sexta-feira, fevereiro 11, 2011

DORA KRAMER

Politização da Justiça 
DORA KRAMER 

O Estado de S.Paulo - 11/02/2011

Na falta de disposição (e vocação) para prestar serviços mais relevantes à Nação, a Câmara dos Deputados resolveu confrontar a Constituição.

Diante do grande número de eleitos que se licenciam dos mandatos para ocupar postos nos Poderes Executivos da União e dos Estados, a decisão "soberana" da direção da Casa foi dar posse aos suplentes usando o critério dos mais votados pelas coligações.

Coligação o leitor sabe o que é: aquele ajuntamento de partidos, mediante o qual nas eleições proporcionais o eleitor atira no que viu e acerta no que não viu. Por essa regra, dos 513 deputados, apenas 86 foram eleitos com votos próprios.

A norma é torta, mas é a que vale. Com base nisso, suas excelências acharam por bem ignorar uma série de decisões da Justiça considerando que os suplentes chamados a assumir os mandatos devem obedecer à ordem dos mais votados em cada legenda.

Por "Justiça", entenda-se o Tribunal Superior Eleitoral, cuja referência é a interpretação do Supremo Tribunal Federal, que, baseado na Constituição, deixou claro que os mandatos pertencem aos partidos e não aos eleitos.

Entre suas promessas de campanha, o novo presidente Marco Maia se comprometeu com os colegas a usar o critério que, a despeito de bater de frente com o entendimento do Supremo - guardião da Constituição, não custa lembrar -, atendia aos interesses da corporação.

Dito, assim o fez. Criou o fato consumado e agora recorre ao sofisma de que, se a coligação vale para a distribuição das cadeiras entre os titulares, vale também para os suplentes.

Ocorre, porém, que a Justiça tem decidido diferente. E tanto essas decisões têm base legal - a Constituição que se sobrepõe a todas as leis - que os deputados resolveram votar uma emenda constitucional que lhes permita contornar a decisão do Supremo. Se houvesse sustentação legal válida, não seria necessário propor alteração.

Na reclamação, os parlamentares lançam mão do argumento de sempre quando querem adaptar as leis às suas vontades. Reclamam da "judicialização da política". Não é a primeira vez que suas excelências ignoram a Constituição, o Supremo e que usam esse argumento que não para em pé.

Trata-se de um sofisma para esconder o que de fato tentam promover: a subordinação da legalidade aos interesses específicos de suas excelências. Em português mais claro, a politização da Justiça.

Poder de veto. O governo sinalizou, e José Sarney vetou, a nomeação do ex-deputado Flávio Dino para um posto no Ministério da Justiça.

Dino foi candidato ao governo do Maranhão pelo PC do B e protagonista de um dos mais graves confrontos entre PT e PMDB na última eleição.

Os petistas queriam apoiar Flávio Dino, mas a direção nacional os obrigou a fechar com o clã Sarney (Roseana) que agora não se conformou com a "colocação" do adversário.

Solução: pode ir trabalhar com Michel Temer na Vice.

No bunker. Reunião ontem à tarde juntou Antonio Palocci, Luiz Sérgio, Henrique Eduardo e Renan Calheiros no gabinete de Temer no anexo do Planalto.

Assuntos: salário mínimo e segundo escalão. O mínimo será votado na própria quarta à noite e ficará mesmo em R$ 545.

Quanto aos cargos, o PMDB fica com diretorias da Eletrobrás e Eletronorte, presidência da Funasa e algumas vice-presidências da Caixa e do Banco do Brasil.

Cessão de direitos. A presidente Dilma tem razões objetivas para não patrocinar as reformas tributária e política no Congresso. A primeira avaliou que é de execução impossível tal a quantidade de conflitos de interesses que, pelo jeito, ela não está disposta a arbitrar.

A segunda deixará que o antecessor patrocine "de fora para dentro". Será o grande estandarte nessa volta de Lula à cena política: uma reforma ao molde da conveniência do PT.

GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Zerada
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 11/02/11

Marina Silva passou segunda e terça-feira em São Paulo fazendo check-up no Incor. Na quarta, dia de seu aniversário, viajou feliz para Brasília. O resultado foi positivo: está tudo bem, especialmente o coração - em todos os sentidos.

Antes de entrar na campanha ano passado, ela também se submeteu a uma bateria de exames para tranquilizar seus 20 milhões de eleitores.

Cobiçada
O que fará este ano? A ex-senadora recebeu convites de instituições de ensino e pesquisa para atuar como professora convidada. Entre eles, do MIT, braço de Harvard na área de pesquisas, para um ciclo de palestras. E outro da UnB, por meio de Cristovam Buarque.

Martelo batido

Nelson Jobim marcou data para que José Genoino comece a dar expediente como seu assessor no Ministério da Defesa: fim de fevereiro.

Questionado se voltaria à Câmara, onde é suplente, caso uma vaga fosse aberta, o petista desconversa e parodia Lula: "Desencarnei da Câmara".

Terceira geração
Casamentão com mais de mil pessoas, black-tie, quarta, na Igreja Nossa Senhora do Brasil, com direito a festa no Hotel Unique. Oferta dos avôs da noiva Patricia: Paulo Maluf e Edevaldo Dias da Silva.

Um dos pouquíssimos sem traje a rigor era... José Serra.

Tudo pelo social
Depois da pacificação no Complexo do Alemão, a prefeitura do Rio planeja dar um banho de marketing, educação e trabalho na comunidade.

Agentes municipais, publicitários, o AfroReggae e a Natura se reuniram, anteontem, no morro para acertar detalhes do projeto que oferecerá capacitação profissional, reciclagem e orientação financeira.

