamos do passado.

Munícipes, na Antiguidade, eram os habitantes itálicos que tinham direitos de gestão própria, assimilados aos romanos. Quando sem aquela autonomia, as cidades tinham o nome de praefecturae e seus habitantes não perdiam a qualidade de cidadãos de Roma, mas deviam obediência ao Senado de Roma.

Existiram municípios em toda a Europa até a queda do Império Romano. A federação que ligava as urbes a Roma as diferenciava em várias categorias. As mais autônomas, os municípios, concluíam um foedus aequum com a cidade dominante. Essa marca perdurou até a queda do império. O município e sua autonomia eram, ao mesmo tempo, base econômica e obstáculo na edificação do Estado absolutista. As cidades, ameaçadas pela nobreza e pelo clero, sofriam o assédio dos papas e monarcas que tentavam centralizar nações. Essa situação continuou até o século 18.

A liberdade municipal, segundo Alexis de Tocqueville, sobreviveu ao feudalismo. Em nações como a alemã e a italiana, as cidades chegaram a formar pequenos Estados. As Cortes da França, da Espanha e de países menos estratégicos, como Portugal, sufocaram as cidades ao impor sua burocracia, com a "igualdade" de todos diante do rei. No século 18 o governo municipal degenerou em oligarquia, "algumas famílias conduziam nele os negócios, tendo em vista fins particulares, longe do olhar público e sem serem responsáveis diante dele: trata-se de uma doença espraiada por toda a França" (O Antigo Regime e a Revolução). O poder régio domou as urbes, tornando-as centros corruptos e venais. A burocracia sufocou a independência dos municípios.

Passemos ao Brasil.

Aqui, a história política mostra similaridade com a descrita por Tocqueville. Uma agravante: nossas cidades já apareceram sob o absolutismo, não viveram a autonomia romana nem lutaram para manter suas prerrogativas na Idade Média. Não ocorreram nelas eleições livres nem a responsabilidade dos governantes diante dos munícipes. Terra de conquista, sobretudo econômica, o Brasil foi administrado segundo a moderna "igualdade de todos sob o rei".

Boa parte dos ofícios públicos era vendida ou alocada segundo os interesses da Corte. Em imenso território, as cidades eram geridas a distância. Os impostos seguiam para Lisboa, com pouquíssimo retorno à origem. A tendência centralizadora do poder consolidou-se em Portugal nas reformas pombalinas. Com a vinda da Casa Real se compôs a Corte no Rio de Janeiro, onde se integravam a nobreza, burocratas de alto escalão, serviçais e negociantes. O "povo" era a aristocracia, composta pelos "homens bons" sem sangue judeu. A representação "popular" fazia-se por petições, dando-se o direito de voto sem que os cidadãos tivessem presença ativa na esfera pública.

A grandeza do território, as revoltas, o exemplo dos países vizinhos que se tornaram Repúblicas, a memória da Revolução Francesa, todo um amálgama de pavores cortesãos definiu nosso Estado desde o nascimento. Surgiram dois projetos conflitantes: o da monarquia soberana e o de um governo constitucional. Venceu o primeiro, o império civil foi instituído por direito divino. A Constituição de 1824 incorporou o quarto Poder e o ampliou, pois ele podia dissolver a Câmara de Deputados, afastar juízes suspeitos, etc. A preeminência do Poder Moderador sobre os demais foi mantida mesmo nos tempos de Regência. Na República, tais prerrogativas foram mantidas para o chefe do Estado. Com elas veio a pretensão dos presidentes de supremacia sobre os demais Poderes.

O nosso Estado é um arremedo de República, sem harmonia entre os Poderes, sem federalismo. Ele é império, sob o Executivo central. Se no Brasil foedus significasse um "pacto", teríamos graus crescentes de autonomia, dos municípios ao poder de Brasília. Mas nossas leis desconhecem diferenças regionais e culturais, de geografia, etc. Uma uniformidade gigantesca obriga todos a seguirem a burocracia do Executivo. Não existe tempo nem autoridade para o experimento e modificações das políticas públicas em plano particularizado.

As "tragédias" das enchentes mostram o desastre desse centralismo. Não temos uma escala real de responsabilização pelas políticas públicas. Todas as decisões são açambarcadas pelos que habitam os palácios brasilienses. Logo, as oligarquias parasitam os Poderes (a mais célebre mantém este jornal sob censura) e mostram face dupla: trazem os planos do poder central (e recursos) aos Estados e levam ao Planalto as aspirações regionais.

