quinta-feira, dezembro 02, 2010

ALBERTO TAMER

Desindustrialização virou palavrão
 Alberto Tamer
O Estado de S. Paulo - 02/12/2010

Um palavrão ronda Brasília. Desindustrialização. Há ou não há, no Brasil? Eis a questão. Os empresários afirmam que sim; em alguns setores mais do que outros, mas é indiscutível o processo em marcha de substituição de produtos brasileiros por importados. A penetração destes, no mercado interno, era de 22,7% no ultimo trimestre. O ministro Miguel Jorge nega. É absurdo dizer que há desindustrialização num país que importa US$ 125 bilhões em máquinas e equipamentos e a indústria produz a pleno vapor, afirma ele. Outros vão mais longe, é um despropósito. Mas a Associação da Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) refuta. "Estamos em um claro processo de desindustrialização diz seu presidente, Luiz Aubert Neto. O faturamento no setor aumentou 11% entre janeiro e outubro, mas está abaixo aos 15% verificados em 2008, mesmo na crise.
A coluna abriu espaço para o debate. Sim ou não?
Depende. Na verdade, tudo depende do conceito de "desindustrialização" - uma palavra feia, admitimos. O que significa? Não é, como se diz, uma "destruição" da indústria brasileira, é a sua participação menor no PIB. Em 2004, era de 30,1%. No ano passado, 25,4%. Como afirma um estudo interno do Ministério do Desenvolvimento, a desindustrialização não se caracteriza pela queda na produção física da indústria, que pode estar até aumentando. "A característica fundamental é a perda relativa de dinamismo da indústria em geração de renda e emprego." É a substituição crescente de produtos que antes eram fabricados no Brasil por similares importados, principalmente da China.
De acordo com levantamento feito pela Fiesp entre os empresários paulistas, a participação dos produtos industriais importados passou de 18,1% no terceiro trimestre de 2009 para 22,7% o terceiro deste ano! Praticamente em todos os setores, com destaque especial para máquinas, equipamentos, metais e eletrônicos. De acordo com a pesquisa, divulgada pelo diretor de Pesquisa Econômica da Fiesp, (que não integra aquele grupo de "chorões" do juro e do câmbio da entidade, liderado por Roberto Giannetti da Fonseca), o processo é mais profundo e sério. Não é só o consumidor privado que está trocando produtos brasileiros por importados.
São as indústrias também, que importam insumos e partes a preços mais baixos para se defenderem da competição chinesa e fabricarem no Brasil. Os números impressionam: 55% das fabricas já se abastecem fora, 60% buscam insumos, matérias primas, no exterior, dos quais 20% de máquinas e 23% de produtos acabados. A pesquisa mostra também que 53% dos equipamentos e máquinas vendidos no mercado interno são importados.
Mas é que. Sei. É que a produção industrial está no seu limite, 82% da capacidade instalada, não está acompanhando a demanda. A questão não é só essa. É que o aumento da produção nacional - vejam bem o "aumento" está sendo feito em grande parte por meio de "produtos importados". Ou seja, o que aparece como produção nacional, não é bem isso...
Os números do IBGE mostram que temos aí um quadro nítido, claríssimo de substituição de bens produzidos no Brasil por importados, caminho aberto para a desindustrialização...
Está crescendo! Será? Mas a produção industrial está crescendo, ela é vigorosa, afirmam os que negam a existência do processo de desindustrialização!
Será? Vamos perguntar ao IBGE? Vejam a resposta dos números oficiais: com exceção do mês de julho, quando registrou um ligeiro aumento de 0,5%, a indústria vem apresentando resultados negativos.
A produção manufatureira recuou nos últimos seis meses. Nada menos que 0,9% em abril, 0,2% em maio, 1,2% em junho, 0,2% em agosto e setembro! São taxas calculadas sempre em relação ao mês anterior e com ajuste sazonal. Nada melhor para a realidade. Querem mais um numero final e irrefutavel? De abril a setembro deste ano a queda acumulada foi de 2,1%!
E isso, atentem, com a economia crescendo a 7,5% ao ano(!!!)
"O fato é que, ao contrário de outros setores, a indústria não vem participando dos benefícios gerados por esse momento extremamente positivo do País", afirma à coluna Rogerio César de Souza, economista-chefe do Instituto para o Desenvolvimento Industrial (Ied). "É nítida a escada declinante, o declínio do crescimento do setor, trimestre após trimestre, até atingir um valor negativo no período julho-setembro."
Sim ou não? O debate continua e a coluna continua aberta para ele. Apenas uma sugestão, que tal trocar esse palavrão que é feio e assusta por outro mais aceitável em Brasília, como "desestruturação" ? Assim, fica mais fácil analisar os números do IBGE. Que, a propósito, é do governo...

NÃO ESCUTE SUA MÃE

CELSO MING

Não é só um saldo menor 
Celso Ming 

O Estado de S.Paulo - 02/12/2010

Não é apenas a queda do superávit (diferença entre exportações e importações), de 35,4% no comércio exterior do Brasil, que precisa ser examinada a partir dos números ontem divulgados. Há um punhado de outras coisas que precisam de mais análise.

As importações nos 11 primeiros meses deste ano dispararam 43,9%, uma enormidade num cenário geral de crise e de estagnação do comércio exterior global. O Brasil se tornou um bom porto para produtos encalhados no resto do mundo em consequência da queda do consumo e da recessão. Mas não dá para dizer que esse crescimento das importações seja apenas efeito da sobrevalorização do real (baixa cotação do dólar em relação à moeda nacional). É principalmente resultado do forte aumento do consumo (mais 10%) que, por sua vez, está relacionado com o salto da renda (mais 12%, sem desconto da inflação) e do crédito (mais 20%). E, é claro, esses fatores estão por trás, também, do recuo do saldo positivo.

O excelente desempenho das exportações não ficou muito atrás do apresentado pelas importações. Cresceram nada menos que 30,7% no acumulado do ano (até novembro), apesar da retração mundial das encomendas em decorrência da crise e também da baixa do dólar, que encareceu o produto exportado. É um resultado excepcional.

Em cada setor da indústria, há aqueles que se queixam de que essa exuberância das exportações se deve apenas ao bom momento das matérias-primas metálicas e das commodities agrícolas, em prejuízo dos produtos da indústria. É verdade que os altos preços dos produtos básicos vêm garantindo uma receita 40,4% maior com exportações nessa categoria. Mas não se pode desdenhar do que acontece com os outros segmentos. As exportações de produtos manufaturados, os mais sensíveis ao câmbio adverso, estão 19,2% mais altas. E a dos semimanufaturados (açúcar, celulose, ferro, ligas, óleo de soja, etc) avança a 38,0%.

O bom volume de exportações de manufaturados também tem a ver com as importações, na medida em que a indústria está importando cada vez mais matérias-primas, peças e componentes e, dessa forma, barateando o produto final. O mesmo se pode dizer do setor de máquinas. Na última sexta-feira, o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, lembrava que, em apenas quatro anos, a indústria importou nada menos que US$ 125 bilhões em máquinas e equipamentos, mais do que o dobro contabilizado no período de 2003 a 2006 (inclusive). É também fator relevante de modernização da indústria.

A indústria reduziu sua participação no PIB, de 21% nos anos 70 a alguma coisa ao redor dos 15% em 2010. Mas isso só marginalmente tem a ver com o processo de desindustrialização da qual se queixam tantos empresários. Por trás desse fenômeno está o fortalecimento relativo da agroindústria e do setor de serviços.

Argumentar que esse arranjo está produzindo desemprego não tem o menor cabimento. Hoje, apenas 6,1% da população economicamente ativa está sem trabalho. É o melhor indicador de toda a história brasileira.

