domingo, maio 31, 2009

DANUSA LEÃO

Sobre a coragem

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/09


Você já ouviu falar de algum homem que seja capaz de dizer a uma mulher que a relação acabou, que não quer mais



VOCÊ se acha uma pessoa corajosa? A resposta provavelmente vai ser "mais ou menos", até porque se pode ser corajoso para umas coisas e covarde para outras.
Os homens costumam ser mais que as mulheres; eles não têm medo de trovoada, são capazes de matar uma barata na maior tranquilidade e se aparecer uma cobra sabem exatamente que atitude tomar. Mulher não faz nada disso, mas em compensação faz coisas de que raros homens são capazes. Você já ouviu falar de algum que seja capaz de dizer a uma mulher que a relação acabou, que não quer mais? Aquele "tudo acabado entre nós já não há mais nada" é coisa que só mulher faz; não com prazer, mas faz.
Os homens - todos -, se pudessem, apertariam um botão para a mulher sumir e assim não terem aquela conversa penosa; não aquela para discutir a relação, mas para botar um ponto final e definitivo. Não há um, um só, que cumpra esse ritual de maneira mais ou menos decente; se puderem, eles viajam, disfarçam, mentem e até fingem um infarto, para não precisarem falar.
Eles não suportam essas conversas, e se a mulher chorar, aí então a coisa pega. Já se foi o tempo em que as lágrimas de uma mulher comoviam os homens. Ainda sobre a coragem: você para no sinal em seu carro fechado, com ar-condicionado, ouvindo um belo som; um menino vem pedir um troco ou tenta te vender um drops, você diz não. Por acaso já reparou que diz não sem olhar nos olhos dele? Algum dia se deu conta disso ou muda de assunto mentalmente com a maior rapidez e começa a pensar em outra coisa? Não é assim mesmo que acontece? Mas se tiver coragem, olhe nos olhos do próximo menino, dando ou não o dinheiro que ele está pedindo. Tenha a coragem de olhar - só isso - e talvez, a partir daí, sua vida mude.
Ah, a coragem; a coragem de reconhecer que, grande parte das coisas que te acontecem, você é que foi buscar. Está sozinho? Será que a culpa é dos outros, que não conseguiram enxergar todas suas fantásticas qualidades? O trabalho vai mal? Mas será que você se esforçou o suficiente, vestiu a camisa da empresa em que trabalha, ou só foi levando, e não fica nem bem tocar nesse assunto? E a mediocridade de sua relação, digamos assim, é culpa só do outro? Será?
Tenha coragem e pense: você tem tido um comportamento correto em sua vida pessoal, com todos os que te cercam? Mudar de assunto não vale: é para pensar, e se for preciso, sofrer e se arrepender. Aliás, se arrepender só, não: ter a firme intenção de procurar ser um pouco melhor. Os anos vão passando e cada um vai escrevendo sua biografia, pensando e agindo do jeito que quer. Pense que, cada ato que pratica, poderá ser, cedo ou tarde, conhecido por seus amigos, seus filhos, seus companheiros de trabalho. É preciso ser correto o tempo todo - pensar corretamente, agir corretamente; só assim se pode ter coragem, a verdadeira, que raros têm. A coragem de chegar diante do espelho e se olhar nos olhos; se olhar e pensar em alguns momentos de sua vida, momentos em que foi menos leal do que deveria ter sido, menos sincera do que teria a obrigação de ser, mais interesseira do que o aceitável. Pensar em tudo isso e até em outras coisas, aquelas que prefere nem lembrar.
Vamos, coragem: deve ter um espelho aí perto. Mas seria um pouco ridículo, se levantar de onde está para ir se olhar nos olhos; talvez seja melhor deixar para fazer isso em casa, antes de dormir, com mais calma. Claro.

LYA LUFT

REVISTA VEJA

Lya Luft
É o fim do mundo

"Se a menininha da televisão puder voltar a ser criança, os bugios forem deixados em paz, os gordinhos não se sentirem os últimos da face da Terra, quem sabe o fim do mundo ainda demore um pouco para chegar"

Fui uma das primeiras meninas a usar calças jeans na minha pequena cidade. Uma de minhas avós, luterana fervorosa, embora fosse uma mulher culta, exclamou: "Isso é o fim do mundo!". Nem o mundo acabou nem deixaram de acontecer coisas bem mais esquisitas, a me recordar aquele episódio, que na hora achei muito engraçado.

Ilustração Atômica Studio


Lembro-me dessa expressão com certa frequência. Por exemplo, quando uma criança de 6 anos serviu de atração num programa de TV, eventualmente chorando de medo, nervosismo ou cansaço. Ninguém interveio logo. Se levassem a um programa desses, semana após semana, um filhote de cachorro para fazer gracinhas, as sociedades protetoras dos animais já estariam reclamando. (Quem cuida dos humanos?) Finalmente, uma promotora impediu a criança de exercer esse "trabalho". Parabéns – e que não haja recurso.