As tratativas entre os dois níveis (central e estadual) ocorrem no Congresso Nacional. Ali, Presidência e Ministérios buscam apoio para os seus projetos. É impossível conseguir verbas sem "favores", mercadejo dos cargos, pró-labore "informal" por "serviços prestados".

Enquanto não existirem municípios autônomos, sobretudo nas finanças, testemunharemos: uma das fontes mais poluídas de nossa política corrupta é institucional.

Federação de fato, já!

FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP), É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ''O CALDEIRÃO DE MEDEIA'' (PERSPECTIVA)

CLÓVIS ROSSI

A revolução, a mão boba e a utopia
CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SÃO PAULO - 12/02/11
Egito fez o impossível, falta agora o mais difícil, que é organizar a sua transição para a democracia

O que parecia impossível há apenas 20 dias aconteceu ontem: a rua egípcia derrubou uma ditadura de 30 anos. Realizado o impossível, vem o mais difícil, que é organizar a transição para a democracia, em um país e em uma região que têm escassa tradição democrática, se é que tem alguma. Para começar, há um antecedente, cravado na memória coletiva do país, que dá razão à desconfiança sobre se a saída de Mubarak por si só abre espaço para a democracia.
Em 1954, um militar como Mubarak, Gamal Abdel Nasser, também viu seu governo cercado por manifestantes em seu palácio, exigindo o retorno a um governo civil, a libertação dos prisioneiros políticos e a restauração do Parlamento -agenda muito parecida com a de 2011.
Nasser prometeu reformas, anunciou eleições livres para junho daquele ano, e os manifestantes foram para casa. "A ação [de retirada] custou ao Egito 57 anos sem liberdades básicas", diz Omar Ashour, diretor do Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos da universidade de Exeter (Reino Unido).
Esse episódio mais a visceral desconfiança do Ocidente sobre a possibilidade de que países árabes e/ ou muçulmanos possam de fato se democratizar explica a análise feita à "Foreign Affairs" por Joshua Stacher, professor-assistente de Ciência Política da Universidade Kent e que prepara livro comparando o autoritarismo no Egito e na Síria:
"Aqueles que cercam o combatido presidente e que constituem o regime, de forma mais abrangente, asseguraram-se de que a viabilidade do Estado não fosse questionada. A instituição central do país, os militares, que historicamente influenciam a política e têm o comando quase monopólico dos interesses econômicos, nunca relutaram."
Não relutaram nem mesmo ante o afastamento do chefe, como se tratasse de entregar o anel (ou os anéis, somando o vice Omar Suleiman) para preservar os dedos, evitando que o sistema caísse na rua.
Feitas essas observações digamos pessimistas, não parece haver espaço para que a ditadura se mantenha agora sem o ditador. Mais, e melhor: minha impressão à distância é que o que aconteceu no Egito não tem paralelo com as revoluções ocorridas no século passado ou com outros processos de democratização como os da América Latina.
Um detalhe micro, micro mesmo, chama a atenção: há relatos de mulheres que contam que desde o 25 de janeiro podem circular tranquilamente pelas aglomerações sem o risco de uma "mão boba", tão característica nas localidades turísticas do Egito como as pirâmides.
Pode ser ingenuidade minha, mas tal mudança de mentalidade dá ar de utopia à rebelião egípcia, capturada por um de seus principais escritores, Alaa El Aswany.
Em entrevista ao "Independent" britânico, diz que "um homem verdadeiramente apaixonado se torna uma pessoa melhor", e acrescenta: "Uma revolução é algo parecido: todos os que dela participam sabem que tipo de pessoas eram antes de que começassem as manifestações e agora se sentem diferentes".
Uma segunda versão épica-idílica para a revolta aparece em texto de Assia al Atrouiss para "Al Sabah" ("A Manhã", do Iraque): "Os povos não aceitam mais morrer em silêncio; aspiram viver com dignidade". Fecha com frase que é prudente comprar: "Isso deixa abertas todas as hipóteses para o futuro".

