quinta-feira, outubro 01, 2009

LUIZA NAGIB ELUF

Casa de prostituição


Folha de S. Paulo - 01/10/2009


Caminhamos no sentido da abolição da perseguição à mulher e do fim do estigma de uma profissão que se reconhece a mais antiga



A LEI que acaba de modificar os artigos referentes aos crimes sexuais do Código Penal (lei 12.015, de 7/8/09) não apenas inovou com relação ao estupro e ao atentado violento ao pudor como também alterou vários outros dispositivos, dentre os quais o que aborda a atividade do comércio sexual referente à casa de prostituição.
Anteriormente, nos termos do artigo 229 do Código Penal, que data de 1940, era crime "manter, por conta própria ou de terceiro, casa de prostituição ou lugar destinado a encontros para fins libidinosos, haja ou não intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente".
Nesses termos, qualquer lugar em que ocorressem encontros com fins sexuais estava proibido. A pena era de dois a cinco anos de reclusão, mais multa.
Isso gerou certa discussão, algum tempo atrás, quando surgiram os "motéis", que se destinam a encontros amorosos. Vários deles se espalharam pelas cidades, avançando das estradas e periferias, onde se "escondiam", para dentro dos centros urbanos, entrando definitivamente na vida cotidiana.
Se levada ao pé da letra a anterior redação do artigo 229 acima citada, os motéis ou qualquer outro estabelecimento de alta rotatividade estariam proibidos. Tanto assim que os conservadores tentaram fechar esses estabelecimentos, clamando por rigorosa fiscalização.
No entanto, com o tempo, os motéis se impuseram porque sua finalidade é híbrida: tanto servem para encontros quanto para pernoites. Aproveitando a dubiedade, eles escaparam dos rigores da lei anterior.
As verdadeiras casas de prostituição, porém, continuaram na mira da polícia, pois estava fora de dúvida que exerciam atividade criminosa, nos termos do Código Penal.
Nossa lei nunca puniu a prostituta ou o seu cliente, mas criou regras que dificultam a atividade. Partindo do princípio de que a sociedade não pode prescindir do comércio sexual, haja vista a falência de todas as medidas adotadas para coibir tal prática em todos os tempos, impedir essas(es) profissionais de ter um lugar para trabalhar gera uma situação perversa e injusta, cria constrangimentos na rua e as(os) expõe a variados tipos de risco.
Diante disso, a casa é uma solução, não um problema.
Assim, a lei nº 12.015/09 corrigiu uma distorção decorrente de tabus e preconceitos do começo do século passado e passou a considerar crime apenas "estabelecimento em que ocorra exploração sexual", o que foi um grande acerto.
Crime é manter pessoa em condição de explorada, sacrificada, obrigada a fazer o que não quer. Explorar é colocar em situação análoga à de escravidão, impor a prática de sexo contra vontade ou, no mínimo, induzir a isso, sob as piores condições, sem remuneração nem liberdade de escolha.
A prostituição forçada é exploração sexual, um delito escabroso, merecedor de punição severa, ainda mais se praticado contra crianças. O resto não merece a atenção do direito penal.
A profissional do sexo, por opção própria, maior de 18 anos, deve ser deixada em paz, regulamentando-se a atividade.
A meu ver, com a recente alteração trazida pela nova lei, os processos que se encontram em tramitação pelo crime de "casa de prostituição", se não envolverem exploração sexual, deverão resultar em absolvição, pois a conduta de manter casa para fins libidinosos, por si só, não mais configura crime. Os inquéritos nas mesmas condições comportarão arquivamento e muita gente que estava sendo processada se verá dispensada da investigação.
Pelo menos, ficaremos livres do desgosto de presenciar a perseguição aos pequenos estabelecimentos, onde o aluguel de um quarto pode custar R$ 5, enquanto as grandes casas se mantêm ativas, apesar da proibição, por conta da eventual corrupção de agentes públicos.
Dessa forma, vamos caminhando no sentido da abolição da perseguição à mulher e do fim do estigma de uma profissão que se reconhece a mais antiga do mundo.

GOSTOSAS DO TEMPO ANTIGO

TODA MÍDIA

"Crackdown"

NELSON DE SÁ

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/10/09


Por Reuters e outras agências, postadas por "New York Times" e outros jornais, "Polícia faz repressão, enquanto cresce a pressão" sobre o governo "de facto". Em resumo, "as forças de segurança dispararam gás para dispersar jornalistas que protestavam contra o fechamento da rádio Globo", de Honduras.
Entre os atingidos, o cinegrafista enviado pela TV Globo, do Brasil. No G1, da Globo, Ronaldo de Souza relatou via audiocast: "Ficamos encurralados, não tínhamos por onde escapar. Corríamos do lançamento de gás. Não viemos preparados para isso, não somos soldados. Uns 50 policiais não queriam deixar que nos aproximássemos. Cassetete para lá e para cá."
No UOL, "mais de 2.000 presos" em dez dias, relata o Comitê de Direitos Humanos de Honduras.

"ESQUERDISMO"
O argentino "Clarín" entrevistou o golpista Roberto Micheletti (acima). Pergunta e resposta:
"O que levou ao golpe?"
"Tiramos Zelaya por seu esquerdismo e corrupção. Ele virou presidente como liberal, como eu. Mas se fez amigo de Daniel Ortega, Chávez, Correa, Evo Morales."
"Desculpe..."
"Foi para a esquerda, pôs comunista, nos preocupou."
Despacho da americana AP, por "Washington Post" e outros, destacou que os "power brokers" ou donos do poder em Honduras já "pressionam pelo fim da crise". Em suma, "líderes empresariais e políticos que apoiaram o golpe agora estão considerando o impensável: pôr Zelaya de volta na Presidência, com poderes limitados".

ITAMARATY PETISTA
Na Folha Online, o presidente do PT "afirmou no Twitter que o ministro Celso Amorim se filiou ao PT", ontem. No blog Radar, Lauro Jardim registrou que "tem embaixador achando que Amorim está sonhando alto, por exemplo, virar ministro (de qualquer pasta) num eventual governo Dilma Rousseff" e até "suceder Dilma".

BC PEEMEDEBISTA
Manchete na Reuters Brasil, "Henrique Meirelles entra no PMDB e fala em continuidade no Banco Central". Na Folha de ontem, a Marcio Aith, declarou que não será candidato ao governo de Goiás, mas o Senado "é uma possibilidade a ser considerada, em março de 2010".