Lembro-me de minha avó espantada quando assisto ao sofrimento de mulheres magras, muito magras, constantemente lutando para perder mais uns gramas, olhos ávidos da eterna dieta, sorriso forçado de automutiladoras. Para alegria de quem sempre foi fora do esquadro, leio (eu já sabia) que alguns já arriscam dizer que se pode ser saudável e feliz com algum sobrepeso. Não precisamos nos odiar, mas ser naturais, ser quem nos fez a mãe natureza. Porém, a nova onda é a gente se torturar, por falta ou excesso: a bunda pequena, o nariz grande, a barriga balofa, os peitos caídos, os bíceps insuficientes (o ralo QI não preocupa tanto). Aí nos matamos de fome, ou ostentamos um novo nariz estranho à estrutura do rosto em que foi metido, damos uma lipinho de presente de 14 anos a nossa filha. Nós mal conseguimos falar, com uma boca ginecológica, nada sensual. Um terço do nosso dia transcorremos suando e sofrendo muito além do recomendado em academias: não para ser saudáveis, mas para estar em forma, enquanto a alma passa uma fome danada e o tempo passa, a vida encolhe, nós nos desperdiçamos perseguindo modelos impossíveis e burros.

Minha avó acharia que o mundo está por acabar diante da confusão entre pessoa pública e propriedade do público: agora o normal é querer que o outro baixe até as calças da alma e mostre as feridas. Algumas chamadas celebridades parecem forçadas a anunciar o que fazem na cama, e com quem. Elas nem são "vistas" na rua, são "flagradas": o seu mero existir já é suspeito.

O mundo vai acabar, diria minha severa avó luterana, vendo que a política se troca por politicagem, o jogo de interesses infinitamente acima do bem do povo, a calúnia como ferramenta geral. Gente atirada como bicho (bicho, não, aí viria a defesa dos animais!) em pseudo-hospitais é fato menos comentado do que mosquitos, que podem trazer febre amarela (por isso pessoas assustadas e ignorantes matam saudáveis bugios no interior). Meu amigo atropelou um simpático tatu e quase pegou cadeia; se matasse uma pessoa, sendo réu primário aguardaria em liberdade. Viva o tatu. Abaixo as pessoas. Também se comenta que moradores de rua e pseudocolonos vão ganhar Bolsa Família. Quem ainda vai querer pegar na enxada ou lavar o chão de uma casinha?

O mais novo anúncio do fim do mundo pode ser a recomendação de fazermos xixi no banho. É questão ambiental? Enquanto for só xixi que nos recomendam, estamos salvos. Sou a favor de um ambientalismo sensato, que harmonize o convívio entre natureza e humanos, não dê mais atenção a baleias do que a crianças e aceite o progresso, fomente a educação e a higiene. A gente passa anos ensinando aos filhos: não façam xixi no banho nem na piscina. Xixi no chuveiro (e na banheira também?), sinto muito: aqui em casa, não.

Nesse cenário de absurdos, às vezes falta o botão para trocar de canal. Mas, se a menininha da televisão puder voltar a ser criança, os bugios da minha mata forem deixados em paz, os gordinhos não se sentirem os últimos da face da Terra, a gente não for multada por fazer xixi no vaso, quem sabe o fim do mundo ainda demore um pouco para chegar.

PREVISÃO DO TEMPO


CARLOS EDUARDO NOVAES

Uma cesta de emoções


JORNAL DO BRASIL - 31/05/09

Em algumas noites uso a televisão para deixar de pensar em besteira e pegar no sono. Ela funciona como um sonífero, um sedativo, um tranquilizante. Vou percorrendo os canais e quase sempre estaciono no History Channel para conhecer a história da manteiga ou do parafuso em Maravilhas Modernas. Às vezes porém me ligo num programa e a televisão faz um efeito contrário. Foi assim quando dei de cara com um jogo pelos playoffs do campeonato americano de basquete (NBA). Fiquei com os olhos pregados na telinha até às duas e meia da madrugada para ver Lebron James fazer uma cesta mágica no finalzinho da prorrogação dando a vitória ao Cleveland Cavs sobre o Orlando Magic. Se você acha que um gol no ultimo minuto é quase impossível, imagina uma cesta no ultimo segundo!

Paixões à parte, não tenho duvidas de que o basquete é um jogo muito mais emocionante do que o futebol. A bola não pára, não tem aquela emprenhação para formar barreira, os jogadores não podem ficar ensebando por mais de 24 segundos e ainda assim – pasme – o jogo de basquete às vezes demora muito mais do que uma partida de futebol. É verdade que as equipes podem pedir vários tempos – e nós, espectadores também precisamos deles para ir ao banheiro, à cozinha – mas não são esses minutinhos a mais que prolongam o jogo de basquete. O que ocorre é que – por um desses fenômenos inexplicáveis – o tempo em uma quadra de basquete custa muito mais a passar do que num campo de futebol. Outro dia uma prorrogação – que é de cinco minutos – levou 22 minutos para chegar ao fim.

