quinta-feira, junho 03, 2010

PAINEL DA FOLHA

No shopping
RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/10

Arquivada a hipótese Aécio Neves, a busca por um vice para José Serra, objeto de reunião ontem entre o ex-governador mineiro, FHC e os senadores Tasso Jereissati e Sérgio Guerra, caminha por duas vertentes principais: a escolha de um tucano, solução na qual o nome de Guerra desponta como o mais provável, ou a saída Francisco Dornelles (PP). Esta se tornou mais distante depois da atuação do senador para desidratar o projeto da "ficha limpa" e com a subida de Dilma Rousseff (PT) nas pesquisas, que deixou os pepistas mais refratários à ideia de se desgarrar da candidatura do governo. Mas a proposta não está descartada.


Na real 1 Há ainda a possibilidade de dar a Serra um vice do DEM, mas esta, sem prejuízo dos vários nomes colocados à mesa, é a mais improvável das três.

Na real 2 O DEM tentará marcar posição no debate sobre o vice, mas a verdade é que as diversas alas do partido acham melhor ver um tucano do que um adversário interno nesse posto.

Não é... O Ibope sobre a sucessão em Minas encomendado pelo PMDB desautoriza a tese, difundida por Hélio Costa, segundo a qual seu insucesso eleitoral anterior não se repetirá, pois Lula transfere mais votos do que Aécio Neves no Estado.

...bem assim Segundo a pesquisa, 46% dos eleitores mineiros "com certeza votariam" no candidato a governador apoiado pelo tucano, e 31% "poderiam votar". No caso de uma indicação feita pelo presidente, 40% "com certeza votariam", enquanto 35% "poderiam votar".

Muro O presidente do PMDB, Michel Temer, ouviu ontem do deputado Ibsen Pinheiro e de outros peemedebistas gaúchos que, não obstante o flerte com Serra, o partido ficará oficialmente neutro no Estado.

Estica Num encontro em Brasília, PT, PDT e PMDB acertaram que suas convenções no Paraná serão empurradas para o último final de semana do mês. O senador pedetista Osmar Dias, que negocia também com os tucanos, espera ser o candidato ao governo num consórcio dos três partidos. Eles fazem cálculos sobre a viabilidade de aliança também na eleição proporcional.

Em círculos 1 Em reunião com Serra na madrugada de ontem, o governador Leonel Pavan (PSDB) aceitou desistir da eleição se Raimundo Colombo (DEM) ou Eduardo Pinho (PMDB) toparem recuar em benefício de palanque um único para o tucano em Santa Catarina. Ocorre que o ex-senador Jorge Bornhausen só dará ok se o escolhido for Colombo.

Em círculos 1 No encontro, Serra ainda elogiou Ângela Amin (PP), cujo apoio é cobiçado também por Dilma.

Day after O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, fez na terça-feira uma rara visita ao TCU, órgão que apontou indícios de irregularidades várias em obras da estatal, depois liberadas por uma canetada do presidente Lula. Gabrielli entregou documentos relativos às obras questionadas e propôs que o tribunal e a Petrobras estabeleçam uma cooperação técnica para o acompanhamento de pendências futuras.

QI 1 Com menos de quatro anos de Itamaraty, Bertha de Melo Gadelha será despachada para a embaixada do Brasil em Paris, endereço raramente ao alcance de diplomatas em início de carreira. Ela é filha do deputado Marcondes Gadelha (PSC-PB), membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

QI 2 Assinada pelo chanceler Celso Amorim no dia 7 de maio, a transferência de Bertha se deu fora do plano semestral de remoções do Itamaraty. Também diplomata, o noivo da jovem, Rodrigo Moraes Abreu, foi designado para servir na mesma cidade, na delegação do Brasil junto à Unesco. Os dois se casarão neste sábado.
com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER

tiroteio

A frase do Virgílio Guimarães pode perfeitamente ser lida ao contrário. Afinal, foi ele quem levou Marcos Valério ao PT.
DO DEPUTADO JOSÉ CARLOS ALELUIA (DEM-BA) sobre declaração do petista mineiro, segundo quem o dono da Dialog, Benedito Oliveira, que circula no QG da campanha de Dilma, não deve ser comparado ao pagador do mensalão.

contraponto

Passagem de som

Ao receber Orlando Pessutti (PMDB), Lula se interessou pelos dotes musicais do governador do Paraná, que cantou até na própria posse.
O presidente contou que costumava entoar "Massa Falida" em portas de fábrica, e o convidado falou de sua afeição por "Tocando em Frente", de Almir Sater. Assim começou o dueto:
-Ando devagar porque já tive pressa, levo esse sorriso porque já chorei demais...