FIESP SOCIALISTA
Fim do dia, destaque na Folha Online e no UOL, Renata Lo Prete informou que o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, assinou ficha de filiação ao PSB, "partido pelo qual pretende disputar o governo de São Paulo". O partido já havia filiado Gabriel Chalita para concorrer ao Senado.

O MELHOR MOMENTO
Na primeira página do estatal "China Daily", hoje, o país comemora "o melhor momento desde 1949", no aniversário de 60 anos da revolução. Anuncia "dragões" pelo país e ouve as famílias dos "pais fundadores"

TODOS QUEREM TUPI
Na manchete do portal Exame, "Todos querem o pré-sal". Entrevista a analista-chefe da consultoria Enegy Intelligence, para quem "as gigantes do petróleo têm grande interesse no pré-sal apesar das novas regras".

LOBBY MERRIL
Ontem no site do "Wall Street Journal", o analista do BofA Merril Lynch para a América Latina saiu dizendo que o Chile será o primeiro país na região a elevar a taxa de juros, em 2010.

LOBBY FITCH
E no site da Bloomberg, em destaque nas buscas, um analista da agência de classificação de risco Fitch saiu dizendo que o Brasil precisa cortar gastos "para merecer outro aumento na nota".

O FUTURO DA IMPRENSA?
O site Gizmodo noticiou que a Apple negocia com o "NYT" a adatação das edições para "um novo aparelho", o "tablet", mistura de celular e notebook que "vai redefinir os jornais" (acima). E que a Microsoft já prepara um concorrente

DEMÉTRIO MAGNOLI

Personagens de um filme antigo

O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/10/09


Honduras condensa o conflito, repetido vezes sem conta na História da América Latina, entre uma democracia oligárquica e o impulso do caudilhismo. A primeira singularidade da crise atual encontra-se no seu enquadramento no cenário da "revolução bolivariana" de Hugo Chávez, que conferiu dimensões internacionais ao confronto entre o pretendente a caudilho e as instituições políticas do sistema oligárquico hondurenho. A segunda singularidade, nos erros crassos cometidos pela política externa brasileira, que contribuíram para a espiral de violência em que ingressa o país centro-americano.

A crise foi desatada pela tentativa de Manuel Zelaya de circundar o ferrolho constitucional armado para perpetuar o sistema oligárquico. O líder fraco, oriundo de um dos partidos do condomínio hegemônico, só agiu porque tinha o respaldo da Venezuela chavista. O impasse político e legal foi resolvido por um golpe institucional, conduzido pelo Exército, mas amparado pelo Congresso e pela Corte Suprema, que instalaram o governo provisório de facto de Roberto Micheletti. A ruptura foi condenada pela totalidade dos países americanos, de acordo com a Carta Democrática Interamericana, mas a mediação do costa-riquenho Óscar Arias fracassou, pois os contendores acreditaram que podiam prevalecer sem um compromisso.

Zelaya só teria uma chance realista de prevalecer se contasse com a interferência ativa dos EUA ou se tivesse amplo respaldo popular. Os EUA de Barack Obama pretendem deixar para trás o estigma do intervencionismo na América Central e, mesmo condenando o golpe, não se engajariam a fundo na defesa de um aliado de Chávez. A maioria dos hondurenhos não se importa com a sorte do rancheiro que sonhou ser condottiere. Então, quando as coisas pareciam resolvidas, a aventura do retorno clandestino, patrocinada pela Venezuela e, talvez, por Cuba, deflagrou o drama que está em curso.

É mais razoável acreditar em duendes que na versão do governo brasileiro, pela qual Zelaya se materializou sem aviso diante da embaixada em Tegucigalpa. Os indícios, contudo, não autorizam a imaginar que o Brasil tenha participado da urdidura do retorno clandestino. Uma narrativa mais sóbria sugere que Chávez, com a finalidade de instalar o presidente deposto na sede diplomática brasileira, promoveu o vazamento de um plano original de colocá-lo no escritório hondurenho da ONU.

A história rocambolesca será toda contada, um dia. Por enquanto, sabe-se apenas o que está aos olhos de todos: o Brasil permitiu a transformação de sua embaixada na tribuna de agitação política do alto da qual um caudilho frustrado clama pela insurreição. A imprudência, que compromete a credibilidade da diplomacia brasileira, poderia ter um desenlace administrável, sob duas condições alternativas: se Zelaya tivesse força popular para derrubar Micheletti ou se o fato consumado impusesse por si mesmo uma solução negociada aos contendores. Como nenhuma dessas condições é verdadeira, Lula e Celso Amorim correm o risco de aparecer como aventureiros que jogam nos dados a sorte de um país pobre e convulsionado.

O compromisso é o destino provável de contendores fracos, explicou dias atrás o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia. A análise tem sentido, mas exclui dois elementos complicadores. De um lado, Zelaya não reconhece a sua fraqueza, em razão do engajamento irrestrito do Brasil na operação do retorno. De outro, Micheletti não enxerga um mediador confiável e teme as consequências da restauração de um líder que se imagina forte e deve tudo a Chávez. São esses os motivos da paradoxal radicalização dos contendores fracos, que avançaram até a beira do precipício da guerra civil.

O Brasil, que pretendia liderar, perdeu por sua própria culpa a condição para mediar. O representante dos EUA na OEA estava certo ao dizer que Zelaya "deve desistir de agir como se estivesse estrelando um filme antigo" - e mais ainda ao apontar a "especial responsabilidade de prevenir a violência" que recai sobre os ombros de uma diplomacia brasileira incapaz de controlar o ator canastrão hospedado na embaixada.

A saída para o impasse não pode prescindir de eleições livres e limpas, monitoradas por observadores internacionais. O estado de sítio implantado em Honduras e a repressão deflagrada contra os opositores ameaçam a legitimidade do processo eleitoral. É precisamente o que busca Chávez, quando estimula a radicalização de Zelaya. O Brasil teria o dever de agir na direção oposta, insistindo no diálogo. Mas preferiu dinamitar as pontes, substituindo a diplomacia pela ideologia.

