segunda-feira, julho 13, 2009

INFORME JB

Lula e os leões

Vasconcelo Quadros

JORNAL DO BRASIL - 13/07/09

Cotado para substituir a leoa Lina Vieira (foto), Nelson Machado, secretário executivo da Receita Federal, só deixará de ser o novo leão se quiser. É ligado a José Dirceu e à área sindical do setor. Há duas explicações para a já anunciada exoneração da secretária: a queda na arrecadação e a multa imposta à Petrobras, que teria mexido com os brios do presidente Lula e do ministro Guido Mantega. Mas nenhuma delas é boa para o governo. A arrecadação caiu por causa da crise que Lula chamou de marolinha, e uma eventual retaliação à decisão da Receita contra a Petrobras seria uma descabida intromissão numa atividade de Estado e de alto interesse público. Lina se recolheu, mas quem a conhece acha que se não houver justificativa razoável, ela cai atirando. De perfil técnico, a secretária peitou no cargo ninguém menos que o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, que foi se queixar a Mantega.

Mais candidatos Problemas à vista

Odilon Neves Júnior, secretário de Recursos Humanos, e Valdir Simão, auditor federal e ex-presidente do INSS, também estão na disputa. Dos três, apenas Machado não é da casa. É originário da Fazenda paulista. Lula deve bater o martelo nos próximos dias, mas o parto não será fácil.

"Se a justificativa for técnica – o que não acredito – não se discute. Mas se for por causa do episódio da Petrobras, haverá barulho", alerta o presidente da Unafisco, Rogério Calil. A oposição e a base no Senado também vão reagir: Lina é ligada ao senador Garibaldi Alves (PMDB-RN) e teve o apoio da governadora Wilma de Faria, do PSB.

Homem-bomba

O ex-diretor do Senado Agaciel Maia está no limite. Tem dito a amigos que o relento já cobrou sua dívida. Lembra que serviu indistintamente aos 81 senadores e, se ficar mais encurralado do que está, pode puxar da gaveta atos secretos de outra natureza.

Alívio temporário

Um informe preliminar da CIA e do FBI está aliviando muita gente no circuito dos poderes, em Brasília. Os dois órgãos de informação e segurança mais bem aparelhados do mundo não estão conseguindo descriptografar os discos rígidos retirados de computadores do banqueiro Daniel Dantas. Para quem não lembra, os HDs armazenam a longa história do relacionamento nada republicano entre Dantas, parlamentares e autoridades do Executivo e Judiciário.

Sobrevivente

Interlocutor indicado pelo PCdoB para acompanhar as operações no Araguaia, o ex-deputado Aldo Arantes é sobrevivente da ação militar que enterrou definitivamente os sonhos da guerrilha. Ele foi preso em dezembro de 1976, momentos antes da execução dos membros do comitê central do PCdoB, em São Paulo, na ação que ficou conhecida como Chacina da Lapa.

Salvação

O futuro de José Sarney vai ser definido pela engenharia política de 2010 e depende do presidente Lula e do PT. Se prevalecer a orientação do ex-ministro José Dirceu, em vez de governador – ainda que Jaques Wagner possa ser reeleito na Bahia – o partido vai priorizar as candidaturas ao Senado para garantir a aliança que deu os dois mandatos ao presidente Lula.

O aviso

Zé baixou o centralismo democrático: "O palanque nacional tem que determinar o estadual. Não haverá como apoiar candidaturas sem o aval do presidente e da candidata", avisou no seu blog, empenhadíssimo em salvar Sarney. Tarso Genro e o ex-governador do Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, que se cuidem.

DANUSA LEÃO

O maior dos privilégios

FOLHA DE SÃO PAULO - DOMINGO - 12/07/09

NÃO DÁ PARA negar: existe no mundo uma classe de privilegiados. Aliás, uma não, duas: os que nascem privilegiados e os que se tornam privilegiados.
Os primeiros são os que nasceram bonitos, inteligentes, talentosos. Há como negar que Sophia Loren é uma privilegiada? Que Chico Buarque também, e dr. Albert Sabin, Pelé e outros, cada um na sua especialidade? Esses deveriam todo dia rezar e agradecer por terem nascido com esse dom que os torna especiais e merecedores da admiração do mundo em geral.
Privilegiados também são os que nasceram em famílias unidas, com uma situação financeira confortável, saúde, que puderam estudar e ter acesso às boas coisas da vida, o que é sempre bom; são também privilegiados, nos dias de hoje, as celebridades, o que pode querer dizer qualquer coisa. Mas qual a vantagem de ser um privilegiado? É que esses costumam ter abertas as portas para quase qualquer coisa, o que não é bom, mas ótimo. Alguns se esforçam para chegar lá. Esse lá pode ser qualquer coisa, mas o objetivo principal é um só: pertencer à privilegiada casta dos privilegiados.
Para eles não existem filas, os médicos, mesmo não tendo hora, ficam até mais tarde no consultório para atendê-los, os restaurantes sempre têm mesa, e os aviões costumam deixar alguns lugares vagos, se um deles resolver viajar naquele dia, naquela hora -um privilégio, não?
Esses não precisam nem dizer "sabe com quem está falando?" porque todos sabem, e se não souberem, seus assessores se encarregam de dizer; como eles não se ocupam dessas ninharias, têm sempre alguém que faça tudo por eles.
Essa é a razão da luta pelo poder político. Dificilmente você vai ver um deputado -se for senador, melhor ainda- na fila de embarque de um avião, por exemplo, ou em qualquer situação que os iguale ao comum dos mortais. Nem na fila para comprar entrada para o cinema, nem na porta de um restaurante no Dia das Mães, nem com o filho no colo num posto de saúde no dia da vacinação. Como eles fazem? Não sei, mas na vida deles tudo é fácil, e quanto mais poder eles têm, mais fácil é. Você já reparou que quem provou o gostinho nunca mais abre mão do famoso poder?
Pensando bem, a rotina na Câmara dos Deputados ou no Senado deve ser um tédio, por isso o plenário das duas Casas está sempre vazio, mesmo funcionando só de terça a quinta. Mas quem é deputado ou senador quer sempre ser reeleito, mais tarde ser presidente da Casa, depois governador, depois presidente da República. Não sei quem disse isso, mas nunca esqueci: que uma das coisas a que se acostumam, quando exercem o poder, é a nunca abrir uma porta. Existe sempre um assessor nomeado exclusivamente para fazer isso. Mas será tão penoso assim abrir uma porta?
Ter um jatinho à disposição, como tem Lula, também é bom, mas se só serve para levar o poderoso para reuniões em lugares que ele não escolheu, de que adianta?
Se as pessoas pensassem mais, batalhariam não para ter o poder banal, mas sim aquele que, no plano pessoal ou profissional, é o mais importante dos poderes: poder dizer não seja lá a quem for, na hora que tiver vontade.
Poder dizer não; esse é o maior privilégio que se pode ter na vida.