WC interditado
Pode parar na Justiça decisão sobre demolir ou não banheiros construídos sob marquise do Ibirapuera. Com a reforma do espaço, oMinistério Público defende que projeto original deva ser mantido, sem banheiros. Já a Secretaria do Verde defende a permanência. A definição só sai em 2012.

Sem ficção

Foi montada comissão de defesa do Belas Artes encabeçada por Nabil Bonduki e Rubens Rewald. Propuseram à Câmara audiência pública com o Conpresp para discutir o tombamento do prédio. Em paralelo à mobilização, o dono do cinema, André Sturm, teve reunião ontem e terá outra hoje com o proprietário do imóvel.

Saúde frágil
A consulta pública que a Anvisa abrirá dia 31 de março para restringir venda de cigarros - inclusive em pontos de venda - é polêmica.

A Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação, que reúne sindicatos da indústria de hotéis, bares e restaurantes, diz temer que se repita aqui o que aconteceu no Uruguai: epidemia de contrabando.

Tela quente
Caso a Record leve a melhor na guerra pelos direitos de Brasileirão, ela pretende trazer os jogos de meio de semana para o horário das oito da noite. Batendo com Jornal Nacional e novela.

Na frente

Donata Meirelles e Nizan Guanaes recebem Luis Moreno, do BID. Na terça-feira.

FHC convidou alunos e professores do Dante Alighieri para a palestra inaugural do ano. Dia 23, no seu instituto.

Acontece hoje, no WTC, o Comitê Copa e Olimpíadas. Tema? Segurança.

Fabiana Karla, a Dra. Lorca de Zorra Total, é quase... ex-gorda. Fez cirurgia de redução do estômago recentemente e já perdeu 16 quilos.

CELSO MING

Difícil acreditar 
CELSO MING 

O Estado de S.Paulo - 11/02/2011

O governo parece ter sido apanhado de surpresa com a baixa credibilidade suscitada por seu pacote de cortes no Orçamento da União.

O fato é que, depois de tanta tergiversação e da manipulação das contas públicas como as que ocorreram no ano passado, não dá mesmo para acreditar, sem provas materiais adicionais, em tudo o que repetem os ministros da área econômica.

O que houve foi o anúncio de que viria uma redução de despesas correntes de R$ 50 bilhões (ou 2,7%) no Orçamento aprovado pelo Congresso. Mas os detentores do tesourão oficial ainda não foram capazes de dizer onde aconteceria e isso já é, por si só, fator de incerteza. Não é com afirmações de que será reduzido o ritmo de viagens internacionais e suspensos concursos para preenchimento de vagas no funcionalismo público que teremos compressão das despesas públicas em magnitude suficiente para evitar que "a inflação extrapole a meta" de 4,5% neste ano.

Convém observar que não é apenas a área da Fazenda que vem atuando com déficit de credibilidade. O próprio Banco Central (BC) já não consegue conduzir as expectativas como há um ano. Neste momento está a reboque da percepção que os agentes econômicos vêm tendo do comportamento da inflação. No passado, os dirigentes do BC sempre foram reticentes quanto à eficácia de medidas prudenciais no combate à inflação. De repente, no entanto, passaram a insistir em que se repare na força dos seus efeitos e querem que todos pautem sua cabeça com essas novidades. O fato é que o Banco Central demorou demais a admitir a virulência da inflação.

Em todo o caso, há na iniciativa de anunciar os cortes um reconhecimento importante do governo: o de que as excessivas despesas públicas são causa relevante do atual surto de inflação. Até agora, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vinha negando essa relação, seja porque não quisesse alarmar a sociedade, seja porque pretendesse manter as pressões para que o Banco Central não aumentasse os juros.

Ao contrário, Mantega insistia em que as causas da atual disparada de preços se limitavam a fatores sazonais, ou externos (choque de commodities), ou, ainda, a destemperos climáticos. A consequência dessa postura é a de que não seria preciso fazer nada para que a inflação cedesse em seguida: "vai passar".

Se agora fica admitida a necessidade de cortes, então fica também reconhecida a existência da inflação de demanda, provocada pela forte geração de renda que se seguiu à disparada do gasto público com fins eleitorais, que, por sua vez, gerou forte descompasso entre procura e oferta de bens e serviços.

O ministro Mantega também justificou os cortes como necessários para abrir espaço para a redução dos juros. A bem da verdade, os atuais cortes orçamentários não parecem suficientemente fundos a ponto de dispensar maior aperto monetário. Assim, seria mais apropriado afirmar que o corte das despesas, desde que efetivado, poderá evitar certa expansão dos juros básicos. Em todo o caso, o que disse Mantega é suficiente para entender que até agora a política fiscal foi obstáculo para o controle da inflação.

O governo Dilma começa com enorme capital político. Se os cortes forem mais bem especificados e se forem seguidos de demonstração de firmeza do governo na condução da política fiscal, conseguirá virar a opinião pública a seu favor.

CONFIRA

O buraco é mais embaixo

O diário Clarín, de Buenos Aires, afirmou que o crescente superávit do Brasil no seu comércio com a Argentina (de US$ 4,1 bilhões em 2010) se deve à falta de competitividade da economia argentina que "não se corrige com negociações comerciais".

Fora do baralho

O durão Axel Weber anunciou sua desistência de se recandidatar à presidência do Bundesbank (banco central da Alemanha). Isso significa que ele também vai desistir de ser candidato a presidente do Banco Central Europeu. Estão abertas as apostas sobre o sucessor do atual presidente, Jean-Claude Trichet, cujo mandato terminará em março.

