domingo, janeiro 23, 2011

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Assange do Planalto
SONIA RACY
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/01/11

Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores, está trancafiado no Rio dedicando-se a livro sobre seus anos de governo Lula.
E tem dito a interlocutores que trará revelações tão ou mais bombásticas que as do site WikiLeaks.

Mamma mia
Lu Alckmin não pensa em outra coisa: Escola Dona Renata. De olho na Copa, o programa do Fundo de Solidariedade formará profissionais em hotelaria e gastronomia para atender a mega demanda do evento. Mas, quem é Renata? A sogra de Geraldo Alckmin.

Valise
José Sergio Gabrielli, da Petrobras, está de malas prontas para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça. Debate na sexta o papel das empresas que buscam competitividade e, ao mesmo tempo, melhoraram as condições das comunidades onde atuam.

Pamonha
Está todo mundo tentando aprender coreano em Piracicaba. Ecos da instalação da Hyundai na cidade. Restaurantes típicos e agências de viagens já atendem clientela no idioma. E, atento aos negócios que 6 mil imigrantes devem fomentar por lá, o escritório Demarest e Almeida Advogados também se movimenta para abrir filial.

ApetiteConsiderada a dona do melhor caviar do mundo, a francesa Petrossian abrirá um pequeno restaurante para degustações em SP em março. Dentro da loja que inaugurará no Shopping Cidade Jardim. Depois de tantos pedidos da clientela, Nórea de Vitto e seu sócio há 21 anos, Beto Galvez, resolveram criar linha exclusiva de objetos decorativos. A Butik reúne cartela que vai de abajures a espelhos. Tudo vendido desde o fim do ano passado na conceito: firmacasa, em SP. "Começamos a produzir por uma única razão: nem sempre encontrávamos no mercado absolutamente tudo que gostaríamos de usar", conta ela. E a designer aposta na mistura de materiais. Não descarta quase nada: latão, couro, pedras, couro, acrílico e peles.

Responsabilidade social
A Porto Seguro dá exemplo de solidariedade. Disponibilizou frota de guinchos para ajudar nos resgates da região serrana do Rio. A Defesa Civil agradece.

A Fiat também recolhe produtos de primeira necessidade junto a seus empregados. Enviará 5 mil cestas básicas para as regiões atingidas e ambulâncias Fiorino.

A Fundação ArcelorMittal Brasil e a Belgo Bekaert Arames fizeram as contas. Entregaram 222 óculos a estudantes da rede pública de Osasco em 2010.

Em comemoração ao aniversário da cidade, a Braskem entregou 500 lixeiras e floreiras para SP. Fabricadas a partir de resíduos plásticos recolhidos no GP de Fórmula 1.

Abre, terça-feira, a mostra Juneca - Um Nome que Virou Arte, sobre o ícone do grafite nos anos 80 Osvaldo Junior. A entrada será a doação de um quilo de alimento para as vítimas do Rio. No nBOX.

A Fundação Volkswagen decidiu. Estenderá este ano três projetos educacionais do Território Escola. Chegarão a 120 os municípios beneficiados com capacitação para professores do ensino infantil e fundamental da rede pública.

Valéria Baracat e Celyta Jackson fazem versão para o inglês da cartilha de prevenção ao câncer de mama do Instituto Arte de Viver Bem. A ideia é lançá-lo em NY.

Representantes do Instituto C&A, que este ano completa 20 anos, desembarcam hoje em Cingapura. Vão expor suas iniciativas de voluntariado empresarial em duas conferências do setor.

MARCO TULIO ZANINI

Sem projeto, país vive apagão de talentos
MARCO TULIO ZANINI
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/01/11


Profissionais são despreparados para a nova empresa, que exige trabalhador que pense com liberdade e autonomia

Tarefa de capacitar gestores que saibam enfrentar os desafios impostos por novas formas de produção de valor deve ser uma ação de continuidade

Aparentemente, o fato de o governo buscar facilitar a entrada do capital intelectual estrangeiro para atender as demandas internas do país pode nos parecer que se trata somente de um sinal do vigor atual da nossa economia.
Isso procederia, não fosse pelo fato de essa necessidade sinalizar muito mais a falta histórica de um projeto de país que tenha considerado a educação como fator-chave para a formação de especialistas em várias áreas do conhecimento, que hoje são tão necessários.
Primeiramente, devemos nos questionar se, de fato, estamos capturando os melhores cérebros lá fora.
Economias mais competitivas promovem a caça dos cérebros mais brilhantes para alavancar a inovação. Sabemos que, geralmente, não é esse o processo que está acontecendo no Brasil.
Estamos precisando de pessoas com boa formação superior para trabalhar, muitas vezes, em indústrias de baixo valor agregado.
O que mais nos impressiona é que, tantos anos depois de Paulo Freire ter denunciado os ameaçadores defeitos do nosso modelo autoritário de educação, tenhamos feito tão pouco progresso em remover esses entraves.
Somada a nossa contemporânea complacência em relação a uma educação baseada em valores, temos formado profissionais com perfil bastante inadequado para as demandas das empresas contemporâneas.
Salvo honrosas exceções, temos formado legiões de alunos despreparados para o desafio daquilo que se convencionou chamar de Capitalismo do Conhecimento.
Mais do que conteúdos, a nova empresa precisa de profissionais capazes de pensar com liberdade e autonomia.
De se autogerenciar para entregar resultados complexos em cenários imprevisíveis.
A nossa experiência em consultoria nos permite dizer que vivemos algo semelhante a um apagão de talentos.
A falta de um projeto educacional atrelado a um projeto de país que contemple a educação como fator estratégico para o desenvolvimento sustentável da nação nos coloca em forte desvantagem ante outros países, especialmente os asiáticos como a China e a Índia, que estão sabendo colocar na educação o seu projeto de futuro.
Contribuem para essa desvantagem a ausência de valores de produtividade do trabalho e a falta de disseminação da ideia de que a escola precisa ser comunidade de excelência, em que cada indivíduo importa pela capacidade de contribuir com seu talento e fazer a diferença.
A tarefa de capacitar gestores que saibam enfrentar os desafios impostos por novas formas de produção de valor, por meio da aplicação intensiva do conhecimento e de engenheiros e demais profissionais de formação técnica aplicada, deve ser entendida como uma ação de continuidade.
Isso deve ser viabilizado via um projeto educacional que tem o seu início na escola primária, quando os valores que orientam os indivíduos estão sendo sedimentados.
MARCO TULIO ZANINI é consultor de empresas e coordenador do mestrado executivo em Gestão Empresarial da Ebape-FGV.