GOSTOSAS


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PAINEL DA FOLHA

Notório saber

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 13/07/09

Embora a base governista no Senado conte com o recesso para esfriar no nascedouro a CPI da Petrobras, a ser instalada amanhã, a oposição já começou a montar seu QG para tentar criar embaraços com os contratos da estatal. O PSDB convocou o ex-senador Antero Paes de Barros (MT), conhecido incendiário na época da CPI dos Bingos, para pilotar o ‘escritório’. A ideia é usar uma sala conjugada ao gabinete do senador Alvaro Dias (PSDB-PR), onde também serão instalados técnicos _já recrutados_ do Tribunal de Contas da União. Além disso, tucanos prepararam um blog para divulgar dados e se opor ao blog oficial que a empresa criou desde que a palavra CPI veio à tona.

Divisor - Apesar de uma ou outra voz isolada continuar prometendo levar a Fundação José Sarney para o âmbito da CPI, a ordem na oposição é clara: o que diz respeito ao senador é caso para o Conselho de Ética; a CPI é para investigar a Petrobras e o PT.

A festa... - Investigadas pelo Ministério Público da Bahia até o mês passado, as duas ONGs ligadas ao PT que gerenciavam verbas de patrocínio da Petrobras para festas de São João voltaram a receber dinheiro da estatal entre o final de maio e junho. A Aanor (Associação de Apoio e Assessoria a Organizações Sociais do Nordeste) e a Fundação Galeno D’Alvelírio firmaram contratos de R$ 815 mil e R$ 986 mil, respectivamente.

...continua - Em nenhum dos casos houve licitação. Em junho, a promotoria determinou que as comarcas do interior do Estado instaurassem investigações sobre o uso da verba pelas prefeituras. O MP também ouviu o assessor da presidência da Petrobras Rosemberg Pinto, suspeito de usar critérios políticos na destinação dos recursos.

Fontes - Não foi só de patrocínios da Petrobras que a Fundação José Sarney se abasteceu nos últimos anos. A entidade também recebeu repasses diretos de diferentes autarquias em Brasília, como o Ministério da Cultura, que enviou R$ 83,4 mil em 2002 para ‘recuperação do acervo’ de áudio e vídeo.

Pop - Já se nota no Congresso uma disputa informal para ver quem reúne mais seguidores no Twitter. ‘Tem políticos cujos assessores inflam a quantidade de seguidores com métodos pouco recomendáveis’, denuncia o senador e ‘twiteiro’ Delcídio Amaral (PT-MS).

Do coração - Dilma Rousseff sabe que precisará de um vice do PMDB, mas, se pudesse escolher, o parceiro de chapa seria Ciro Gomes (PSB).

Sem amarras - Do monstrengo de regras eleitorais aprovado na Câmara, juízes e advogados destacam três pontos destinados a livrar os políticos da fiscalização: permissão de candidatura de quem teve rejeitadas as contas da campanha anterior; brecha para que candidato inelegível no momento do registro possa concorrer enquanto tenta obter liminar; e 5 de março como data-limite para resolução do TSE.

PT do amanhã 1 - Não bastasse o receio da eventual candidatura de Marta Suplicy à Câmara, que poderia sugar votos de atuais expoentes, um time de ‘bichos papões’ assusta os deputados do PT.

PT do amanhã 2 - Entre os pré-candidatos de peso estão os ex-prefeitos José de Filippi Júnior (Diadema) e Newton Lima Neto (São Carlos) e os deputados estaduais Vanderlei Siraque, Carlinhos Almeida e Vicente Cândido.

Árbitro - O grupo do ex-ministro Humberto Costa tem maioria e deve ganhar a eleição para o diretório do PT em Pernambuco, mas a palavra final sobre o candidato ao Senado será do governador Eduardo Campos (PSB). E ele sabe que o ex-prefeito João Paulo agrega mais à chapa.

Tiroteio

Depois dessas denúncias quero ver alguém do governo ainda ter coragem de dizer que é a oposição quem quer privatizar a Petrobras.

Do senador SÉRGIO GUERRA (PE), presidente do PSDB, sobre as suspeitas de desvio de verba da Petrobras repassada à Fundação José Sarney.

Oportunidades - A visita que o presidente de Moçambique, Armando Gebuza, fará ao Brasil inclui jantar no dia 19, no Copacabana Palace, com Roger Agnelli (Vale), David Feffer (Suzano) e Gilberto Tomazoni (Sadia).

