domingo, junho 06, 2010

MÍRIAM LEITÃO

O legado do tempo
Miriam Leitão
O GLOBO - 06/06/10

O presidente Lula rejeitou o exemplo de Hugo Chávez de perseguir mandatos sucessivos e seguiu o modelo Álvaro Uribe que aceitou a ordem da Suprema Corte de que um terceiro mandato era inconstitucional. Melhor: nem esperou a Justiça.

Mesmo assim, Lula corre risco de perder esse ponto positivo em sua biografia política desrespeitando tão abusivamente as leis eleitorais.

Lula se equivoca quando pensa que a medida do sucesso do seu governo será a capacidade de eleger seu sucessor.

Isso nem sempre prova alguma coisa. Só o tempo decantará o que há de marketing nessa avaliação positiva para traçar o retrato definitivo que ficará do presidente na História. Ter feito o sucessor não está entre requisitos do bom julgamento.

Até Paulo Maluf elegeu seu sucessor. Isso não fez diferença em sua desastrosa biografia política.

Lula será avaliado no futuro pelo que fez ou deixou de fazer. No seu caso, algumas coisas que deixou de fazer serão parte integrante da sua lista de méritos. Seu programa continha promessas capazes de incinerar avanços duramente conquistados nos anos anteriores, como a normalização das relações com a comunidade financeira internacional, a estabilização, a abertura comercial. Como já é História, ele não fez o que prometeu — e que sugeriam vários dos economistas do seu grupo político — e assim acertou.

Mas certamente pesará contra ele o comportamento abusivo de uso da máquina governamental e o descumprimento das leis eleitorais que ele tem praticado nos últimos meses. É um desrespeito à Presidência e ao Judiciário que ele esteja usando o governo, em suas várias instâncias, para afrontar a Justiça Eleitoral e as normas desse período de campanha.

Em pleno comício no ABC, dias atrás, Lula disse que ele tem que dar exemplo, por isso não faria campanha, quando já estava fazendo o que negava fazer.

Prometeu voltar no segundo semestre para fazer campanha na porta de fábrica.

Se ele pudesse se despir da Presidência, poderia fazê-lo. Ou até o mais básico, se ele pagasse os custos das suas viagens políticoeleitorais já seria um pouco melhor, mas quem paga para ele desrespeitar a lei eleitoral são os contribuintes brasileiros.

Até agora o país está vivendo uma situação em que o crime compensa. O TSE dá suas sentenças e elas são ignoradas. No pior dos casos, o TSE postergou tanto a pena para o PT que ela recairá em 2011, quando já não fará mais diferença no atual pleito. O tribunal tem dado sinais de perigosa flexibilização em algumas interpretações.

Se o TSE não for rigoroso, o que estará em jogo é a própria autoridade da Justiça Eleitoral no país.

Além das suas viagens eleitoreiras, o país viveu o abuso de pagar com recursos do contribuinte as viagens da pré-candidata quando ela era ainda ministra, mas já fazia campanha.

Dizer que aqueles palanques que o Brasil viu, e o brasileiro pagou, não eram comícios, é dizer que somos todos bobos.

Casos como os dos dias passados em visitas às obras do São Francisco, em que pouco se fiscalizava e muito se posava e discursava para a campanha, ou o extemporâneo e caro circo do lançamento do PAC-2 são fraturas expostas nas regras do bom comportamento político.

Se a candidata do presidente for eleita, isso não apagará o mal feito. Ficará o país sabendo que Lula inaugurou a temporada do vale tudo no governo federal quando o governante quer eleger o sucessor. Isso avacalha a democracia que o país está construindo.

A conta parcial de alguns desses eventos foi apresentada por requerimento do deputado Raul Jungmann (PPSPE): R$ 3 milhões. Quem paga campanha é partido — para isso tem até dinheiro público distribuído às legendas — mas não pode ser com o orçamento do Palácio do Planalto.

É acintoso.