Mais tempo de vida pra você
Cada ano, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer aumenta de três a quatro meses. É a primeira observação que se pode fazer das informações ontem divulgadas pelo IBGE.

Mudanças à vista
São números que apontam para impactos enormes na economia e na política nos próximos anos. Uma população mais velha exigirá grandes mudanças no sistema de Previdência Social para garantir mais aposentadoria. É um futuro com mais geriatria do que pediatria, mais lar de velhinhos e menos creches e escolas.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Associações reclamam da falta de camarão no país 
 Maria Cristina Frias 

Folha de S.Paulo - 02/12/2010

Associações setoriais se dizem alarmadas com a escassez de camarão no Brasil.
O setor reclama que há falta do produto no mercado, devido a uma barreira sanitária e à pesca predatória.
A barreira é a norma técnica nº 39, de 1999, que proíbe importação do crustáceo de cativeiro.
O objetivo, à época, era impedir a entrada da doença mancha branca no país.
As associações afirmam que pedem ao Ministério da Pesca e Aquicultura a revogação da norma, para que o mercado interno possa competir com o internacional.
A doença chegou ao Brasil há anos e está sob controle, segundo afirmam a ABF (associação de franchising) e a ANR (de restaurantes), entre outras entidades.
A outra razão é a queda da produtividade do camarão selvagem (o pescado no mar) devido à pesca insustentável.
Sem que a oferta interna acompanhasse a demanda e com as restrições à importação, o preço subiu, principalmente neste ano.
Dependendo do tamanho, o preço pode ser de US$ 6 no exterior e US$ 13 no Brasil. Em 2002, a diferença não superava US$ 0,50.
Um dos signatários da requisição feita ao ministério, Sérgio Kuczynski, da ANR, diz que os associados estão "à mercê" do mercado nacional. "O preço fica especialmente alto na entressafra."
Fernando Perri, da Vivenda do Camarão, diz que o produto está sendo elitizado e que fechou seis lojas na Europa pois sua fábrica de congelados não pode competir com o preço internacional.
O ministério informou que não recebeu "carta ou texto formal" sobre reivindicações quanto à importação.

APETITE MENOR NO EXTERIOR

Depois de quatro anos, a Bovespa tem registrado giro financeiro maior do que os ADRs (American Depositary Receipts) negociados na Bolsa de Nova York. Os ADRs são recibos de ações de empresas estrangeiras negociados no mercado americano.
Uma das hipóteses para a movimentação superior no mercado doméstico é que o volume de aplicação em ações caiu muito no exterior, segundo analistas.
Os IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês), por sua vez, também diminuíram muito. Gestores externos relatam redução do apetite por ações.

Coração de mãe Ana Luiza Martins, Fabiana Videira e Rodrigo de Castro serão os novos sócios do escritório Campos Mello Advogados, com efetivação em janeiro. O escritório passa a ter 13 sócios e mais de 60 associados em suas unidades no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Jogatina... Mais de 40% da população com mais de 12 anos joga por celular, computador ou videogame. Quase 50% dos que jogam o fazem on-line e apenas 15% compram jogos oficiais.

...na internet A conclusão é da pesquisa F/Radar, realizada pela F/Nazca Saatchi & Saatchi, em parceria com o Datafolha.

Cresce confiança do comércio no Rio de Janeiro

Em crise de segurança, o Rio de Janeiro alcança altos níveis de confiança no comércio, de acordo com a Fecomércio-RJ.
O ICC (Índice de Confiança do Comércio) do Estado do Rio de Janeiro, medido pela entidade, atingiu em outubro 144 pontos, o maior nível já apurado para esse mês, desde o início da série, em 2003.
Ante o mesmo período de 2009, o indicador registrou alta de 1%.
Na comparação com setembro, cresceu 4,2%.
O avanço foi puxado pelo subindicador da "situação presente", que cresceu 4,8%. O subindicador da situação futura, por outro lado, registrou queda de 1,8% na comparação com o mesmo mês do ano passado.
"Os empresários veem avanços em termos de renda real, emprego formal, confiança do consumidor e crédito, mas entendem que a tendência, a partir de agora, é de acomodação dos indicadores", afirma João Carlos Gomes, superintendente de economia e pesquisa da Fecomércio-RJ.
O levantamento foi realizado entre os dias 3 e 11 de novembro, com aproximadamente 2.500 gerentes e empresários de estabelecimentos do comércio de mais de 25 setores.

RUMO A 2018

A Cast, de tecnologia da informação, investirá R$ 60 milhões no próximo ano.
Serão R$ 10 milhões próprios e o restante com agência de fomento e "private equity", segundo o presidente José Calazans da Rocha. O plano é comprar empresas do setor e investir nas fábricas próprias.
"Queremos ser uma das maiores empresas do país e para isso fizemos [em 2008] um planejamento estratégico até 2018."
Nascida em Brasília, a empresa se mudou para São Paulo e cresceu para regiões como Rio de Janeiro, Fortaleza e Recife.
O plano prevê crescimento anual médio de 30% nesses dez anos.
Calazans conta que internet móvel e computação em nuvem (espalhada por vários servidores) foram adicionadas à carteira de serviços em uma das revisões de planejamento.
A empresa faturou R$ 129 milhões neste ano.

Tecido... A Première Vision, que organiza eventos têxteis, investirá R$ 6 milhões na realização da feira em janeiro de 2011. A expectativa é atrair 5.000 visitantes.

...de verão Na Première Brasil, serão apresentadas as tendências de tecidos, fibras e acessórios. Segundo o setor, o Brasil está entre os dez principais mercados têxteis.

MÍRIAM LEITÃO

Risco espanhol 
Miriam Leitão 

O Globo - 02/12/2010 

A Espanha é a porta de entrada para uma contaminação da crise europeia na América Latina. No México, 37% de todos os ativos financeiros estão nas mãos de bancos espanhóis. No Brasil, 10%. Nos próximos dois anos o governo espanhol terá US$ 341 bilhões em dívida para rolar. Isso representa 25% do PIB espanhol. Agora, até as empresas do país estão tendo que pagar mais caro para rolar as dívidas.

A desconfiança com as contas da Espanha tem feito com que o custo para a rolagem da dívida fique mais caro e, desta forma, o governo está entrando numa espiral negativa. Esta semana, esse custo bateu recorde desde a criação da Zona do Euro: chegou a 5,34% para títulos espanhóis de 10 anos, 3,11% a mais que os juros da dívida alemã. Ontem, caiu quando o Banco Central Europeu afirmou que iria continuar financiando a dívida dos países problemáticos. A crise se agrava porque a dívida do setor privado, que chega a 140% do PIB, também começou a ficar mais cara.

O PIB da Espanha representa 12% da Zona do Euro e chega a US$ 1,45 trilhão, pouco menor que o PIB brasileiro. Para se ter uma ideia do que isso significa, o PIB da Irlanda é de US$ 0,2 trilhão. Juntos, Portugal, Irlanda e Grécia somam US$ 0,75 trilhão. Daí, percebese o potencial de estrago de uma crise espanhola. O Fundo de socorro da Zona do Euro, de C 750 bilhões, pode não ter fôlego para socorrer a Espanha.

— A Espanha preocupa e precisa ser acompanhada constantemente com lente de aumento porque é lá que está o grande risco para o mundo. A situação não é fácil — afirmou o economista Alexandre Póvoa, da Modal Asset.

Assim como Estados Unidos, Irlanda e Inglaterra, a crise espanhola tem origem no mercado imobiliário. A maior parte dos empregos criados no país nos anos 2000 teve vínculo com o setor de habitação. Em 2007, enquanto o investimento em construção da Zona do Euro somava 6% do PIB, na Espanha, a taxa chegava a 9%. Isso mostra por que o estouro da bolha em 2008 teve impacto tão grande no mercado de trabalho. O desemprego disparou de 8%, em 2007, para acima de 20%, este ano. É o maior da Zona do Euro e torna a recuperação mais difícil porque tira poder de compra das famílias. Também expõe os bancos a riscos de atrasos ou calotes.