Contraponto

Tamanho P

A Comissão de Infraestrutura do Senado debatia dias atrás a modernização dos aeroportos, em audiência com a presidente da Anac, Solange Vieira.
A certa altura, os presentes resolveram se queixar do não cumprimento da famosa promessa do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de ampliar o espaço entre os assentos dos aviões. Flexa Ribeiro (PSDB-PA) tratou de ilustrar o problema:
_Continua tão apertado que o Heráclito resolveu fazer cirurgia de redução de estômago para poder viajar!

ELIO GASPARI

A Bolsa IPI custará 11 anos de Senado


Folha de S. Paulo - 12/07/2009 - DOMINGO


Num só dia, os senadores fizeram um buraco de pelo menos R$ 34 bilhões na bolsa da Viúva

ÁGUA MOLE em bolso alheio tanto bate até que fura. Em março passado, os interessados na criação da Bolsa IPI tentaram contrabandear numa medida provisória que perdoava pequenas dívidas com a Receita a concessão de um crédito tributário de 15% sobre o valor de todas as exportações de mercadorias feitas até dezembro de 2002. Não houve acordo com o G8 da Câmara e morreu na praia uma emenda que estava no Senado. O G8 é um buquê de caciques de todos os partidos. Às vezes tem oito barões, mas pode ter tantos quantos forem necessários.
Na terça-feira, com o beneplácito do Ministério da Fazenda, os senadores ligaram o "gato" da Bolsa IPI na corrente da MP do programa Minha Casa, Minha Vida, destinado a famílias com renda de 3 a 5 salários mínimos. Desta vez o drible deu certo. Ele foi armado em sucessivas reuniões de empresários, sábios da ekipekonômica, pelo menos um ministro do STF e parlamentares, tanto da base do governo como da oposição. A emenda usada para encaixar o contrabando era da senadora tucana Lúcia Vânia. Como se fossem passageiros do Oriente Expresso, todos esfaquearam a Viúva.
Técnicos da Receita estimam que o contrabando aprovado pelos senadores custe R$ 220 bilhões, dinheiro suficiente para construir 1,5 milhão de imóveis de R$ 150 mil para o Minha Casa, Minha Vida. Noutra conta, seriam apenas R$ 31,4 bilhões, ou 210 mil casas. O "gato" vai para a Câmara.
Trata-se de um litígio que espera julgamento no STF. A boa educação sugeriria que se esperasse a decisão da corte. Se há pressa, ou interesse em fazer um acerto de contas fora do tribunal, o professor Guido Mantega poderia redigir uma nova MP, tratando só do crédito de IPI, sem contrabando. No mérito, os empresários podem ter o direito dos anjos mas, no método, tiveram a dissimulação dos demônios.
Em tempo: o Senado custa à Viúva R$ 2,7 bilhões anuais. Com o dinheiro da Bolsa IPI, no barato, seria possível dar mandatos de 11 anos aos 81 senadores, mantendo todos os empregos das parentelas e dos agaciéis. Se os R$ 220 bilhões calculados na Receita fazem sentido, o benefício valeria por 81 anos. Assim, o Senado se tornaria vitalício e hereditário.

MURO TOTAL
O PSDB corre o risco de desaparecer. Parece piada, mas as cartas de seu suicídio estão na mesa.
Até hoje José Serra não disse que é candidato a presidente da República. Admita-se que ele prefira tentar uma reeleição certa para o governo de São Paulo, esquivando-se pela segunda vez de um confronto que pode levá-lo ao sol e ao sereno da derrota. Nesse caso, a vaga seria de Aécio Neves. E se ele preferir uma eleição certa para o Senado?
Nas comemorações dos 15 anos do Plano Real, os grão-tucanos organizaram eventos e desfilaram seu notáveis com tamanha nostalgia que pareciam barões do Império festejando, em 1903, os 15 anos da Abolição.

MADAME NATASHA
Madame Natasha adora os artigos do professor Celso Lafer. Enquanto os lê, pratica o passatempo de contar as citações que o ex-chanceler faz de Norberto Bobbio, de Hanna Arendt e de si próprio.
A senhora concedeu uma de suas bolsas de estudo a Lafer, membro da Academia Brasileira de Letras, para curá-lo de uma propensão ao anarcoglotismo.
Numa só entrevista, ele falou em português, inglês e italiano.
Coisas assim:
"É preciso equacionar a complexidade da agenda internacional identificando alguns clusters de temas". Poderia ter dito "conjunto de temas".
"High politics" is o mesmo that "alta política".
Natasha teve dificuldade para entender o professor quando ele disse que na Itália a Igreja Católica cobra "a recapitalização do prestígio do governo".
Madame acha que ele quis dizer "recuperação do prestígio do governo".

A BANCA TEM UM FRACO PELO STF EM FÉRIAS

Em dezembro passado, às vésperas do recesso do Supremo Tribunal Federal, a banca tinha pronto um pedido de liminar contra uma jurisprudência do STJ, que mandava devolver às vitimas do Plano Verão o dinheiro tungado nas suas contas de poupança, por ordem do governo. Quem tinha mil cruzados novos numa caderneta em 1989 poderá vir a receber, na média, uma compensação de R$ 610. Os bancos dizem que a decisão do STJ custaria R$ 100 bilhões aos seus cofres. Noutra conta, seriam R$ 29 bilhões.
Com o recesso de fim de ano, o pedido iria para a mesa do ministro Gilmar Mendes. Caso ele concedesse a liminar, o tribunal pleno só julgaria o caso em fevereiro. O presidente do Supremo não julgou o pedido e, em março, ele foi negado pelo ministro Ricardo Lewandowski.
A banca tivera nove anos para entrar com o pedido, mas resolveu fazê-lo, sem sucesso, no lusco-fusco do recesso. Pois não é que tentaram de novo? Na quarta-feira, com o STF em férias, repetiu-se o lance, com outro tipo de recurso.
Não se sabe por que, mas os banqueiros têm um fraco pelo Supremo em férias. Perderam tempo, pois Gilmar Mendes decidiu que ele só venha a ser apreciado depois das férias, pelo ministro Lewandowski e pelo tribunal pleno.
Falhou a lei de Gentil Cardoso. Quem se deslocou não recebeu e quem pediu não teve preferência.