GOSTOSA

VERISSIMO

A doutrina do choque
VERISSIMO

O GLOBO - 23/01/11

A canadense Naomi Klein ficou conhecida com o livro No Logo, em que ela criticava a globalização e a rapinagem, pelo consumismo, do capitalismo sem fronteiras. No seu livro novo The Shock Doctrine, a doutrina do choque, ela sustenta que o capital internacional aproveita, quando não promove, o caos e a catástrofe para avançar políticas de mercado e o fundamentalismo neo-liberal. Seus exemplos mais recentes , entre outros, são a invasão do Iraque – cujas primeiras ações  foram batizadas pelo Pentágono de Operação Choque e Espanto – que abriu caminho para empresas americanas dominarem setores como o da segurança privada no país e as grandes petroleiras garantirem seus suprimentos; a “guerra” das Malvinas, que deu força e prestígio interno para a Margaret Thatcher completar sua revolução liberal na Inglaterra; o ataque ao World Trade Center, que justificou todos os excessos nas políticas interna e externa do Bush, inclusive a invasão do Iraque, e teve como benefício colateral o enriquecimento de empresas como a Halliburton, notoriamente ligada ao governo; as inundações causadas pelo furacão Katrina em Nova Orleans e pelos tsunamis na Ásia, nos dois casos, segundo Naomi, propiciando “novos começos” que favorecem mais interesses empresariais do que as populações atingidas. A autora também inclui o golpe contra Allende no Chile, a queda da União Soviética e o Massacre da Praça Tiananmem como exemplos de choques bem aproveitados pela doutrina, e não deixa de citar o Brasil – menos o golpe de 64 e mais a influência da escola de Chicago na sua economia, outro tipo de desastre.
O livro da moça foi chamado de exagerado e simplista, e não apenas pela direita. Mas mesmo críticos concordaram que a sua tese, se não é vera, é bem bolada. Como ela se aplicaria ao Brasil do caos no Rio e da catástrofe na serra? A intervenção militar e a “pacificação” dos morros do Rio só recebe elogios, merecidos, mas eles adiam um pensamento mais consequente sobre o que aconteceu. E o que aconteceu de historicamente mais importante foi a mobilização das forças armadas brasileiras para uma missão inédita, com a concordância e sob aplausos de todos, sem que se ouvisse um “peraí um pouquinho”. Ontem o inimigo foi o tráfico sublevado, amanhã de onde virá a ameaça de caos, e quem aproveitará sua supressão? O precedente está estabelecido. Quanto à tragédia nas cidades serranas, o “novo começo” pressupõe novo rigor nas licenças para construção e uma ocupação mais racional da terra. Quer dizer: nada que diga respeito ao pobre obrigado a erguer seu barraco num barranco deslizante por absoluta falta de alternativas. 

CLÁUDIO HUMBERTO

“Não compartilho da visão que a pensão em si seja um erro”
TARSO GENRO (PT), GOVERNADOR DO RIO GRANDE DO SUL, EM DEFESA DA PENSÃO VITALÍCIA

FAMÍLIA LULA “ESQUECE” PASSAPORTE DIPLOMÁTICO 
Tudo indica que a “família real” continuará com seus passaportes diplomáticos. Os dois filhos e um neto de 14 anos do ex-presidente Lula ainda não devolveram os mimos concedidos pelo ex-chanceler adulador Celso Amorim. O enteado Marcos Cláudio, 39, bravateador como o pai, anunciou, furioso, que devolveria até o comum, porque “nunca usou”. E Lula prometeu explicar a encrenca “após as férias”. 

CATANDO MILHO 
O Ministério Público Federal pediu ao Itamaraty a lista dos sortudos, que inclui um pastor da Igreja Universal. Mas a lista também dormita. 

PENÚRIA 
Notícia que você não vai ler: parlamentares vão doar às vítimas das enchentes no Rio os três primeiros salários de R$ 26,7 mil. 

PASSADO 
A “bancada” de José Serra no PSDB se resume ao senador eleito Aloysio Nunes Ferreira e ao baiano Juthay Jr. 

NARIZ NOVO 
O deputado distrital Alírio Neto (PPS) adiou sua posse na Secretaria de Justiça do governo do Distrito Federal em razão de uma cirurgia plástica no nariz.

PREJUÍZO DE IVETE SANGALO CHEGA A R$ 60 MILHÕES 
Já são estimados em R$ 60 milhões os prejuízos acumulados pela empresa Caco de Telha, que cuida dos interesses da cantora e compositora baiana Ivete Sangalo, em Salvador. Ela quer auditores avaliando a extensão do “rombo”, provocado por investimentos malsucedidos na produção dos shows de Beyoncé e Black Eyed Peas no Brasil. Ivete inclusive já afastou o irmão Jesus da empresa.

GENEROSIDADE 
Generosa com familiares e amigos, a cantora Ivete Sangalo dá empregos a cerca de 70 pessoas, incluindo amigos, familiares e até
ex-namorados.

CORINGA 
O deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) não sabe, mas a presidente Dilma anda falando muito bem dele. Está no “banco” para virar ministro.

NAS NUVENS 
Em tempo de “corte de gastos”, a Presidência da República renovará 4,25 mil metros quadrados de carpete, vinis e laminado tipo flutuante. 

NO LIMITE 
Se a turma do MEC continuar pisando na bola, o ministro Fernando Haddad (Educação) será o primeiro da cota de Lula a deixar o governo. Dilma gosta dele, como Lula, mas já avisou: paciência tem limite.

ABRAMOVAY... TARDE 
As caras do governo Dilma começaram a mudar mais cedo que no governo Lula. Caiu na sexta o secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Pedro Abramovay. Pensando bem, ele era mesmo uma droga. 

PMDB EM SEU LABIRINTO 
A situação do PMDB só piora: o deputado Eduardo Cunha (RJ), ligado ao líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), defendeu Lula no twitter, sem autorização do ex-presidente, e insinuou que Dilma se afasta de sua herança. A presidente soube e não gostou.

ESTÁ FEIA A COISA 
A ex-governadora potiguar Wilma Faria e seu vice, Iberê Ferreira, andam com o cartaz sujo. A sucessora Rosalba Ciarlini já avisou que o Estado está quebrado. Deve meio bilhão de reais a fornecedores.

CHECK UP GERAL 
O senador tucano Tasso Jereissati faz exames em Houston (EUA), após passar mal e ficar dois dias hospitalizado em Fortaleza. Se estiver tudo bem, vai passear por vinte dias. Não quer mais saber de política.

Ó, COITADO 
O ministro Pedro Novais (Turismo) não tem mais tempo de ir ao motel: sua agenda na quinta (20), começou às 9h e acabou às 19h – mais extensa que a agenda oficial da presidente Dilma, na internet. 

MEU PIRÃO PRIMEIRO 
Está em boa companhia o ex-deputado Humberto Bosaipo, autor da lei autoconcedendo aposentadoria de R$ 15 mil por dez dias como governador do Mato Grosso: preso por 30 dias, durante o regime militar, o ex-presidente Lula tem aposentadoria de R$ 5 mil. 

ERA DO GELO 
Com a internet censurada, Cuba suspendeu o envio de cartas e malotes para os EUA, diz o jornal El Nuevo Herald. Seria protesto contra medidas de segurança postal adotadas pelos “imperialistas”. 

FILHO DO... 
De que nos livramos: já imaginou Lula recebendo a estatueta do Oscar e colocando sobre o isopor em São Bernardo, com direito a discurso? 

PODER SEM PUDOR
UMA CIDADE MUSICAL 
O ex-presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas, Celso Luiz, contou numa roda que, certa vez, o novo pároco de Mata Grande (AL), extasiado, procurou o velho padre Almeida, já aposentado:
– Nesta cidade não há pecadores! As pessoas apenas se penitenciam, no confessionário, por tocar instrumentos musicais, uma beleza!
Só então ele ficou sabendo que padre Almeida, santo homem, cansado de ouvir horrendos pecados, impôs o código no confessionário: transar virou “tocar trombone”, xingar “tocar violino”, trair era “tocar corneta” etc. Na missa seguinte, o jovem pároco, desolado, deu o recado:
– Depois, quero ter uma conversinha com a turma da banda de música...