O estouro da bolha e os prejuízos bancários levaram o governo a socorrer o sistema financeiro. As contas públicas se deterioraram rapidamente. Se em 2007 elas registraram superávit de 1,9%; em 2009 marcaram déficit de 11,2% do PIB. A dívida, que era de 36,1% do PIB em 2007, deve chegar a 69,4% em 2012, segundo projeção do governo.

Num mundo globalizado em que tudo se mistura, a Espanha corre riscos também por causa de Portugal. Os bancos espanhóis têm US$ 100 bilhões de títulos da dívida do governo de Portugal, de ativos de empresas portuguesas ou imóveis comerciais no país. E Portugal tem US$ 40 bilhões de dívida para rolar apenas no primeiro quadrimestre de 2011. Isso aumenta os riscos para os espanhóis. Ontem, a S&P colocou sob avaliação negativa o rating de Portugal.

Em relatório, o banco francês BNP Paribas disse que a “Espanha é a chave para a América Latina”. Ou seja, se a crise chegar aos espanhóis, terá também impacto na região, mas o risco maior é do México porque 37% dos ativos bancários do país estão nas mãos de bancos espanhóis. No Brasil, a taxa é bem menor: 10%. Mas, segundo o Paribas, o risco no Brasil é menor porque 50% do mercado de crédito do país estão nas mãos de bancos públicos. É ironia que o mercado aponte o gigantismo do setor público no mercado brasileiro — sempre criticado — como um fator de segurança.

— O risco para o México é muito maior porque o país tem relações muito mais fortes com a economia espanhola do que o Brasil. O nosso problema seria dificuldade para o financiamento do déficit em conta corrente, que está crescente. Podemos ter menos Investimento Estrangeiro Direto e menos fluxo externo como um todo — explicou a economista Monica de Bolle, da Galanto consultoria.

Monica esclarece que os grandes bancos espanhóis privados estão bem e que os problemas estão concentrados nos bancos públicos:

— Os grandes bancos da Espanha estão bem. Entre eles, o Santander, que tem forte presença no Brasil. Inclusive a operação do Santander no Brasil é tão boa que a filial manda dinheiro para a matriz. O problema está nas chamadas cajas de ahorros, que são bancos de províncias. Muitos já quebraram e há um fundo do governo para socorrê-los — afirmou.

José Augusto de Castro, da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), vê impacto na balança comercial porque uma crise na Espanha afetaria toda a Zona do Euro:

— A Europa é grande compradora de commodities e destino de 21% de nossas exportações. Como a receita para a redução do déficit fiscal é corte de gastos, haverá menos crescimento e menos demanda por commodities. Além disso, um agravamento da crise, chegando a uma economia sólida como a espanhola, levará investidores a buscar ativos seguros e fugir do mercado de commodities. Isso terá reflexo nos preços.

O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco escreveu que o temor sobre os países da Zona do Euro não sairá do radar tão cedo. A preocupação também é com o financiamento do nosso déficit em conta corrente.

“Torna-se imperativo encontrar uma nova fonte de financiamento para o crescimento brasileiro”, disse.

A deterioração das contas públicas da Irlanda e da Espanha deve servir de exemplo para o governo brasileiro. É preciso sempre estar preparado para o pior, porque em caso de crise a reputação de um país vai de um extremo ao outro em curto espaço de tempo. A Irlanda demorou 15 anos para colocar as contas em ordem e apenas três anos para bagunçá-las novamente.

GOSTOSA

FABIO GIAMBIAGI

A grande oportunidade
Fabio Giambiagi
O Estado de S. Paulo - 02/12/2010

O cenário básico com o qual cabe trabalhar nos próximos anos é que o País tenderá a caminhar na direção de ter, nas eleições de 2014, um Fla-Flu da política, um "clássico" de resultado difícil de prever e disputado entre dois campeões de voto: o PT - com ou sem Lula -, de um lado; e Aécio Neves, do outro.
Do lado governista, qualquer pesquisa que for feita a dois anos das eleições - quando as candidaturas começam a ganhar corpo - vai dar Lula na liderança das intenções de voto. Se o novo governo tiver um bom desempenho, não se pode descartar a possibilidade de que a futura presidente Dilma Rousseff se apresente como candidata à reeleição, mas neste caso Lula ocupará novamente um lugar de destaque nos palanques, atuando em sintonia com a presidente.
Do lado da oposição, cabe lembrar que em 1999 havia dois ou três candidatos do partido a suceder a FHC. Depois o PSDB foi, desde o começo do governo Lula, presa do dilema entre as alternativas de Alckmin e Serra. E, entre 2007 e 2009, ficou em dúvida entre Serra e Aécio Neves. O resultado foi uma espécie de paralisia, combinada com uma dissipação de energias que, em vez de serem dirigidas a atividades típicas da oposição, se concentraram muitas vezes nas disputas internas. Já olhando para 2014, quando as recentes disputas pós-eleitorais entre paulistas e mineiros tiverem sido esquecidas, assumindo que Alckmin teria todas as credenciais para ser candidato a presidente mas terá chances muito grandes de se reeleger em São Paulo, é razoável imaginar que Aécio Neves tenderá a assumir a primazia da fila e se perfilar como candidato, com chances de atrair os aliados tradicionais do PSDB.
Nesse caso, daqui a quatro anos o Brasil assistiria ao embate entre os dois maiores políticos surgidos no Brasil desde a redemocratização. Fernando Henrique Cardoso foi um verdadeiro estadista, mas ele se elegeu na euforia do Real e se reelegeu com base no medo ao desconhecido, não tendo sido nunca - nem pretendido ser - um político típico. Já Lula - que, sendo ou não candidato, será personagem do embate eleitoral em 2014 - e Aécio combinam o carisma e o ofício da profissão com a característica de saber ganhar adeptos exercitando o carisma e a arte da conversa.
A estratégia do PT será tentar reeditar a campanha vitoriosa de 2010, agregando o mesmo leque de apoios, combinando a adesão dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda, de partidos menores e, obviamente, do PMDB. Aécio, por sua vez, teria a base do eleitorado "tucano" tradicional de São Paulo e tentaria "fechar" Minas Gerais, além de aspirar a contar com a possível simpatia do eleitorado fluminense. Com isso, ele poderá ter uma "plataforma de lançamento" no Sudeste com a qual negociar a ampliação da aliança PSDB/DEM/PPS para incluir alguns dos partidos médios que marcharam divididos nas eleições de 2010 - PTB ou PP - e talvez algum partido de esquerda que não se julgue devidamente contemplado no esquema de poder vigente na época.
Se essa análise estiver correta, o fato de a próxima disputa presidencial se dar - direta ou indiretamente - entre dois líderes com grande capacidade de atração de apoios e que cultivaram um bom diálogo entre si em tempos em que um era presidente e o outro, governador, abre uma oportunidade rara para avançar, nos próximos anos, com algumas reformas que deveriam ser encaradas como políticas de Estado.
A percepção de que algumas medidas interessam ao País em perspectiva, independentemente de quem ocupar o poder na segunda metade da década, cria espaço para que se aprove uma agenda de reformas que não chegou a ser contemplada nos últimos anos. É um erro avaliar que não há espaço para reformas constitucionais. Quem define a agenda e o espaço é o Executivo. É ele que tem a possibilidade de "dar as cartas" para um possível entendimento entre forças partidárias diferentes - sem considerar o fato de que o governo conquistou uma maioria parlamentar folgada. Resta saber se o País irá revelar o amadurecimento político que isso implica.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Não funciona 
Sonia Racy 

O Estado de S.Paulo - 02/12/2010

A ideia de Dilma de abrir o capital dos aeroportos brasileiros, mantendo o controle acionário nas mãos da União, não teve o menor eco na iniciativa privada. Pelo que se apurou, ninguém quer ser sócio minoritário da Infraero.
Terão de arrumar outra saída para viabilizar a urgência em reformar e ampliar a infraestrutura aeroportuária para a Copa de 2014.
Como bem diz Ricardo Teixeira, da CBF, são três os graves problemas para a realização do evento no Brasil: "o primeiro é aeroporto, o segundo, aeroporto, e o terceiro, aeroporto".