VOLTAS DA VIDA
Em 2002, durante o golpe fracassado contra Hugo Chávez, o diplomata americano Hugo Llorens, estava no olho do furacão, trabalhando na assessoria de segurança nacional da Casa Branca. Ele era o responsável pela região andina.
Agora Llorens é o embaixador americano em Tegucigalpa, deu guarida à família do presidente Zelaya e foi para a linha de frente da reação ao golpe.
Em setembro, quando o embaixador chegou a Honduras, Zelaya fez demagogia à sua custa, recusando-se a recebê-lo para a entrega de credenciais, em solidariedade ao presidente Evo Morales, que expulsara o embaixador americano da Bolívia.

EREMILDO, O IDIOTA
Além de cretino, Eremildo é doutor em anedotas e champanhota. Ele se assombrou com Enrique Cortez, o então chanceler do governo golpista de Honduras que chamou o companheiro Obama de "negrinho que não sabe nada".
O doutor desculpou-se dizendo que "a expressão não teve, de nenhuma forma, uma intenção ofensiva".
Eremildo é um idiota, mas acha que Cortez agravou o insulto, pois só não haveria intenção de ofender Obama se ele pudesse sustentar que os negrinhos (todos eles) não sabem de nada.

ALEGRIA NO CIRCO
A Câmara aprovou um mecanismo que permite aos cidadãos em trânsito no território nacional votar na eleição do presidente da República.
Os doutores haviam esquecido que os brasileiros residentes no exterior podiam votar.
Essa inovação legislativa deve ser creditada a um cidadão do Rio de Janeiro, o palhaço profissional Biriba que, apresentando-se pelo Brasil afora, chegou aos 60 anos sem jamais ter votado para presidente.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO


RUY CASTRO

Acorrentados

FOLHA DE SÃO PAULO - 13/07/2009


A garota passou lentamente por mim no Leblon, mas eu já a vinha observando de longe. Parecia muito insegura, o andar instável, como se lutasse contra o vento para não adernar. Mas não havia vento. E não era embriaguez. Os olhos grandes e pretos estavam fixos em algo à sua frente, não como uma meta a atingir – apenas fixos. Bonita, classe média, 20 anos, se tanto.

O casaquinho de lã preta, a roupa fechada e a saia comprida contrastavam com a glória solar do calçadão, às 9h de sexta-feira passada. E a cor de cera, as olheiras de rolha queimada e o piercing no nariz indicavam tudo, menos uma pessoa matinal. Era mais como se sua noite estivesse terminando. Ou não fosse terminar nunca, enquanto ela tivesse crack para queimar.

O futuro da moça é previsível. Em Cruz Alta (RS), na semana passada, um jovem de 17 anos implorou à mãe que o acorrentasse à cama, para impedi-lo de sair para comprar crack. Não foi o primeiro caso – em Araraquara (SP), em 2008, houve outro igual, com um garoto de 15 anos. Ao serem libertados pelo Conselho Tutelar, ambos passavam por uma síndrome de abstinência que poderia levá-los à morte (por parada cardíaca ou respiratória) ou a matar alguém.

Quase sempre, são as mães, desesperadas, que acorrentam os filhos à cama, à força – conseguem fazer isso porque eles já estão muito fracos para reagir. Nos últimos dois anos, os jornais registraram histórias como essas, envolvendo dependentes de crack em Maceió, Aracaju e Porto Alegre. Na mesma Porto Alegre, em abril último, a pior delas: uma mãe matou acidentalmente com um tiro o filho de 24 anos, que a agredia, lutando para sair.

No Brasil, o crack, que começou por São Paulo há 15 anos, custou, mas ganhou ocupação nacional. Já é uma epidemia, e o pior ainda está por vir.