Quatro candidatos

O jornal Le Figaro aponta quatro nomes: o italiano Mario Draghi (que tem contra ele críticas de quando passou pelo Goldman Sachs); o luxemburguês Yves Mersch; o finlandês Erkki Liikanen; e o alemão Klaus Regling (presidente do Fundo Europeu de Estabilização Financeira).

BRAZIU: O PUTEIRO

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Repescagem
RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 11/02/11

Durante almoço com Antonio Palocci (Casa Civil) e Luiz Sérgio (Relações Institucionais), a cúpula do PMDB apresentou uma nova rodada de propostas para acomodação de seus quadros no governo de Dilma Rousseff. Da lista constam Geddel Vieira Lima (BA) e José Maranhão (PB), que o partido gostaria de instalar em vice-presidências da Caixa Econômica Federal, e Orlando Pessuti (PR), oferecido para ocupar a diretoria de Agronegócios do Banco do Brasil. Os peemedebistas reivindicaram também diretorias da Eletrobras, cuja presidência acabam de perder. A dupla de ministros ficou de submeter o pacote a Dilma.


Como assim? 
Quem viu Lula descrevendo um cenário paradisíaco para o Brasil ontem na festa de aniversário do PT concluiu que Dilma talvez devesse ter escolhido melhor momento para anunciar a lipoaspiração de R$ 50 bilhões no Orçamento.

Puro sangue 

Contavam-se nos dedos os aliados que prestigiaram a comemoração petista. Nada do histórico PC do B. Tampouco do "neoparente" PMDB. Do PSB, somente Eduardo Campos e Roberto Amaral.

Pai da criança 
Partiu de Michel Temer a ideia de enviar o salário mínimo ao Congresso por meio de projeto de lei, com isso acelerando a votação, agora prevista para a próxima quarta-feira. Com perspectiva de vitória à vista, o vice está colhendo elogios a seu encaminhamento.

Quem avisa... 
Na avaliação do Planalto, Orlando Silva (Esporte) ainda tenta evitar que Henrique Meirelles assuma a Autoridade Pública Olímpica, decisão já tomada por Dilma. Auxiliares da presidente avaliam que, se insistir nesse caminho, o ministro corre o risco de perder também a Copa de 2014.

A ele 
No jantar no Alvorada com Lula e ministros, Dilma puxou um brinde para José Alencar. Por um bom tempo, a conversa girou em torno da saúde do ex-vice.

Prancheta 
O primeiro-secretário da Câmara, Eduardo Gomes (PSDB-TO), pretende propor novo modelo para administrar os gastos dos deputados. Em vez de cada um apresentar notas para despesas, caberia à própria Casa oferecer os serviços pagos com a cota parlamentar.

Oremos 
Do bispo de Guarulhos, d. Luiz Bergonzini, mentor do boicote eleitoral a Dilma, sobre recentes declarações de Marta Suplicy pró-legalização do aborto e união civil homossexual: "O PT e alguns deputados e senadores insistem no massacre de crianças inocentes e na destruição da família".

Vem cá 
Negado pelo governo, o risco de atraso em obras do metrô e do sistema viário da Grande SP levou a comissão de Transportes da Assembleia a convidar os secretários Saulo de Abreu Filho (Transportes) e Jurandir Fernandes (Transportes Metropolitanos) para explicar o cronograma das pastas e suas metas para 2011.

Tempo real 
Para monitorar os principais canteiros da administração estadual, o Palácio dos Bandeirantes ganhará uma "sala de situação" multimídia, em gabinete anexo ao do governador.

Inflamável 
Após ter a indicação para presidir a FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação) contestada devido a pendências com o Ministério Público, José Bernardo Ortiz instalou na gestão Alckmin o advogado Luiz Gustavo Ramos Mello. Trata-se do responsável pelo setor jurídico da Prefeitura de Pindamonhangaba, cenário de escândalo que envolve Paulo Ribeiro, cunhado do governador.

Com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

Tiroteio

"Na campanha, a ficção venceu a realidade. Agora, se os cortes virarem realidade, ficará provada a farsa do "momento mágico" alardeado pela marquetagem."
DO LÍDER DO PSDB NO SENADO, ÁLVARO DIAS (PR), sobre o anúncio de que serão enxugados R$ 50 bilhões do Orçamento de 2011.

contraponto

Um pai que é uma fera


Reunido anteontem com os tucanos da Câmara, José Serra puxou a orelha dos mais empolgados com a nova musa da bancada, a jovem deputada Bruna Furlan.
Lembrando que o pai da deputada Andrea Zito, o prefeito de Duque de Caxias (RJ), José Zito, é considerado muito bravo, Serra lançou um alerta:
-Alguém aqui tem medo do Zito? Então podem morrer de medo do pai da Bruna!- disse, referindo-se ao prefeito de Barueri (SP), Rubens Furlan (PMDB).
A moça limitou-se a sorrir, com ar envergonhado.

VINICIUS TORRES FREIRE

Dilma e os esparadrapos
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 11/02/11
Presidente tenta pôr ordem na casa que Lula e outros deixaram desarrumada, mas com medidas de fôlego curto