No Itamaraty, é a hora e a vez dos amadores. Na reunião de emergência da OEA convocada para dar uma resposta à declaração do estado de sítio, o Brasil alinhou-se à Venezuela e rejeitou as sugestões moderadas dos EUA, provocando o fracasso do encontro. Feito o estrago, a diplomacia brasileira diagnosticou, pela voz do embaixador Ruy Casaes, que "a OEA está caminhando para um absoluto estado de irrelevância", e o ministro Amorim passou a dirigir apelos ao Conselho de Segurança da ONU. A ideia de sabotar os esforços de Washington na organização hemisférica para, então, solicitar ajuda de Washington na organização mundial constitui mais uma inovação piramidal dos luminares que dirigem nossa política externa.

A falência do Brasil como mediador não suprime a oportunidade para uma solução negociada, cuja base só pode ser o Plano Arias. Desde a decretação do estado de sítio, os EUA passaram a agir mais firmemente, embora com discrição, e surgiram sinais de divisão na elite política e empresarial hondurenha. Lula e Amorim, personagens do filme antigo dirigido por Chávez, dependem como nunca do sucesso da operação americana de bastidores. Se ela não funcionar, pesará sobre o governo brasileiro parte da responsabilidade por um desfecho trágico que podia ter sido evitado.
Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia
Humana pela USP.

MINHA CANDITATA

MÍRIAM LEITÃO

Velho inimigo

O GLOBO - 01/10/09


A América Latina está de novo ameaçada pelo autoritarismo. Nesta ameaça, o golpe em Honduras é apenas um caso. A Argentina está tentando aprovar num Congresso moribundo uma lei de tendência claramente autoritária para controlar os meios de comunicação. Em outros países da região os governantes tentam suprimir pilares importantes da democracia.

Nas minhas férias em Nova York dei uma passadinha no Centro de Estudos Brasileiros na Universidade de Columbia. O economista Tom Trebat me perguntou: — A censura está voltando no Brasil? Em seguida falou da sua preocupação com a suspensão judicial da publicação de reportagem no “Estadão”.

Ele sabe a diferença do que está acontecendo em outros países, mas acha que a região está passando por um momento estranho.

O caso da Argentina é preocupante. Conversei sobre isso com o jornalista Ariel Palácios no prêmio Comuniquese. A manobra do casal Kirchner é aprovar a Lei dos Serviços Audiovisuais no Senado antes de dezembro. Na Câmara já foi aprovada. A lei é ruim e essa pressa é pior. Na Argentina, há uma distância de seis meses entre eleição do Congresso e sua posse. A eleição já aconteceu, o governo perdeu a maioria, muita gente não teve o mandato confirmado. Ou seja, deputados e senadores já quase sem mandato vão decidir um assunto dessa relevância.

A lei impede a formação de redes nacionais de TV, mas abre exceções para o governo, os sindicatos e a Igreja Católica.

É esse monstrengo que o governo que tem baixa popularidade tenta aprovar num Congresso com os dias contados para acabar. Se houvesse alguma dúvida sobre o caráter autoritário das intenções dos Kirchner bastaria lembrar a tentativa de intimidação do jornal “Clarín”.

Na Venezuela, inspirador dos governos neopopulistas, o projeto de desmonte da imprensa já está bem mais adiantado; no Equador o caminho traçado é o mesmo.

O princípio da alternância do poder está demolido na Venezuela e sob ameaça na Colômbia, Bolívia e Equador.

Foi uma tentativa do presidente Manuel Zelaya de ameaçar esse princípio que detonou o desmoronamento institucional de Honduras.

Nada justifica os atos dos atuais governantes, mas o que está ocorrendo tem que ser visto pelos dois lados: os neopopulistas avançam sobre as instituições, solapando a democracia, e a direita reage à velha moda.

Os golpes, como o de Honduras, têm uma dinâmica conhecida.

Ao tomarem o poder, os ditadores usam pretextos.

No Brasil foi o de que o presidente João Goulart incitara os militares de baixa patente e planejava instituir uma república sindicalista.

Em Honduras foi a tentativa de Zelaya de fazer uma consulta popular inconstitucional.

A declaração do governante de Honduras ontem parecia saída do túnel do tempo. “Zelaya foi deposto por ser esquerdista”, disse.

Aqui, possíveis excessos e erros de Jango seriam corrigidos pela eleição presidencial prevista para 1965. Lá as eleições já estavam marcadas para novembro.

Normalmente os golpes têm apoio em vários setores da sociedade, do contrário não ocorreriam e isto também não os legitima. Em Honduras empresários, Igreja e uma parte da sociedade apoiam o governo. No Brasil, em 64, os militares tiveram o apoio da classe média e de vários outros setores. Ocorre depois uma fase em que os golpes escalam. Aconteceu no Brasil no AI-5. Acaba de acontecer em Honduras esta semana. O que levou 21 anos para acabar no Brasil pode acabar em pouco tempo em Honduras, se acontecer o cenário benigno.

Mas o episódio, seja qual for o desfecho, traz lições preciosas para o Brasil. A diplomacia brasileira tem sido tão criticada internamente porque o caso Honduras exibiu uma síntese dos defeitos da política externa dos últimos anos. O Brasil quebrou o princípio da não ingerência, deixouse liderar por Hugo Chávez, improvisou em assunto sério, exibiu um julgamento com dois pesos e duas medidas e fez pouco da inteligência dos brasileiros.

É difícil escolher qual das duas versões é mais desonrosa para a mais profissional diplomacia da América Latina. A oficial, de que o país nada sabia; ou a que parece mais óbvia que é ter concordado com o plano de Chávez.

A política de não-intervenção em assuntos internos não significa um simples lavar as mãos. Há muito tempo evoluiu para uma defesa de princípios. É correto o Brasil fazer o que fez no início: não reconhecer o governo resultado da quebra da ordem institucional, manter o embaixador no Brasil, esfriar as relações, defender nos organismos internacionais a volta do presidente eleito e cortar programas de ajuda. Nada disso é intervenção, mas ao mesmo tempo não é lavar as mãos.

O erro foi entrar na refrega política interna deixando a embaixada virar centro de agitação partidária. O mais sensato seria ter feito esforços com outros países para garantir uma eleição de um novo governo que unisse os hondurenhos.