BRASIU: O PUTEIRO

DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: PM ajuda ex-traficantes a buscar emprego formal
- Folha: Países ricos fazem oferta de mão de obra para o Brasil
- Estadão: Órgãos mais disputados por partidos desviaram R$ 1,3 bi
- Correio: A guerra diária na saúde no DF
- Estado de Minas: UFMG convoca mais 3.326 candidatos
- Jornal do Commercio: Vidas sob risco
- Zero Hora: Chuva mata em Santa Catarina

sábado, janeiro 22, 2011

AUGUSTO NUNES


Os idiotas estão por toda parte

AUGUSTO NUNES 
VEJA ON-LINE

Nelson Rodrigues acordou especialmente inspirado em 20 de maio de 1969. “Nada mais XIX que o século XX”, descobriu já na primeira linha da coluna que O Globo publicaria no dia seguinte. Abstraídas “a praia e as medidas masculinas dos quadris femininos”, não havia nada que permitisse distinguir uma época de outra. Em contrapartida, escancaravam-se as incontáveis semelhanças, começando pela consolidação do fenômeno que, segundo o cronista genial, configurou a mais notável singularidade do século XIX: “a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.
Até então, os integrantes da tribo se haviam limitado a babar na gravata. “O idiota era apenas o idiota e como tal se comportava”, explicou Nelson Rodrigues. “O primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Nunca um idiota tentou questionar os valores da vida”. Como ocorrera desde o começo dos tempos, decidiam pelos idiotas os que tinham cabeça para pensar e sabiam o que faziam. Os rumos eram ditados pelos melhores.
As coisas mudaram dramaticamente quando a imensidão de cretinos fundamentais  se descobriu majoritária. “Houve, por toda parte, a explosão de idiotas”, avisou a crônica que, escrita há quase 42 anos, hoje tem cara de profecia. Neste começo de milênio, a praga que afligiu o século XIX e consolidou-se no século XX assumiu, em território brasileiro, dimensões amazônicas. Em suas infinitas variações ─ o espertalhão, o otário, o vigarista, o fanático, o farsante, o bobo alegre, o cafajeste, o prepotente, o gatuno ─, os idiotas elegem e são eleitos, nomeiam e são nomeados. Estão por toda parte.
No oitavo ano da Era da Mediocridade, a espécie em acelerada expansão é representada no governo e nos partidos da oposição, no Ministério e no segundo escalão, no Congresso, nos tribunais e na imprensa, na plateia que assiste à passagem do cortejo ou nos andores da procissão de espantos que começou há oito anos, não foi interrompida sequer pelas festas de fim de ano e seguiu seu curso no primeiro mês do governo de Dilma Rousseff. O imenso viveiro de cérebros baldios não se assusta com nada.
De saída, Lula apareceu ao lado de caminhões de presentes que não lhe pertencem, passaportes diplomáticos expedidos ilegalmente para alegrar a filharada e um forte do Exército reduzido a pensão de governantes ociosos. De chegada, Dilma montou o ministério mais bisonho de todos os tempos, escalou para gerenciá-lo um estuprador de contas bancárias e recolheu-se ao silêncio de quem não tem nada de aproveitável a dizer nem dispõe de ideias para trocar. Só recuperou a voz depois de surpreendida por uma tragédia anunciada em 2008.
Ao fim do passeio pela Região Serrana do Rio, Dilma prometeu fazer amanhã o que Lula jurou ter feito em 2005, solidarizou-se com as famílias assassinadas pela incompetência dos governos federal, estadual e municipal e elogiou o comparsa Sérgio Cabral. O governador devolveu o elogio, agradeceu a Lula por oito anos de providências imaginárias e debitou o massacre premeditado na conta de antecessores populistas, de São Pedro, do imponderável e dos mortos.
Nesta quinta-feira, em depoimento no Congresso, o secretário demissionário de Políticas e Programas do Ministério de Ciência e Tecnologia, Luiz Antonio Barreto de Castro, implodiu com seis palavras a conversa fiada sobre a catástrofe que até então contabilizava 762 mortos e 400 desaparecidos. Depois de revelar que não conseguiu incluir no PAC a implantação de um sistema de alerta com radares, orçado em R$ 115 milhões, que ajudaria a prever desastres em áreas de risco, Barreto resumiu o espetáculo do cinismo homicida: “Falamos muito e não fizemos nada”. Embora saiba disso há oito anos, a oposição oficial nada fala e nada faz.  Há idiotas por toda parte.
Mas também há mais de 40 milhões de brasileiros que continuam enxergando as coisas como as coisas são e contando o caso como o caso foi. Não é pouca gente. E a munição é farta, como mostrarão os posts que pretendem retratar em preto e branco o verão brasileiro de 2011.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Cabo de guerra
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 22/01/11

Mais um capítulo na disputa entre PMDB e PT pelos cargos do segundo escalão do governo. O PMDB responde ao avanço do PT e está de olho na presidência do Ipea, a joia da Secretaria de Assuntos Estratégicos. O instituto está hoje sob comando do petista Marcio Pochmann.

O economista, por sua vez, parece saber disso e fez um tour pelos principais jornais de São Paulo, na semana passada.

Cabo de guerra 2

Questionado pela coluna sobre a mudança, o peemedebista Moreira Franco, atual titular da SAE, não diz que sim nem que não, muito pelo contrário. Mas frisou: "Político aqui, só eu". Para meio entendedor, quatro palavras bastam.

Em cima da hora

É grande a expectativa para que José Alencar saia do hospital e receba homenagem de Dilma no aniversário de SP, terça. Josué Gomes, filho do ex-vice, disse à coluna que há grandes chances de o pai voltar para casa em breve. Mas, pondera: deixar o Sírio-Libanês para ir à solenidade exigirá muito de sua saúde.

A autorização médica, segundo Roberto Kalil Filho, sairá em cima da hora.

Contrapé

Fernando Haddad teve que desfazer as malas. Ia curtir férias na Bahia, quinta, mas com a pane no sistema SiSU, sua família foi e ele ficou.

Promete só colocar o pé na areia depois que o problema estiver resolvido.

Dramin

A Força Aérea Brasileira é rigorosa com quem embarca em seus helicópteros durante buscas nas região serrana do Rio. Em caso de enjoo, o passageiro não deve aliviar, em hipótese alguma, o mal estar no chão da aeronave. Porque pode danificar a parte elétrica.

Em caso de emergência, precisará fazê-lo dentro da própria roupa ou no calçado. Levar um saquinho também não é má ideia.

Atacado

Cliente do hipermercado Extra, do ABC, gastou R$ 100 mil em água e leite em pó. Ao passar pelo caixa avisou, porém, que não levaria nada para casa. Pediu que tudo fosse entregue às vitimas da devastação na região serrana do Rio.

Ao todo, o Grupo Pão de Açúcar enviará 100 caminhões com donativos para os desabrigados.

Positivo

Decididos os nomes para comandar os dois principais institutos de pesquisa da Secretaria de Saúde do Estado: Jorge Kalil Filho fica com o Butantã e Alberto José Duarte assume o Adolfo Lutz.

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Ashton Kutcher, principal atração da Colcci na SPFW, mandou, ontem, lista de exigências para a produção da grife. Ele e a mulher, Demi Moore, que o acompanhará na viagem ao Brasil, querem litros e litros de... água de coco.

Na mesa, só culinária kosher.

Bandeja

Hortência e Jorge Pagura, secretário de Esportes, batem bola para organizar clínicas de basquetes em diversos pontos do Estado. A intenção é revelar talentos e divulgar a modalidade.

Tudo será feito via Lei Estadual de Incentivo ao Esporte.

Planilha

Para evitar imbróglio, o Clube dos 13 está contratando auditoria para acompanhar a concorrência sobre direitos de transmissão do Brasileirão 2012.