ROBERTO MACEDO

193 milhões em ação...
Roberto Macedo 
O Estado de S.Paulo - 03/06/10

O portal do IBGE na internet (www.ibge.gov.br) tem na primeira página um relógio diferente e importante, ainda que de nome lamentável, o Popclock. Além de ofender a língua pátria, é particularmente descabido numa instituição oficial brasileira ? e tem um quê de macaquice. Esse nome é encontrado várias vezes onde é adequado, o portal da instituição equivalente nos EUA (www.census.gov).

Trata-se de relógio demográfico que em curtos intervalos estima a população brasileira. Anteontem, consultei-o e indicava 193.007.386 habitantes. Ontem, no mesmo horário, já havia alcançado 193.012.250, ou seja, quase 5 mil a mais em 24 horas.

Esse número e a proximidade da Copa do Mundo me fizeram lembrar de música muito cantada na Copa de 1970, tendo como primeira frase o brado "90 milhões em ação..." Assim, nestes 40 anos que separam essas duas Copas, mais 100 milhões entraram nesse time, sem contar os substitutos dos que deixaram o jogo da vida.

Um país tem na sua demografia um de seus traços mais marcantes. Entre outros aspectos, ela revela o número de bocas a alimentar e duas taxas que definem o crescimento e a estrutura etária da população. A taxa de fertilidade feminina indica o número médio de filhos que as mulheres têm na sua idade reprodutiva; a taxa de mortalidade é a porcentagem dos que se vão. Os movimentos migratórios internacionais também influenciam o tamanho da população, mas no Brasil são muito pequenos relativamente a ele.

Até aqui a queda da taxa de fertilidade foi o elemento mais importante, pois veio mais rápida que a queda da taxa de mortalidade. No final dos anos 1960 essa taxa era de seis filhos; hoje é de cerca de dois, e continua caindo, mas a um ritmo menor. É muito afetada pela urbanização e por mudanças na atitude das famílias com relação ao número de filhos, o qual caiu rapidamente. A queda da mortalidade demora mais, pois depende de fatores de atuação mais lenta, como as condições de renda, alimentação, saúde, saneamento básico e os avanços da medicina.

Olhando à frente, contudo, a fertilidade já não cairá tanto e o fenômeno mais atuante será a redução da mortalidade, com maior número de idosos. Além de já jogar nesse time, há tempos percebo claramente os movimentos das duas taxas em São Paulo, no Bairro de Higienópolis. Andando pelas suas ruas, a sensação é de que há mais cães do que crianças e mais "pet shops" do que lojas de artigos infantis. O principal shopping tem até loja que atende a necessidades específicas de idosos.

Deve-se comemorar o fato de que os brasileiros estão vivendo mais, mas vale lembrar que isso traz custos inexoráveis, configurando problemas para os quais o Brasil ainda não acordou. Nessa linha, um bem argumentado livro recém-lançado, de Fabio Giambiagi (BNDES) e Paulo Tafner (Ipea), faz esse alerta no seu próprio título, Demografia: a Ameaça Invisível (São Paulo, Campus-Elsevier, 2010), com um subtítulo que estende o alerta à Previdência Social: O dilema previdenciário que o Brasil se recusa a encarar.

Muitos números desse livro de 198 páginas sustentam suas mensagens. Em 2010, estima-se que na população haja 50 milhões de jovens (com idade de 0 a 14 anos) e 20 milhões com 60 anos ou mais. Daqui a apenas 20 anos, esse número de jovens cairá para 37 milhões e será superado pelo número de idosos, que chegará a 40 milhões. Enquanto isso, o grupo intermediário ? e que arca com grande parte do sustento dos jovens e idosos ? aumentará de 125 milhões para 139 milhões. Olhando para 2050 ? e não está tão longe assim, pois é a mesma distância que nos separa da Copa de 1970 ?, a população terá 28 milhões de jovens, 64 milhões de idosos e 129 milhões na faixa intermediária.

Nesse mesmo ano os nonagenários serão mais de 5 milhões e os centenários alcançarão meio milhão. E mais: em 1980 havia nove trabalhadores ativos para cada inativo acima de 60 anos; em 2050 haverá apenas dois.