Minguando
A decisão da CEF em assumir as rédeas do Banco Panamericano não acalmou os acionistas da Bovespa. A cotação da ação do banco na bolsa, no meio do dia de ontem, era de R$ 4,45. Valor menor que os R$ 5,17 registrados um dia depois da descoberta das fraudes.
Em meados de outubro, o papel valia R$ 9.

Freezer
Corre pelos corredores da prefeitura paulistana a notícia de que Kassab congelou nomeações e exonerações de cargos até dia 15, data da votação para eleger o presidente da Câmara. Com isso, o prefeito evitaria desagradar algum vereador e atrapalhar a eleição de seu predileto, José Police Neto.
A assessoria de imprensa do prefeito nega que isso esteja acontecendo.

Irmãos coragem
Presidente da Câmara Brasil-China, o embaixador Sergio Amaral contabilizou, até agora, 42 empresários chineses confirmados para seminário sobre investimento na Copa e nas Olimpíadas. O encontro será realizado segunda-feira, no Rio.
Não houve desistências por causa da recente guerra contra o tráfico.

Em bons lençóis
Enquanto se estuda a aquisição de um Aerodilma, Lula renova o enxoval das aeronaves presidenciais.
Comprará 16 jogos de lençóis 600 fios, metade em cetim e os demais em seda. Ainda colchas matelassê 400 fios, também de seda. Para as suítes, 12 toalhas de rosto com fios egípcios, 12 de banho 600 fios em cetim, e três tapetes para os pisos.

Quanto dará essa conta? Calcula-se em mais de R$ 8.300.


Arruda nela
Marina Silva, que ficou 15 dias de cama por causa de uma infecção intestinal, levou outro susto. Sua caçula, Mayara, pegou uma catapora brava. Está sendo cuidada desde segunda pelos pais, que voaram para Campinas, onde a jovem cursa jornalismo.

Escudo
Enquanto Sérgio Cabral dobrou o contingente de seguranças para sua família e a de ex-governadores do Rio, Alckmin anda bem tranquilo nesse sentido. Reduziu o grupo pela metade, e agora tem 150 militares para cuidar das autoridades paulistas.
No Rio, eles são 600.

Vida real
Cacá Diegues e Renata Amaral colocaram ponto final na produção do documentário 4X UPPs. Momento mais do que propício porque, afinal, são programas de 30 minutos que explicam como atuam as Unidades de Polícia Pacificadora do Rio. A direção é assinada pelo grupo de 5X Favela.

I love Rio
Manoel Carlos, que costuma instalar os protagonistas de suas novelas no Leblon, está animado com a ação da polícia nas favelas cariocas. "O Rio continua lindo e, para nossa felicidade, agora menos violento. Vivo aqui há 40 anos e vejo, pela primeira vez, um projeto de paz firme e competente", afirmou à coluna.


Na frente
Abre as portas para o público amanhã a boate Container, no Baixo Augusta. A apresentará performances de personagens como Kirsti Soisalo, concierge da casa, e Alexandra Valença, musa da pole dance.

Gabriel Nehemy inaugura a mostra Atelier Aberto em seu espaço na Vila Madalena. Quarta-feira.

Flavio Marujo e Andrea Castrucci abrem a Paralelo Gallery com a mostra Índios Kayapós. Quarta.

Paula Corrêa lança As Calotas Não me Protegem do Sol. Sábado, na Dconcept.
Patricia Broggi autografa Falando de Grana. Hoje, na Livraria da Vila do Itaim.

Sarkis Sergio Kaloustian lança Jardim Japonês. Dia 11, no Instituto Tomie Ohtake.

Gilda Mattar autografa livro que retrata personagens da vida paulistana. Segunda, na Livraria da Vila dos Jardins.

Bob Wolfenson e Boris Kossoy lançam, hoje, seus livros Apreensões e Boris Kossoy: Fotógrafo. No Centro de Cultura Judaica.

E os ingressos para o show de Amy Winehouse, em janeiro, estão no fim. Será que os produtores brasileiros devolverão os bilhetes?

CELULAR

ILIMAR FRANCO

Vale quanto pesa 
Ilimar Franco 

O Globo - 02/12/2010

O PMDB está prestes a perder o comando do Ministério da Saúde no governo Dilma Rousseff. Os petistas estão exultantes com o “barata voa” no principal aliado. A presidente eleita quer o médico Sérgio Côrtes na Saúde, mas desde que tenha o aval do PMDB. A cúpula peemedebista mandou um recado para o futuro governo: prefere agradar ao deputado Anibal Gomes (CE) do que administrar o maior orçamento da Esplanada dos Ministérios.

Os dois PMDBs
Enquanto o PMDB da Câmara vive o caos, o do Senado acerta os ponteiros. Está praticamente definido que o senador Edison Lobão (MA) voltará para o Ministério de Minas e Energia e que Garibaldi Alves (RN) assumirá o Ministério dos Portos, com ou sem aeroportos. Pontos para o presidente do Senado, José Sarney (AP), e os líderes Renan Calheiros (AL) e Romero Jucá (RR). A rebelião da bancada do PMDB na Câmara revela desarticulação e arranha o comando do líder Henrique Alves (RN) e do vice eleito, Michel Temer (SP). Os petistas já questionam o apoio do PMDB a Henrique Alves para a presidência da Câmara.

Em maus lençóis
Não foi só o PMDB. O futuro secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) ficaram enfurecidos com o anúncio feito pelo governador Sérgio Cabral (RJ) de que o ministro da Saúde seria Sérgio Côrtes. Para eles, houve falta de respeito com a presidente eleita, Dilma Rousseff, e um erro político, já que a indicação de Côrtes ainda tinha que ser costurada no PMDB.

Tempos difíceis
Ao encontrar ontem a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), cotadíssima para o Ministério da Pesca, o senador eleito Humberto Costa (PT-PE) disparou: “E aí, vai pescar?”. E ela respondeu: “Por enquanto, não pesquei nem fui pescada”.

Turismo
Os líderes do PTB no Congresso conversaram com o presidente do PT , José Eduardo Dutra, na quinta-feira passada. Querem retomar o Ministério do Turismo. O partido, que deu apoio a Serra, alega que é preciso “virar a página”.

Clima quente
Uma assessora do Instituto Nacional do Câncer (Inca) foi posta para fora da Comissão de Assuntos Sociais do Senado pela polícia legislativa ontem. Estava em debate na Comissão o projeto que torna lei federal a proibição ao fumo em locais fechados. O senador Jayme Campos (DEM-MT) pediu vistas ao projeto, adiando sua votação. A ass e s s o r a d o I n c a a c u s o u Campos de atuar em favor da indústria do tabaco. As normas da Casa não permitem essas manifestações.

O SENADOR Eunício Oliveira (PMDB-CE) não será ministro no próximo governo Dilma. Ele não perdoa seu suplente, Waldemir Catanho (PT), por ter feito campanha para o senador eleito José Pimentel (PT).

O REPRESENTANTE do PMDB na coordenação da campanha presidencial petista, Moreira Franco, é nome forte para comandar uma estatal.

O MINISTRO da Cultura, Juca Ferreira, foi homenageado por artistas e intelectuais ontem durante almoço em um restaurante na Lapa (RJ).