Até 30 de março serão analisadas propostas de TVs abertas, fechadas, pay-per-view, telefonia e portais de internet.

Rosa-choque

Flavia Ribeiro de Castro lança "versão feminina" de Carandiru mês que vem. Flores do Cárcere descreve o trabalho da educadora junto a 160 presas da cadeia feminina de Santos. Sai pela Talento, com prefácio de Dalmo Dallari.

Na frente

Wilbert Das pilotará a tradicional Festa de São Brás em Trancoso. Em fevereiro.

Margarida Cintra Gordinho, Antonio Kehl e Iatã Cannabrava autografam Patrimônio da Metrópole Paulistana. Segunda, no Museu da Casa Brasileira.

Alireza Esmaeli e Hoseein Bordbar, da Organização de Artesanato de Isfahan, do Irã, comandam oficinas de arte no CCBB. A partir de hoje.

Flavio Meyer abre a mostra fotográfica sobre SP. Terça, no Espaço Cultural Chakras.

O IAB premiou o escritório Piratininga Arquitetos Associados pelo restauro da Biblioteca Mário de Andrade.

Da home da BBC: "Uma pesquisa feita na Grã-Bretanha, com 3 mil pessoas, indicou que os casais brigam em média 312 vezes por ano, principalmente às quintas-feiras, por volta das 20h, por dez minutos". Vai entender...

GOSTOSA

CELSO MING

Cano furado
Celso Ming 
O Estado de S.Paulo - 22/01/11

De toda água produzida pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), 26% se perdem. São 944 bilhões de litros desperdiçados por ano, volume suficiente para abastecer a cidade do Rio de Janeiro.

A Sabesp perde na água limpa e perde na água suja. Como metade da conta d"água corresponde aos serviços de esgotos, a falta de faturamento no fornecimento de água tratada implica falta de faturamento também no escoamento da rede de esgotos.

E, no caso da água limpa, não está se falando aqui do que sai pelo ralo quando o banho demora demais ou do que escoa da torneira aberta na hora de escovar os dentes. O assunto é água que se perde por deficiências de gestão.

Cerca de 70% dessa perda ocorre por vazamentos nas tubulações ao longo da rede. Outra parte desaparece em ligações clandestinas, obra dos "gatos". E há aquela água que é consumida, mas que não é faturada corretamente porque os hidrômetros estão com defeito.

O até agora presidente da Sabesp, Gesner de Oliveira, vem repetindo que a redução das perdas é uma das prioridades da empresa. Nos últimos quatro anos foram investidos mais de R$ 850 milhões em melhorias nessa área. Os resultados começam a aparecer, mas ainda são tímidos: queda do índice de perdas de 34%, em 2004, para 26%, em 2010.

Esse número é melhor do que o da média nacional, que gira em torno dos 40%. Mas é descomunal se comparado com o que acontece em outras partes do mundo. O índice médio de perdas da OCDE (países ricos) é de 15%. O do Japão está abaixo de 5%. A meta da Sabesp é se igualar aos padrões internacionais, chegando em 2019 a um índice de perdas de 13%.

A estratégia para alcançar esse objetivo não tem mistério: é mapear os pontos de vazamento e tratar de corrigir os problemas. Outra frente de atuação é melhorar a medição nas residências.

O especialista Paulo Costa, da consultoria H2C, adverte que o Brasil emprega tecnologias ultrapassadas. Em Israel, por exemplo, os medidores de água são dotados de chips e a coleta de informações sobre o uso da água é feita por aviõezinhos teleguiados que sobrevoam as casas. Para introduzir sistema semelhante aqui, seria preciso trocar todos os relógios de água.

O consultor em saneamento Airton Gomes aponta outra deficiência: baixo fortalecimento do aparato regulatório do Estado. As agências reguladoras desse segmento são relativamente novas. A responsável em São Paulo é a Agência Reguladora de Saneamento e Energia (Arsesp), com menos de três anos de atuação. Hoje ela somente acompanha a medição para ver o quanto de água se perde. O que se espera é que participe mais ativamente de todo o processo e exija mais eficiência.

"Nós sabemos que os programas de redução de perdas são caros, mas as companhias precisam entender que custa muito mais jogar fora água tratada", avisa Tobias Jerozolimski, superintendente da Arsesp.

A Sabesp tem prejuízo de R$ 2 bilhões por ano (28% das receitas) com essas perdas. Mas perde também com a falta de faturamento de serviços de esgoto. Apenas na Grande São Paulo há 6 mil poços artesianos clandestinos, cuja água usada vai para a rede de esgotos e deixa outro rombo nas contas. / COLABOROU ISADORA PERÓN

CONFIRA

O vizinho reclama
O ministro Mantega está determinado a encaminhar à Organização Mundial do Comércio e ao Grupo dos 20 proposta no sentido de que a manipulação do câmbio passe a ser considerada manobra desleal que favorece as próprias exportações em detrimento dos demais.

Reclamação antiga
Nos anos 30, o economista inglês Dennis Robertson já denunciava políticas de desvalorização cambial como manobras destinadas a "transformar o vizinho em mendigo" (beggar thy neighbour). Em outubro, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, engrossou essas denúncias.

Queixo de vidro
O objetivo de Mantega é enquadrar os Estados Unidos, cujo banco central está despejando dólares no mercado e produzindo sua desvalorização, e também a China, que mantém o yuan atrelado ao dólar. É improvável que Mantega seja ouvido. Com menos sucesso, o Brasil também está tentando desvalorizar o real para favorecer seus exportadores.

JOSÉ NÊUMANNE

Doces venenos da diplomacia
José Nêumanne 
O Estado de S.Paulo - 22/01/11

Política, espionagem e psicanálise estão no centro de O Punho e a Renda, de Edgard Telles Ribeiro

O bom escritor se conhece pelo princípio da obra. Meio caminho terá andado o autor para ter o texto bem avaliado se lhe providenciar um bom começo para cativar o olhar e, como ensina Gabriel García Márquez, segurar o fôlego do leitor. O Punho e a Renda, de Edgard Telles Ribeiro, vence este desafio com folgas. O narrador, diplomata noviço, busca uma palavra para usar num relatório e, de repente, como se baixasse o anjo da anunciação, um vulto sai da penumbra e lhe sopra o vocábulo, que cai como uma luva. Assim é apresentado o protagonista da história, que não é o narrador, mas seu melhor colega de trabalho na juventude. Um lance de mestre: narrador e leitor fisgados pela mesma isca.



Mas evidentemente um boa pegada no início não é suficiente para segurar uma história capenga. É necessário encontrar um bom fim. E não é que o dito romancista conseguiu um fecho estupendo para sua narrativa? Revelá-lo nesta resenha não será incorrer em pecado mortal nem mesmo capital ou até venal. O tema do livro é a longa noite dos porões na ditadura militar brasileira e a fábula que o encerra não descreve uma seção de tortura nas masmorras nem a saga de alguma mãe em busca de seu filho tresmalhado nas celas clandestinas do sórdido Gulag tupiniquim. Nada disso: o personagem da narrativa em questão faz parte do rebanho dos sobreviventes. E esta ficção de terror não foi contada com gritos, sussurros nem pontos de exclamação, mas em silêncio tenso e sepulcral no meio de ruidoso tumulto. Muito tempo depois de haver fugido de casa para escapar dos esbirros que o foram prender, ele encontra a irmã num ônibus urbano e se olham sem uma palavra, um sorriso ou um aceno - apenas o gesto do dedo dele selando o lábio para evitar a bandeira da emoção deslavada por parte dela. O medo conteve a euforia e manteve represada a surpresa.