A indignação do governo Lula com o governo Micheletti é justa. Só não é coerente com o silêncio que o Brasil fez diante das sucessivas investidas contra os princípios democráticos. Na América Latina todo o cuidado é pouco. Esta é uma região que já errou demais

PAINEL DA FOLHA

Sem choro nem vela

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/10/09

Objeto de seguidas críticas de Lula e de integrantes do primeiro escalão do governo, ministros do Tribunal de Contas da União reagem com um discurso pronto: as decisões do órgão são "técnicas, regidas pela Constituição, pelas leis específicas e pela LDO".
É o jeito protocolar de dizer que, apesar da grita do Planalto contra a paralisação de obras do PAC, nada mudará. "Fiscalizados sempre reclamam de quem fiscaliza", desdenha o ministro José Jorge. E José Múcio, que chegará ao TCU com a missão de implementar a doutrina Lula? "Lá ninguém faz nada sozinho", emenda o ex-senador "demo". "As decisões são colegiadas. Mesmo liminares são submetidas a plenário."


Esta é sua vida. Em trabalho de convencimento prévio à sabatina na CCJ, José Antonio Toffoli encaminhou aos senadores um livreto encadernado com depoimentos recheados de elogios e recomendações ao futuro ministro do STF. Entre os signatários, Caputo Bastos, Fernando Neves e Nelson Jobim.

Patente. No lobby em defesa de Toffoli, até o comandante do Exército, general Enzo Peri, disparou telefonemas para os senadores.

Açúcar e afeto. Em fase de treinamento pré-eleitoral, Dilma Rousseff deu colher de chá aos jornalistas que acompanham o dia a dia no CCBB. Disse que os receberá para um "cafezinho" em seu gabinete. "A gente se comove, fica olhando, pensa: "Meu Deus! Eles estão ali parados, esperando, coitados, suando"."

Pêndulo. O ex-ministro Walfrido dos Mares Guia trocou o PTB pelo PSB. Com sua filiação, a seção mineira da sigla, que sempre orbitou em torno de Aécio Neves, fica um pouco mais perto do lulismo e da candidatura de Dilma.

Rodo. Em São Paulo, um dia depois de receber Gabriel Chalita, o PSB filiou a reitora da USP, Suely Vilela.

Caixa. Em Brasília, o PSB levou Adelmir Santana, vindo do DEM. O senador, que herdou a cadeira de Paulo Octavio e agora quer se eleger por conta própria, pilota a Federação do Comércio do DF.

O retorno. José Serra convidou pessoal mente o ex-petista Flávio Arns a ingressar no PSDB. O senador,que já foi tucano, está inclinado a aceitar. Deve disputar vaga de deputado federal pelo Paraná.

Verdes. Filiado ao PV com a possibilidade de ser vice de Marina Silva, o presidente da Natura, Guilherme Leal, contribuiu para a campanha da senadora em2002. A empresa e seus diretores declararam doações de R$30mil.

Mapa... A disputa pelo controle da futura Previc (Super intendência Nacional de Previdência Complementar), a ser votada pelo Senado, se dá entre deputados petistas e senadores peemedebistas. À frente do primeiro grupo estão o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, e o ministro José Pimentel (Previdência). O segundo é liderado por Romero Jucá (PMDBRR), que já chefiou apasta no governo Lula. .

...da guerra. Com independência administrativa, a Previc terá diretoria colegiada e ao menos 14cargos-chave sem concurso, fora o corpo de quase uma centenas de técnicos. .

Trabalhista 1. Durante o périplo para tentar em placar o projeto contra os candidatos "fichas-suja", o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Cezar Britto, apertou o presidente da Câmara,Michel Temer (PMDB-SP), para que seja votada a emenda constitucional destinada a regulamentar as férias do Judiciário. .

Trabalhista 2. A proposta encampada pela OAB prevê o desmembramento dos 60 dias de férias anuaí s dos magistrados, que poderão usufruird as folgas em vários períodos.
com VERA MAGALHÃES e SILVIO NAVARRO

Tiroteio

"As respostas foram 70% políticas e 30% jurídicas. Juridicamente ele ainda não mostrou consistência."
Do líder do DEM, JOSÉ AGRIPINO (RN), sobre a longa porém tranquila sabatina de José Antonio Toffoli na CCJ do Senado.

Contraponto

Mundo virtual

Durante votação ontem no Congresso de projeto que destina ao Ministério da Defesa um crédito de R$ 2,1 bilhões para o programa de desenvolvimento de um submarino nuclear, o deputado Gilmar Machado (PT-MG), em nome da liderança do governo, sugeriu acordo ao colega José Carlos Aleluia (DEM-BA), que atuava como líder.
-Acordo sobre submarino?- indagou Aleluia.
-É o pacote que inclui os caças- explicou Machado.
-Mas o único submarino que deu certo no Brasil foi o Submarino.com- retrucou Aleluia.
Muitos risos depois, o "demo" topou o acordo proposto.

GOSTOSA


JOSÉ SIMÃO

Ueba! O ZZZZZZelaya só dorme!

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/10/09



Sabe por que Honduras tá em estado de sítio? Porque o Zelaya tem cara de chacareiro!


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
Avisa pra Inglória Perez que "Caminho das Índias" ainda não terminou: "Empresário indiano detido com dois travestis em Copacabana".
Na esquina da avenida Atlântica com a REPÚBLICA DO PERU! Rarará! O Raj foi pegar traveca na República do Peru! E esse Zelaya, que só dorme? Devia se chamar ZZZZZZZelaya! E o Lula vai lançar mais um programa social de ajuda ao Zelaya: Bolsa Golpe Família. E o site Éramos Seis revela como o Lula vai resolver esse impasse internacional: vai vender a embaixada brasileira pro Chávez. E com inquilino dentro! Rarará! Família brasileira muda e vende tudo. Excelente localização, perto dos Estados Unidos. E com inquilino dentro.
Tratar com o Lula!
E ontem eu falei que a doutora Havanir tá procurando marido pela televisão. Qual o problema de casar com a doutora Havanir? Não tem gente que vai ao Playcenter e paga pra levar susto? Rarará!
E o Serra, o Vampiro Anêmico? O porteiro do IML! Já tá com a campanha pronta. Olha só: aterroriza os eleitores, assusta a oposição e estremece os fumantes, Serra 2010! Rarará! E sabe por que Honduras tá em estado de sítio? Porque o Zelaya tem cara de chacareiro! E agora estão indo mais seis deputados brasileiros.
Aí, em vez de biscoito, eles vão comer pizza!
E mais outra piada pronta; diretores de escolas estaduais farão protesto no Dia do Professor. Vão ficar pelados! Nu Coletivo. Pelados no coletivo ou nu coletivo?! Peladões com a régua balançando! E sabe como se chama o presidente do sindicato, o organizador? LUIZ PINTO!! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão.
Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Fortaleza tem uma loja de lingerie chamada ASSUNTOS INTERNOS! Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Enxadrista": companheiro que pega na enxadra. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.
Hoje, só amanhã!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E quem fica parado é poste!