GOSTOSA

MARCELO FURTADO

O futuro da energia no retrovisor
MARCELO FURTADO


FOLHA DE SÃO PAULO - 12/02/11

O Brasil precisa de energia para seguir crescendo. Mas não precisa de Belo Monte. Um estudo do Greenpeace lançado em novembro, o (R)evolução Energética, mostra que o país pode suprir suas necessidades energéticas investindo em fontes de geração renovável, como a eólica e a solar, e dispensando a construção de megahidrelétricas na região da Amazônia.
Em 2050, mostra o estudo, o Brasil pode ter uma matriz elétrica com 93% de participação de energias renováveis, eliminando completamente a geração à base de carvão, de diesel e a geração nuclear.
O cenário energético de nosso estudo custa, pasmem, R$ 88 bilhões a menos do que o proposto pelo governo para os próximos 40 anos.
Ele indica também que a aposta nas renováveis não é apenas mais barata. Ela geraria 1,2 milhão a mais de empregos e produziria seis vezes menos emissões de gases do efeito estufa em comparação aos planos da burocracia federal. Com tantas vantagens, por que ainda estamos investindo em grandes hidrelétricas na Amazônia?
A construção de Belo Monte provocará um desmatamento de 12 mil hectares, a movimentação de 230 milhões de metros cúbicos de terra -mais do que na obra do Canal do Panamá- e a abertura de 260 quilômetros de estradas no canteiro de obras. Terminada a obra, a usina obrigará ainda a remoção forçada de 20 mil pessoas.
Os efeitos negativos sobre a biodiversidade e os indígenas que dependem do rio Xingu estão evidentes na relutância do Ibama em licenciar a usina de Belo Monte.
Apesar de tantos questionamentos, Lula declarou que faria Belo Monte "na lei ou na marra". A presidente Dilma escolheu o segundo caminho, constrangendo o Ibama a conceder uma autorização para a instalação do canteiro de uma obra que ainda está para ser licenciada.
Se, do ponto de vista socioambiental, a construção de Belo Monte tem tudo para ser um desastre, do ponto de vista econômico ela também não faz sentido.
As obras civis vão custar R$ 15,6 bilhões. Com esse número, oficial, fica difícil acreditar que o valor final do projeto será de R$ 25,8 bilhões, como recentemente anunciado. Há um ano, o valor da obra estava em R$ 19 bilhões. Não houve, nos últimos 12 meses, uma inflação capaz de justificar tamanho salto de preço.
A discussão sobre Belo Monte não é sobre a tecnologia de geração hidrelétrica, mas sobre o tamanho da obra e sua localização. O modelo proposto pelo Greenpeace dialoga com o Brasil de hoje e do futuro, propondo uma expansão da geração energética a partir de fontes como a solar, a eólica, PCH (pequenas centrais hidrelétricas) e biomassa.
Essas fontes, particularmente biomassa e a eólica, são capazes de trazer a segurança energética que o país precisa ao longo do ano, uma vez que garantem o suprimento justamente nos meses de seca, em que a geração das hidrelétricas é muito mais baixa.
Belo Monte terá geração extremamente variável ao longo do ano e vai apenas repetir esse padrão, que contribui para o deficit de energia nos meses secos, remediado com o acionamento de termelétricas movidas a combustíveis fósseis.
O Brasil tem tudo para ser a nação com a matriz elétrica mais limpa do planeta. Belo Monte é sinal de que o governo não busca o futuro.
Quer apenas perpetuar o passado, lavando as mão em relação à nossa geração e às que estão por vir.
MARCELO FURTADO é diretor-executivo do Greenpeace no Brasil.