O leitor arguto poderá argumentar que estas duas cenas poderiam ter sido filmadas por Costa-Gavras ou Michelangelo Antonioni. De fato, são cinema em estado de extrema pureza. Narrador e autor lecionam - ou lecionaram - cinema na universidade. Mas nem mesmo o mais ranheta dos críticos, depois de lê-las, deixará de reconhecer que foram lavradas na mais perfeita e canônica arquitetura literária. Aí é que emerge outro aspecto fundamental no bom romance e que este aqui resenhado tem: um miolo à altura da entrada e da saída do leitor de suas páginas. Edgard Telles Ribeiro saiu-se bem nesta empreitada. Sem querer ser mais irreverente do que porventura possa se propor um ocupante deste espaço fugaz - mas sendo -, é o caso de deixar registrado que ele escreve muito bem... como o faria um competente profissional estrangeiro da escrita. E muito além do amadorismo reinante nestes trópicos mais enfadonhos do que tristes.

Víboras de gravata. O Punho e a Renda narra os bastidores da diplomacia brasileira por ocasião de um dos mais sórdidos episódios da história latino-americana, a Operação Condor, esquema transnacional de colaboração clandestina entre serviçais civis e militares de direita dos regimes autoritários vigentes na América do Sul nos anos de 1970. Só isso pode dar ao leitor a ideia da oportunidade oferecida a quem enfrentou o desafio de escrever e a quem aceita a gozosa tarefa de ler seu texto. Trata-se de um roman-à-clef, aquele gênero literário em que personagens reais com nomes fictícios atuam em cenários históricos. Chega a ser divertido procurar no entrecho do livro figuras com traços de caráter muito comuns nos desvãos da política, que muda como as nuvens do céu, e nos corredores do Itamaraty, serpentário de silvos refinados e doces venenos.

A saga do aventureiro que serviu à sanha da direita e continuou a subir após algumas de suas vítimas no passado conquistarem o poder republicano chega a ser corriqueira, de tão frequente. Para Telles Ribeiro contar a história que contou, mesmo sendo passados 40 anos, teve de reunir ao talento narrativo coragem cívica. Nada disso lhe faltou em nenhum momento. E o recurso da chave, usado na ficção para bois seguirem anônimos nos currais, não o poupará de picadas de víboras desmascaradas, pois estas ainda poderão lhe prejudicar a carreira no Itamaraty, ainda que já seja embaixador.

Em todo caso, o que menos importa neste caso é saber quem na vida real corresponde aos personagens tecidos com precisão de joalheiro no texto que é longo, mas leve. Importa mais é conhecer a natureza da história e suas implicações na vida de cada um, com todos os ingredientes bem misturados de política, guerra, colunismo social, espionagem e psicanálise.

Este livro, cujo título se refere menos aos punhos de renda e mais à força bruta e à corrupção, certamente elevará seu autor no pódio dos maiores ficcionistas em língua portuguesa. O exagero do emprego de tipos itálicos na composição da mancha gráfica e o mau gosto evidente do arame farpado usado na capa para insinuar que o volume possa conter o relato de algum sobrevivente de campos de concentração nazista, em nada impedir-lhe-ão a fortuna crítica que, com todos os méritos, lhe está reservada.

GUILHERME FIUZA - 2

A volta do nosso Delúbio

GUILHERME FIUZA
REVISTA ÉPOCA

Nelson Rodrigues dizia, com calculado cinismo, que a única possibilidade real de consciência é o medo da polícia. O grande dramaturgo não viveu para ver o dia em que nem o medo da polícia serviria como fronteira ética. À luz do dia, representantes da casta sindical que governa o Brasil informam que não têm medo de nada. Nem mesmo de articular a ressurreição de Delúbio Soares, uma das estrelas do mensalão - o episódio que, em dimensões inéditas, transformou a política em caso de polícia.

O cinismo de Nelson é brincadeira de criança perto da evolução moral do PT. O partido, que completará 12 anos no poder - envelhecido no puro malte de Brasília -, já trabalha para estender esse reinado para 16 anos, aproximando-se do recorde da era Vargas. Nessa marcha firme, vai-se impondo o seguinte princípio ético: o que a opinião pública engolir, está valendo.

Não foi à toa que Luiz Inácio da Silva se despediu da Presidência avisando que iria desmontar "a farsa do mensalão". Em tese, o filho do Brasil não precisaria, do alto de sua popularidade sobre-humana, gastar um minuto com o capítulo negro do valerioduto. O povo já lhe dera o habeas corpus vitalício. Mas apagar a existência do mensalão é importante a médio prazo. A companheirada vai precisar de uma ficha mais ou menos limpa para levar a revolução dos cargos ao quarto mandato seguido - sem que a opinião pública desperte de sua soneca cívica.

Até aqui, tudo bem. O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), líder do governo na Câmara, defendeu a reintegração do ex-tesoureiro Delúbio ao Partido dos Trabalhadores. Vamos repetir baixinho, para não perturbar o sono dos brasileiros: não foi um militante petista que disse isso em "off". Foi o líder do governo, de cara limpa (até onde isso é possível), quem declarou publicamente que o lendário Delúbio, apontado pelo Ministério Público como um dos vértices da quadrilha que ordenhou o Estado em prol do PT, merece uma nova encarnação no partido.
Não à toa Lula se despediu da Presidência avisando
que iria desmontar "a farsa do mensalão"

"Nenhuma pena é eterna", disse Vaccarezza. Pode-se questionar o teor filosófico da afirmação, mas pelo menos uma certeza cristalina ela traz: o pessoal perdeu completamente o medo da polícia.

É compreensível. Dos 40 indiciados por aquela fantástica operação de empréstimos fictícios, que faziam dinheiro público brotar na boca do caixa privado para os parlamentares fiéis, ninguém foi punido pela Justiça. Nem será. Passados mais de cinco anos, o escândalo já foi mais que engolido pela opinião pública. Ao lado dela, o Supremo Tribunal Federal aninhou-se na mesma soneca, para não fazer barulho no momento em que a candidata de José Dirceu chegava para a troca de guarda no palácio.

Com Dilma lá, o medo da polícia sumiu de vez. E o líder Vaccarezza pôde soltar seu brado definitivo sobre os mensaleiros: "Todos eles já pagaram um preço maior do que seus pecados".

Quem imaginar que uma declaração dessas é a apoteose da cara de pau está redondamente enganado. A coisa é científica. O líder petista joga o disparate no ar para sondar o terreno. Não havendo reações significativas, ele fotografa o sismógrafo parado no zero e emite o sinal para os companheiros: todo mundo dormindo, caminho livre.

A ressurreição do "nosso Delúbio" (como dizia Luiz Inácio) é só um detalhe do projeto. O abraço apertado de Erenice Guerra na presidenta, em plena posse, foi parte da mesma experiência científica altamente bem-sucedida. O laudo é conclusivo: o povo não está nem aí para o tráfico de influência. E lá vem mais um teste de laboratório ao vivo: José Sarney, flagrado com o filho e o também lendário Agaciel Maia usando o parlamento para empregar seus simpatizantes, já foi lançado para presidir novamente o Senado.

Tudo normal. Na ausência de Nelson Rodrigues e da polícia, não há mesmo mais nada a temer.