Seria injusto ignorar que Dilma Rousseff está comprando algumas brigas certas e decentes.
A presidente procura colocar alguma ordem no gasto público, exagerados no biênio final do governo Lula. Procura fazer uma limpa na direção de estatais, fundações e departamentos ministeriais que lidam com muito dinheiro e vinham sendo ocupados por salteadores.
Na política, tenta conter a barafunda de ministros que falavam demais e uns contra os outros, em público. Tenta dizer a sua coalizão partidária qual a linha do governo e qual o limite decente e aceitável de barganha e de negociação.
Na administração mais comezinha, tenta não deixar barato coisas como os blecautes, por exemplo, passando um discreto sabão público em algumas autoridades -Lula costumava fazer cafuné nos ineptos.
Nenhuma dessas boas intenções ainda passou pela prova prática.
O governo não explicou como vai cortar os R$ 50 bilhões do Orçamento de 2011, provavelmente talvez porque não saiba como fazê-lo -parece muito difícil reduzir gastos sem, por exemplo, cortar investimentos, coisa que Dilma prometeu não fazer. O governo ainda não sabe nem se vai conseguir aprovar um valor do salário mínimo que caiba no estourado caixa público. Dilma ainda não acabou de nomear os chefes das minas de ouro do segundo escalão, e menos ainda se sabe qual será o tamanho da vingança e do desarranjo parlamentares se de fato houver alguma moralização relevante na máquina de governo.
Em suma, Dilma vai passar por algumas provas difíceis neste início de governo. Alguns dos resultados desses confrontos podem mesmo dar o tom do governo -um governo com mais ou menos desarranjo fiscal, mais ou menos chantageado por uns certos tipos do Congresso.
Não obstante, apesar de tantas dificuldades, o governo Dilma está apenas cuidando de colocar uns esparadrapos em problemas graves, que não podem ser resolvidos no curto prazo. Mas o governo Dilma não parece ter nenhum plano de médio ou longo prazo para lidar de modo mais sistemático com esses males -por ora, vemos apenas sugestões de curativos.
A arrumação dos gastos públicos não pode depender de pacotes afobados, de execução duvidosa e com certeza de baixa qualidade. Enquanto não houver um plano para o grosso das despesas (pessoal, previdência e juros) e um sistema de avaliação da eficiência do gasto público (que levará anos para fazer efeito), haverá esses cortes destrambelhados. Isso não presta, não "organiza as expectativas dos agentes econômicos", como se diz, e prejudica a continuidade de programas relevantes, de investimento ou outros.
A arrumação do comando de ministérios, secretarias, estatais e segundo escalão dourado não vai acontecer enquanto houver excesso de organizações estatais e excesso de nomeações de livre arbítrio do governo. Um Estado grande e desorganizado demais acaba sendo privatizado na marra, marra bandida.
Sem programa de governo, sem planos de longo prazo, sem "reformas" (não se trata da bobagem liberaloide), Dilma corre o risco de se perder na administração de curativos, em medidas de fôlego curto, que não vão dar conta dos problemas, hoje bem maiores que os dos anos sortudos de Lula.

GOSTOSA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Setor eletroeletrônico no país aumenta deficit com a China
MARIA CRISTINA FRIAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 11/02/11

A importação da produção chinesa de eletroeletrônicos se alastrou em 2010 para áreas onde ainda não havia causado grandes impactos.
O deficit na balança do Brasil com a China no setor foi de quase US$ 12 bilhões no ano passado, alta de 58%, segundo a Abinee (da indústria elétrica e eletrônica).
"Os componentes representam grande parte das importações de produtos chineses. O que preocupa é que outros segmentos começam a crescer", diz Humberto Barbato, presidente da entidade.
Até 2009, a entrada chinesa se concentrava nas peças, como chips para computadores e telefones. Em 2010, avançou para outros segmentos. Passaram a entrar com mais força os telefones e computadores já prontos.
Utilidades domésticas, como televisores, aparelhos Blu-ray e DVD avançaram no final de 2009. No ano passado, o destaque foram outros itens como torres de transmissão e geradores.
A importação na área de material elétrico de instalação foi a que mais subiu (98%). Também cresceram utilidades domésticas (76%) e informática (67%).
As importações atingiram US$ 12,1 bilhões, alta de 54% ante o ano anterior. Já as exportações, ficaram em US$ 151 milhões, 10% a menos.
Nesse contexto, o Inmetro incluirá cerca de 120 novos produtos na lista dos que precisam ter selo de qualidade. A primeira lista de novas certificações será para o setor de eletroeletrônicos e utensílios elétricos residenciais.
Além do benefício ao consumidor, a ação favorece a "competitividade da empresa brasileira, que muitas vezes se depara com produtos de concorrência desleal e sem qualidade", diz João Jornada, presidente do Inmetro.

ELÉTRICO
A BMW lançará em março seu primeiro carro híbrido, que combina motor a gasolina e elétrico, no país.
O modelo será importado e custará R$ 546 mil, sendo o mais barato da série 7 da companhia.
As vendas de carros híbridos são consequência não só da demanda, mas do momento da indústria automotiva, diz o presidente da empresa no Brasil, Henning Dornbusch.
A expectativa da marca é vender entre 40 e 45 unidades do modelo neste ano.
Após aumento de 117% nas vendas de motos no Brasil em 2010, o país passou a ser o sétimo mercado da empresa no setor.
Com isso, a BMW montará seu segundo veículo da categoria no país.
Em 2011, a BMW abrirá concessionárias no Nordeste e no Centro-Oeste.
"O PIB dessas regiões cresce mais que o do Brasil", diz Dornbusch.

Convite... A Academia de Engenharia dos EUA convidou o diretor da Petrobras Guilherme Estrella para seu grupo de sócios estrangeiros.

...estrangeiro A razão do convite foi a contribuição de Estrella na descoberta de campos de pré-sal no Brasil.

Turismo... A CVC pretende lançar 300 roteiros de viagem em 2011, um crescimento de 20% ante o ano passado.

...exótico A empresa prevê aumento de 30% nas viagens para Índia, China, Dubai e África, que foram o destino de 80 mil brasileiros em 2010.

Bola... Até novembro, representantes da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros) visitarão as 12 cidades-sede da Copa de 2014.