ELIANE CANTANHÊDE

Novidades nos palanques

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/10/09


BRASÍLIA - Quem te viu, quem te vê... Ninguém dava a menor bola para assuntos internacionais e de defesa, nem mesmo políticos, muito menos candidatos, mas essa tendência vem se invertendo desde a campanha presidencial de 2006 e são dois temas que têm tudo para render bons debates -e tomara que boas entrevistas- com os presidenciáveis de 2010.
Com Barack Obama saindo do olimpo e recuperando a condição de mero mortal, com as lições ainda mal digeridas sobre a crise financeira internacional, com a ampliação da presença militar norte-americana na Colômbia, com os tropeços (e bocejos) da Unasul e agora com Honduras servindo de laboratório para uma infinidade de discussões latino-americanas...
Bem, Dilma, Serra (ou Aécio), Ciro e Marina vão ter que estudar muito. Sem esquecer dos caças da FAB, dos submarinos, do reflexo geopolítico do pré-sal e da inescapável discussão sobre a questão nuclear, seus limites econômicos, militares, políticos, como Irã no meio.
Nesses dois campos, Dilma leva vantagem. Não por ela, que não tem se metido na área internacional e jamais foi ou será ligada à questão de defesa, de estratégia militar -ou melhor, de militares mesmo. Mas porque o governo Lula, como em praticamente tudo, pegou o bonde que vinha do governo FHC andando e pisou no acelerador.
Não é à toa que o chanceler Celso Amorim sai do PMDB (de onde ele começou a dizer ontem que nunca foi de fato...) e entra no PT. Se na eleição passada ele e o polêmico secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, já frequentavam palanques e debates por convocação direta de Lula, imagine-se agora.
Dilma sai da quimioterapia e mergulha na campanha, montando o time, a estratégia, o discurso.
Amorim está dentro. Porque a política externa e a estratégia de defesa estão muitíssimo dentro. Ou, como diriam os diplomatas, estão "in".

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

MERVAL PEREIRA

Quem, afinal, é o cara?

O GLOBO - 01/10/09


Imaginar que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, estará em Copenhague para a decisão sobre a cidade que sediará as Olimpíadas de 2016 porque Lula o incentivou é tão bobo quanto imaginar que Lula pudesse pedir a ele que não fosse, para ajudar o Brasil. Pois o governador do Rio, Sérgio Cabral, no afã de emplacar uma vitória que lhe será fundamental para a campanha de reeleição, chegou a imaginar essa interferência de Lula, e até recentemente estava certo de que Obama não estaria presente.

Pelo visto, “o cara”, que é mais esperto politicamente, fez o contrário e desembarcou em Copenhague anunciando que sugerira a Obama estarem juntos por lá.

Uma vitória de Chicago amanhã deixará a sensação de que a presença de Obama foi decisiva, e de que ele é que é realmente “o cara”.

Uma vitória do Rio de Janeiro será certamente uma vitória política de Lula, e de mais ninguém, e reforçará sua importância nesse mundo multipolar, onde tudo se resolve na base do prestígio político e de interesses econômicos, especialmente eventos como as Olimpíadas, que atraem a atenção de bilhões de pessoas pelo mundo.

O governo brasileiro se empenhou com todos os seus trunfos para que o Rio de Janeiro seja o vencedor, e o chanceler Celso Amorim deixou clara a estratégia ao dizer que as prioridades da política externa eram a eleição da ministra do
Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie para um tribunal da Organização Mundial do Comércio e a escolha do Rio para a sede das Olimpíadas de 2016.

Por isso, o Brasil abriu mão de apoiar o brasileiro Márcio Barbosa para a presidência da Unesco, que contava com o apoio dos Estados Unidos e dos países europeus, para assumir a candidatura do egípcio Farouk Hosni, polêmico por suas declarações antissemitas de que queimaria pessoalmente livros em hebraico que encontrasse nas bibliotecas do Egito.

Tão controvertido que perdeu a disputa pela secretariageral na Unesco para a búlgara Irina Bukova, até então um azarão. Também na OMC não conseguimos emplacar a candidatura da ministra Ellen Gracie.

Resta saber se a estratégia estava completamente equivocada, ou se a cereja do bolo, a sede dos Jogos Olímpicos, vai ser conquistada amanhã.

Tudo conspira a favor da escolha do Rio de Janeiro, embora os especialistas digam que nada dessa política externa que os países jogam influencia tanto quanto a própria politicagem interna dos delegados do Comitê Olímpico Internacional (COI), que teriam seus próprios interesses e trocariam votos e favores com visões bem mais prosaicas que nem Obama nem “o cara” poderiam atender.

Mas, de qualquer maneira, o mundo está favorável a novas governanças, e o prestígio dos países emergentes cresce à medida que é necessário ampliar os poderes e dividir responsabilidades.

O G-20, transformado em instância de decisão multipolar, substitui o antigo G-8, que reunia os países desenvolvidos e mais a Rússia, e demonstra o poder político ampliado de países como Brasil, Índia, África do Sul, Coreia do Sul, México.

Mesmo que a politicagem interna do COI seja mais relevante para os votos do que a política internacional, é claro que o crescente prestígio do Brasil nos fóruns internacionais dá um peso especial à candidatura do Rio, e o fato de que nunca uma Olimpíada se realizou na América do Sul é mais um bom argumento para que o COI se insira nesse novo mundo que está sendo organizado depois da crise econômica internacional, que abalou os alicerces do velho mundo unipolar.

A candidatura do Rio é um anseio nacional, em busca de uma oportunidade de mostrar uma nova face do país, assim como a de Moscou e a de Pequim já surpreenderam o mundo.

Desse ponto de vista de política externa, uma vitória do Rio sobre a Chicago de Barack Obama seria uma reafirmação dessa nova ordem internacional, e uma demonstração de que um presidente com visão de mundo mais ampla, e que faz questão de que os Estados Unidos não se portem como os senhores do Universo, pode ter sua influência política contestada por novos atores globais.

Dentre esses, certamente o presidente Lula é dos mais destacados, e seu empenho pessoal na realização dos jogos certamente pode pesar na decisão de países do terceiro mundo, como os árabes e os africanos, cujos votos o Itamaraty tanto cultivou.