As declarações da linha do “nunca antes” não vão impor realidades. Quando baixar a poeira do marketing superlativo do atual presidente, o país registrará o bom e o ruim do legado da era Lula. Mesmo agora, adianta pouco falar que desde Geisel nunca se investiu tanto em estradas, se elas estão intransitáveis; que a Saúde está perto da perfeição, se há filas de pacientes para cirurgias; relançar as notas do real para se vincular a um plano ao qual se opôs; ampliar o gasto público para forçar um crescimento econômico exuberante na reta final, se as estatísticas vão mostrar que nos anos de boom mundial o Brasil cresceu menos que a média dos outros países e dos vizinhos. Nada ficará da tese de que 2003 é a data inaugural do Brasil, porque a História registrará o processo de modernização que começou antes e continuará depois de Lula.

Também não servirá para a História sua tese de que foi vítima do mensalão. O escândalo será visto como é: não uma conspiração contra ele, mas o pior caso de corrupção da História do Brasil e ocorrido no coração do governo Lula, com o concurso dos seus mais próximos colaboradores.

Seus méritos serão mais bem dimensionados quando passar a temporada dos autoelogios, aos quais Lula se entrega com ímpeto enquanto deprecia outros governantes. Suas boas políticas serão valorizadas quando não forem peças de palanques. Os avanços desses oito anos serão constatados e calculados não pela capacidade de eleger quem quer que seja, mas pelo balanço lúcido e informado que o tempo permitirá fazer.

Hoje, seu afã de eleger, a qualquer custo, a candidata que escolheu só vai malbaratar sua herança, vai fazer mal à democracia brasileira, vai apequenar a Presidência e desrespeitar o papel institucional da Justiça Eleitoral.

GOSTOSA

ANCELMO GÓIS

Ensaboa, mulata
ANCELMO GÓIS

O GLOBO - 06/06/10

Veja só. O censo de 1872, o primeiro feito no país, registrou que o percentual de escravas ocupadas no serviço doméstico era de 24,3% do total.

Em 2010, passados 138 anos, 23,3% das mulheres pretas e pardas que trabalham estão no serviço doméstico, diz a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE.

Segue...

Os dados são do Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, 2aedição, coordenado por Marcelo Paixão, do Instituto de Economia da UFRJ.

No mais, é como diz o samba “Ensaboa”, de Cartola e Monsueto: “Ensaboa, mulata/ Ensaboa!/ Ensaboa! Tô ensaboando...”

Nova classe média

Este ano o crescimento das vendas na Casa&Vídeo na Zona Norte do Rio e na Baixada é em média 25% superior ao alcançado nas lojas da Zona Sul, de poder aquisitivo maior.

A empresa está contratando 300 funcionários no Rio para fazer frente ao boom de consumo da classe C.

No mais

Há uma semana, ninguém fala da ameaça nuclear do Irã. Mahmoud Ahmadinejad, o homembomba, deveria ser grato ao primeiroministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que conseguiu, com uma estupidez, desviar a atenção da ditadura iraniana.

Ninguém merece.

O DOMINGO É (mais uma vez) de Mariana Ximenes, 29 anos, a linda paulista que ilumina o Rio, desde que se tornou atriz da TV Globo. Agora, aos 29 anos, vive a primeira vilã de sua carreira, a Clara da novela “Passione”. Nos próximos capítulos da trama de Silvio de Abreu, aliás, ela será desmascarada por Diana, personagem de outra loura, Carolina Dieckmann.

Mariana também brilha num cinema perto de você, no elenco do longa “Quincas Berro d’água”, dirigido por Sérgio Machado

Questão de altitude

Quarta, a Fifa faz sua assembleia geral na África do Sul, país da Copa. Um dos temas interessa de perto o Brasil: a adoção de restrições a jogos em condições extremas (altitude, calor etc).

A CBF até hoje não engoliu a conjuração dos países hermanos para manter partidas na altitude de cidades como La Paz, a 3.600m do nível do mar.

Colégio eleitoral

Uma das propostas a serem discutidas na pajelança da Fifa diz respeito à eventual ampliação do colégio eleitoral para escolha de dirigentes das confederações (como o caso da CBF).

Serra vira filme

A vida de José Serra ganhará 12 filmetes dirigidos por Guilherme Coelho, que serão veiculados na internet.

Ferreira Gullar falará sobre o tempo em que o tucano presidiu a UNE (1963/64). O poeta, à época, dirigia o CPC, braço cultural da entidade.