Contas como essas estão a dizer claramente que haverá muito mais benefícios a serem pagos, pouca gente para custeá-los e os benefícios serão mais duradouros, pois as pessoas viverão mais.

Ao lado desse alerta previdenciário, há no livro propostas das quais nossos políticos querem enorme distância, como as de conter a elevação do salário mínimo e fazer as aposentadorias ocorrerem em idades mais avançadas do que as hoje observadas. A recente votação no Congresso que aprovou para aposentados do INSS um reajuste maior que o proposto pelo governo e derrubou o chamado fator previdenciário, que procura adiar as aposentadorias por tempo de serviço, demonstra que a classe política brasileira responde a alertas como esses agravando os problemas para os quais os autores estão chamando a atenção.

Voltemos à Copa, que por várias vezes consagrou alguns heróis deste país. Mas o que é um herói? É uma pessoa responsável e que, num determinado momento, fez algo difícil e que precisava ser feito. Como os gols decisivos de Copas, mas também reformas institucionais indispensáveis ao País, como essa da Previdência Social. Mas para o que é preciso fazer nessa área ainda não surgiram heróis. Ao contrário, o que temos são vilões, que continuam a fazer o que não deve ser feito.

Na mitologia grega, há heróis capazes de realizar até o impossível. Hoje, por falta de heróis de carne e osso, o País está arrasado por causa de suas finanças públicas. Nelas se destacam benesses previdenciárias que não tinha condições de sustentar, em alguns casos superiores às concedidas por seus irmãos mais ricos da grande família europeia, os alemães.

Diante do livro de Giambiagi e Tafner, há a pergunta que não cala: onde estão nossos heróis previdenciários, capazes de retirar o País de um caminho que pode ser o de uma ruína grega?

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

GOSTOSA

CLÓVIS ROSSI

Tão pobres e tão contentes
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/10

SÃO PAULO - Era uma vez a inauguração do pavilhão brasileiro na feira de Hannover (Alemanha), presente o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Para animar a festa, foi arrebanhado um grupo de frevo, naturalmente pernambucano. Enquanto esperavam a vez de atuar, tiritavam de frio nos bastidores, vestidos com as roupas relativamente sumárias exigidas para o espetáculo.
Quando entraram em ação, mostraram a alegria de praxe. Pensei comigo, sinceramente condoído: tão pobrezinhos, mas tão alegres.
Não consegui impedir que a memória voltasse a essa cena ao ler anteontem a reportagem em que Larissa Guimarães relata que, mesmo com os benefícios do Bolsa Família, a renda das famílias no Norte e no Nordeste não consegue ultrapassar a linha de pobreza.
Linha, aliás, estabelecida em R$ 70, o que torna mais justo chamá-la de linha da miséria.
Não obstante tal nudez de rendimento, as famílias do Norte e do Nordeste estão tão alegrinhas que transformaram Luiz Inácio Lula da Silva, cuja imagem está colada ao Bolsa Família, em uma espécie de Padim Ciço dos novos tempos.
Repito, porque os hidrófobos e debiloides do lulo-petismo não conseguem pensar, que não se trata de ser contra o Bolsa Família. Trata-se, pura e simplesmente, de reconhecer o óbvio, como o faz a reportagem de Larissa: por muito necessário que seja, por avanços que de fato traz, não basta nem para tirar os beneficiários da pobreza quanto mais para proporcionar uma mudança estrutural.
Ah, essa situação torna ainda mais patética a afirmação que gente do governo faz -e analistas distraídos ou de má-fé reproduzem mecanicamente- de que está havendo queda da desigualdade no Brasil. Como, se o Bolsa Família leva algo em torno de 0,4% do PIB e o pagamento dos juros ao andar de cima consome oito vezes isso (3,3% do PIB)?

EUGÊNIO BUCCI

A propaganda eleitoral vai ao paraíso
Eugênio Bucci 
O Estado de S.Paulo - 03/06/10

À medida que se aproxima o dia da largada, roncam motores, os ânimos e as ações judiciais no aquecimento da corrida eleitoral. Dia sim, dia não, um partido denuncia outro por propaganda antecipada. Às vezes o Judiciário dispara multas, outras vezes, não. O clima é um pouco infantilizado, como se o tribunal fosse um inspetor de alunos e os candidatos e seus apoiadores, moleques travessos, mas, no fundo, gente boa. Ninguém leva a sério, nem o presidente da República. Fora desse teatrinho escolar, a grande indústria da propaganda eleitoral ilegítima corre solta, como se fosse um dado da natureza. Essa indústria colossal não precisa esperar bandeira de largada nenhuma. Avança a toda a velocidade, há muito tempo, e consome mais dinheiro público do que muito programa social.