Se, no entanto, nossos sonhos de grandeza forem atropelados pela vitória de Chicago será hora de encarar a realidade e reconhecer que, pelo menos por enquanto, na hora decisiva, “o cara” continua sendo o presidente dos Estados Unidos.

n n n n n n A decisão do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, de se filiar ao PT nos derradeiros momentos do prazo que a lei dá a quem quer se candidatar nas eleições de 2010 demonstra que ele tem projetos eleitorais, mesmo que ainda indefinidos.

É mais um dos muitos paradigmas que esse diplomata tem feito questão de quebrar ao longo de sua permanência à frente do Itamaraty, transformando uma “carreira de Estado” em mais um cargo político a serviço do governo.

Ele já estivera nos palanques de reeleição do presidente Lula, e fora criticado por isso. Com sua filiação partidária, Celso Amorim só faz validar a tese de que o governo Lula usou a política externa brasileira para fazer um contrapeso a uma política econômica conservadora que adotou internamente.

A tendência a um esquerdismo anacrônico de nossa política externa, em certos momentos claramente antiamericana, e as proximidades políticas com a Venezuela e seus satélites na América do Sul, obedeceriam a uma orientação petista representada pela atuação do assessor especial Marco Aurélio Garcia.

A posição assumida na crise de Honduras seria a expressão dessa contrapartida.

CLÓVIS ROSSI

De trogloditas e radicais

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/10/09


SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está certo quando diz, como o fez em recente entrevista, que não haverá "trogloditas" na disputa presidencial de 2010. É claro que o conceito de "troglodita" varia de pessoa para pessoa. Há muita gente preconceituosa que acha o próprio Lula um troglodita incorrigível.
Do meu ponto de vista, o último troglodita que se apresentou a uma eleição presidencial foi Fernando Collor de Mello, em 1989. De lá para cá, pode ter havido candidatos rotulados de radicais, mas eu não confundo uma coisa e outra. Acho até que radicais são necessários, se a palavra for tomada pelo que significa e não pelo peso político que a ela passou a se atribuir.
Ir à raiz das questões (ser radical portanto) não só é necessário como é saudável, mais ainda em um país como o Brasil que prefere contornar o toco em vez de atacá-lo.
Ou, na melhor das hipóteses, encara os problemas devagar demais, o que tende a perpetuá-los e eventualmente agravá-los. Tome-se o caso da educação. Nos dois governos mais recentes, avançou-se claramente tanto em matéria de universalização como em aperfeiçoamento dos processos de avaliação, passando ainda por maiores possibilidades de acesso dos mais pobres à universidade.
Basta? Não, diria um radical. O problema da qualidade continua proporcionando ao Brasil vexame internacional atrás de vexame internacional, sempre que o país participa de provas globais.
É difícil resolver o problema ou avançar ainda que seja um pouco?
Claro que é. Mas é para isso que servem os radicais. Ou para pôr na agenda da próxima campanha eleitoral a necessidade de uma revolução (outra palavra radical) na educação ou, no mínimo, para forçar os não radicais, que são os que têm mais chances eleitorais, a serem um pouquinho menos mansos.

UM PUTEIRO EM HONDURAS

DORA KRAMER

Depois do carnaval

O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/10/09


Nos próximos quatro meses quase tudo o que os políticos e os partidos falarem sobre a eleição presidencial de 2010 será produto dos respectivos desejos, tentativa de despiste do adversário ou fruto de mera especulação. Só no fim de fevereiro, início de março é que começa a ser mais seguro comprar as declarações de suas excelências pelo valor que são vendidas por seus autores.

Não é por acaso que o governador de São Paulo – hoje o candidato a presidente do PSDB –, José Serra, resiste a todas as pressões, insiste em marcar aquela data para o anúncio da candidatura e ainda se dá a prudência de acrescentar: “Se candidatura houver”.

Tampouco é a toa que o presidente Luiz Inácio da Silva avisou ao provável candidato do PSB, deputado Ciro Gomes, que em fevereiro daria a ele uma resposta sobre a possibilidade de apoiar duas candidaturas presidenciais – a de Ciro e a de Dilma Rousseff.

Isso a preço de hoje, pois a lógica ainda aconselha a uma certa desconfiança acerca dos planos de Lula, apesar (ou até por causa) da assertividade das respostas do mundo oficial quanto à confiança do presidente na eleição de Dilma.

Portanto a mais recente novidade, sobre a hipótese de o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ser vice na chapa de Dilma pode se juntar às versões segundo as quais o governador de São Paulo teria a tendência a concorrer à reeleição por achar “muito difícil” bater Dilma na disputa presidencial; Lula torce pela vitória de Serra; o PT acha Aécio Neves um candidato quase imbatível, do mesmo jeito que em 2006 diziam preferir Serra a Geraldo Alckmin como oponente; Ciro Gomes seria vice na chapa da ministra da Casa Civil; Antonio Palocci na última hora entraria em cena; Dilma seria vice de Ciro; Fernando Henrique Cardoso seria absolutamente contrário à chapa “puro-sangue” no PSDB; o PMDB estaria fechado, sem retorno possível, com a candidatura de Dilma.

Nada, nesta altura, está fechado: ao contrário, está tudo em aberto no aguardo da passagem do tempo, do efeito das pesquisas, da negociação dos acertos regionais, das tentativas de conquistas de aliados, das ofertas, das reações aos balões de ensaio soltos no ar, dos prazos legais, dos humores, de todas as circunstâncias, notadamente as ligadas à redução de poder de fato do presidente em fim de mandato. Isso se ocorrer tudo dentro do institucionalmente normal no processo.

Ao fim de fevereiro faltará um mês para que os candidatos deixem os postos que ocupam na máquina federal. Só aí já se poderá ter uma boa alteração no cenário. Uma coisa, por exemplo, são as declarações feitas por um ministro no exercício de suas funções de subordinado direto do presidente sem a menor intenção de deixar o cargo antes do previsto. Outra bem diferente – ou até não – serão suas reais intenções na condição de candidato em busca de votos e do melhor espaço no Estado onde tentará conquistá-los.

O tratamento que se dá à questão da chapa pura Serra-Aécio no PSDB hoje é um, quando o governador de Minas é, para todos os efeitos, pré-candidato presidencial e, para efeito efetivo, o guardião dos votos do maior segundo colégio eleitoral do país. Mas só poderá ser outro quando abril se aproximar e, assim, vencer a data de Aécio Neves deixar o Palácio Tiradentes – seis meses antes da eleição –, anunciando seu destino político.