EUGÊNIO BUCCI

O símbolo sexual e a guerra civil
Eugênio Bucci 


O Estado de S.Paulo- 02/12/10
A arte inspira a vida - Não faz um mês, o ator Wagner Moura estrelou a capa da revista Veja, em trajes de capitão Nascimento, seu personagem em Tropa de Elite. A chamada, em letras alaranjadas, falava bem dele: O primeiro super-herói brasileiro.
Falava muitíssimo bem, e com razão. O primeiro Tropa de Elite foi um sucesso histórico. O segundo, agora, caminha para alcançar 10,7 milhões de espectadores e bater o recorde de público do cinema brasileiro - recorde que pertenceu, por décadas, a Dona Flor e seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, lançado em 1976. O capitão Nascimento é tão adorado quanto sádico. No filme de estreia, torturava seus prisioneiros, enfiando-lhes a cabeça em sacos plásticos até fazê-los sangrar pelo nariz. No longa-metragem deste ano, o capitão foi promovido a coronel e, munido da nova patente, espanca políticos corruptos até nocauteá-los, ou quase. Fora isso, Nascimento é um herói que inspira derretimentos femininos: bonitão, voz grave, coração machucado (a mulher trocou-o por um ativista dos direitos humanos), o homem é o símbolo sexual da temporada.
A notícia imita a arte - Não faz uma semana, um policial de verdade ganhou a capa da mesma revista. É um militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope, como do Bope é o Nascimento da ficção. Há um detalhe: o combatente real, na capa, não vem identificado por seu nome próprio. Com o rosto besuntado pela tinha negra da camuflagem, ele é descrito, na legenda, apenas como um "policial do Bope". É um genérico. Traja um colete à prova de balas sobre farda escura. Suas luvas pretas, lustrosas, de couro, talvez sintético, deixam de fora as pontas dos dedos, que seguram uma metralhadora bojuda, cascuda como um besouro, um botijão de projéteis mortais. Outra vez, a manchete na capa é consagradora: O dia em que o Brasil começou a vencer o crime.
A figura cesarista do militar, fotografada de baixo para cima, herda a aura que, poucas edições antes, fez luzir o semblante do fictício Nascimento. Dele herda certos atributos. O policial sem nome não devia estar pensando nisso quando a foto foi clicada, mas, com seu olhar metálico e a fisionomia retesada, ele também está ali como símbolo sexual da temporada. Mas ele é real como um rolo de arame farpado.
A crítica não dá conta de entender - Sem o êxito arrebatador desses filmes hiper-realistas sobre o narcotráfico - de Cidade de Deus a Tropa de Elite -, a nossa sociedade não teria recursos narrativos para relatar, compreender e, em boa medida, estimular a guerra que tomou conta da Cidade Maravilhosa. O imaginário funciona assim mesmo: primeiro produz os signos, que nascem de esforços estéticos, ficcionais ou religiosos, a partir de demandas que brotam das perguntas, dos vazios e das aflições da vida material das sociedades; só depois lança mão desses signos para, num movimento de retorno, descrever e, assim, ordenar a realidade bruta, que desafia os limites da representação.
Primeiro, o cinema nacional inventou o seu grande ídolo fardado (não tínhamos um assim desde O Vigilante Rodoviário da TV), depois, os policiais de verdade tiveram seus dias de glória. Há muito tempo os militares não eram tão festejados como o são agora.
Na Cidade Maravilhosa, a guerra civil desenrola-se como num roteiro de filme de ação, e isso talvez não tenha sido devidamente registrado. Durante esses tiroteios todos, falou-se muito de reality show, mas quase nada se disse sobre a narrativa e sobre o roteiro que dá encadeamento a todas as ações. O roteiro não foi urdido pelos jornalistas, nada disso. Ele floresce do repertório social, de sentimentos, desejos e aspirações disseminadas na linguagem e na imaginação correntes. Não foi a tal da "mídia" que inventou, de repente, de bater palmas para as forças militares - é a sociedade, em seus diversos segmentos, que legitima os aplausos. As pessoas aplaudem as forças de ocupação porque não aguentam mais viver sob a tirania dos bandidos, sem dúvida alguma. Mas elas também aplaudem porque, agora, dispõem da narrativa dentro da qual o homem veste bem o papel do mocinho. Foi assim que Tropa de Elite mudou o lugar da polícia no imaginário carioca - e brasileiro.
A realidade dança ao ritmo dos mitos compartilhados pelos viventes. Vem daí a sensação de que a vida imita a arte. Vem daí, também, a sensação que a gente tem de vez em quando de que o jornalismo fala dos filmes como se os filmes fossem fatos - e dos fatos como se eles fossem cenas de um grande filme.
Uma foto que ganhou enorme visibilidade nestes dias vem ilustrar o mesmo fenômeno. No alto de um morro carioca, policiais circundam duas bandeiras que acabam de ser hasteadas. Uma é do Brasil. A outra, do Rio de Janeiro. O fato fotografado é novo, mas a fotografia é antiga, ou melhor, é a reedição de uma imagem clássica, absolutamente mítica, registrada por Joe Rosenthal, em fevereiro de 1945, em Iwo Jima: soldados americanos erguem a bandeira americana após a tomada da ilha.
Aquele flagrante, depois ficou provado, foi encenado. Mesmo assim, virou símbolo da conquista do Pacífico pelos Aliados. Agora, como os Aliados no Pacífico, a força bruta do Bope invade territórios para ocupá-los ou libertá-los, dependendo do discurso da vez. Uma guerra total, agora bem pertinho de você. As balas do bem hão de dizimar o mal e abrir o terreno para o nosso estandarte.
O Rio de Janeiro vive sua saga mítica, sua epopeia de reabilitação. O Rio, ponta de lança do imaginário nacional, levanta-se contra os bandidos. Aqui, nessa carga simbólica, mora a potência da violência que varre o horizonte incerto de rochas dilatadas, que são, como avisou o sambista, uma concentração de tempo. E de mistérios. O desfecho das sagas reais não costuma ser tão feliz como no cinema.
JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP E DA ESPM 