O nome dessa campanha fora de hora é "publicidade de governo". Alguns chamam a isso de "comunicação pública", numa ofensa ao vernáculo e ao princípio da impessoalidade, mas deixemos de lado a confusão semântica. A publicidade de governo é aquela que, sob o pretexto mal disfarçado de informar ao cidadão que vão inaugurar daqui a alguns meses ou anos uma nova estação de metrô ou que o Brasil agora é respeitado lá fora, existe apenas para martelar a mensagem de que o governo (estadual, municipal ou federal, tanto faz; nisso, todos eles são praticamente idênticos) é fantástico, mudou a história do povo, trabalha muito, desinteressadamente, e deveria continuar. De preferência, para sempre. Toda e qualquer propaganda de governo, sem exceção, existe para promover quem governa - mesmo que não pronuncie expressamente o nome de quem governa - e, entre nós, está no ar o tempo todo, ininterruptamente. É o prolongamento da propaganda eleitoral propriamente dita. E, pior ainda, é financiada pelos cofres públicos.

Segundo levantamento do Grupo de Mídia de São Paulo - que leva em conta o preço de tabela, sem desconto, de todo comercial que é veiculado -, os chamados "serviços públicos e sociais", nos quais normalmente são classificadas as campanhas governamentais, saltaram de R$ 2,26 bilhões em 2007 para R$ 2,77 bilhões em 2008 (os dados de 2009 ainda não foram consolidados no site da entidade). Para ter uma ideia do gigantismo desses números, leve-se em conta que, de acordo com as estimativas da mesma instituição, o valor total do mercado publicitário brasileiro fica na casa dos R$ 23 bilhões. Leve-se ainda em conta que as estatais, como Caixa Econômica Federal e Petrobrás (que, juntas, anunciam mais de R$ 1 bilhão por ano), não entram nesse montante. Leve-se em conta, por fim, que essas cifras se expandem sem a menor cerimônia. Só o governo paulista passou de R$ 59,3 milhões em 2007 para R$ 158,3 milhões em 2008.

Outro dado revelador é que a linguagem das campanhas governamentais é rigorosamente igual à adotada pelos partidos durante o horário eleitoral. Não raro, as equipes de produção são as mesmas. Também no plano estético, uma coisa é a continuação da outra. Governos estão fazendo propaganda eleitoral de si mesmos durante o ano todo, mas isso não incomoda ninguém. Ao contrário, ela é defendida por muitos. Os defensores dessa distorção tão brasileira argumentam que campanhas de governo não fazem propaganda pessoal da autoridade e, portanto, nada de errado com elas. O problema é que elas fazem, sim, promoção partidária - e até mesmo de pessoas. E fazem isso contra o melhor espírito de toda legislação democrática.

Lembremos o que estabelece a Constituição federal: "A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos" (artigo 37, XXII, § 1.º).

Fiquemos agora apenas com o exemplo do governo federal. Toda campanha, toda placa, toda comunicação que ele põe no ar traz lá aquele logotipo: "Brasil, um país de todos." Não se trata do brasão da República, um símbolo impessoal, mas da marca de fantasia de um governo em particular, o governo Lula. É um logotipo tão associada à identidade do governo atual que substitui, com toda a clareza, a fotografia do próprio governante. Ninguém tem dúvida, aliás, de que aquilo é a assinatura do governo Lula. Pode-se alegar que é uma personalização indireta, mas não se pode negar que, para efeitos de identificação, ela é totalmente eficaz. Em síntese, a Constituição veda "símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades", mas é como se não vedasse coisa alguma. Só o que preocupa os árbitros da corrida que, ao menos no calendário oficial, ainda está para começar é se fulano ou beltrano falaram o nome da candidata A ou do candidato B num palanque em não sei onde: "Ah, isso não pode."