Bem como será só a partir daí é que se poderá pôr à prova a firmeza do compromisso firmado entre PT e PMDB para a composição da chapa presidencial.

Roncos da reação

O líder do PT na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza, é integrante da tropa contrária à emenda constitucional, de iniciativa popular, propondo o veto a candidatos condenados em primeira instância por homicídio, estupro, tráfico de drogas, racismo, uso da máquina e desvio de verbas públicas.

Para ele, a emenda pode ser comparada à lei do “velho Oeste, quando se pegava um suposto ladrão de galinhas e o levavam à forca”. Um sofisma, pois lá era rito sumário. Cá, há o inquérito policial, a denúncia do Ministério Público e a condenação do juiz.

Telhado

Se na próxima eleição quiserem levantar a bandeira da ética, dos bons costumes da lisura dos homens e das mulheres na política, os tucanos terão de trabalhar para explicar o passivo de processos judiciais e inquéritos policiais de José Camilo Zito, prefeito de Caxias, presidente regional do PSDB e, hoje, em alta cotação para disputar o governo do Rio de Janeiro em 2010.

De Gabeira a Zito é uma involução e tanto.

25ª hora

É hoje o último dia para filiação – incluídas as transferências de uma legenda para outra – partidária para quem quiser ser candidato a presidente, governador, senador ou deputado no ano que vem.

ANCELMO GÓIS

LEI EIKE

O GLOBO - 01/10/09


Solange Vieira, presidente da Anac, baixou portaria que impede a Infraero de ceder espaço nos hangares a empresas de fora do ramo da aviação.
A decisão frustra projetos de bacanas como Eike Batista. O empresário planejava ter uma área só para suas aeronaves no Santos Dumont.
FELIZ NATAL NO AR
Acaba amanhã o prazo de entrega de novas propostas para fornecimento de jatos à FAB. É a tal licitação disputada pela sueca Saab, pela americana Boeing e pela francesa Dassault, cujos caças Rafale são favoritos.
A ideia do ministro Nelson Jobim é que a definição do modelo saia antes do Natal.
LIQUIDAÇÃO REAL
Dom Pedro Carlos de Orleans e Bragança, o príncipe do Grão-Pará, do ramo de Petrópolis da família imperial, pôs em leilão ontem em São Paulo um quadro de 1888 e móveis dos séculos 17 e 18, de seu acervo.
A peça mais cara é a tela Abolição, de Victor Meirelles: R$ 380 mil, o lance mínimo.
BARATAS E CINEMA
Da diretora Betse de Paula (Casamento de Louise, entre outros), numa roda de cineastas, meio à brinca, meio a sério:
– Eu não tenho medo de barata, nem de de avião. Tenho medo é da Ancine.
É a Agência Nacional de Cinema que fiscaliza o setor.
AMOR IOIÔ
Adriano, o Imperador, retomou o namoro com a personal trainer Joana Machado.
HOTEL DO FUTEBOL
O Rio vai ganhar mais um hotel de qualidade, com 200 apartamentos.
É esse que a CBF vai construir na Barra. Será arrendado a uma bandeira hoteleira e aberto a hóspedes comuns nos períodos em que a seleção não estiver lá.
TOFFOLI FASHION WEEK
O advogado-geral da União, José Antônio Toffoli, 42 anos, conhecido pelas armações de óculos coloridas, adotou um visual mais sóbrio ao ser sabatinado ontem no Senado, depois de indicado para ministro do STF.
Além da armação de metal, Toffoli, que adora gravatas, pôs uma azul básica e terno escuro. Mas disse a amigos que, quando assumir, voltará a ser fashion.
TERRA DE LAMPIÃO
Serra Talhada, PE, terra de Lampião, terá domingo uma... parada gay. É a “Canga-gay”.
Foi pedido reforço à PM para evitar confusão com conservadores. Aliás, Lampião era nome do primeiro jornal gay do País, editado por Aguinaldo Silva.
O CONSELHEIRO
A Justiça do DF determinou ontem ao presidente da OAB nacional, Cezar Britto, que reemposse como conselheiro o advogado Técio Lins e Silva, que representou a Ordem no CNJ.
PRAZERES DISSIDENTES
A editora Garamond lança esta semana, por sua coleção sobre sexualidade do ponto de vista antropológico, o livro Prazeres dissidentes. As 600 páginas, entre outras coisas, trazem uma lista de novas categorias de salientes na noite do Rio. Algumas, acredite: barebackers (só fazem sem camisinha), sexy smokers (só transam fumando); abuso facial (quem... deixa pra lá), t-lovers (gostam de travestis) e boylovers (pedófilos que admiram crianças de longe). Meu Deus!

GOSTOSA

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Economia e arte

O GLOBO - 01/10/09


Sessenta e três anos depois da sua morte, John Maynard Keynes volta a ser atual, ou pelo menos volta a ser assunto. O padroeiro do estado intervencionista e filósofo do capitalismo responsável está presente em todas as discussões sobre a crise e suas soluções, e nunca um fantasma foi tão eloquente. Discute-se não se ele estava certo mas em que dosagem suas receitas são aplicáveis, hoje. E como ele voltou dos mortos especula-se, de novo, sobre a sua vida. Até que ponto o fato de ser um intelectual de fino trato, um amante da arte, frequentador dos salões de Bloomsbury em Londres (Virgínia Woolf, Lytton Strachey, aquela turma) influenciou suas ideias sobre economia? Talvez o que se manifestava como uma preocupação com a moral do capitalismo fosse uma preocupação estética. Ou talvez as duas coisas se completassem. Ao amoralismo do mercado Keynes antepunha as virtudes clássicas da arte: equilíbrio, sentido, humanidade. E bom gosto.
O romancista e ensaísta inglês John Lanchester tem escrito sobre economia e arte, mas comparando as rupturas na economia mundial que deram na crise atual com rupturas na história da arte. Assim, ele diz que a revogação (no governo Clinton) da lei promulgada depois da Grande Depressão que proibia bancos de serem financeiras teve o mesmo efeito na economia que o pós-moderno teve na literatura. Sem as regras antigas, tudo era permitido, e atividade bancária tradicional se misturava com o aventureirismo da especulação financeira como, na literatura pós-moderna, os estilos se misturam e a fronteira entre comédia e tragédia se dilui. Para Lanchester, a criação dos derivativos, ou da possibilidade de dinheiro produzir dinheiro numa escala nunca antes imaginada, e sem qualquer relação com indústria, comércio ou qualquer outro tipo de negócio concreto, equivale ao advento do abstracionismo na arte. Os derivativos são desassociados da realidade física do mesmo modo que um quadro abstrato é forma representando nada, ou só representando a si mesma.
Não sei que revolução artística Lanchester evocaria para comparar com casos estranhos como o da China, onde o comunismo promove o maior sucesso capitalista do momento, ou do Brasil, onde quem mais gosta do governo de origem popular são os banqueiros. Provavelmente o surrealismo.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Nenhum cidadão pode passar a vida aguardando uma sentença”
JOSÉ ANTONIO TOFFOLI, FUTURO MINISTRO DO STF, NA CCJ, SOBRE O LIMITE TEMPORAL DA JUSTIÇA