GOSTOSA

ROBERTO MACEDO

Nobel Argentina 5 x 0 Brasil

Roberto Macedo 


O Estado de S.Paulo - 02/12/10
Ao examinar a outorga do Nobel segundo a cidadania dos premiados, deparei-me com esse placar, que reafirma o atraso do País no plano científico e o não reconhecimento internacional de personalidades brasileiras em outras áreas cobertas pelo prêmio. Em ciências ele é outorgado em Física, Química e Fisiologia ou Medicina, e há também uma láurea para Economia. Além disso, há os prêmios de Literatura e Paz.
Essa contagem pela cidadania envolve dificuldades, pois às vezes se confunde com avaliações que consideram o país de nascimento. Mas, mesmo contando dessa forma, os argentinos ganhariam de goleada.
O que fazer? Em várias áreas o Brasil vem avançando na formação de doutores e de outros pesquisadores. Publicações de seus artigos em revistas científicas no País e no exterior também aumentaram em número. Mas sabe-se também que recursos para o dia a dia das pesquisas continuam escassos e há outras dificuldades, como as burocráticas na importação de insumos indispensáveis ao trabalho em laboratórios.
Como outros, nós, economistas, temos um olhar focado em processos e resultados. Mais que muitos, entretanto, acreditamos que estímulos econômicos favorecem o alcance de resultados, até porque contribuem para acelerar processos. Esses estímulos podem ser em dinheiro ou em outros valores atribuídos a esforços realizados e ao reconhecimento deles.
Nessa linha, pode-se constatar que a premiação em dinheiro para avanços científicos e tecnológicos tem tradição secular e vem se acelerando nos últimos anos. Assim, a edição de 7/8 da revista The Economist destaca que os resultados de prêmios dessa natureza são avaliados como satisfatórios. A reportagem mostra que a sua concessão vem crescendo internacionalmente. O número dos que têm valor de US$ 100 mil ou mais aumentou de cerca de 50 em 1995 para perto de 300 em 2009. A mesma revista menciona estudos que encontraram relações entre as pesquisas premiadas e patentes subsequentes.
A propósito, vale registrar que recentemente o professor José Goldemberg, conhecido cientista brasileiro, recebeu a edição de 2010 do Prêmio Ernesto Illy Trieste de Ciência, no valor de US$ 100 mil, outorgado a eminentes cientistas de países emergentes por significativas contribuições à ciência e a desenvolvimentos nela baseados. Soube da notícia num encontro casual com o próprio premiado, que, aliás, com razão, demonstrava evidente satisfação por ter sido contemplado.
Baseado em considerações como essas e outras resultantes de discussões no âmbito da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o senador Alfredo Cotait (DEM-SP), que recentemente assumiu a cadeira do senador Romeu Tuma (PTB-SP), apresentou no Senado projeto de lei que cria o Prêmio César Lattes, assim proposto: "Ao cidadão brasileiro que, por atividades realizadas individualmente ou em instituições localizadas no Brasil, inclusive empresas, receber o prêmio ou láurea internacionalmente conhecidos como Nobel, o governo federal brasileiro lhe outorgará também o Prêmio César Lattes, de valor em reais equivalente ao recebido em coroas suecas." Com a "guerra cambial" que valorizou essa moeda, hoje o Prêmio Nobel envolve cifra perto de US$ 1,5 milhão.
O mesmo projeto propõe também o Prêmio Santos Dumont, "a ser conferido em cinco categorias, à razão de um em cada caso, a cidadãos brasileiros que trabalhando individualmente ou em instituições localizadas no Brasil, inclusive empresas, criarem inovações capazes de resolver determinados problemas cuja solução seja de interesse nacional e gere benefícios para a população e/ou para as atividades econômicas brasileiras".
Quanto ao mesmo prêmio, o projeto estabelece que "o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) definirá os primeiros cinco problemas para cuja solução será oferecido o prêmio", e que "vigorará o prazo de três anos para que os candidatos apresentem suas propostas de solução e o prêmio seja outorgado. Caso a premiação ocorra ou esse prazo se esgote sem que o prêmio seja conferido, um novo problema com igual prazo será proposto em substituição. As soluções serão avaliadas não apenas pela suas características científicas e tecnológicas, como também pela viabilidade de sua aplicação prática com ênfase na relação entre seus custos e benefícios". O valor do prêmio seria de R$ 1 milhão em cada categoria.
Como exemplo de um problema cuja solução poderia ser estimulada por esse prêmio, a exposição de motivos do projeto menciona uma vacina contra a malária e/ou a criação de novos medicamentos contra essa doença, que minimizem ou eliminem os maus efeitos colaterais dos já existentes. A íntegra do projeto pode ser encontrada em www.se
nado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=98439.
A denominação dos prêmios homenageia o físico César Lattes, considerado o mais importante da história do País e o cientista brasileiro que mais perto esteve da premiação do Nobel, de Física. E Santos Dumont, pela sua engenhosidade como pioneiro da aviação.
Espero que o projeto seja aprovado no Congresso e sancionado pela futura presidente Dilma, que por outros engenhos e artes vai receber o prêmio Lula na solenidade de sua posse.
Evidentemente, não cabe esperar que os prêmios propostos sejam capazes de resolver as grandes carências brasileiras em avanços científicos e tecnológicos. Mas, inegavelmente, poderão contribuir para as pôr em discussão e para agilizar processos e resultados. E, ainda, para estimular pessoas e equipes a se empenharem com maior vigor nesse outro jogo que disputamos com outros povos, o de "bolar" significativos avanços dessa natureza em benefício da humanidade, e ter seu mérito reconhecido sobretudo no seu próprio país.
ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É VICE-PRESIDENTE DA ACSP 

EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO

Um país caro
EDITORIAL
FOLHA DE SÃO PAULO - 02/12/10


Novo governo precisará reduzir custo Brasil para recuperar dinamismo da atividade industrial e ampliar capacidade de crescimento

Já se tornou lugar comum constatar que, a despeito do bom momento da economia, o Brasil enfrenta dificuldades para manter o dinamismo do setor industrial.
O país tem colecionado estatísticas que refletem a deterioração da pauta de comércio exterior. É o único dos grandes emergentes a registrar deficit comercial com os EUA (US$ 7,5 bilhões nos doze meses encerrados em outubro), o mercado mais aberto do mundo. O superavit com a União Europeia, que era de US$ 12,5 bilhões em 2007, caiu para US$ 3 bilhões nos últimos 12 meses.
Apenas as relações com a China apresentam dinâmica diferente -de um deficit de US$ 1,8 bilhão em 2007 passou-se a um saldo de US$ 4,2 bilhões nos últimos 12 meses, resultado explicável pela predominância de commodities, que representam mais de 90% das vendas ao país asiático.
Não se trata apenas de perda de oportunidades externas. Enquanto a indústria produz praticamente o mesmo que em setembro de 2008, o consumo interno já é 17% maior. E a diferença é suprida por produtos importados.
Há benefícios nesse processo, como o incremento da concorrência e a contenção de pressões inflacionárias. Em contrapartida, observa-se o recuo de setores que seriam competitivos se os custos de produção estivessem mais próximos do patamar internacional.
O contraste com a realidade da China é notável. Não se trata de fazer comparações ligeiras -e em geral enganosas- entre modelos econômicos, mas de considerar alguns resultados práticos no que tange ao dinamismo industrial. Enquanto no Brasil parece estar ocorrendo uma incipiente desindustrialização, especialmente nos setores mais sofisticados, na China há um vigoroso processo de incorporação de tecnologia nas cadeias produtivas.
Nesta semana, por exemplo, foi noticiada pela imprensa internacional a intenção da Caterpillar, maior fabricante mundial de máquinas pesadas para a construção civil, de transferir pelo menos 25% de sua rede de fornecedores de peças mais sofisticadas do Japão para a China. A empresa atribui esta intenção não à mão de obra barata, mas à maturação do setor manufatureiro chinês.
O nó da questão é que o Brasil é um país que se torna cada vez mais caro para a atividade produtiva. Em parte esse efeito decorre da valorização cambial, que não se explica apenas pela perda de força do dólar no cenário internacional. Fragilidades da política econômica também respondem pelo problema -caso da ainda elevada taxa de juros. Há também muitas carências na infraestrutura e irracionalidades no sistema tributário, que incidem sobre os custos de produção, tornando as empresas menos competitivas.
Em termos de facilidades de logística e transportes, por exemplo, um recente estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra o Brasil em último lugar na comparação com 14 países.
É preciso que o próximo governo promova um sério esforço de redução do custo Brasil, caso contrário o país só tenderá a perder competitividade e a acumular desequilíbrios -reduzindo suas perspectivas de crescimento.

ALIADOS DE DILMA CABEÇA OCA

ALEXANDRE SCHWARTSMAN

Uma proposta modesta
Alexandre Schwartsman

VALOR ECONÔMICO - 02/12/10

A proposta (a rigor um balão de ensaio, como de praxe) do ministro da Fazenda - definir um novo índice de preços, o IPCA sem alimentos e combustíveis, como meta para a política monetária - tem sido atacada como mais um casuísmo para, pretensamente, ganhar espaço para uma redução artificial da taxa de juros. Trata-se de uma injustiça inominável: a valer a experiência recente, caso tivesse sido adotada, essa nova definição do índice referencial para o regime de metas teria, pelo contrário, impedido a queda mais acentuada da taxa de juros no Brasil. Assim, me parece que o ministro quis, na verdade, se mostrar ainda mais severo no combate à inflação do que o próprio Banco Central.