LUIZ PINGUELLI ROSA

A razão das hidrelétricas
LUIZ PINGUELLI ROSA


FOLHA DE SÃO PAULO - 12/02/11

O setor elétrico brasileiro está sob duplo bombardeio na mídia.
Têm ocorrido quedas de energia elétrica com frequência acima do normal. Não há falta de capacidade instalada, como no racionamento de energia em 2001. Na época, faltaram investimentos para expansão do sistema; hoje, o problema está na transmissão e na distribuição.
Por outro lado, os ambientalistas criticam a construção de Belo Monte. No fundo, a questão não é Belo Monte, mas fazer ou não hidrelétricas de potência significativa, em particular na região Norte, onde está a floresta amazônica, foco de justas preocupações ambientais.
Está na região Norte a maior parte do potencial hidrelétrico do Brasil, que possui os maiores recursos hídricos do planeta: 8,2 km3/ano, seguido da Rússia, com apenas 4,5, e do Canadá, com 2,9. Apesar disso, ficamos em quarto lugar em capacidade instalada de hidrelétricas, atrás de China, EUA e Canadá.
Usamos apenas cerca de 30% do potencial hidrelétrico nacional, percentual este que supera 70% na Noruega, seguida de perto por Japão, Canadá e EUA. Entretanto, a hidroeletricidade representa 85% da nossa geração elétrica, só superada pelo Paraguai e pela Noruega.
Deve o país abrir mão de utilizar essa energia? Creio que não. Mas não pode fazê-lo a qualquer preço.
Devem ser cumpridas as restrições ambientais necessárias.
O preço da energia de Belo Monte é de R$ 68/MWh, enquanto nas termelétricas novas é de R$ 140/MWh, e há antigas que chegam a R$ 400/ MWh quando operam em caso de escassez de água nas hidrelétricas.
O investimento previsto é de R$ 20 bilhões, definidos no leilão, embora documento do consórcio vencedor fale agora em R$ 26 bilhões, pretendendo vender 20% da energia para consumidores livres a preço maior. Aí está um problema a ser resolvido pelo consórcio, pois deverá ser obrigado a manter o preço de R$ 68/MWh para a rede pública.
A área inundada se restringe praticamente àquela que o rio já ocupa na sua variação sazonal. Ela tem 516 km2, bem menor que Itaipu, com 1.300 km2. A usina de Balbina tem 0,1 W/m2 e Tucuruí tem 2,9 W/ m22: Belo Monte terá 21 W/m2.
Mas há um problema, que é a redução da água na Volta Grande do Xingu, o que preocupa moradores ribeirinhos. A solução é garantir uma vazão mínima.
Não haverá reservatório para acumulação, como fazem as hidrelétricas antigas do sistema interligado. Para reduzir os impactos, perdeu-se a capacidade de regularizar a vazão, reduzindo a energia assegurada. A potência máxima de Belo Monte é de 11 GW e a média é de 4,6 GW. A relação desses dois valores dá o fator de capacidade de 42%, bem menor que os de Jirau e de Santo Antônio.
Entretanto, em geral, as hidrelétricas brasileiras têm fator de capacidade pouco acima de 50%. Esse fator é de, em média, 21% nas hidrelétricas na Espanha, de 32% na Suíça, de 35% na França e no Japão, de 36% na China e de 46% nos EUA.
A operação de Belo Monte não pode ser vista isoladamente, pois ela estará no sistema interligado, no qual há transmissão de energia de uma região às outras.
Quando Belo Monte gerar 11 GW, ela vai economizar água em reservatórios de outras usinas, que reduzirão sua geração. E essa água guardada permitirá gerar energia adicional nessas usinas.
É natural que os ambientalistas pressionem o governo. Apoiei a então ministra do governo Lula, Marina Silva, quanto às exigências impostas para as usinas do rio Madeira. No final, chegou-se a uma solução para o licenciamento de Jirau e de Santo Antônio pelo Ibama.
Há anos, obras como a de Tucuruí produziram impactos muito grandes. O canteiro de obra causou uma concentração de pessoas abandonadas à própria sorte após a obra. Isso tem de ser evitado.
LUIZ PINGUELLI ROSA 68, físico, é diretor da Coppe-UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Foi presidente da Eletrobrás (2003-2004).