ZONA FRANCA

Amanhã, às 19h, na Travessa do Shopping Leblon, será lançado o livro “Sustentabilidade e geração de valor — a transição para o século XXI”, organizado por David Zylbersztajn e Clarissa Lins com artigos de Israel Klabin, Sérgio Abranches, Celso Lemme, José Luiz Alquéres e Célia Rosemblum.

Rosana Abreu lança sua coleção de inverno de caixas de madeira pintadas (rpachecoabreu@gmail.com).

O ministro Miguel Franco assume a embaixada de Moscou em julho.

Sérgio Volpato abre inscrições para escolinha de futebol no Rio Cricket.

Julio Zucca abre quarta curso sobre produção cultural.

O advogado João Augusto Basilio ministra curso na PUC-Rio.

Carnaval de cinema

“Salgueiro apresenta: o Rio no cinema” é o título do enredo da vermelho e branco da Tijuca, criação do carnavalesco Renato Lage, o melhor da Sapucaí (veja a logomarca, acima).

Cocoricó

Acredite. Quinta passada, às 14h30m, uma senhora passeava pela Rua Uruguaiana, no Centro do Rio, carregando um galo com... coleira. Há testemunhas.

Até figurinha

A febre do álbum da Copa chegou a níveis impressionantes.

Uma carioca postou na agência N. Sra. da Paz dos Correios duas figurinhas que completariam o álbum do filho de uma amiga que mora no Humaitá.

O envelope chegou ao destino vazio, colado com uma fita adesiva que não existia quando foi enviado.

Ilha da fantasia

Outro dia no Chopin, edifício de bacanas em Copacabana, houve uma festa a fantasia. A dona do baile avisou o porteiro: — O senhor vai identificar fácil os convidados. Todos que estiverem fantasiados ou vestidos de forma diferente, mande subir.

Ao que o paraíba (ou seria sergipano?) ponderou: — Se a senhora soubesse o tanto de gente vestida diferente que entra aqui. Nem precisa de festa a fantasia.

Pano rápido.

MARCEU NA COPA

Novas impressões de viagem

ÁFRICA DO SUL GAY I: O casamento entre homossexuais é legalizado na África do Sul desde 2006. Há muitos gays aqui. Mas, como o preconceito permanece imenso, a turma se esconde no armário. As lésbicas, por exemplo, são as maiores vítimas de estupros.

ÁFRICA DO SUL GAY II: Outro dia, no shopping Mandela Square, em Johannesburgo, o repórter Marcos Penido, do GLOBO, foi abordado assim por um nativo insuspeito, figura discreta, careca, já de certa idade: “Baby, não está com frio?” Era um gay fofo, preocupado com a friagem no nosso Penido, que é espada e fumava na área descoberta, sob menos de 10 graus.

TOP, TOP, TOP: Sabe aquele gesto de “top, top, top”, em que uma mão aberta bate na outra fechada, comum no Brasil, que significa “se f...”? Aqui todo mundo faz. Até Mandela e o bispo Desmond Tutu. Mas, para eles, é coisa inocente. Só quer dizer que um lugar está cheio.

PAÍS DO BUNDO: “Bunda”, em zulu, dialeto mais usado pelos sul-africanos (até os brancos falam), é... “bundo”, no masculino.

Aliás, como os brasileiros, os nativos apreciam demais esta parte do corpo feminino, bem farta nas mulheres daqui também (veja mais sobre o “bundo” das africanas no Caderno de Esportes de hoje).

LOURA AFRICANA: O vinho da África do Sul é ótimo. Mas a cerveja também. Segundo pesquisa de campo feita com brasileiros pelo DataGois/MarceuNaCopa, a Castle, marca mais popular do país, é bem melhor do que qualquer uma das nossas louras nacionais mais vendidas.

RESQUÍCIOS DO APARTHEID: Por lei, desde o fim do apartheid, em 1994, todas as escolas têm de aceitar crianças negras e brancas. Mas não há brancos nas escolas públicas. E, nos colégios privados, apesar de a criançada preta e branca sentar lado a lado, na hora do recreio, normalmente, brincam e lancham separadas.

CHAP CHAP: Você pergunta a um sul-africano se está tudo bem, e ele responde: “Chap chap”. Dá bom dia, e ouve: “Chap chap”. Quer saber se a vida anda boa, e ele: “Chap chap”. Dá tchau, e... “Chap chap”. É gíria local, similar ao nosso “beleza”.