DORA KRAMER

Dias de conquista

O ESTADO DE SÃO PAULO - 13/07/09

Vestido na saia justíssima que o presidente Luiz Inácio da Silva encomendou para a bancada do Senado, o PT tem sido obrigado a se equilibrar entre as conveniências imediatas do governo e os planos eleitorais de um partido que daqui a 14 meses joga o seu destino em votos.
É um serviço complicado e, sobretudo, mal compreendido. E pior, com tarefas até mais difíceis que sustentar a insustentável majestade do presidente do Senado, José Sarney, a serem cumpridas daqui até a eleição de 2010. O líder no Senado, Aloizio Mercadante, reconheceu numa frase dita lá pelo meio de um dos vários discursos para justificar o vaivém do partido no caso de Sarney, que “o PT não tem como sair bem dessa história”.
É uma impressão generalizada dentro do partido. Assim como é consenso entre os petistas que o resultado da prova foi desastroso, mas que não havia outro jeito a não ser atender aos ditames do presidente da República, a única voz de comando e fonte de poder em torno da qual se reúne o PT.
O dilema posto era o seguinte: se rifasse Sarney, o PT teria o aplauso imediato do eleitorado, mas se arriscaria a criar um pretexto para o PMDB aumentar a força da faca que mantém permanentemente apontada para o peito do governo.
Ao aceitar o servir de muro de arrimo - até porque não teria como romper com o presidente, pois dele emana seu poder -, assume um desgaste de pronto, mas aposta na estabilização da aliança política com efeitos benéficos mais adiante. Na sustentação à candidatura de Dilma Rousseff, por suposto.
Mas a questão é até que ponto vale o sacrifício de uma aposta que, em se tratando de PMDB, é sempre um salto no escuro. Qual o maior prejuízo, o político ou o eleitoral? E as perdas decorrentes deste, não podem anular os eventuais ganhos daquele?
Na avaliação de petistas mais pensantes que diletantes esse tipo de balanço não caberia fazer no caso. Na visão deles, sem saída. Embora considerem que o “zigue-zague” foi mal conduzido. Já sobre outros equilibrismos a que o PT será submetido, há divergências em relação ao que o presidente Lula considera a melhor solução.
Lula, por exemplo, está convencido de que vale a pena o PT abrir mão de disputar governos de Estados importantes em favor dos candidatos do PMDB. Sob o seguinte argumento: é mais importante o PT apostar na eleição de uma grande bancada parlamentar, principalmente de senadores, do que conquistar governos de Estados, já que a tendência dos governadores é sempre a de se compor com o Planalto por razões administrativas.
Embora o raciocínio faça sentido em tese, na prática as coisas não são tão esquemáticas. Primeiro, porque se, em princípio, a cessão de direitos ao PMDB seja um fator de harmonia, torna o PT ainda mais refém do parceiro.
Em segundo lugar, nada assegura a submissão automática dos governadores. Em terceiro, a disputa eleitoral e a conquista de espaços de poder é a razão de ser de um partido que se pretende influente. Em quarto lugar, há as vontades partidárias regionais às quais nem sempre a direção nacional tem condições de se impor O trauma da intervenção nacional no PT do Rio de Janeiro, que dizimou o partido no Estado, está vivo em todas as mentes.
E finalmente, e mais importante, a receita acima só dará bom prato se o PT ganhar a Presidência da República. Se perder, terá posto seu patrimônio nas mãos do PMDB para vê-lo, ato contínuo, aderir ao adversário vencedor.

ESCOLA
Os senadores Arthur Virgílio e Heráclito Fortes criticam quando o presidente Lula confunde crítica com agressão, relatos jornalísticos com conspiração, mas navegaram as mesmas águas ao reagir na sexta-feira contra reportagem da revista inglesa The Economist sobre a “casa de horrores” em que se transformou o Senado brasileiro.
Fortes chamou a revista de “elitista e preconceituosa” e pediu aos jornalistas respeito “à autonomia dos países”. Virgílio se juntou a ele lembrando acontecimentos recentes no parlamento britânico que revelaram “práticas típicas de países que não chegaram ao desenvolvimento democrático pleno”. Se o soneto do Senado reproduzido pela revista já é ruim, muito pior ficou a tentativa de emenda dos nobres senadores.
Abre de novo espaço à comparação entre a maneira inglesa e o modo brasileiro de os parlamentares lidarem com suas mazelas. Sem falar na natureza jeca da patriotada. Lá, o presidente da Câmara dos Comuns afastou-se aos primeiros acordes do escândalo de gastos irregulares, verbas extras e auxílios indevidos pagos a seus pares. Sem ter sido envolvido em denúncia alguma, mas por ter se oposto à liberação de informações sobre os gastos.
Ficou com a pecha de defensor dos abusos e, por isso, renunciou. Aqui, nem certidão de culpa passada em cartório do céu consegue demover uma só excelência de continuar agarrada às benesses paradisíacas do cargo.

O IDIOTA

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: Saúde: Fundação estatal poderá modernizar 2 mil hospitais


- Folha: Procuradoria multa doadores eleitorias em 390 milhões


- Estadão: Multinacionais retomam investimentos no Brasil


- JB: A violência desce o morro


- Correio: Senado gasta R$ 1 milhão ao ano com time reserva


- Valor: Bancos médios captam R$ 9,1 bi e afastam crise


- Jornal do Commercio: Sport vence e sai da degola

domingo, julho 12, 2009

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Uma novidade atrás da outra

O GLOBO - 12/07/09



Não sei por onde começar o primeiro relatório das novidades aqui da ilha, tão ansiosamente aguardado por vocês.


Encaro com seriedade minhas responsabilidades como correspondente especial e, assim que cheguei, montei meu centro de operações. Levei apenas uma semana para me instalar, tempo considerado muito bom, até porque houve a questão do sinal da conexão com a internet. Antes da viagem, eu tinha me certificado de que disporia de conexão com a internet, indispensável para meus despachos. Assim que me acomodei, porém, o sinal fugiu, ninguém sabia para onde. Segundo Beto Atlântico, que foi me receber no aeroporto, o sistema tomou um choque, ao ser solicitado a funcionar. Uma coisa era ele estar aqui para mostrar às visitas, outra é o funcionamento, uma não tem nada a ver com a outra. Depois de vários dias, conseguiram encontrá-lo e capturá-lo já para lá de Santo Antônio de Jesus e ontem ele foi persuadido a trabalhar. Não está muito entusiasmado com a perspectiva, mas se resignou, depois que eu prometi que usaria os serviços dele no máximo duas horas por dia. Esquema puxado, notadamente para um sinal ainda novo e inexperiente, mas acho que vai dar para ele aguentar.


Já quanto a mim, não tenho tanta certeza. Por mais que eu não queira, parece que a radioatividade vai me pegar de novo. Quase não consigo ir ao Mercado na quarta de manhã, quando iniciei minha busca de notícias. Já dia alto, praticamente sete horas, quem disse que eu queria me levantar da cama? Daqui onde estou para o Mercado é uma caminhada de uns dez minutos e a perspectiva de fazê-lo me deixou não somente inquieto, mas exausto por antecipação.