RUTH DE AQUINO

Uma razão para se orgulhar
RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA

Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
Existe uma máxima no mundo da mídia: “Good news is no news” (boas notícias não são notícia). Entre os escombros da tragédia de 2011, há uma notícia tão boa que não dá manchete. A cidade do Rio de Janeiro inaugurou o centro mais moderno de controle de operações do mundo, totalmente computadorizado, com radares e alertas para enchentes. Um novo sistema poderá prever dilúvios 48 horas antes e deslocar a tempo famílias em risco de perder suas casas e suas vidas.
O centro carioca de operações tem um telão de 80 metros quadrados – maior que o da Nasa, segundo o prefeito Eduardo Paes. Reúne 30 órgãos municipais e concessionárias e 400 profissionais. É resultado de uma parceria com a IBM. O objetivo é transformar o Rio em referência para o Brasil e o mundo no planejamento de eventos e gestão de crises. A ideia é repetir o modelo em metrópoles brasileiras até a Copa.
O cérebro tecnológico do prédio é um indiano que vive em Nova York, mas tem visitado tanto o Rio que uma de suas bebidas prediletas é a caipirinha e seu point favorito é a Lapa boêmia e musical. É vice-presidente de tecnologia da IBM e seu nome é Guru. Foi batizado como Guruduth Banavar, mas até a mãe dele o chama de Guru (leia a entrevista) .
Em cada monitor, vemos o que está acontecendo naquele momento em todos os pontos da cidade: obras, engarrafamentos, acidentes, falta de luz ou de gás, onde estão os reboques, por onde trafegam os ônibus, onde está sendo recolhido o lixo. É evidente que não basta ter acesso aos dados. Só com inteligência e integração esses dados podem ser úteis. Mas acabou a desculpa “eu não sabia de nada”. O prefeito tem um quarto ali para dormir, em emergências.
Uma reportagem recente da revista The Economist, intitulada “It’s a smart world” (É um mundo inteligente), traduz o que se tenta fazer nesse centro. É como se o mundo real e o mundo digital convergissem para criar eficiência. Para as pessoas comuns, significa menos estresse e mais conforto. Segundo o diretor da IBM Pedro Almeida, carioca apaixonado pelo que faz, essa é a base para o conceito de Smarter Cities, ou “cidades mais inteligentes”, que a IBM criou em 2007 e, agora, inclui o Rio como uma das vitrines mais vistosas.
Entre os escombros da tragédia, há uma ótima notícia: o novíssimo centro de alerta para enchentes
No caso das chuvas, a era do achismo e da irresponsabilidade terá de acabar para não se repetir o vale de lágrimas da serra fluminense. Cientistas e geólogos concluíram o primeiro mapeamento do solo da cidade do Rio, depois de fotografar de helicóptero, com câmeras especiais e laser, ruas, vales e morros. Existem hoje 18 mil casas em alto risco em 117 comunidades. Fora o médio risco e o baixo risco.
Caso o novo radar da prefeitura, importado dos Estados Unidos, preveja chuvas fortes, sirenes tocarão. A IBM promete, com seu novo sistema, a ser instalado neste semestre, prever calamidades com dois dias de antecedência. Mais de 2 mil agentes comunitários foram treinados pela Defesa Civil e equipados com celulares para receber alertas por mensagens de texto.
Se um sistema parecido estivesse em vigor na serra do Rio, não estaríamos chorando hoje mais de 700 mortos. Podemos ser solidários e generosos, mas não vamos esquecer que existem culpados.
O que aconteceu em Petrópolis foi um crime premeditado. As estações meteorológicas sofisticadas existem, estão instaladas em lugares estratégicos, uma delas ao lado do vale que deixou de luto dezenas de famílias. Mas não estavam funcionando. Por quê? O prefeito Paulo Mustrangi diz que era fim de ano, havia raspado o caixa e não tinha os R$ 900 mil para fazer funcionar. O Instituto Estadual de Ambiente afirma que não recebeu nenhum pedido de ajuda do prefeito.
Prefeitos que permitem construir favelas, condomínios e hotéis em encostas e áreas de risco e não tomam providências para garantir o bem-estar de seus eleitores deveriam perder o mandato e ser levados à Justiça. Pensando bem, que Justiça? Na cidade do Rio, liminares judiciais impedem a prefeitura de reassentar mais de 130 famílias que permanecem em casas condenadas, que já deveriam ter sido demolidas. Quem vai julgar os juízes?

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Alugo sogra pro carnaval!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 22/01/11

E como disse o presidente da Câmara de Itabuna: "Por falta de CLORO, está encerada a sessão"
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Chego na Bahia e já dou de cara com essa placa: "ALUGO MINHA SOGRA PARA O CARNAVAL". Isso que é otimismo! Rarará!
Na Bahia já é Carnaval. Não tem aquele intervalo in-su-por-tável entre o Réveillon e o Carnaval.
É ensaio do Olodum, ensaio do Psirico e se ligar um liquidificador todo mundo sai correndo atrás pensando que é trio elétrico.
E olha a placa numa loja de colchões: "Promoção: colhões a preço de fábrica".
E essa piada pronta: "Ponte JK interditada por oscilações na estrutura". Como é o nome do presidente da Companhia Urbanizadora? Maurício SEGURA!
Perfeito: quando a ponte balança, todo mundo grita: SEGUUUUUUUUURA! E como disse o presidente da Câmara de Itabuna: "Por falta de CLORO, está encerada a sessão". E aí foram todos pra piscina? Rarará.
E diz que a Deborah Secco fazendo papel de periguete é como chover no molhado. Deborah Secco chove no molhado! Rarará.
E essa: "Prostituta diz que foi a jantar de Berlusconi com seis brasileiras".
E ele ainda quer o Battisti? Insaciável. Ele devia mudar o nome pra BERLUSCOMI. Berluscomi Todas!
E essa: "Empresa americana lança robô sexual que conversa com o usuário". Tem versão muda? Ele trabalha no "BBB"? E o robô sexual fala o quê? "Você me ama mesmo ou só quer me comer?"
E a última coisa que uma pessoa quer quando procura um robô sexual é conversar!
O Brasileiro É Cordial! A penúltima do Gervásio, o Pinochet de São Bernardo.
Olha a placa na empresa em São Bernardo: "Se eu descobrir quem foi o tarado que ligou três vezes no mês passado para o telesexo, vou fazer o garanhão da madrugada usar o uniforme da copeira e sentar numa doce garrafa pet de 2 litros. Conto com todos. Assinado: Gervásio". Ufa!
O almoxarifado do Gervásio deve se chamar AlmoXERIFADO! Rarará! A situação tá ficando psicodélica. Nóis sofre mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

WALCYR CARRASCO

Minha lipo
WALCYR CARRASCO
REVISTA VEJA - SP

Há alguns anos, fiz um grande regime que culminou com uma plástica na barriga. Mas... ai de mim! Adoro comer bem! Faço cursos de culinária, coleciono livros de receitas, não abro mão de um bom restaurante. Sou um guloso assumido. E me encanto com tudo: de um prato exótico a um arroz com feijão benfeitinho. Pior, devoro cada prato como se a guerra nuclear fosse começar no instante seguinte! Resultado: a barriga retornou. Passei alguns meses indeciso. Finalmente, resolvi: ano novo, vida nova, barriga novíssima!
Meu cirurgião plástico, o doutor Rogério, foi franco:

— Parte da sua gordura é visceral. Não se tira com lipo, mas com regime.
— Se eu me sentir melhor, vou me animar para a sequência — insisti.
— Não faça, não faça! — rugiu meu personal trainer, Igor.
— Você perde tudo na malhação. É só comparecer às aulas com frequência.
— Depois da lipo, não perco mais a cintura. Até começo a fazer boxe! — prometi.
Internei-me em uma clínica especializada em intervenções estéticas. Deitei na cama. Olhei o teto. Pensei: “Que diabos estou fazendo aqui? Não sou ator, muito menos modelo. Não vivo da minha aparência. Para que me arriscar com uma anestesia?”.
Quase desisti. Isso não é tão incomum: uma amiga já pulou nua da mesa na hora de retocar os seios e fugiu pelada pelos corredores de um hospital. Mas só um barrigudo pode compartilhar do sentimento que eu tinha. É horrível entrar em qualquer loja, perguntar se há uma roupa que lhe sirva e constatar que o vendedor traz a maior camisa. Horror! Quando se tenta fechar no umbigo, o botão explode como uma couve-flor! Lembrei-me da última festa de réveillon. Experimentei uma camisa branca após a outra. Todas apertadíssimas. Resignei-me e fui com a mais soltinha. Sim, reconheço: vive-se sob um império estético. O reino dos magros. E daí? Não pretendo começar a revolução dos gordos. Apoio quem ousar.
Mais uma vez, irritei-me com os cientistas japoneses. Inventam de tudo. Por que não uma máquina na qual eu entre por um lado e saia idêntico ao Brad Pitt pelo outro?
Estiquei o braço. Recebi uma injeção preparatória. Fechei os olhos e parti para o centro cirúrgico. Acordei com uma cinta no abdômen. Surpresa! Apenas levemente dolorido.
— Algumas pessoas sentem uma dor insuportável — disse o enfermeiro. — Outras reagem como você.
— Eu poderia ir embora dirigindo! — anunciei alegremente.
— Mas eu não deixo! — avisou o doutor Rogério.
Quando cheguei em casa, tive dor. Mas de consciência.
Fiz a lipo exatamente no fim de semana em que ocorreu a tragédia fluminense. Ao assistir às cenas de devastação, ao ver pessoas perdendo a vida, famílias sem teto, emocionei-me. E me senti tremendamente superficial. Refleti: “Como posso brincar com meu corpo?”.
Não sou contra plásticas, nem intervenções estéticas. De jeito nenhum. Mas essa só aconteceu por que depois da primeira, em vez de me reeducar, achei mais fácil fazer a segunda.
Passados os primeiros momentos de revolta comigo mesmo, comemorei. A maior parte das minhas roupas voltou a servir. E ainda estou desinchando! Logo estarei usando uma cinta menor. É quente. Sinto coceiras. Mal posso sair de casa, porque as calças escorregam na Lycra da cinta. Há uma semana, quase fiquei pelado em pleno Shopping Higienópolis. Mas em pouco mais de um mês retiro também esse adereço. Sou vaidoso. Há uma enorme satisfação em me sentir mais elegante. Mas não pretendo transformar intervenções estéticas em modo de vida. Meu corpo merece mais que isso.

GOSTOSA

JOSÉ GOLDEMBERG

Potencial hidroelétrico não está esgotado 
JOSÉ GOLDEMBERG


FOLHA DE SÃO PAULO - 22/01/11

A opção de geração de eletricidade com energia nuclear foi estimulada pelos governos de vários países que não tinham muitas outras opções, como nos casos da França, do Japão, da ex-União Soviética e dos Estados Unidos, que desejavam se libertar da dependência da importação de gás e petróleo.
Ela teve sua época de ouro durante a década de 1970, mas, a partir de 1985, praticamente estagnou no mundo todo; hoje, ela representa aproximadamente 15% da eletricidade usada no mundo; apenas em alguns países, como França e Japão, representa fração maior.
Os demais 85% provêm de outras fontes, como carvão, energia hidroelétrica e, mais recentemente, as energias renováveis (vento, energia solar e biomassa).
Quais as razões para tal? Em primeiro lugar, as preocupações com a segurança dos reatores nucleares, que foi seriamente abalada com os acidentes de Three Mile Island (nos Estados Unidos) e Chernobyl (na ex-União Soviética).
Com outras tecnologias para produzir eletricidade também ocorrem acidentes (como incêndios ou ruptura de barragens em reservatórios de usinas hidroelétricas), mas acidentes nucleares que espalham radioatividade podem ser muito mais graves, como se viu em Chernobyl, onde até hoje centenas de quilômetros quadrados em torno da usina estão interditados.
Questões não resolvidas sobre como armazenar o "lixo nuclear" contribuem para o problema.
Em segundo lugar, custos. Energia nuclear é tecnologia complexa e cara, e ficou ainda mais cara e deixou de ser competitiva em relação a outras fontes de energia com os gastos para melhorar o desempenho e a segurança dos reatores nucleares. De modo geral, só empresas estatais constroem reatores nucleares, ou empresas privadas com fortes subsídios governamentais.
Finalmente, as visões ultrapassadas do "Brasil grande" de que o domínio da energia nuclear era o "passaporte para o futuro", como se ela fosse a única capaz de fazê-lo.
O Brasil, há 35 anos, no governo Geisel, se viu diante desses dilemas e quase embarcou num projeto de se tornar um país "nuclear", com dezenas de reatores nucleares.
Felizmente, o bom senso prevaleceu, porque os cientistas brasileiros, por meio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, alertaram o governo de que o país tinha outras opções melhores para produzir a energia elétrica de que necessitava. Sem esses alertas, a usina hidroelétrica de Itaipu não seria construída, pois os recursos seriam desviados para usinas nucleares, como nos confidenciou em 1992 o general Costa Cavalcante, que, em 1975, era presidente da Eletrobras.
Passados 35 anos, a situação não mudou muito. O país ainda tem amplas oportunidades de produzir energia elétrica a partir de fontes renováveis e não poluentes, como a energia hidroelétrica, cujo potencial ainda está longe de estar esgotado, além de outras opções, como bagaço de cana, em São Paulo, e energia eólica, no Norte do país.
O fato de as usinas nucleares não emitirem "gases de efeito estufa" pode ser uma vantagem na Inglaterra, onde energia elétrica é gerada com carvão, mas não no Brasil, onde as energias renováveis também não emitem esses gases.
Não há, portanto,razões para investir mais em energia nuclear no Brasil, a não ser para acompanhar os desenvolvimentos tecnológicos dessa área.

CLÓVIS ROSSI

Como fica o Brasil diante do G2?

CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 22/01/11

Perante a consolidação informal do bloco, país deve reavaliar as relações com os EUA e a China