...na rede O objetivo da comitiva é elaborar diretrizes para construções e obras de infraestrutura no país.

Saúde... O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, participará de seminário sobre o setor promovido pela Interfarma, em 16 de março, em SP.

...e pesquisa O evento reunirá secretários de saúde, representantes da Anvisa, da academia e da iniciativa privada.

EDUCAÇÃO SEM ÁLCOOL
O novo secretário de Estado da Saúde de São Paulo, Giovanni Guido Cerri, quer a parceria da indústria de bebidas alcoólicas para combater o consumo entre estudantes do ensino médio paulista.
Cerri, que já conversou com um alto executivo da Ambev, ainda vai buscar o apoio de sindicatos patronais do setor de bebidas e de bares e restaurantes.
Uma das propostas discutidas é aumentar o rigor na fiscalização para impedir a venda de bebidas alcoólicas a menores de idade.
A secretaria estuda lançar mão de blitze da Vigilância Sanitária em pontos de venda frequentados por jovens.
O secretário propõe também iniciativas com a Secretaria da Educação e entidades representativas de escolas particulares para fazer campanhas educativas.

ASSENTO CORPORATIVO
A Flexform, empresa especializada em cadeiras para escritórios e auditórios, vai expandir sua fábrica em Guarulhos (SP).
O projeto é aumentar em 10 mil m2 o terreno que tem hoje 54 mil m2.
Também estão previstos projetos para a compra de equipamentos, atualização tecnológica e de instalações, que devem ser concluídos até o final de 2012, de acordo com Pascoal Iannoni, diretor da Flexform.
"O investimento envolve R$ 25 milhões em recursos próprios", afirma o empresário.
A Flexform também fechou contrato com a americana Knoll para trazer ao Brasil uma cadeira de material flexível e reciclável, que pode ser moldada à posição do usuário, e estuda outras parcerias.
O faturamento no ano passado foi de R$ 125 milhões. Para 2011, a meta é chegar a R$ 160 milhões.

ALIMENTOS
Os produtos dos supermercados paulistas ficaram 0,02% mais baratos no mês de janeiro, de acordo com o IPS (Índice de Preços dos Supermercados).
Apesar de pequena, essa é a primeira queda desde agosto do ano passado, quando os preços diminuíram 0,61%.
Em janeiro, os produtos que mais pesaram no bolso do consumidor foram o tomate, a alface e a laranja.
De acordo com a Apas (Associação Paulista de Supermercados), os aumentos foram causados pelas chuvas do começo do ano, que atrapalharam a produção
Entre os itens que ficaram mais baratos estão o feijão e a carne bovina, com quedas de 17,7% e 1,9% respectivamente. A maior diminuição foi em alimentos que não são da cesta básica, como o limão (29,7%) e o abacate (28,1%).
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e ANDRÉA MACIEL

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

Inflação: o jogo está feito!
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA DE SÃO PAULO - 11/02/11

Para combater a aceleração da inflação será preciso uma forte redução do ritmo do crescimento econômico

Com a definição dos cortes no Orçamento de 2011, o governo Dilma se diz preparado para enfrentar a aceleração da inflação que já assusta os mercados. Essa é uma herança do último ano do período Lula, quando todos os instrumentos possíveis foram usados para estimular o crescimento e, com isso, ganhar as eleições do ano passado.
A expansão agressiva do crédito nos bancos públicos -principalmente no BNDES- e uma expansão "nunca vista neste país" de gastos do governo fizeram com que a economia entrasse em 2011 com a inflação ameaçando o limite superior do sistema de metas.
A decisão de agora faz parte do plano de batalha estabelecido pelo Banco Central na última reunião do Copom: aumento moderado dos juros Selic, medidas administrativas para reduzir a expansão do crédito bancário e redução dos gastos do governo. Com esse elenco de medidas, o Banco Central acredita que 1,5 ponto percentual de aumento dos juros será suficiente para estabilizar a inflação em 4,5% ao ano ao longo de 2012.
Embora fazer uma avaliação das chances de isso ocorrer seja hoje muito difícil, vou pelo menos tentar trazer ao leitor da Folha algumas certezas que tenho. Aprendi com a vida que, em uma situação de insegurança, como a que vamos viver nos próximos meses, é importante definir o que pode ser previsto e deixar o resto apenas no campo das alternativas.
Em primeiro lugar, podemos esperar mais dois aumentos de 0,5 ponto nos juros Selic nos próximos três meses. Com a decisão de reduzir os gastos do governo, o BC perdeu a capacidade de surpreender o mercado com uma política de juros mais agressiva. E, se o BC sentir necessidade de reduzir ainda mais o crescimento do crédito bancário, deverá utilizar -mais à frente- medidas administrativas para fazê-lo.
Outra questão que foi respondida de forma clara com a decisão de corte do Orçamento diz respeito ao compromisso da nova presidente com o controle da inflação. Da mesma forma que Lula sempre liberou o BC para agir nesses momentos, Dilma dá agora sinais claros de seguir essa mesma cartilha. Outra informação de natureza política que pode ser extraída desse evento é a de que o ministro Palocci realmente está por trás da ação do governo sobre a economia, deixando para o ministro Mantega a missão de porta-voz.
Aliás, esse é outro ponto que deve causar problemas à frente. Até as pedras sabem que, para combater a aceleração da inflação no Brasil de hoje, será preciso uma forte redução do ritmo do crescimento econômico.
E digo isso não por masoquismo ou revanchismo político, mas, sim, por um simples raciocínio econômico básico. Existe um forte componente de excesso de demanda -sempre em relação à oferta existente- na dinâmica da inflação de hoje.
E, o que é pior, um dos canais mais relevantes nesse processo -como tenho afirmado neste espaço- tem sido o mercado de trabalho. Sabemos pela experiência de outros países que, quando a situação de escassez de mão de obra qualificada se estabelece no mercado de trabalho, em uma situação de demanda pressionada, podemos estar entrando em uma região em que o aumento da inflação pode passar a ser exponencial.
Por isso, os comentários do ministro da Fazenda, ao tornar pública a decisão sobre o Orçamento de 2011, são perigosos. Ao garantir que os cortes não vão reduzir o crescimento deste ano -e que, segundo sua previsão, será de 5%- de duas, uma: ou a decisão tomada não é para valer, ou ele está falando da economia em Marte.
Não por outra razão vários analistas do mercado financeiro vêm expressando a opinião de que os cortes não serão totalmente realizados.
Esse ceticismo acaba por diminuir a eficiência das medidas adotadas, pois elas dependem da confiança dos agentes econômicos para serem bem-sucedidas. O ministro deveria pelos menos reconhecer a necessidade de uma moderação no ritmo da economia para acomodar as tensões inflacionárias. As coisas ficariam mais fáceis.