Felizmente, sou amigo de Beto Atlântico, rico milionário quase tanto quanto Gugu Galo Ruço, que botou um dos veículos de sua frota à minha disposição. Cansa um pouco dizer ao motorista qual o meu destino toda vez que entro no carro, mas venho resistindo na minha postura de não medir sacrifícios no cumprimento do dever.


Ainda na saída, enquanto me preparava psicologicamente para a trabalheira de entrar no carro e viajar para o Mercado, me apareceu Xepa, minha principal fonte quanto a assuntos de pescaria a correlatos. Não sei se vocês se recordam de que Xepa me falou de um amigo seu que, pescando peixe miúdo com uma vara de bambu, fisgou um belo tatu, história aparentemente fantasiosa, mas garantida por Xepa, que nunca teve fama de mentiroso e é um cidadão exemplar. Indaguei se haviam fisgado outro tatu anfíbio na minha ausência, mas ele me disse que não, embora esse mesmo amigo jurasse que, depois do tatu, quase pegou uma galinha de Angola com o mesmíssimo anzol, mas ela foi embora já na flor d'água. Alguma coisa me diz que esse amigo de Xepa vive fisgando tatus regularmente e não confessa por medo do Ibama. Anoto o assunto para uma futura reportagem e o carro parte finalmente para o Mercado, onde já me aguardavam, para surpresa minha, Zecamunista e Toinho Sabacu, que vieram a meu encontro. Estavam ambos aparentando alguma preocupação, sobre a qual logo perguntei.


— É verdade que você veio aqui para trabalhar? — perguntou Zecamunista, assim que concluímos os apertos de mão e abraços. — Eu não quis acreditar, mas tenho de perguntar a você, para ter certeza.


— É, vim para trabalhar, sim.


— Veja se ele está com febre — disse Toinho. — Isso não é normal. A última vez em que ele trabalhou eu lembro muito bem, foi em 58, quando o avô dele pediu a ele para tirar umas fotos aqui da ilha e ele quase desmaiou no fim do dia. Deve ser alguma coisa que ele pegou nessas viagens dele.


— É, deve ser. Mas passa, a gente arranja uma boa rezadeira para ele.


— Mas, Zeca, você não é comunista e materialista? Como é que acredita em rezadeiras? — Comunista, mas não fanático, me respeite. Se tivessem feito um bom descarrego no Kremlin, duvido que essa sem-vergonhice de perestroika e glasnost tivesse colado. Eu mando fazer uma reza dialética em você, duvido que não funcione.


Marquei a rezadeira, conversei mais um pouco e fui completar a visita inicial no Bar de Espanha. Logo ao chegar, notei o magnífico telão agora instalado e parabenizei Espanha.


— É, eu comprei eche negóchio — me disse ele. — Fiado, a chente compra até capim.


— Mas isso deve aumentar a freguesia, não é, não? — Aumenta nada. Chó quem achiste é Tainha e achim mesmo chomente em dia de futebol.


— Tainha? Quem é Tainha? — É um cachorro que deu para aparecher aqui. O pechoal diz que ele é comentarista de futebol.


— E cadê esse cachorro, Espanha? Deve ser muito interessante.


— Ah, não chei, ele só apareche mesmo para ver o futebol.


Claro, eu não podia deixar esse furo de reportagem escapar. Uma entrevista com esse cachorro seria coisa de parar as rotativas e até sair no "Fantástico".


Mas não achei o cachorro, só achei Xepa.


Bem, se Xepa não soubesse do paradeiro do cachorro, ninguém mais saberia.


Tive, contudo, uma decepção.


— Ah, mentiram para você — me disse Xepa. — O cachorro não comenta nada, ele só late na hora em que o Bahia faz um gol e, se o Bahia perder, fica de cabeça quente e morde quem curte com a cara dele, é um torcedor normal.


Esse pessoal exagera muito.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Drimtims

O GLOBO - 12/07/09

Os drimtims não costumam dar certo. Times de sonho geralmente só funcionam mesmo em sonho. Um exemplo famoso disto foi o time de basquete dos Estados Unidos que disputou as primeiras Olimpíadas em que permitiram a participação de jogadores profissionais. Uma seleção dos melhores jogadores em atividade na liga de basquete profissional dos Estados Unidos era a definição de um drimtim. Acho até que foi com eles que nasceu a expressão. Na teoria, os americanos não teriam adversários nas Olimpíadas. Só deixariam de vencer todos os seus jogos com diferença de trinta pontos ou mais por distração ou piedade. E o drimtim americano não ganhou o ouro do basquete naquelas Olimpíadas. Ninguém sabe o que aconteceu. Na teoria o time era imbatível. Mas, como já se disse, teoria não pega rebote.


O Real Madrid teve mais de um drimtim na sua história. O último que formou também ficou na teoria. Não foi exatamente um fracasso, mas nunca jogou como nos sonhos da sua torcida. Porque a promessa do drimtim é a perfeição, uma superioridade tão grande que quase torna o jogo supérfluo: o time já ganha na escalação. No cara ou coroa o adversário já está perdendo de três a zero. Teoricamente, o novo drimtim do Real Madri estaria dispensado de disputar qualquer campeonato, seria proclamado campeão de tudo só pelo seu poder de compra. Com a torcida gritando, além do nome dos jogadores favoritos – “Kaká! Kaká!”, “Cristiano Ronaldo! Cristiano Ronaldo!” – “Tesoureiro! Tesoureiro!”

Por que os drimtims raramente cumprem sua promessa? Talvez porque junto com jogadores que se equivalem na qualidade os clubes também comprem egos que se parecem, e se chocam. Ou então porque a expectativa é sempre maior do que a realidade, por melhor que esta seja.