Foi assim que a República brasileira naturalizou um conceito que não faz o menor sentido republicano: o conceito de que o dinheiro público pode ser gasto, aos bilhões, para convencer a sociedade de que o governo é bonzinho e precisa ser reeleito, por favor. Em nossa cultura política, nós, brasileiros, passamos a ver como natural a prática de massificar a opinião de alguns (os que estão no comando do Executivo) com o dinheiro de todos (que não estão no Executivo e nem sempre concordam com a opinião dos que lá se encontram) para combater a opinião dos que discordam (que são igualmente cidadãos, mas cujas opiniões, na prática, são menos prestigiadas e menos valorizadas do que as opiniões dos que concordam). Recursos do Estado entram diretamente na disputa ideológica. Cadê a República?

Enquanto isso, roncam os motores, os ânimos e as ações judiciais irrelevantes.

O ESGOTO DO BRASIL

MÍRIAM LEITÃO

Tempo perdido
Miriam Leitão
O GLOBO - 03/06/10

O Zimbábue que a seleção visitou ontem, e derrotou no jogo amistoso, vive uma longa tragédia.


Nunca vou esquecer o ambiente de esperança dos países que haviam se libertado do colonialismo e dos governos racistas. Era o início dos anos 1980, e a comitiva do Brasil evitou a África do Sul. Foi a Tanzânia, Zâmbia, Angola, Moçambique e Zimbábue.

O roteiro foi desenhado pelo Itamaraty, na política externa independente da época, sob o comando do ministro Ramiro Saraiva Guerreiro, para visitar todos os países que eles chamavam “a linha de frente”.

A comitiva, que incluía toda a cúpula do Itamaraty e funcionários de diversos órgãos do governo brasileiro, visitou todos os vizinhos da África do Sul, mas evitou o país do apartheid, regime que o Brasil repudiava.

A política externa fez da viagem um pronunciamento político. O Brasil que havia sido o primeiro a reconhecer o governo do Movimento Popular de Libertação de Angola, em 1974, que reconheceu o governo da Frente de Libertação de Moçambique, estava lá para dizer que a África com a qual o país queria se relacionar, fazer negócios, e acalentar raízes comuns, era a África que renascia do combate ao racismo e ao colonialismo.

Na Tanzânia, vi o encontro do ministro Guerreiro com o líder da libertação Julius Nyerere; em Moçambique, vi o inusitado, o jovem presidente Samora Machel chegando de moto para o trabalho. Joaquim Chissano que, anos depois, o sucedeu no governo, era o ministro das Relações Exteriores. Angola era o caso mais triste porque ainda estava em violenta guerra civil e com toque de recolher. Zimbábue parecia o mais organizado e mais promissor de todos os países. O primeiroministro era Robert Mugabe, um homem que tinha lutado contra o regime racista da antiga Rodésia, também tinha ido para prisão e fazia parte de um governo da frente contra de libertação. Exatamente como anos depois aconteceu na África do Sul sob a liderança de Nelson Mandela.

A história do que se passou nas décadas seguintes mostra que a qualidade de uma liderança determina, às vezes, o destino de um país, para o bem ou para o mal. Mandela, libertado em 1990, se transformou no líder da conciliação e tolerância, unificou o país, consolidou a economia, saiu do poder e se transformou no maior ícone vivo dos tempos atuais. O país evidentemente tem inúmeros problemas e o atual presidente está bem longe do modelo, mas Mandela deixou um inegável saldo positivo.

No Zimbábue, Robert Mugabe de primeiro-ministro foi para a presidência, em 1984, e do cargo jamais saiu. Perseguiu e expulsou as lideranças brancas, e depois perseguiu os líderes políticos negros que não faziam parte do seu grupo.

Como a produção agrícola e industrial do país estava sob o comando dos beneficiários do antigo regime, ele acabou demolindo a estrutura produtiva. Conduziu eleições fraudulentas e comanda um governo corrupto.

É uma antítese de Mandela. Fez muito bem o Dunga de recusar-se a ir visitar seu palácio.

O país não apenas regrediu.

Ele entrou num processo prolongado de recessão, que pode ser definido como depressão. Nos últimos 10 anos, o PIB encolheu em todos e em alguns momentos chegou a diminuir 7% num ano. Como se não bastasse, o país entrou num processo de hiperinflação aberta que devastou o que restava da economia.

Os números da hiperinflação zimbabuana ainda são confusos, alguns especialistas dizem que ela se tornou a maior da história, outros, que ela foi a segunda maior, perdendo para a hiperinflação húngara, em 1946. Mas certamente superou a mais famosa das hiperinflações, que foi a alemã, de 1922-1923. Veja no quadro abaixo do professor Steve Hanke.