ESTRASBURGO - A recém encerrada visita aos Estados Unidos de Hu Jintao, o presidente chinês, serve, claramente, para consolidar o G2, esse micro-clube das duas únicas nações indispensáveis para criar e/ ou resolver problemas globais, na economia e na política.
Mas entendamos: o G2 não tem parentesco com o antigo G7, o clube das sete principais economias do mundo. O G7 era um grupo razoavelmente homogêneo: países ricos, democráticos, de economia de mercado e com um inimigo a vencer, o comunismo.
Se não se coordenassem, corriam o risco de dar munição ao inimigo.
Já o G2 reúne um país grande, rico, democrático e de economia de mercado e outro, que é grande mas não é rico. Trata-se, é verdade, da segunda maior economia do mundo, agora que acaba de desbancar o Japão, mas sua renda per capita (que é uma medida mais adequada de riqueza) é só a 93ª no planeta.
Além disso, a China não é democrática e sua "economia social de mercado" tem uma dose de intervencionismo estatal sem paralelo.
Por fim, já não há mais inimigos a derrubar. Por isso, o presidente Barack Obama batizou o relacionamento China/EUA como "concorrência amistosa". Logo, concorrentes mas não inimigos.
Se há um G2 informal, mas tão relevante, qual seria o melhor papel para o Brasil?
Por enquanto, tem uma parceria estratégica com os Estados Unidos, o que é um rótulo pomposo mas de pouco significado prático, enquanto não se traduzir na derrubada de barreiras norte-americanas à produção brasileira.
Estaria, pois, na hora de rediscutir não a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), porque hibernou durante tanto tempo que apodreceu, mas o chamado acordo 4+1 (Mercosul/Estados Unidos).
A economia brasileira já está suficientemente madura para que um acordo do gênero não significasse a "anexação" do Brasil pelos Estados Unidos, como chegou a dizer o então vice-chanceler Samuel Pinheiro Guimarães.
Quanto à China, em vez de acreditar em institucionalizar o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil deveria adotar a mesma fórmula de Obama: "concorrência amistosa".
Sim, porque o que há agora não é amistoso. Basta ler o que escreveram faz pouco três especialistas da Fiesp em comércio exterior, Fabrizio Sardelli Panzini, Paula Cristina Corrêa Bolonha e Wellington de Lima Freire:
"A competição entre Brasil e China foi amplamente desfavorável para a economia brasileira, que sofreu perda líquida em todos os mercados analisados [Estados Unidos, União Europeia e Argentina]. Em uma década [2000/ 2009], a perda alcançou US$ 18,2 bilhões, distribuída entre EUA (US$ 9,3 bilhões); UE (US$ 7,3 bilhões) e Argentina (US$ 1,6 bilhão)."
O estudo mostra que, também no mercado interno, "a competição entre Brasil e China resultou em uma perda líquida de US$ 15,2 bilhões para os produtores nacionais". É evidente que, nesse ritmo, o Brasil corre o risco de "anexação" não pelo velho "império" mas por um parceiro insuspeito até faz pouco.

CARTÃO

WALTER CENEVIVA

 São Paulo na Justiça do Brasil

WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 22/01/11

Cidade tem hoje os maiores tribunais, por onde passa a metade dos processos em andamento no país

É razoável dizer que Cabral encontrou a terra que veio a ser o Brasil graças ao avanço científico gerado pela bússola, por volta do ano 1000, atribuído aos chineses.
Lembrando Camões, permitiu viagens por mares nunca dantes navegados, em barcos cada vez mais confiáveis, em particular a caravela, com os estudos liderados por dom Afonso Henriques, na Escola de Sagres.
Foi assim que Martin Afonso de Sousa chegou mais facilmente à capitania de São Vicente, na qual foi autorizado a nomear juízes do cível e do crime e auxiliares judiciários.
Em 1538, lançadas as bases para o governo-geral da colônia, com Tomé de Souza, o desembargador Pero Borges foi nomeado primeiro-ouvidor-geral para representar a coroa. São Paulo, fundada em 1554, somente em 1751 ampliou a participação judiciária na colônia, quando incluída nas jurisdições da Relação do Brasil.
Se o leitor tiver interesse nos fatos da magistratura em nosso país, leia "Justiça no Brasil - 200 Anos de História", de Paulo Guilherme de Mendonça Lopes e Patrícia Rios.
O livro tem prefácio do ex-ministro José Francisco Rezek e oferece, com ilustrações, a história da atividade judiciária na colônia, no Império e na vida republicana (República Velha, Era Vargas, democracia de 1945 a 1964, ditadura militar de 1964 a 1985 e daí a 2009), com posfácio dedicado ao Supremo Tribunal Federal e às variações de sua composição.
Em 1800, passados 300 anos da descoberta, São Paulo ainda não havia chegado aos 10 mil habitantes, mas da pequena vila partiram os bandeirantes, entre os séculos 16 e 18, avançando pelos grandes espaços internos na busca de metais preciosos e índios para escravizar.
Assim dominaram quase todo o território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do Brasil de hoje. Proclamada a Independência, no Ipiranga, Pedro 1º quis que aqui -e em Olinda- fossem criados cursos jurídicos, instalando o primeiro em São Paulo, em 1827.
Desde o início, tem sido constante a crítica das insuficiências da Justiça oficial pelos profissionais da área jurídica, alguns dos quais da própria magistratura.
Aumentaram muito com a exigência crescente de sua prática, na transformada sociedade urbana do século 20, da mulher no mercado de trabalho, nas novas e complexas relações sociais.
Pensemos que, há meio século, a cidade do Rio de Janeiro ainda era a maior do Brasil e a capital do país. De lá para cá, o Estado de São Paulo triplicou seus 13 milhões de habitantes. O crescimento incluiu Guarulhos, São Bernardo do Campo e Santo André, ao lado de Santos e Campinas, entre as maiores cidades brasileiras.
Nenhum gênio de organização poderia prever deslocamentos populacionais nesses níveis. Por outro lado, houve advertências, sobretudo pela Ordem dos Advogados, contra a tardia modernização do Judiciário daqui, bem depois de Estados menos prósperos.
A estatística diz que São Paulo tem hoje os maiores tribunais, do Regional Federal, dos Regionais Trabalhistas e da Justiça estadual.
Passa por eles a metade dos processos em andamento no país -ou quase isso- dia após dia. A estatística não é tudo, mas compõe o perfil da participação deste Estado na Justiça do Brasil, quando sua capital se prepara para o aniversário, na próxima terça-feira.

RUY CASTRO

País esnobe

RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO - 22/01/11
RIO DE JANEIRO - Em 2011 teremos o centenário de muita gente boa da música brasileira -compositores e letristas a quem devemos tanta beleza e alegria na área do samba, do Carnaval, da valsa, do samba-canção, até do fox. Tais efemérides deveriam se estender pelo ano todo, com shows sobre eles por cantores novos e velhos, debates entre especialistas, lançamento e relançamento de seus discos e, quem sabe, biografias e documentários.
Mas, como aconteceu com Noel Rosa e outros que fizeram cem anos em 2010, esses artistas só serão lembrados no próprio dia do aniversário e, mesmo assim, por iniciativa de fãs devotados. Eis alguns.
A 1º de fevereiro, será o dia de Pedro Caetano, autor das obras-primas do samba "Foi uma Pedra que Rolou", "Onde Estão os Tamborins?" e "É Com Esse Que Eu Vou", e co-autor de "Caprichos do Destino", "Sandália de Prata", "A Dama de Vermelho", "Eu Brinco", "A Felicidade Perdeu seu Endereço". No dia 7, será a vez de José Maria de Abreu, cuja obra vai de valsas como "Boa Noite, Amor" à modernidade de "Alguém Como Tu" e à irresistível euforia de "Pegando Fogo".
Em março, teremos os cem anos de dois favoritos de Carmen Miranda: no dia 14, o de Synval Sylva ("Adeus, Batucada", "Ao Voltar do Samba", "Coração", "Gente Bamba"); no dia 19, o de Assis Valente ("Minha Embaixada Chegou", "E Bateu-se a Chapa", "Uva de Caminhão", "Recenseamento", "E o Mundo Não se Acabou", muitas mais). E, a 23 de maio, será a vez do letrista Mario Rossi, parceiro de Roberto Martins no samba "Beija-me" e no fox "Renúncia", e de Marino Pinto no bolero (sim!) "Que Será?" ("Da luz difusa do abajur lilás/ Se nunca mais vier a iluminar/ Outras noites iguais...").
Isto apenas entre os aniversariantes que serão esnobados no 1º. semestre. Mas, até o fim do ano, o Brasil promete superar-se e esnobar Nelson Cavaquinho.

GOSTOSA