ALA ESQUERDA

O Internacional tinha um ponteiro-esquerdo excepcional, o Chinezinho. Isto na época em que existiam ponteiros. Chinezinho depois foi para o Palmeiras e acabou na Itália, onde, acho eu, vive até hoje. Mas quando ainda estava no Inter, trouxeram para jogar ao seu lado nada menos do que o meia-esquerda da seleção uruguaia campeã do mundo em 50, Julio Perez. E então nos convencemos do seguinte: teríamos a melhor ala esquerda do mundo. Uma convicção que não sobreviveu ao primeiro jogo do uruguaio. Tinham comprado o nome Julio Perez, esquecidos que a glória do homem estava longe e ele não tinha mais idade para jogar nem futebol de veteranos. Mas por um breve e cintilante momento, tivemos uma ala esquerda de sonho.

GOSTOSA


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DORA KRAMER

Dias de conquista

O ESTADO DE SÃO PAULO - 12/07/09

Vestido na saia justíssima que o presidente Luiz Inácio da Silva encomendou para a bancada do Senado, o PT tem sido obrigado a se equilibrar entre as conveniências imediatas do governo e os planos eleitorais de um partido que daqui a 14 meses joga o seu destino em votos.
É um serviço complicado e, sobretudo, mal compreendido. E pior, com tarefas até mais difíceis que sustentar a insustentável majestade do presidente do Senado, José Sarney, a serem cumpridas daqui até a eleição de 2010. O líder no Senado, Aloizio Mercadante, reconheceu numa frase dita lá pelo meio de um dos vários discursos para justificar o vaivém do partido no caso de Sarney, que “o PT não tem como sair bem dessa história”.
É uma impressão generalizada dentro do partido. Assim como é consenso entre os petistas que o resultado da prova foi desastroso, mas que não havia outro jeito a não ser atender aos ditames do presidente da República, a única voz de comando e fonte de poder em torno da qual se reúne o PT.
O dilema posto era o seguinte: se rifasse Sarney, o PT teria o aplauso imediato do eleitorado, mas se arriscaria a criar um pretexto para o PMDB aumentar a força da faca que mantém permanentemente apontada para o peito do governo.
Ao aceitar o servir de muro de arrimo - até porque não teria como romper com o presidente, pois dele emana seu poder -, assume um desgaste de pronto, mas aposta na estabilização da aliança política com efeitos benéficos mais adiante. Na sustentação à candidatura de Dilma Rousseff, por suposto.
Mas a questão é até que ponto vale o sacrifício de uma aposta que, em se tratando de PMDB, é sempre um salto no escuro. Qual o maior prejuízo, o político ou o eleitoral? E as perdas decorrentes deste, não podem anular os eventuais ganhos daquele?
Na avaliação de petistas mais pensantes que diletantes esse tipo de balanço não caberia fazer no caso. Na visão deles, sem saída. Embora considerem que o “zigue-zague” foi mal conduzido. Já sobre outros equilibrismos a que o PT será submetido, há divergências em relação ao que o presidente Lula considera a melhor solução.
Lula, por exemplo, está convencido de que vale a pena o PT abrir mão de disputar governos de Estados importantes em favor dos candidatos do PMDB. Sob o seguinte argumento: é mais importante o PT apostar na eleição de uma grande bancada parlamentar, principalmente de senadores, do que conquistar governos de Estados, já que a tendência dos governadores é sempre a de se compor com o Planalto por razões administrativas.
Embora o raciocínio faça sentido em tese, na prática as coisas não são tão esquemáticas. Primeiro, porque se, em princípio, a cessão de direitos ao PMDB seja um fator de harmonia, torna o PT ainda mais refém do parceiro.
Em segundo lugar, nada assegura a submissão automática dos governadores. Em terceiro, a disputa eleitoral e a conquista de espaços de poder é a razão de ser de um partido que se pretende influente. Em quarto lugar, há as vontades partidárias regionais às quais nem sempre a direção nacional tem condições de se impor O trauma da intervenção nacional no PT do Rio de Janeiro, que dizimou o partido no Estado, está vivo em todas as mentes.
E finalmente, e mais importante, a receita acima só dará bom prato se o PT ganhar a Presidência da República. Se perder, terá posto seu patrimônio nas mãos do PMDB para vê-lo, ato contínuo, aderir ao adversário vencedor.

ESCOLA
Os senadores Arthur Virgílio e Heráclito Fortes criticam quando o presidente Lula confunde crítica com agressão, relatos jornalísticos com conspiração, mas navegaram as mesmas águas ao reagir na sexta-feira contra reportagem da revista inglesa The Economist sobre a “casa de horrores” em que se transformou o Senado brasileiro.
Fortes chamou a revista de “elitista e preconceituosa” e pediu aos jornalistas respeito “à autonomia dos países”. Virgílio se juntou a ele lembrando acontecimentos recentes no parlamento britânico que revelaram “práticas típicas de países que não chegaram ao desenvolvimento democrático pleno”. Se o soneto do Senado reproduzido pela revista já é ruim, muito pior ficou a tentativa de emenda dos nobres senadores.
Abre de novo espaço à comparação entre a maneira inglesa e o modo brasileiro de os parlamentares lidarem com suas mazelas. Sem falar na natureza jeca da patriotada. Lá, o presidente da Câmara dos Comuns afastou-se aos primeiros acordes do escândalo de gastos irregulares, verbas extras e auxílios indevidos pagos a seus pares. Sem ter sido envolvido em denúncia alguma, mas por ter se oposto à liberação de informações sobre os gastos.
Ficou com a pecha de defensor dos abusos e, por isso, renunciou. Aqui, nem certidão de culpa passada em cartório do céu consegue demover uma só excelência de continuar agarrada às benesses paradisíacas do cargo.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Quero é que o Irã pense o que pensa o Brasil e o que faz o Brasil”
PRESIDENTE LULA, AO REVELAR O QUE PENSA SOBRE A POSIÇÃO DO IRÃ EM RELAÇÃO À ENERGIA NUCLEAR.