NO MAIS... Chap chap.

COM ANA CLÁUDIA GUIMARÃES, MARCEU VIEIRA, AYDANO ANDRÉ MOTTA, BERNARDO DE LA PEÑA E VIVIAN OSWALD

IVAN ÂNGELO




Dia dos desnamorados



REVISTA VEJA - SP




IVAN ÂNGELO




Se namorar é a desconstrução do outro, no sentido de desmontar defesas pouco a pouco, descobrir e desativar resistências, abalar certezas e hábitos, desconectar antigas cumplicidades, minar a independência, desnamorar é uma construção. De um muro, ou de uma torre.A palavra não existe, mas existem as pessoas que se encaixam nela. Desnamorar é fazer os movimentos contrários aos que fazemos para namorar. É um processo, um desenrolar- se, um movimento para acrescentar a cada dia uma pedra na construção de uma barreira — sim, o desnamoro é uma construção.
Muro é boa imagem, porque separa, põe limites, marca território. Torre talvez seja ainda melhor, mais completa, porque isola e coloca no alto, torna mais difícil alcançar quem desnamora.
Para desnamorar, é fundamental a colaboração entre os parceiros, ainda que de um lado a ajuda possa ser involuntária ou passiva. É preciso desleixo, descuido, falta, decepção. Entre os movimentos contrários aos que os parceiros fizeram para namorar, os mais importantes são os contrários à sedução. Nem precisa ter pressa, é ir parando aos poucos de seduzir.
Muitas vezes o casal não sabe que está desnamorando, é mais certo dizer que um deles não sabe, mas pode acontecer de os dois não saberem.
Um namoro é sustentado por pequenas ações charmosas; ao contrário, gestos pequenos de indiferença arquitetam o desnamoro. Beijinhos, presentinhos, bombons de cereja, mensagens no celular, declarações, essas coisas do namoro vão sumindo aos poucos.
Nada daquelas atenções mínimas que pareciam loucuras, como sair do carro no meio do trânsito só para dar mais um beijinho, telefonar de madrugada porque bateu uma saudade, levar um osso no aniversário da cachorrinha, nada disso, e muito menos as grandes maluquices de apaixonado, como jogar pétalas de rosas vermelhas de um helicóptero em cima dela, da casa dela, do quarteirão...
É preciso não ter explicações para certas ausências, ou então explicar pela metade, ou mesmo inventar desculpas esfarrapadas só para levantar suspeitas e piorar o clima.
Não reparar no novo corte de cabelo, nas unhas pintadas, na virilha depilada, nos quilos a menos conseguidos com tanto esforço e renúncia, na redução da barriga de cerveja, no tempo dedicado ao futebol, na palavra amor jogada no meio da conversa banal.
É dizer “não tenho” quando falta um dinheiro. Numa balada ou no barzinho, ficar olhando em volta, em vez de ter os olhos grudados como em outros tempos. É o aflorar da rispidez no lugar da gentileza, o não ouvir ou fazer que não ouviu, o bater de portas, o pisar duro, o conversar de perfil, o jantar só, o silêncio no carro, o não deixar bilhetinho, o não procurar, o dormir antes da chegada do outro.
Não ter tempo para ver aquele filme de que todos estão falando. Isolar-se no almoço de domingo na casa da mãe ou da sogra. Não perguntar “quem está ganhando?” ao passar pela sala na hora do futebol, não que interesse, mas como uma forma de dizer “olá, você”.
Os que têm filhos ou netos vão se acostumando aos poucos com o desnamoro, porque, ah, tanta coisa para fazer, encontram tantas compensações afetivas com os filhos — e contentam-se, deixam-se levar para esse lado, mesmo quando sabem que é amor de outra qualidade.
Uma coisa que não tem importância para os desnamorados é não ganhar presente no Dia dos Namorados.

JOSÉ (MACACO) SIMÃO

Dunga Tour! Aceitamos reservas!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 06/06/10


E o Serra é tão feio que, quando ele nasceu, a parteira olhou e gritou: "Volta que não tá pronto!"



BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Cópula do Mundo: os argentinos podem fazer sexo na concentração, só não podem levar mulheres. Rarará!
E o Dunga emBURRADO não quer sexo na concentração. Aí os jogadores se concentram mais nas mãos que nos pés. É o perigo: vão acabar usando mais as mãos que os pés! Handebol. Viciados em handebol!
E o Maradona? Se a Argentina ganhar, ele prometeu ficar pelado. Pelado, não. Em espanhol se diz "en bolas". Yo me pongo em bolas. Se o Dunga deixou um pato e um ganso pra fora, por que eu não posso deixar um pinto? E, se o Brasil ganhar, o Dunga prometeu dar um sorriso. Socorro! Prefiro o Maradona pelado que o Dunga sorrindo!
E sabe por que o Galvão não narrou o amistoso com o Zimbábue? A ONU impediu. Diz que o povo do Zimbábue já sofre demais.
E outra polêmica: A BOLA! O que atrapalha a seleção brasileira é a bola. A tal da Jabulani! "Felipe Melo reclama da bola." Errado. Essa seria a manchete certa: "Bola reclama de Felipe Melo"! Reclamam que a Jabulani é leve. Então troca por bola de boliche. Uma bola de bocha. Adidas lança bola de boliche!
E um amigo me disse que ele tem uma bola em casa: a Jabiraca, a bola sogra: só serve pra dar unha inflamada e calo no dedinho do pé. BOLA JABIRACA! E sabe o que está escrito no busão da seleção? Dunga Tour! Aceitamos reservas!
Seleção dos Leitores. Continuam chegando sugestões melhores que a seleção do Dunga. Ou seja, qualquer uma. Fala pra levar o time de Vianas de São Bernardo: Icterícia, Frango do Carrefour e Barrichello. Bin Laden, Datena, Bundinha. Arrombado e Gogogoy. O apelido Frango do Carrefour é porque ele solta gases em campo e põe a culpa no frango do Carrefour. Rarará!
Ou então o do Itororó: Nelson Cara Inchada, Urubu Pé de Goma, Cara de Kombi, Filé de Borboleta e Bebê Monstro. Moisés Tarado, Cidinha Cu de Fora e Tóin Tóin. Xão Puerão e Geladeira de Pobre. O apelido Geladeira de Pobre é porque a caxumba desceu pro saco e ele ficou com o ovo enorme. Por isso! Geladeira de pobre só tem ovo! Rarará!
E o Serra é tão feio que, quando nasceu, a parteira olhou e gritou: "Volta que não tá pronto!". Aí botaram ele numa incubadeira com vidro fumê! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Política externa responsável
Fernando Henrique Cardoso 
O Estado de S.Paulo - 06/06/10

A despeito das bazófias presidenciais, que, vez por outra, voltam ao bordão de que "hoje não nos agachamos mais" perante o mundo, se há setor no qual o Brasil ganhou credibilidade e, portanto, o respeito internacional foi no das relações exteriores. Elas sempre foram orientadas por valores e estiveram intransigentemente fincadas no terreno do interesse nacional. A demagogia presidencial não passa de surto de ego deslumbrado, que desrespeita os fatos e mesmo a dignidade do País.

Com exceção dos flertes com o totalitarismo europeu durante o Estado Novo, sempre nos orientamos pela defesa dos valores democráticos, pela busca da paz entre as nações, por sua igualdade jurídica e pela defesa de nossos interesses econômicos. Com toda a dificuldade do período da guerra fria - quando os governos militares se opuseram ao mundo soviético e a seus aliados -, não nos distanciamos do que então se chamava de Terceiro Mundo. Se não nos juntamos propriamente ao grupo dos "não-alinhados", dele sempre estivemos próximos. Terminada a guerra fria, restabelecemos relações com os países do campo socialista, Cuba e China à frente, voltamos a estar mais ativamente presentes na África, apoiamos o Conselho de Segurança da ONU nos conflitos entre Israel e a Palestina, sustentamos a posição favorável à criação de "dois Estados" e o respeito às fronteiras de 1967 e nunca nos solidarizamos com o grito de "delenda Israel" nem com as afrontas de negação do Holocausto.