O ABILOLADO E A MENTIROSA

CESAR MAIA

Os cortesãos
CESAR MAIA
FOLHA DE SÃO PAULO - 12/02/11

A disputa de cargos, em todos os níveis, e de benesses governamentais, entre os partidos que apoiam o governo federal, remete ao sistema de cortes das monarquias nos séculos 16 e 17. As cortes palacianas viviam no entorno dos reis, disputando cargos, concessões e favores.
Os homens fortes das cortes eram aqueles que, por proximidade com reis e rainhas, conseguiam para seus apaniguados decisões que lhes davam poder e riqueza. As cortes dos vice-reis na América hispânica aprofundaram o sistema. As "encomiendas", por exemplo, eram concessões de caráter feudal com cessão de terras e seus índios, para o uso econômico e deleite dos "encomenderos". Outro exemplo era o "corregimiento", uma região onde o "corregidor" tinha todos os poderes e onde esse poder até se comprava.
Os vice-reis da Espanha no Peru e no México (Nova Espanha), nos séculos 16 e 17, com status de "alter ego" do rei, punham e dispunham sobre tais concessões. Em torno deles, construíram-se amplas cortes que se dividiam em funções administrativas e de proximidade com o vice-rei.
Era tão bom, que fazer parte do séquito de um vice-rei nomeado na Espanha tinha preço. A orientação básica da coroa era prestigiar os chamados "beneméritos", ou seja, os que chegaram na frente para conquistar e colonizar.
Mas o que ocorria eram nomeações e concessões ao grupo íntimo do vice-rei ou aos indicados por ele. Os abusos chegaram a tal ponto que, em 1619, o rei Felipe 3º regulamentou a ocupação de cargos, proibindo empregar e fazer concessões a parentes até o quarto grau.
Em 1660, Felipe 4º repetiu a mesma resolução, pois as cortes no Peru e na Nova Espanha não haviam dado a menor bola para a determinação.
A solução no século 18 foi tirar poder dos vice-reis e transformá-los em burocratas do Estado espanhol.
O que vemos por aqui é uma adaptação disso. Um partido tem direito de nomear em órgãos que passam a ser suas "encomiendas". O quoteo de ministérios, órgãos e empresas estatais são como "corregimientos". O líder de bancada de prestigio é aquele que, por proximidade com o poder ou por intimidação, abre amplos espaços para os seus protegidos. Mesmo que indiretamente, isso tudo tem um preço.
Não tão abertamente como as vagas no séquito dos vice-reis, mas de forma mais intensa e rentável. Como nas cortes, vai se criando um hábito.
E só se lembra do método quando os desvios são publicados. Os servidores profissionais independentes vão ficando de lado, como ocorreu aos "beneméritos". E -da mesma forma que os Felipes 3º e 4º- não será por falta de leis, decretos e resoluções. Enquanto isso o Estado vai ficando caro, improdutivo, ineficiente, e algumas vezes, corrupto.

CELSO MING

Emprego, salário e inflação
Celso Ming 
O Estado de S.Paulo - 12/02/11

Afinal, pleno emprego produz inflação? E de onde saiu a conclusão de que desemprego abaixo de 7% no Brasil passa a produzir inflação?

Os estudos mais precisos sobre esse tema no Brasil são do Banco Central (Relatório de Inflação de março de 2008 - A taxa natural de desemprego no Brasil) e apontam um nível ainda mais alto, entre 7,5% e 8,5%. Mas antes de cravar um número - que jamais será conclusivo - convém examinar os pressupostos e o que está em questão.

Toda a economia está sujeita a situações em que os salários aumentam mais rapidamente do que a produtividade. A produtividade avança quando mais produção pode ser obtida por meio da utilização de igual volume de força de trabalho. Quando os salários crescem mais do que esse ponto, não só elevam os custos de produção, mas também se cria renda que, por sua vez, turbina o consumo. Nessas condições, se aumentar a velocidade superior à capacidade de oferta da economia, esse consumo turbinado tende a produzir inflação. É o que acontece nas situações próximas do pleno emprego, como agora.

Os acadêmicos preferem denominar esse conceito de "taxa natural de desemprego" ou "taxa neutra de desemprego". O próprio índice de desemprego não tem grande precisão. Baseia-se em pesquisas em que predomina certa subjetividade. Muita gente vai sempre se sentir subempregada ou desempregada, embora tenha uma ocupação razoável. Ao ser abordada pelos pesquisadores do IBGE, vai dizer que está, sim, fora do mercado de trabalho. E o contrário disso também ocorre.

E, mesmo que se possa mensurar com alguma precisão o nível de desemprego de uma economia, é difícil também interpretar seu significado e sua influência. Ele pode variar de acordo com a idade média da população ou de acordo com disposições da legislação. E não é só isso, os efeitos do pleno emprego sobre a inflação são diferentes de país para país, de cultura para cultura. Um povo mais propenso a poupar, como os asiáticos, tende a enfrentar o aumento do emprego com menos inflação, porque saberá conter seu consumo.

E o que dizer do Brasil? Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco, informa que seu banco trabalha com uma taxa neutra entre 7,0% e 7,5%. E esse é o mesmo patamar do Banco Santander, como indica o economista Cristiano Souza.