ASPONE NO EXTERIOR GANHAVA ‘HORAS EXTRAS’
Além dos salários do Senado enquanto estudava teatro em Barcelona, o funcionário Carlos Alberto Nina Neto também embolsava “horas extras”. Pelas normas da Casa, esse tipo de pagamento só pode ser feito após um superior – no mínimo, o chefe de gabinete – atestar a prestação do serviço extraordinário. O aspone é lotado no gabinete do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que prometeu ressarcir o Senado Federal.
VAI RESSARCIR
Arthur Virgílio não fugiu à responsabilidade: disse a esta coluna que “não importa o valor, vou ressarcir o Senado”, até vendendo seus bens.
NO BEM BOM
E o deputado Edmar Moreira, hein? Livre, leve e solto. Em seu castelo, claro, que nunca lhe pareceu tão belo.
TEU NOME É SATANÁS
Bem-humorado, o deputado Ciro Gomes diz que faz aliança até com o Satanás se for para fazer a obra de Deus”. Referia-se a Paulo Maluf.
BOCA DO POVO
Já se encontram nas feiras do Nordeste revistinhas de cordel sobre a morte do rei do pop, Michael Jackson.
A HISTÓRIA SECRETA DA ‘OPERAÇÃO VENTURINI’
Em 1984, os EUA decidiram invadir o Suriname, para impedir que Cuba o fizesse, e pediram ajuda ao Brasil, com paraquedistas ocupando o aeroporto da capital. O presidente João Figueiredo teve ideia melhor e de custo menor: ajudar o país, à beira do colapso após se livrar da colonização holandesa. A secretíssima “Operação Venturini”, uma dos melhores casos da espionagem brasileira, agora é relatada em livro.
OPERAÇÃO V
O relato romanceado da Operação Venturini é só uma história do livro “Zona de retaguarda”, de Enio Gomes Fontenelle, que participou dela.
NOME DE BATISMO
A operação se chamou “Venturini” porque o general Danilo Venturini foi quem negociou com o Suriname a “ocupação” militar pacífica brasileira.
PELA INTERNET
O livro de Enio Fontenelle, especialista em comunicações e monitoramento, pode ser obtido no site www.clubedeautores.com.br.
DEPUTADOS TRABALHANDO
Após aprovar a profissão de mototaxista, a Câmara votará ouro projeto de transcendental relevância, já aprovado nas comissões: regulamenta a profissão de repentista. Só falta definir se precisa de diploma.
AL MARE
Processado pela morte de cinco pacientes e a mutilação de outras 29, o cirurgião plástico fajuto Marcelo Caron gosta de descansar em um condomínio da Praia de Pipa, endereço dos endinheirados de Natal.
À CABECEIRA
Renan Calheiros (PMDB-AL) está meio fora de combate, na guerra do Senado, às voltas com um grave problema de saúde de sua mulher, Verônica, que até teve de ser internada em UTI. Mas passa bem.
PUROS HABANOS
Como Fidel Castro fazia há anos, o irmão Raúl presenteou o senador Fernando Collor (PTB-AL), através do embaixador no Brasil, com caixas de charutos Cohiba Esplendidos, edição especial de celebração dos 50 anos da revolução cubana.
PURA LOROTA
O ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (PT-SP) espalha que é cotado para substituir o ministro José Múcio (Relações Institucionais). É lorota: faltou combinar com quem nomeia, Lula, que não o suporta.
CHAPA ALTERNATIVA
Alinhava-se nos bastidores uma chapa composta pelo PTB e PT para a disputa da eleição no DF em 2010. Com Gim Argello para governador e Agnelo Queiroz ao Senado. E palanque garantido para Dilma Rousseff.
É TUDO VERDADE
Ricardo Carvalho lança dia 27, no Recife, seu livro “É Tudo Verdade – Memórias de um Repórter”, contando histórias como a da invasão do Exército à CSN, em 1988, com a morte de três operários. A venda da edição será revertida para a Associação dos Doentes de Chagas.
CANETA CHEIA
O Planalto parece satisfeito com sua base no Congresso. Tanto que no começo de agosto libera mais R$ 1 bilhão de emendas de deputados e senadores. A cortesia será honrada, claro, com o bolso do contribuinte.
‘MOONWALK’
Há quarenta anos o homem chegou à Lua. No Brasil ainda estamos de volta às “capitanias sarneyditárias”.

PODER SEM PUDOR
AMENDOIM BENTO
O papa João Paulo II visitava o Brasil, em 1980, e Frei Betto conseguiu marcar um encontro de Sua Santidade com sindicalistas, entre os quais os metalúrgicos Lula e Jacó Bittar e o bancário gaúcho Olívio Dutra. O encontro, no colégio paulistano Santo Américo, atrasou muito, quase três horas, e a fome foi apertando. De repente, apareceu um monsenhor distribuindo uns saquinhos com bolinhas pretas. Lula rasgou o saquinho sofregamente e jogou as bolinhas na boca. Achava que eram amendoins com cobertura de chocolate. Quase quebrou os dentes: era um terço.

VIÚVO


DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: Brasil já comercializa e consome ‘drogas legais’


- Folha: Indicação política incha gabinetes de senadores


- Estadão: Curso revela fraude em Fundação Sarney


- JB: Guerra do tráfico vira jogo no Orkut


- Correio: Brasília cresce mais que o país na crise