Seguindo esta mesma linha, assinamos o Tratado de Não-Proliferação de armas atômicas (TNP), com ressalvas quanto à manutenção dos arsenais pelos "grandes", fomos críticos das invasões unilaterais no Iraque e só aceitamos a intervenção no Afeganistão graças à supervisão das ações bélicas pela ONU. A reação ao unilateralismo foi tanta que em discurso na Assembleia Nacional da França cheguei a aludir à similitude entre o unilateralismo e o terrorismo, provocando certo mal-estar em Washington. Procedemos de igual modo na defesa de nossos interesses como país em desenvolvimento. No dia em que se publicarem as cartas que dirigi aos chefes de Estado do G-7 se verá que predicávamos desde então maior regulação financeira no plano global e maior controle do FMI e do Banco Mundial pelos países emergentes. Reivindicamos nossos direitos comerciais na OMC, a começar pelo caso do algodão, e, no caso das patentes farmacêuticas, defendemos vitoriosamente em Doha o ponto de vista de que a vida conta mais que o lucro. Todas estas políticas tiveram desdobramentos positivos no atual governo.

Temos, portanto, credenciais de sobra para exercer uma ação mais efetiva na condução dos negócios do mundo. A hegemonia norte-americana vem diminuindo pelo fortalecimento econômico dos Brics (metáfora que abrange não só os quatro países, mas vários novos atores econômicos), especialmente da China, pela presença da União Europeia e também vem sendo minada pelas rebeliões do mundo árabe e muçulmano, como o próprio governo Obama reconhece. É natural, portanto, que o Brasil insista em sentar-se à mesa dos tomadores de decisões globais. Sendo assim, por que a celeuma causada pela tentativa de acordo entre Irã e a comunidade internacional empreendida pelo governo brasileiro? Há duas ordens distintas de questões para explicar o porquê de tanto barulho. A primeira é a falta de clareza entre a ação empreendida e os valores fundamentais que orientam nossa política externa. A segunda é a forma um tanto retórica e pretensiosa que ela vem assumindo.

Quanto ao primeiro ponto, como compatibilizar o repúdio às armas nucleares com a autonomia decisória dos povos? Esta abrange inclusive o direito ao conhecimento de novas tecnologias, mesmo as "duais", que tanto podem ser usadas para a paz como para a guerra. Em nosso caso, conseguimos, por exemplo, dominar a técnica de foguetes propulsores de satélites (e quem lança satélite pode lançar mísseis). Ninguém desconfia, entretanto, de que a utilizaremos para a guerra, até porque obedecemos às regras do acordo internacional que regula a matéria. Do mesmo modo, dominamos o ciclo completo de enriquecimento do urânio. Mas não cabem dúvidas de que não estamos fazendo a bomba atômica, não só porque nossa Constituição proíbe, mas porque inexistem ameaças externas e porque submetemos o enriquecimento do urânio (guardado o sigilo da tecnologia usada) ao duplo controle de um tratado de fiscalização recíproca com a Argentina e da Agência Internacional de Energia Atômica.

É precisamente isto que falta no caso do Irã: a confiabilidade internacional nos propósitos pacíficos do domínio da tecnologia. E é isso que o governo americano alega para recusar a intermediação obtida, ao reafirmar que a quantidade de urânio já disponível, mesmo descontada a quantidade a ser remetida para enriquecimento no exterior, permitiria a fabricação da bomba. O xis da questão, portanto, seria a obtenção pelo Brasil e pela Turquia de garantias mais efetivas de que tal não acontecerá. Deixando de lado as alegações recíprocas sobre se houve o estímulo americano à ação intermediadora (que para quem quer ter uma posição independente na política externa é de somenos), uma ação eficaz para evitar o confronto e as sanções - posição coerente com nossa tradição negociadora - deveria buscar desfazer a sensação da maioria da comunidade internacional de que o governo iraniano está ganhando tempo para seguir em seus propósitos nucleares.

Neste ponto a retórica dos atores brasileiros parece ter falhado. O levantar de mãos de Ahmadinejad e Lula, à moda futebolística, e as declarações presunçosas do presidente brasileiro, passando a impressão de que havíamos dado um drible nas "grandes potências", digno de Copa do Mundo, reforçaram a sensação de que estaríamos (no que não creio) nos bandeando para o "outro lado". E em política internacional, mais do que em geral, cosi è (se vi pare).

DORA KRAMER

O discurso e o método
DORA KRAMER
O ESTADO DE SÃO PAULO - 06/06/10

Tem alguma coisa fora do lugar nessa história de dossiês e espionagens envolvendo as candidaturas presidenciais do governo e da oposição. O que se diz hoje não bate com o que se falou ontem, os atos não correspondem aos discursos e o caso virou um emaranhado de insinuações e acréscimos de versões desordenadas.