O especialista em Economia do Trabalho José Pastore entende, mais por faro do que por cálculo rigoroso, que a taxa neutra hoje se situe na casa dos 6%. E observa que os acordos salariais do ano passado ficaram todos acima da inflação. Para José Márcio Camargo, também especialista em questões trabalhistas, a taxa neutra se situa ao redor dos 6,5%. Ele, no entanto, adverte que ainda não há pleno emprego no Brasil. Mas, nos atuais níveis de desemprego (de 5,3% em dezembro), já ocorrem pressões por mais salário, o que mais adiante tende a provocar inflação.

Marcelo Portugal, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, observa que nos últimos 25 anos o mercado de trabalho não pressionou a inflação. Mas diz que o baixo índice de desemprego dos últimos meses se transformou em caixa de propagação inflacionária.

Enfim, com as variações esperadas, os números disponíveis são esses aí.

GOSTOSA

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Um partido para Serra?
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 12/02/11


SÃO PAULO - Sair do DEM para onde? O PMDB? O PSB? Fundar um novo partido?! De todas as opções políticas postas diante de Gilberto Kassab, a última é a que mais interessa a José Serra. Nada por ora está claro, nem existe a certeza de que o prefeito e seu padrinho estarão no mesmo barco mais adiante.
A possível fundação do PDB (Partido da Democracia Brasileira), no entanto, além de não jogar Kassab no colo da aliança governista, abriria a Serra uma perspectiva de vida política fora do PSDB, onde suas pretensões parecem ser cada vez menos viáveis.
É claro que não é trivial deixar uma legenda que ajudou a fundar e com qual está identificado, abrindo mão de uma estrutura já montada. Mas Serra já disse a vários interlocutores, desde antes da eleição, que cogitava criar um novo partido.
A oposição vive um momento muito ruim. Além de ter encolhido no Congresso, está se autodevorando. O DEM definha em praça pública. E o PSDB se esforça para evitar (ou adiar) uma guerra fratricida que passa pelo comando do partido, mas vai muito além disso.
Geraldo Alckmin hoje se equilibra, tentando desempenhar a função de moderador entre o novo apetite de Aécio e a velha insistência de Serra. Ao governador paulista interessa aparecer como uma espécie de gestor da política do "café com leite" e fiador da unidade tucana. A despeito disso, a percepção de que o PSDB ficou pequeno demais para Serra e Aécio nunca foi tão nítida.
Sem mandato, Serra ainda tem algum poder no partido para vetar ou melar decisões que o desagradam, mas, hoje, não reúne mais forças para se impor ou construir o seu próprio caminho. Sua liderança é, em grande medida, paralisante.
Isso não quer dizer que Serra deixará o PSDB, mas que existe essa conversa. No curto prazo, ele conta com Alckmin para segurar Aécio. E torce para que Kassab lhe abra uma outra porta. Ficou dependente dos seus sucessores -o prefeito e o governador. É uma ironia. É a política.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Há algum espaço para um aumento em relação aos R$ 545”
SENADOR AÉCIO NEVES (PSDB-MG), DEFENDENDO A UNIÃO DA OPOSIÇÃO AOS SINDICALISTAS

PMDB TENTA REMOVER VETOS A GEDDEL E PESSUTI 
A cúpula do PMDB tenta negociar o fim dos vetos a dois membros do partido para integrar o governo Dilma Rousseff. O ex-ministro da Integração Geddel Vieira Lima, que chegou ao cargo com o aval do governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), agora é vetado por ele. Já Roberto Requião (PMDB-PR) ameaça romper com Dilma em caso de convite ao ex-governador do Paraná Orlando Pessuti, que foi seu vice.

JEITINHO TEMER 
Michel Temer deve evitar o confronto com Roberto Requião, nomeando o amigo Orlando Pessuti para sua assessoria, na vice-presidência.

VETO DE ROSEANA 
A cúpula do PMDB também endossou o veto da governadora Roseana Sarney ao seu inimigo nº 1, ex-deputado Flávio Dino (PCdoB-MA).

DESCARTADO 
O ministro José Eduardo Cardozo queria o ex-juiz Flávio Dino em sua assessoria, no Ministério da Justiça. Mas terá de desistir.

VICE: EM EXTINÇÃO 
Acautelem-se os vices do mundo. O papel de vice, depois do Egito, que não era já grande coisa, tende a ser um arranjo em extinção.