*Luiz Carlos Mendonça de Barros, 68, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso). 

CABELO

JOSEPH E. STIGLITZ

O catalisador tunisiano
JOSEPH E. STIGLITZ

O GLOBO - 11/02/11

O mundo todo celebra a revolução democrática na Tunísia, que deslanchou uma cascata de eventos em outros países da região - particularmente no Egito - com enormes consequências. Os olhos do mundo estão agora naquele pequeno país de 10 milhões de habitantes (Tunísia) para aprender as lições de sua recente experiência e ver se os jovens que derrubaram um autocrata corrupto são capazes de criar uma democracia estável e funcional.

Primeiro, as lições. Para começar, não é suficiente que os governos obtenham um crescimento razoável. Afinal, o PIB avançou a 5% ao ano nos últimos 20 anos na Tunísia e o país era frequentemente citado como tendo um dos melhores desempenhos econômicos na região.

Nem é suficiente obedecer aos ditames dos mercados financeiros internacionais - isto pode garantir boas taxas para os títulos públicos e agradar aos investidores internacionais, mas não significa que empregos estão sendo criados ou que padrões de vida estão sendo elevados para a maioria dos cidadãos. Na verdade, a falibilidade dos mercados de títulos e das agências de avaliação de risco ficou evidente na crise de 2008. Que agora olhem com desdém para a transição na Tunísia não ajuda sua situação - e nunca deveria ser esquecido.

Mesmo prover boa educação escolar pode não ser suficiente. Em todo o mundo, países estão lutando para criar empregos suficientes para os jovens que entram na força de trabalho. Elevado desemprego e corrupção pervasiva, entretanto, criam uma combinação combustível. O que importa para o desempenho de um país é senso de equidade e fair play.

Se, num mundo de empregos escassos, aqueles com conexões políticas ficam com eles e se, num mundo de riqueza limitada, funcionários de governos acumulam fortunas, haverá revolta justificada diante de tais iniquidades - e em relação aos perpetradores desses crimes. A revolta para com os banqueiros no Ocidente é uma versão mais branda da mesma demanda básica por justiça econômica que vimos primeiro na Tunísia, e agora por toda a região.

Apesar das virtudes da democracia - e a Tunísia mostrou que ela é muito melhor que a alternativa - não devemos esquecer das falhas daqueles que reivindicam seu manto, e que há muito mais na democracia do que eleições periódicas, mesmo quando conduzidas limpamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, a democracia foi acompanhada por uma desigualdade crescente, a tal ponto que os que estão entre os 1% mais ricos abocanham cerca de 25% da renda nacional.

De fato, a maioria dos americanos está hoje pior do que há uma década, com quase todos os ganhos do crescimento econômico indo para aqueles no topo da renda e da distribuição de riquezas. E a corrupção ao estilo americano pode resultar em "prendas" de trilhões de dólares para companhias farmacêuticas, a compra de eleições com maciças contribuições de campanha e redução de impostos para milionários, enquanto a assistência médica aos mais pobres é cortada.

Além disso, em muitos países, a democracia foi acompanhada por conflitos civis, facciosismo e governos disfuncionais. A esse respeito, a Tunísia começa com uma nota positiva: um senso de coesão nacional criado pelo sucesso na derrubada de um ditador amplamente odiado. A Tunísia deve lutar para manter esse senso de coesão, que requer um compromisso com a transparência, a tolerância e a inclusão - econômica e politicamente.

Um senso de fair play requer voz, que só pode ser obtida através do diálogo público. Todos destacam o império da lei, mas importa muito que tipo de império da lei foi estabelecido. Pois as leis podem ser usadas para assegurar igualdade de oportunidade e tolerância, ou serem usadas para manter desigualdades e o poder da elite.

A Tunísia pode não conseguir evitar que interesses especiais capturem seu governo. Mas, se não houver financiamento público das campanhas eleitorais, restrições à prática de lobby e barreiras entre os setores público e privado, tal captura não será somente possível, mas certa. Compromissos com a transparência em leilões de privatização e garantia de lisura nas concorrências públicas reduzem a margem de manobra para o comportamento espúrio.

Há muitos equilíbrios a serem buscados: um governo poderoso demais poderia violar os direitos dos cidadãos, mas um muito fraco seria incapaz de liderar a ação coletiva necessária para criar uma sociedade próspera e inclusiva - ou para evitar que atores privados poderosos rapinem os fracos e indefesos. A América Latina mostra que há problemas com o limite para permanência em cargos públicos, mas não ter limites é ainda pior.