Começou, no relato da revista Veja na semana passada, como a reação de um grupo do comando da campanha de Dilma Rousseff à descoberta de um esquema paralelo de produção de dossiês contra adversários (internos e externos).
Foi afastado o profissional (Luiz Lanzetta) apontado como executor das contratações dos serviços e providenciou-se uma reorganização de comando interno em conformidade com o que tinha a aparência de uma nova - e saudável - filosofia vigente.
O assunto parecia encerrado.
A oposição, porém, não entendeu assim. Considerou que a existência do grupo e o fato de circularem entre integrantes da campanha papéis com informações financeiras sobre antigos colaboradores e da filha do candidato do PSDB, José Serra, já caracterizavam má-fé.
Além disso, havia o histórico: a tentativa de compra de um dossiê contra ele mesmo na campanha ao governo de São Paulo, em 2006, por um grupo de petistas flagrados pela Polícia Federal com o dinheiro da transação em um hotel perto do Aeroporto de Congonhas, foi um caso. 
O outro, o dossiê sobre os gastos da Presidência da República à época do governo Fernando Henrique, preparado na Casa Civil para ser usado como arma de intimidação aos oposicionistas na CPI dos Cartões Corporativos. Depois de muitas negativas, um subordinado a Erenice Guerra, braço direito de Dilma na Casa Civil, assumiu a autoria e foi afastado.
Com base nesse conjunto, José Serra responsabilizou Dilma Rousseff pela circulação de dossiês no comitê de campanha
Isso na terça-feira. Na quarta, Dilma cancelou entrevista coletiva numa visita a Goiânia para não precisar falar no assunto, José Dirceu foi chamado a Brasília para administrar a “crise” no partido.
No fim daquele mesmo dia Dilma falou com a imprensa para dizer que a acusação de Serra é uma “falsidade” e, no dia seguinte, o presidente do PT anuncia a decisão de interpelar o tucano na Justiça para que ele prove “quem fez, como fez o dossiê, com qual objetivo e dinheiro”.
Pois, se a história do dossiê é uma “falsidade”, o PT age como se fosse de enorme gravidade. Afastou um contratado, mandou que se suspendesse um tipo de atividade, convocou um antigo presidente para administrar crise interna, sentiu necessidade de preservar a candidata durante um dia inteiro para que não abordasse o tema e anunciou ação na Justiça sabendo de sua inutilidade.
Evidente, pois se o terreno do dossiê é o da clandestinidade ninguém consegue provar nada. A Polícia Federal até hoje não mostrou de onde veio o dinheiro dos aloprados. Isso a despeito de ter posto as mãos nas notas e nos personagens.
Essa ação na Justiça é um gesto vazio e não ajuda a esclarecer coisa alguma. 
Tampouco as insinuações sobre “a verdadeira origem do dossiê”. Qual? Ninguém assume. No máximo há uma pista em frase do presidente do PT, José Eduardo Dutra, apontando “disputas internas da oposição” ao reclamar que atribuam ao partido dele a confecção de dossiês.
Antes de se perder o fio da meada, foi o PT que havia descoberto um esquema clandestino na própria campanha, mandado suspender os trabalhos, afastado o contratado para executar o serviço e administrado uma crise interna de poder.
De uma hora para outra o caso derivou para as “disputas internas da oposição” sem que se diga exatamente do que se trata, embora a insinuação aponte obviamente na direção de Minas e São Paulo. 
Se o PT tem informação relevante de interesse público a respeito, diga do que se trata. Se não tem, faz feio entregando-se à perfídia.
O dossiê é um dos mais velhos e também dos mais repulsivos personagens da política. Contra ele a luta é sempre desigual, porque vive no subterrâneo, se alimenta de lama e só briga no escuro.
Se forem em frente nesse campo, PT e PSDB têm tudo a perder.
Dora Kramer é colunista política diária dos jornais O Estado de S. Paulo e O Dia do Rio de Janeiro e das rádios Band News FM e JB FM. Também é escritora, tendo publicado o livro “O Resumo da História”.  Ela escreve na Folha de Pernambuco de terça-feira a domingo.

GOSTOSAS