Em julho de 2008, 10 zeros foram cortados da moeda, o país chegou a imprimir uma nota de 100 bilhões de dólares zimbabuanos.

No final de 2008, o Banco Central parou de divulgar dados da inflação, em janeiro do ano passado, num estágio final de abandono da moeda local, o país oficializou o uso de várias moedas estrangeiras, entre elas, o dólar.

O Zimbábue que viveu esse horror econômico paga hoje um trágico preço: 80% da população está abaixo da linha da pobreza, o desemprego é devastador e o país perdeu seu futuro. E perdeu também os anos de forte crescimento da África, de 2002 a 2008, quando Angola chegou a crescer 23% num único ano. A reconstrução do Zimbábue só tem chances de acontecer apenas na era pós-Mugabe.

ANCELMO GÓIS

PRESENTE DE GREGO
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 03/06/10

Anunciado com pompa e circunstância pelos ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, o pacote de incentivo às exportações completa um mês no sábado. Só que as empresas garantem que não há o que festejar pela data.
Nenhuma das medidas saiu do papel até agora.

GOL DE BILAU 
Ontem, a novidade que surgiu em hotéis e restaurantes de Johannesburgo foi uma pequena baliza, do tamanho das de futebol de botão, nos mictórios. É para a rapaziada tentar acertar com o pipi uma bolinha que pende da trave – e, de quebra, não errar o alvo e molhar o chão. Ah bom! 

BOLA DA FORTUNA 
Pode chegar a 500 mil dólares a premiação para cada jogador, em caso de conquista do hexa na África do Sul.

COVEIRO PATRIOTA
Há duas bandeiras do Brasil (30 cm x 40c m) enfeitando o Cemitério das Piabas, no Recreio, no Rio.

O LEÃO E O MENINO O STJ
iniciou o julgamento do caso de uma criança de seis anos devorada por um leão enquanto assistia ao circo Vostok, em Recife, em 2000, no estacionamento de um shopping.
O que se discute é a eventual culpa do estabelecimento, já que o circo não possui bens.

NO MAIS
O que é pior: o DEM querer indicar o vice de Serra ou... o PSDB aceitar?

POXA Zeca Pagodinho entra em estúdio em duas semanas para gravar novo CD, que inclui um velho sucesso dos anos 1970, Poxa, de Gilson de Souza.
Um trechinho da música: “Poxa/ Como foi bacana te encontrar de novo...”

BAIXARIA ELEITORAL 
O que se diz é que a campanha de Dilma teria em seu poder declarações de Imposto de Renda de Serra, da filha Verônica e do marido dela, Alex.
A filha do tucano é, como se sabe, alvo do tal dossiê do PT.

FATOR EDUARDO CUNHA 
A Piauí traz perfil do deputado Michel Temer.
Segundo a revista, uma das resistências do governo ao nome dele para vice de Dilma “é a sua forte ligação com o deputado Eduardo Cunha, do Rio – conhecido no Congresso por sua voracidade por cargos e pelas artimanhas para consegui-los”.

SEGUE... 
A Piauí diz que durante a entrevista na casa de Temer, Eduardo Cunha chegou “sem que fosse anunciado ou aguardado”.
A caminho da Câmara, Temer comentou com a revista: “O que posso fazer se o Eduardo Cunha aparece aqui em casa? Não deixá-lo entrar? Ele se impõe”.

FREE SHOP FICA
O desembargador Marcelo Pereira da Silva cassou liminar da 15ª Vara Federal, que determinava a saída da Dufry, dona das lojas do Free Shop, do Aeroporto Galeão/Tom Jobim até o fim de julho.
Segundo o advogado da empresa, Sérgio Bermudes, o magistrado entendeu que a Dufry tem um contrato com a Infraero até 2015.

PROPAGANDA ELEITORAL
A vereadora Rosa Fernandes e seu filho Pedro Fernandes foram condenados pela Justiça Eleitoral do Rio a pagar multa de R$ 25 mil, cada, por espalharem dezenas de faixas antecipando a campanha eleitoral.