Então, constituições precisam ser flexíveis. Santificar manias da política econômica, como a União Europeia fez com o foco na inflação de seu banco central, é um erro. Mas certos direitos, tanto políticos (liberdade religiosa, de expressão e imprensa) quanto econômicos, precisam ser absolutamente garantidos. Um bom começo para o debate sobre a Tunísia é decidir quão além dos direitos inscritos na Declaração Universal dos Direitos do Homem o país deve ir ao redigir sua nova constituição.

A Tunísia começou surpreendentemente bem. Seu povo agiu com propósito e sabedoria ao estabelecer um governo provisório, enquanto tunisianos talentosos e de posses se ofereceram para servir ao país neste momento crítico. Serão os tunisianos que criarão o novo sistema, um que poderá servir de baliza para como deve ser uma democracia do século XXI.

Por sua vez, a comunidade internacional, que tão frequentemente tem impulsionado regimes autoritários em nome da estabilidade (ou do princípio de que "o inimigo de meu inimigo é meu amigo"), tem a clara responsabilidade de fornecer todo o tipo de ajuda de que a Tunísia necessitar nos próximos meses e anos.

JOSEPH E. STIGLITZ é economista. © Project Syndicate

ELIANE CANTANHÊDE


Foto sem retoque

Eliane Cantanhêde

FOLHA DE SÃO PAULO - 11/02/11

BRASÍLIA - Dilma Rousseff passa por um teste e tanto na semana que vem, quando o Congresso vai reagir a três dados que se entrelaçam. O resultado será uma foto sem retoque do real equilíbrio de forças, para além da mera soma aritmética de partidos e partidários.
A votação do salário mínimo é prevista para a quarta-feira. O anúncio de pesados cortes nas emendas parlamentares, individuais e coletivas, está para sair. E as centrais sindicais tentam recuperar o espaço perdido como agentes políticos e de reivindicação.
O governo bateu pé e propôs um mínimo de R$ 545, enfiando um "caco" no texto para furar a fila das medidas provisórias que empacam a pauta. Mas a oposição joga para R$ 600, as centrais pressionam por R$ 580, e até as paredes da Câmara e do Senado sabem que o que está na mesa de negociações é R$ 560.
Os cortes recordes no Orçamento vão atingir a maior parte dos R$ 21 bi das emendas parlamentares e deixar enfurecidos os que são de partidos da base aliada, mas não se sentem tão aliados assim. Eles podem jogar a fúria na votação do mínimo, que tem impacto nas contas públicas, na inflação e nos juros.
No meio disso, as centrais, que passaram os oito anos de Lula bem companheiras, já mostram as garras para Dilma. Uma coisa é seus líderes negociando nos corredores do Congresso e nos gabinetes de governo. Outra, bem diferente, é manifestação de trabalhador nas ruas dos grandes centros.
O teste da próxima semana, porém, não é só de Dilma e do governo, mas da própria oposição. Olhando o palco, vão bem, por exemplo, o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, de um lado, e os oposicionistas Roberto Freire (PPS) e ACM Neto (DEM), do outro. Um negocia, os outros esticam a corda.
E Aécio Neves, o líder natural e principal aposta tucana? Ninguém sabe, ninguém viu. Ou está nos bastidores, ou simplesmente não está nem quer estar.

GOSTOSA

JOÃO PESSOA DE ALBUQUERQUE

Múltiplos equívocos
JOÃO PESSOA DE ALBUQUERQUE

O GLOBO - 11/02/11

Exame Nacional de Equívocos Múltiplos. Eis aí o que deveria ser a correta denominação do famoso Exame Nacional de Ensino Médio, mais conhecido pela "alcunha" de Enem.

Não há dúvidas de que ele precisa ser riscado do mapa educacional do país, não tanto pelos erros e vazamentos que muito o desgastaram, mas por uma razão política maior: o Brasil é, constitucionalmente, uma Federação e não mais, como no tempo do Império, um estado unitário.

A diferença é enorme: o que havia, na divisão política do país, eram províncias subordinadas ao poder central, representado na intocável figura do imperador que, como chefe de Estado sem mandato, era eterno no exercício do seu mando.

Na Federação Republicana, ocorre o contrário: as unidades geográficas são autônomas com seus poderes constituídos sem vínculo da subordinação à União. Temos, aqui, com esse "status" jurídico-constitucional, 26 estados e o Distrito Federal.

É preciso que tais unidades federadas, com tamanho respaldo, imponham-se proclamando, corajosamente, que, não precisando de uma "babá educacional", são suficientemente competentes para instituírem, em seus territórios, os respectivos concursos locais de ingresso ao ensino superior.

E, além dessa legítima tomada de posição, nada mais fértil do que a diversidade de práticas para inspirar uma útil troca de experiências em área tão vital como a Educação (assim mesmo, com letra maiúscula!)

Por que é Brasília que tem de dizer ao jovem do Acre que seus saberes têm de ser exatamente iguais aos dos seus conterrâneos da Paraíba ou do Rio de Grande do Sul? Por quê? Ou que suas formas de avaliação têm de ser "irmãs gêmeas"? Por quê?

E como pelo seu notório "defeito de fabricação", creio que nem mais cabe qualquer "recall"...

É chegada, pois, a hora e a vez de darmos adeus ao Enem, evocando, oportunamente, aquele belo canto de reação quando, ufanos e uníssonos, entoávamos, há décadas, "quem sabe faz a hora, não espera acontecer"...