BRASIL NÃO ENVIA NOVO EMBAIXADOR A HONDURAS
O Ministério das Relações Exteriores está protelando o envio a Tegucigalpa do novo embaixador do Brasil, Mario Roiter, para que isso não seja interpretado como um reconhecimento do governo Lula ao governo de Roberto Micheletti. Roiter foi aprovado pelo Senado em junho. O ex-embaixador em Honduras Michael Neele não retorna ao país desde o acidente aéreo que sofreu em maio, no qual perdeu a mulher.
“CORONÉ” EM SEU LABIRINTO
Fazendo água nas bases, Tasso Jereissati (PSDB) tem dedicado mais tempo à campanha no interior cearense do que ao trabalho no Senado.
DEPUTADA ASSÍRIA
Assíria Lemos, ex-senhora Pelé, deve anunciar sua filiação ao PTC, em São Paulo, para disputar um mandato de deputada federal.
AGORA É DO PV
Termina hoje o prazo de 30 dias para o PT pedir de volta o mandato da senadora Marina Silva (PV-AC) no Tribunal Superior Eleitoral.
TROCA-TROCA
O PP ganhou ontem a filiação dos deputados federais Bispo Rodovalho (ex-DEM-DF) e Dr. Nechar (ex-PV-SP).
JUSTIÇA PRESERVA O SIGILO DO FILHO DE VILLELA
A Justiça do DF quebrou o sigilo telefônico da filha, da neta e do namorado desta, um perito da Polícia Federal, na investigação do assassinato a facadas do ex-ministro do TSE José Guilherme Villela, de sua mulher e da empregada, ocorrido há um mês, mas negou a quebra do sigilo de Augusto, filho das vítimas. A filha, Adriana, é a que mais colabora com a polícia, inclusive em depoimentos voluntários.
DEMORA
A Policia Civil do DF está intrigada com a demora da Brasil Telecom em liberar dados de quebra de sigilo telefônicos decretados pela Justiça.
ROTINA CONHECIDA
Indício de que a morte de José Guilherme Villela foi obra de quem conhecia a rotina das vítimas: ocorreu na hora da troca de vigilantes.
DOCE SABATINA
A oposição fez doce com suas “ressalvas” ao ministro José Antonio Toffoli para o Supremo Tribunal Federal. Mas o aprovou, na sabatina.
FORTES EMOÇÕES À VISTA
Garantia de um advogado que é amigo de José Antônio Dias Toffoli há 20 anos: “Se alguém pensa que ele será da bancada governista no STF, livrando a cara de mensaleiros, não perde por esperar”.
DE VÉSPERA, SÓ PERU
A torcida é grande, a farra de dinheiro no Brasil idem, mas os integrantes do Comitê Olímpico Internacional ainda não decidiram por Rio, Chicago, Tóquio ou Madri. É melhor esperar o resultado, amanhã.
VOA QUEM PODE
O presidente Barack Obama nem parece patriota: vai ficar menos de 24 horas em Copenhague defendendo Chicago 2016. O governador e o prefeito do Rio foram quase uma semana antes. Lula chegou ontem.
PALANQUE E PLATEIA
O PT corteja o cantor e comediante Moacyr Franco, que será candidato ao Senado em 2010 pelo Partido Social Liberal. Ele esteve em Brasília com Lula e com o presidente do PT, Ricardo Berzoini.
ZELAYA: LULA “NÃO SABIA”
Após o chanceler Celso Amorim, parece que o próximo filiado do PT será o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya. Garantiu ontem que nenhum deles, “nem Lula”, sabiam que ele queria voltar.
MAS NÃO ABUSA
O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), que gosta de processar falsas enfermeiras sexies em TVs e revistas, contratou, pagando mais, como a coluna informou, uma empresa de nome Bolina. Hum...
PROVOCAÇÃO GAY
Cidade natal de Lampião, Serra Talhada (PE) verá sábado, com perplexidade, sua primeira parada gay. O evento foi organizado ali só para desmoralizar aquela fortaleza do orgulho heterossexual.
ANVISA CEGA, SURDA...
O laboratório AstraZeneca, fabricante do Zoladex, confirma os efeitos colaterais negativos do medicamento, dependendo da dosagem. A dose vendida a brasileiras, de 10,8g, é proibida nos EUA por causar dores e menopausa irreversível. Mas, aqui, a Anvisa fez vistas grossas.
PENSANDO BEM...
...só tem um jeito de Manuel Zelaya sair da embaixada: com visita do pé-frio Lula.

PODER SEM PUDOR
POBRE GOSTA DE LUXO
A juventude do PDT do Rio promovia um “angu à baiana” na Rocinha, em 1982, quando José Colagrossi, candidato a deputado, chegou à favela dirigindo uma reluzente Mercedes – na época, um carro reservado apenas a milionários. Questionado, Colagrosssi explicou que aquela era a velha, porque a nova só usava em “eventos sociais”. E ainda teorizou:
– Como o pobre vai acreditar que eu, candidato, poderei ajudá-lo se chego aqui dirigindo um Fusquinha?

E NO PUTEIRO EM HONDURAS...

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Meirelles e Amorim põem BC e Itamaraty na campanha


- Estadão: Indústria precisará de US$ 400 bi para pré-sal


- JB: Rio concentra investimentos em transportes para 2016


- Correio: IPTU sem reajuste


- Valor: Real dispara com previsão de ingresso de US$ 25 bi


- Estado de Minas: Manobra valida multas da Guarda