PREFEITO DESAFIA TCU E VIRA RÉU POR IMPROBIDADE 
O prefeito de João Pessoa, Luciano Agra, desafiou o Tribunal de Contas da União, que mandará cancelar o contrato com a empresa SP Alimentação, fornecedora de merenda escolar, e o renovou, sabendo que perderia R$ 2,4 milhões do Programa Nacional de Alimentação Escolar. A suspeita fidelidade gerou uma ação por improbidade administrativa movida pelo Ministério Público Federal contra ele.

SUSPEIÇÃO 
O prefeito e a SP Alimentação agora são suspeitos de envolvimento com a máfia da merenda escolar que atua em quase todo o País. 

O AMOR É LINDO 
O prefeito Luciano Agra garantiu novo contrato para a enrolada fornecedora SP Alimentação, apesar das advertências do TCU.

PERGUNTA NA REUNIÃO 
Essa “reabilitação” dos mensaleiros petistas inclui um programa dos doze passos como nos AAA? 

INIMIGO MEU 
Comentário no Twitter do ex-deputado Roberto Jefferson, que detonou o escândalo do mensalão, sobre a mobilização nacional do PT para reabilitar politicamente o ex-ministro José Dirceu: “Te cuida, Palocci!”. 

VIDA DURA 
Depois do Fórum Social Mundial no Senegal, Paulo Borba, secretário de Planejamento da prefeitura petista de São Leopoldo (RS), e o diretor de relações internacionais, Espartaco Dutra, filho do ex-governador Olívio Dutra, buscam na França “subsídios à Copa de 2014”. 

ISSO ENGORDA... 
O deputado Sandro Mabel (PR-GO), fabricante dos biscoitos Mabel, visitou o diretor (demissionário) de Engenharia da estatal Infraero, Jaime Parreira. Deve ter ido vender rosquinhas. Recheadas.

A FACA E A LÂMINA 
Se a Operação Guilhotina, desencadeada na sexta pela PF do Rio para prender PMs e policiais civis ligados ao tráfico, for fundo na lâmina, cabeças “reais” poderão ser degoladas. Mas como estamos no Brasil...

ROSÁRIO DE QUEIXAS 
Cena perturbadora no Expand de Brasília, há dias: durante uma garrafa inteira de bom tinto, o paciente Cândido Vacarrezza (PT-SP) manteve imperturbável cara de paisagem enquanto Eduardo Cunha (PMDB-RJ) praticamente lhe babava a gravata, cochichando, inclinado sobre ele. 

ESQUECERAM DE MIM 
O ex-ministro Pedro Brito (Portos) espalha que sua “amizade pessoal” com Dilma o colocará em uma agência reguladora, qualquer uma. Ele se diz rompido com o governador Cid e seu irmão Ciro Gomes (PSB).

RAINHA DO LAR 
Se fosse marido, seria divórcio na certa o comentário de Lula, que “o sucesso de Dilma é o meu sucesso, o fracasso de Dilma é o meu fracasso”. Valia ao menos separação de corpos...

EU NÃO SABIA 
Rosely Soares Antunes, assessora da Secretaria de Educação do DF, é irmã da chefe de gabinete do vice-governador Tadeu Filippelli, Rosemarya Soares Antunes. Mas ela diz que nem sabia da nomeação.

PENSANDO BEM...
...menos uma praga no Egito. 

PODER SEM PUDOR
ESPÉCIE EM EXTINÇÃO 
O contador de histórias José Inácio de Morais, líder dos plantadores de cana da Paraíba, sempre foi um crítico da proibição de fiscais do Ibama andarem armados. Põe a culpa no tatu: “Se um caçador for pego com um tatu, é crime inafiançável. Se matar um fiscal do Ibama, for réu primário e se livrar do flagrante, pode responder ao processo em liberdade”. E avisa:
– Como o tatu está em extinção e o homem não para de procriar, os fiscais que se cuidem... 

A TERRORISTA MENTIROSA

SÁBADO NOS JORNAIS

Globo: A Praça derruba o ditador
Folha: Em 18 dias de protestos, egípcios derrubam ditador de 3 décadas
Estadão: Protestos derrubam ditador do Egito e militares assumem poder
Correio: O Egito é do povo
Estado de Minas: Cai o último faraó. E agora?
Jornal do Commercio: Fim da Era Mubarak
Zero Hora: A revolta egípcia venceu