JOÃO PESSOA DE ALBUQUERQUE é integrante do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro e diretor da Associação Brasileira de Educação.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Quero ser julgado, não quero que prescreva”
EX-MINISTRO JOSÉ DIRCEU, CONFIANTE EM SUA ABSOLVIÇÃO NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

GOVERNO VINCULA CAÇAS A EXPORTAÇÕES DO BRASIL 
O governo brasileiro tenta vincular a compra de aviões de combate para a FAB ao acesso de produtos do País a mercados internacionais. O governo Barack Obama recebeu a sinalização de que o Brasil pode até optar pelos caças F-18 Super Hornet, produzidos pela Boeing, mas em troca da eliminação de barreiras para produtos como o etanol, no mercado americano. Sem abdicar, claro, da cessão de tecnologia.

ABRINDO CAMINHO 
O primeiro americano a perceber as chances de fechar negócio com o Brasil foi o senador John McCain, que veio fazer lobby pelos F-18.

SINAL CLARO 
Há dias, o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, recebeu de Dilma sinais do seu interesse em se aproximar do governo Obama.

DEIXA COMIGO 
Para adotar nova estratégia na questão dos caças, antes Dilma teve de demover Lula, que assumiu compromissos com os Rafale franceses.

UM SOBE, OUTRO CAI 
O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) tem voz ativa na nova estratégia para a compra dos caças; Nelson Jobim (Defesa), não.

NEPOTISMO: CAPIBERIBE NOMEIA A MÃE E ADVOGADOS 
O governador do Amapá, Camilo Capiberibe (PSB), nomeou a própria mãe, ex-deputada Janete Capiberibe, secretária do seu governo em Brasília, que funciona como uma espécie de “embaixada” do Estado. Ele também nomeou Márcio Alves Figueira e Luciano Del Castilo Silva, os advogados dela e do pai, ex-senador João Capiberibe, para os cargos de procurador-geral e corregedor-geral da Defensoria Pública.

ABUSO MIDIÁTICO 
Os advogados defendem o casal Capiberibe em processo judicial sobre uso abusivo dos meios de comunicação com fins eleitorais.

FICHAS SUJAS 
Cassados por compra de votos, Janete e João Capiberibe foram barrados nas eleições de 2010, com base na Lei da Ficha Limpa.

NOVO VICE 
O deputado José Guimarães (CE), irmão de José Genoino, foi eleito 2º vice-presidente do PT. Substitui o senador Humberto Costa (PE).

ESTAVA ESCRITO 
Como até os dormentes sabiam, a empresa Dismaf venceu mais uma licitação da estatal Valec Construções e Ferrovias, do Ministério dos Transportes. Venderá 244 mil toneladas de trilhos por R$ 732 milhões.

MARCA DO PÊNALTI 
Se o critério do jantar que Dilma ofereceu a Lula foi convidar ministros mantidos nos cargos a pedido dele, sobrou um: Nelson Jobim (Defesa), que jantou em casa desconfiando de que não tem futuro no governo.

LITURGIA, SENHORES 
O ministro Luiz Fux, a rigor, não foi sabatinado, mas beatificado. Os senadores até o aplaudiram de pé. Fux é mesmo um magistrado muito admirado, mas se espera do Senado ao menos um certo rigor litúrgico.

ELE MANDA BEM 
A crise no Egito acabou revelando o talento do embaixador Cesário Melantônio Neto como “correspondente” no Cairo. Seus relatos e análises, ao telefone, são tão precisos quanto esclarecedores.

ALÔ? SOM? 
Senadores que presidem sessões na Casa estão apanhando do sistema de microfones do plenário. Vira e mexe, os microfones são cortados automaticamente. Marta Suplicy (PT-SP) e Wilson Santiago (PMDB-PB) são os que mais se enrolam com o sistema.

FALTA “CULTURA”, MAS... 
O secretário de Segurança do DF, Daniel Lorenz, não parece preocupado com seu ibope junto aos subordinados da Polícia Civil. Ele afirmou que a corporação “não tem cultura” de investigar políticos.

... SOBRAM OPERAÇÕES 
Policiais civis estão injuriados com a afirmação do delegado federal Daniel Lorenz: somente em 2010 foram realizadas doze operações de policiais civis contra malfeitorias de gestores públicos no DF.

JEITO DE PALANQUE 
Lula viajou ao Senagal no jatinho de US$ 60 milhões do ex-vice José Alencar, que tem até comissária de bordo, mas, na volta, foi de São Paulo a Brasília espremido nas poltronas da Gol, com direito a fotos em todos os jornais. Comportamento de quem é candidatíssimo em 2014.

PERGUNTAR NÃO APERTA 
Após viajar em avião de carreira praticamente com o joelho no queixo, Lula lembrou da própria promessa de “enquadrar” empresas aéreas? 

PODER SEM PUDOR 
BILU, MUITO PRAZER 
Apressado, o deputado potiguar desceu no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, e disse logo o destino ao taxista.
– Por favor, Hotel Zero Quilômetro.
– Não tem esse hotel, aqui, senhor – retrucou o motorista.
– Tem, sim. É em frente ao Hotel Ambassador – insistiu o político.
– Ah, na Senador Dantas?, perguntou o chofer.
– Não, senhor. Sou deputado Antônio Bilu, de Natal. Muito prazer.
Ele tinha reservas no Hotel O.K.

JUNTOS

SEXTA NOS JORNAIS

Globo: Impasse no Egito
Folha: 'Fico' de ditador egípcio causa revolta e impasse
Estadão: Ditador vai à TV, não renuncia e enfurece multidão no Egito
JB: Reboque S.A
Correio: Corte deixa 28 mil vagas congeladas
Valor: Corte só atenua tendência de alta dos gastos federais
Estado de Minas: Minas vai importar do Rio tática usada em blitz da Lei Seca
Jornal do Commercio: Falta material para a construção civil
Zero Hora: Mubarak diz que fica e enfurece egípcios