GOSTOSAS

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Expectativas
LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 03/06/10


Depois do bicampeonato mundial de 58 e 62, fomos para a Copa de 66 convencidos da nossa invencibilidade. Afinal, tínhamos não apenas o melhor jogador em atividade no mundo mas o melhor jogador em atividade no mundo com 25 anos. Mas quebraram 
o Pelé na Copa de 66 e o time desmoronou.
Em 70 a seleção viajou para o México em meio a uma descrença difusa mas indisfarçável. A fase de preparação fora conturbada. Tinha havido o problema com o João Saldanha, dispensado como técnico por alegadas razões políticas e substituído pelo Zagalo. O próprio Pelé não era mais uma unanimidade, e chegaram a dizer que ele não estava enxergando bem. Além da miopia do Pelé nos faltava um centroavante, pois o Tostão claramente não tinha o físico para o papel, e nossa defesa era fraca. Não podia dar certo. Deu certíssimo.
Curiosamente, quatro anos depois ninguém estava muito animado com a seleção. Não ajudou muito a declaração do Zagalo, feita em off mas entreouvida e transmitida, que sua única esperança era cavar faltas perto da área dos adversários e confiar nos nossos cobradores. Os cobradores não nos salvaram.
Em 78 o ceticismo geral se concentrou no capitão Coutinho e no seu linguajar tecnocrático, mas aquela Copa já tinha dono antes de começar, a Argentina. Nada teria feito muita diferença para os brasileiros, nem outro técnico, nem o jovem Falcão no lugar do Chicão.
Nenhuma seleção saiu do Brasil mais oba-obaizada do que a de 82. Era a seleção da melhor geração de craques brasileiros desde a da Copa de 50. Júnior, Falcão, Cerezzo, Sócrates, Zico, Eder... Não podia perder e perdeu. Como a de 50, aquela geração também ficou sem sua apoteose. Teve outra oportunidade no México em 86, mas aí já era tarde.
Na Itália, em 90, nascia o que o Armando Nogueira batizou, com desgosto, de A Era Dunga. Quatro anos depois, nos Estados Unidos, o desacreditado Dunga liderou uma vitória brasileira que ninguém esperava, desagravando a sua biografia mas nem assim convencendo todo o mundo.
Na Copa de 98 a realidade derrotou a expectativa de que 94 se repetiria, mas foi uma realidade tão estranha – convulsões misteriosas do Ronaldo e inéditos gols de cabeça do Zidane no último jogo – 
que resiste a qualquer tese, e não conta.
Ronaldo era a grande incógnita da seleção de 2002, e a vitória da seleção no Japão foi uma vitória pessoal do jogador, numa bela história de remissão que soaria inverossímil como literatura.
Finalmente, as grandes esperanças com a seleção de 2006 se justificavam. O período de preparação tinha sido empolgante. Quem poderia prever que o futebol de Ronaldinho, Kaká e os outros desapareceria como flocos de neve no verão alemão?
E vamos para a África do Sul cheios de... O que, exatamente?
Entusiasmo, digamos, reticente, ou desesperança resignada? Certeza só a do Dunga, que ou volta definitivamente acreditado ou desacreditado para todo e sempre.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Não vou discutir mais, não é algo que seja da minha função fazer”
DILMA ROUSSEFF, DO PT, SOBRE A ACUSAÇÃO DE TER CRIADO UM DOSSIÊ CONTRA O PSDB

“EMPACADO”: OBRA NO SÃO FRANCISCO PAROU 
O governo Lula, que empacou em 46% as obras do PAC, travou mais uma: a transposição do Rio Francisco, em Petrolina, Monteiro (PE) e São José das Piranhas (PB) foi suspensa desde a semana passada, e mais de 90% dos trabalhadores – cerca de quatro mil –, dispensados. Os consócios envolvidos na obra alegam “falta de dinheiro”. O Exército também parou. Tudo indicava que não acabaria neste governo. 

VAZANTE
Dos três mil operários trabalhando no ponto de captação das águas em Cabrobó (PE) restam 380 nas obras dos lotes 1 e 2 do eixo norte. 

CANDIDATÍSSIMO 
Na entrevista que concedeu ontem a Willian Correa e Sérgio Gabriel, da Band, pela primeira vez Lula não descartou sua candidatura em 2014.

PÉ-FRIO MESMO 
Lula não reconhece a baixa temperatura do pé, mas contou à Band o que diz seu filho quando o Corinthians perde: “Pai, você é mesmo um pé-frio”.