É bom que se diga que a ideia em si, se não presenciou o Dilúvio, certamente pisou na lama. Desde a adoção do regime de metas no país tem havido uma discussão profunda sobre os prós e contras da definição de um índice para a meta de inflação que fosse menos sujeito às variações acidentais de preços do que o IPCA "cheio". Não por acaso, ainda nos primeiros anos de vigência do regime o Banco Central definiu três medidas distintas do "núcleo" de inflação (o núcleo por exclusão de alimentos e preços administrados, o núcleo por médias aparadas e o núcleo por médias aparadas com suavização de preços administrados), precisamente para obter uma visão do processo inflacionário que refletisse de forma mais clara os desequilíbrios entre demanda e oferta agregadas.

Mais recentemente, às três medidas originais o Banco Central adicionou duas novas definições, aumentando seu arsenal analítico: o IPCA-EX (que exclui do cálculo alguns bens e serviços mais voláteis) e o IPCA-DP (que modifica os pesos do índice, reduzindo aqueles associados a produtos cujos preços apresentem maior volatilidade).

Realçando, pois, a obsessão nacional com a inflação, hoje temos nada menos que cinco medidas de núcleo, além dos oito índices normalmente divulgados (14 vezes) ao longo de um mês, já descontando os menos famosos, assim como algumas medidas locais. Não que nós, economistas que ganham a vida acompanhando minuciosamente cada divulgação, estejamos reclamando, mas eu não descartaria a possibilidade de haver certo exagero na coisa.

De volta, porém, à vaca fria, como teria se comportado um índice de preços que excluísse o preço de alimentos (no domicílio) e combustíveis nos últimos anos? O gráfico mostra o comportamento dessa medida relativamente ao IPCA "cheio" de 2004 para cá, revelando que, à exceção de período de meados de 2007 ao segundo trimestre de 2009, o IPCA sem alimentos e combustíveis acumulado em 12 meses superou o índice "cheio". De fato, esse fenômeno ocorreu em cerca de 70% das observações naquele período.

Mais grave, porém, é que, ao contrário do índice "cheio", que ficou pouco abaixo da meta nos últimos meses de 2009, justificando a política monetária praticada pelo BC, o IPCA ex-alimentos e combustíveis ficou persistentemente acima dela. Vale dizer, a redução da taxa de juros ocorrida em 2009 não teria acontecido caso a meta tivesse sido definida nos termos defendidos hoje pelo ministro. Se restava ainda alguma dúvida acerca de sua severidade inabalável no trato com a inflação, creio que esta proposta seja suficiente para dispersá-la.

Isto dito, é possível argumentar que, além dos preços dos alimentos em casa, deveríamos também deduzir os preços dos alimentos consumidos fora do domicílio, mas isso não alteraria muito as conclusões. Concretamente, ao invés de uma medida de inflação que supera o IPCA "cheio" em quase 70% das observações, teríamos uma medida que faz isso em apenas 63% dos casos.

Ademais, a alimentação fora do domicílio apresenta uma dinâmica muito diferente da alimentação em casa. Não é incomum, por exemplo, observarmos valores muito baixos para a inflação de alimentos no domicílio (0,59% em 2005, -0,13% em 2006, e 0,88% em 2009) acompanhada de observações bastante distintas fora do domicílio (6,90%, 5,92% e 7,75% respectivamente), revelando que a alimentação fora do domicílio apresenta características mais próximas à inflação de serviços, incluindo o hábito condenável de se manter invariavelmente acima da meta.

Nem tudo está perdido, porém. Se o que precisamos é de uma medida de inflação que justifique juro baixo, não faltam candidatas. Minha favorita é parente (distante) do núcleo por médias aparadas. Enquanto este descarta as variações exageradas para cima e para baixo, o núcleo por altas aparadas excluirá tudo o que sobe num determinado mês. No caso bastante provável (se tal medida for adotada) em que todos os preços subam, o núcleo será necessariamente zero.

Com isso garantimos inflação e juros baixos e, de quebra, passagem só de ida para Buenos Aires. Não é bem mais vantajoso que o rigor anti-inflacionário do ministro?

*Alexandre Schwartsman economista-chefe do Grupo Santander Brasil, doutor em Economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC. 

ANCELMO GÓIS

SUBIR A PENHA A PÉ 
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 02/12/10

As DPs no entorno do Complexo da Penha registram forte queda nas queixas criminais.
Segunda e terça, foram só seis registros na 22ª DP, na Penha, contra 38 segunda e terça da semana passada. Já na 21ª DP, em Bonsucesso, a queda foi de 50 para 12.

MAGOOU 
Na sede do Ministério da Fazenda, em Brasília, houve quem não gostasse de o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ter falado, ontem, em longa entrevista, em São Paulo, de câmbio e política monetária, temas que não são bem de sua alçada.
— Essas declarações causam, no mínimo, estranheza — disse um descontente.

A SABATINA 
Terça, Alexandre Tombini será sabatinado pelo Senado.
A ideia é o novo presidente do BC ser aprovado a tempo de tomar posse com Dilma, dia 1.

MENOS, MENOS 
Chegado a exageros verbais, Lula disse que o Brasil “passa humilhação” com o AeroLula, ao defender a compra de um novo avião para Dilma com mais autonomia de voo.
Humilhação mesmo passou o passageiro da TAM que tentou voar segunda e não conseguiu.

GLEE NA GLOBO 
A TV Globo comprou os direitos no Brasil do seriado Glee, que faz enorme sucesso com o público adolescente. Mas não tem previsão ainda para exibição em sua grade. 

ALIÁS... 
Chris Colfer, o ator que faz o homossexual Kurt Hummel no seriado, acabou de ganhar um prêmio de gay do ano nos EUA.

NÃO CUSTA PREVENIR 
Lula vem hoje ao Rio para a cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural, no Theatro Municipal, com segurança reforçada.

FESTIVAL DE GRAMADO 
Os cineastas que emprestaram filmes para serem exibidos no Festival de Gramado, em agosto, ainda não receberam o valor do aluguel.

PISCINÃO DE RAMOS 
Carlos Henrique de Almeida, filho do sambista Dicró, conseguiu ontem uma liminar de soltura na 4 Câmara Cível do Rio. 
Ele estava preso na Polinter desde o dia 22, quando foi autuado por “tentativa de homicídio” após uma briga com seu cunhado, na casa da sogra.

PRESO EM IPANEMA 
O ex-procurador da Fazenda Nacional Glênio Guedes foi preso quinta passada, em sua casa, em Ipanema.
Glênio Guedes é acusado de receber, indiretamente, R$ 1,149 milhão do empresário Marcos Valério na época do chamado “mensalão do PT”.

ÁGUA NO CHOPE 
O prêmio a que o Fluminense terá direito se for campeão, domingo, será todo penhorado pela Justiça do Trabalho.

INGRESSO DIFÍCIL 
Aliás, até parece piada — mas não é.
Os tricolores, como se sabe, ficaram até 36 horas na fila, mas o nome da empresa que vendeu os ingressos para Fluminense x Guarani, domingo, no Engenhão, é... Ingresso Fácil.

O RIO CONTINUA SENDO 
Apesar da guerra no Rio, o Copacabana Palace está lotado...

GOSTOSA

LUIS FERNANDO VERISSIMO

A gafe
VERISSIMO
O GLOBO - 02/12/10

Estranho, muito estranho. Mesmo que não esperassem uma reação tão dura, o que o “tráfico” do Rio tinha a ganhar com os atentados que desencadearam a repressão inédita? Protesto contra a ação das UPPs nos morros ou simples e bravateira demonstração de força – nada disso esconde que o que fizeram foi ruim para eles e pior para os seus negócios. Se o que queriam era justamente levar a afronta a um ponto que forçasse uma reação na mesma medida, o mistério aumenta.
Pra quê?
As teorias conspiratórias têm sempre uma fraqueza: pressupõem uma inteligência ou um poder de dissimulação irreal dos conspiradores. Qualquer conjetura sobre o que está por trás dessa guerra, ou sobre quem aproveita o seu acirramento, acaba sendo uma especulação sobre o improvável, quando não uma fantasia. Mas o fato é que ela desafia muitas lógicas, a começar pela lógica básica do capitalismo que é a primazia do lucro em qualquer circunstância. O crime organizado não parece tão organizado assim, se é responsável por tamanha gafe em termos de relações públicas. Acima dos estragos que está causando na vida de tanta gente, a guerra está abalando o mercado. Lucros cessantes é o maior terror de qualquer empreendimento. Pode-se imaginar que os lucros do “tráfico”, pelo menos por um tempo, cessarão ou diminuirão. A droga sendo apreendida nos morros é principalmente maconha, que segundo alguns nem droga é. Pode-se supor que o comércio de maconha seja a principal atividade desse exército maltrapilho e bem armado, hoje acuado, que vende para a sua própria classe, e que cocaína e etc. circulem em outros esquemas, mais sofisticados e discretos. Mas todo o mercado foi afetado pela gafe.
O Brasil, como se sabe, é uma país de corruptos sem corruptores. Pelo menos até hoje nenhuma grande empreiteira ou coisa parecida teve que responder por atos de corrupção em que participou como compradora de favores. O mercado de drogas é parecido, um estranho, muito estranho, mercado só de fornecedores. Dos consumidores nunca se ouve falar. Mas, presumivelmente, eles também sofrerão com a gafe. Pelo menos por um tempo.

CLÁUDIO HUMBERTO

“O PMDB está pleiteando cinco, mais ou menos o que existe hoje”
MICHEL TEMER, VICE-PRESIDENTE ELEITO, SOBRE O NÚMERO DE MINISTÉRIOS QUE REIVINDICA

DILMA NÃO CONVIDOU CÔRTES, MAS PODE RATIFICÁ-LO 
A presidente Dilma Rousseff se meteu numa saia justa: ela não convidou Sergio Côrtes para o Ministério da Saúde, mas o açodado governador Sergio Cabral anunciou o suposto “convite” após se reunir com ela, criando o fato consumado. Um alto dirigente do PT garante que “a melancia ainda não está arrumada no caminhão”. Dilma não queria Cortês, mas pode ratificar seu nome temendo melindrar Cabral.

CAPITANIA 
Sergio Cabral indicou José Gomes Temporão ministro da Saúde, com o PMDB de “barriga de aluguel”, e não abre mão de apontar o substituto.

SÓ UMA SUGESTÃO
Na conversa com Dilma, Sergio Cabral disse pensar em seu secretário de Saúde, Sérgio Côrtes, para o cargo de ministro da Saúde. Só isso.

SE COLAR, COLOU 
Após a conversa com Dilma, Sergio Cabral logo anunciou que Sérgio Côrtes havia sido convidado. Uma jogada para abortar outras opções.

PERDEU, LIMA 
O embaixador Jorge Taunay deixará Lima para representar o Brasil na Organização de Aviação Civil Internacional, em Montreal, Canadá.

VACCAREZZA É O FAVORITO PARA PRESIDIR A CÂMARA 
O deputado Cândido Vaccarezza é o favorito para, no dia 6, ser indicado pela bancada no PT à presidência da Câmara. Os ex-presidentes João Paulo Cunha e Arlindo Chinaglia têm chances mais modestas. Chato e desagradável, Chinaglia virou piada. Durante reunião de partidários de Vacarrezza, um deputado ironizou: “Estamos pavimentando a via para chegarmos à presidência da Câmara, e Arlindo será o asfalto...”

RIVALIDADE GAÚCHA 
Cândido Vaccarezza enfrentará, na bancada, a rivalidade de Marco Maia (RS), atual vice-presidente, que faz o tipo “simpaticão”.

SIGNIFICADO DE ‘CV’ 
Em comunicações via rádio monitoradas pela polícia, facções rivais agora chamam o Comando Vermelho (CV) de “Corre, vagabundo”.

SARGENTA TAINHA 
A ex-senadora Idelli Salvatti pode ser “salva” pelo ministério da Pesca, mas de peixe e crustáceo a estridente petista só entende é de robalo. 

MINEIROS DE FORA 
Diante da grande presença de gaúchos e paulistas, os mineiros reclamam da pouca representatividade no governo da mineira Dilma. Minas reivindica o controle de alguns órgãos como Furnas e DNIT.

MINISTRO PIMENTEL 
O ex-prefeito de BH Fernando Pimentel (PT) já foi convidado para ser ministro da amiga Dilma Rousseff, mas se mantém na moita. Como Henrique Meirelles já demonstrou, em boca aberta entra mosquito.

FORA DO ALCANCE 
Itamar Franco escolheu o gabinete no Senado. Impôs condição: local sem risco de topar, longe das câmeras, com o ex-presidente Fernando Collor, de quem foi vice e contra quem conspirou.

GILES NA ANTESSALA 
O Gilberto Carvalho de Dilma será mesmo Giles Carriconde, que foi confirmado como chefe de gabinete da presidente. Não é surpresa. Giles acompanha a presidente desde o Rio Grande do Sul.

VIRGÍLIO NA VALEC 
O deputado Virgílio Guimarães (PT-MG), que elegeu o filho Gabriel com 137 mil votos, é cotado para presidir a Valec Engenharia e Ferrovias, estatal de orçamento obeso, superior a R$ 4 bilhões.

POBRE ENVERGONHADO 
“Humilhante”, como diz Lula, não é a falta de autonomia do Air Force 51. Mas de autonomia diplomática para cadeira permanente na ONU. E pensar que o primeiro-ministro da Noruega viaja em avião de carreira...

POLÍCIA OU BANDIDO? 
Terça à noite, no Rio, o Honda preto placa (fria?) APB 2278 voava no Aterro do Flamengo, com porta-malas aberto e sirene azul no teto. O motorista estava só. Na lateral direita, a inscrição “governo Federal”.

SEGREDO DE POLICHINELO 
Ministro falastrão, submarino nuclear inútil, chanceler fã dos Morales e Chávez da vida, um Lula encantado com Carla Bruni: as revelações da WikiLeaks lembram “As memórias do Conselheiro Acácio”. 

PENSANDO BEM... 
...foi-se o tempo em que complexo do alemão era ter perdido a Primeira Guerra Mundial e usar um bigodinho ridículo. 

PODER SEM PUDOR
FESTA PARA POUCOS 
Domingo (28), em São Paulo, o aniversário do ministro Antonio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, foi celebrado em festa fechada no Bar Brahma, com a presença de vários ministros de tribunais superiores e outros magistrados, além de advogados e empresários, como João Carlos Di Gênio e representantes da empreiteira OAS, entre outros. Para ser gentil, o cantor Cauby Peixoto, interrompeu o show para fazer um registro que deixou os presentes constrangidos:
– Bem, fui informado de que esta é uma festa privada de empresários. Sendo assim, ficam aqui meus votos de que façam bons negócios nesta aprazível casa noturna.

CAGADA

QUINTA NOS JORNAIS

O Globo: Polícia caça chefe do Alemão e bando na Floresta da Tijuca

Folha de S. Paulo: EUA derrubam site que vaza documento secreto

O Estado de S. Paulo: Governo reforça fronteiras em apoio à operação no Rio

Correio Braziliense: A armadilha dos importados

Valor Econômico: Investimento direto ganha espaço nos setores básicos

Estado de Minas: Vem aí mais uma taxa para quem tem carro