SÓ FALTOU UM 
Na entrevista à Band, o presidente Lula elogiou a “seleção de Dunga”, mas sentiu falta de apenas um jogador: Ronaldinho Gaúcho.

DF: FISCAL FAZ SUMIR 530 KG DE BACALHAU EM 1 DIA 
Um fiscal da Vigilância Sanitária do governo do DF está sob investigação por dar sumiço, em menos de 24 horas, a mais de meia tonelada (530 kg) de lombo de bacalhau de um mercado na W3 Sul, em Brasília. Liminar do Tribunal de Justiça, mandando devolver o produto, não foi cumprida: o fiscal alegou que o pescado, apreendido por ser “impróprio para consumo”, já havia sido “doado para instituições de caridade”.

INVESTIGAÇÃO
Nem a Secretaria de Saúde do DF acreditou na versão do fiscal e abriu procedimento investigativo para apurar o sumiço do bacalhau.

SALÁRIO NÃO GERA EFICIÊNCIA A PM-DF
é a mais bem paga do País. Um soldado ganha quase R$ 5 mil por mês, R$ 2 mil a mais do que o sonhado piso nacional da classe. 

IDEIA DE FAQUIR
Sugestão à candidata Dilma: se vencer, ressuscitar o Fome Zero com o indiano Prahlad Jani. Afinal, ele diz que não come há 70 anos. 

RELATÓRIO ANTECIPADO.
O prazo era até o dia 15, mas o deputado distrital Chico Leite (PT) apresentará na quinta (10) seu relatório pedindo a cassação da deputada Eurides Brito (PMDB), flagrada enfiando dinheiro na bolsa. Ele também foi o relator do processo de cassação do ex-governador Arruda.

VACINAÇÃO CONCLUÍDA 
O governo encerrou ontem a vacinação contra a gripe suína (H1N1) com 74 milhões de pessoas imunizadas. Dois milhões de brasileiros deixaram para se vacinar nesta quarta-feira, o último dia.

CANDIDATURA PAGA
Falta cerca de um mês para que o servidor público que será candidato nas eleições de outubro peça licença do cargo. Sem stress. Mesmo em 
campanha, o servidor continua recebendo seu salário integral.

L’ENFANT TERRIBLE
O “potin” dos jornais franceses é o suposto envolvimento do presidente Nicolas Sarkozy, então ministro, em financiamento ilegal da campanha do 
ex-presidente Edouard Balladour, via Luxemburgo. Esses franceses...

É FOGO 
Um relatório do Instituto de Estudos para a Paz, da Suécia, revela que o Brasil liderou a corrida armamentista na América Latina, em 2009: US$ 26,1 bilhões. Deve ser para “chumbar” os velhinhos da Previdência. 

NÃO FALTA CLIENTE
A Câmara dos Deputados vai torrar R$ 21 milhões para renovar o contrato com a Empresa de Correios e Telégrafos. Aquela que some com a mercadoria e atrasa a entrega até de telegramas.

DESAPARECIDO
Marinha e Exército buscam o filho do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP): advogado da Pastoral Indigenista em São Gabriel, fronteira da Colômbia, Pedro Ferreira, 27, sumiu após um banho de cachoeira.

LÍNGUA SOLTA
Os senadores Flávio Arns, Cristovam Buarque e Marisa Serrano aderiram ao manifesto “Acordar melhor”, do professor de Língua Portuguesa Ernani Pimentel, para rever os “equívocos da reforma ortográfica”. Já tem mais de 15 assinaturas. Lula ainda não assinou...

PENSANDO BEM...
...com “Bibi” (o premiê israelense Netanyahu) não tem “fon-fon”. Avançou o sinal – bum!

PODER SEM PUDOR
ÓIA QUE SUMIU
Prefeito de Cortês (PE), Ernani Borba atribuía a redução dos óbitos no município ao fim da criminalidade e à melhoria das condições de saúde da população. Mas o coveiro Gercino foi à prefeitura se queixar:
– Prefeito, me arrume outro trabalho... Não morre mais ninguém em Cortês e não recebo mais o óia...
“Óia” é como chamam por lá a gorjeta paga pelas famílias dos mortos.

MAMADORES

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Dilma e Serra discordam de Lula sobre carga tributária

- Estadão: Serra responsabiliza Dilma por suposto dossiê contra ele

- JB: Cresce pressão contra Isarael

- Correio: Vitória do consumidor nos planos de saúde

- Jornal do Commercio: Alívio e medo