Ainda lamento que na minha meninice só tenha sido apresentado ao basquete depois de me apaixonar pelo futebol. Talvez a família tenha tido alguma responsabilidade nessa ligação precoce com o futebol porque ainda me lembro de uma foto minha com menos de um ano de idade envergando uma camisa do América (tamanho G) que era do meu pai – e não fui eu que a pedi para vestir.

Penso que o futebol ganharia em emoção se aproveitasse algumas regras do basquete. Por exemplo: o jogador não poderia devolver a bola ao seu campo depois que ultrapassasse a linha central. Nada de ficar recuando a bola, fazendo cera, esperando o tempo passar... O público quer ver jogo e o basquete sabe disso! Outro exemplo? Por que não se cria uma linha de três pontos ali entre a intermediária e a grande área? Um gol daquela distância valeria por dois. Quando nada obrigaria os jogadores de soccer a treinar a pontaria. Os atletas da NBA passam seis, oito horas treinando arremessos de três pontos. Quanto tempo nossos jogadores treinam chutes a gol de longa distância? Alguém dirá que o pessoal do basquete precisa treinar mais porque a bola é maior do que a de futebol e a cesta é menor que a baliza. Em compensação não há goleiro no basquete.

A decisão na NBA começa nesta quinta-feira e pode se estender por sete partidas. Assim, sugiro que quem usa o mesmo método que eu para dormir ou quem tiver que acordar cedo no dia seguinte que não aperte a tecla da ESPN no seu controle remotíssimo.

VALDO CRUZ

Jogo pesado

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/09

BRASÍLIA - Ninguém quer admitir publicamente, mas, nas últimas semanas, senadores de oposição foram procurados por diretores de grandes empresas que trabalham com a Petrobras.
Gente graúda, que costuma participar das decisões de quem recebe doação de campanha eleitoral. Segundo relatos obtidos dos dois lados, foram conversas de cavalheiros, sem ameaças diretas, mas o objetivo era exatamente esse.
Num estilo educado e cortês, o que foi dito poderia ser traduzido livremente da seguinte maneira: "Se vocês colocarem nossa empresa sentada no banco da CPI sem bases concretas, esqueçam doações no próximo ano".
Não faltaram ainda queixas para o que estão classificando de "criminalização" das doações legais para campanhas eleitorais. Mais uma forma de pressão.
Esses encontros começaram a ocorrer depois que grandes empresas trocaram informações há duas semanas e concluíram que precisavam agir para evitar que virem o centro das investigações.
Todos garantem que não há um desvio em seus contratos com a Petrobras. E que, se forem denunciadas por alguém na comissão do Senado, será por conta de interesses contrariados. Pode ser, afinal não podemos condenar ninguém a priori. Por outro lado, uma boa investigação é, sem dúvida, o melhor selo de idoneidade.
Bem, depois de conversar com diretores de várias dessas empresas, um senador da ala governista firmou uma convicção: há grande risco de a comissão virar a CPI do Forró, com investigações de temas laterais, como patrocínios de festas juninas, passando ao largo de contratos milionários da empresa.
Em resumo, a CPI da Petrobras será um bom teste para medir até onde vai operar o lobby dos grandes fornecedores da estatal. O jogo, caro leitor, será pesado.

GOSTOSA


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VINÍCIUS TORRES FREIRE

China, Bolsa Família, BC e o real

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/09


Pacto luliano de estabilidade econômica e dependência da China anestesiam o país e dificultam mudança maior



É MAIS DIFÍCIL isolar um Banco Central de pressões políticas de origem popular em democracias pobres. Altas de juros degradam as condições de vida, o que pode suscitar protesto político. Em economias mais arrumadas, o impacto do aperto monetário pode ser menor. Menor ainda se houver um amortecedor, um colchão social.
Programas de transferências sociais de renda, muito incrementados no governo Lula, providenciaram tal colchão. Assim, de certo modo e talvez inadvertidamente, comprou-se o relativo isolamento do BC, também chamado de autonomia.
Note-se que políticas dessa natureza eram recomendações do esquecido "Consenso de Washington", o decálogo do "perfeito idiota neoliberal", diriam petistas, que hoje comem nesse prato em que cuspiam.
Há decerto mortos, feridos, queixas teóricas e a crítica da indústria, por exemplo. Mas esse caldo não engrossa "nas bases" e, assim, não induz políticos com poder de decisão ou pressão a intervir de modo significativo na ilha tecnocrática do BC. Ou no grosso da política econômica.
Este é só um aspecto do pacto de estabilidade luliano. Lula logrou ainda tanto reduzir a dívida pública (fez superávits fiscais primários suficientes) como elevar a despesa do governo, em parte destinada à compra do colchão social. A alta do gasto público, do consumo privado e até do investimento não acabou em inflação e/ou déficit externo desagradáveis ou em suspeitas a respeito da solvência externa do país devido: a) ao crescimento sino-asiático, que incrementou nossas exportações; b) à política de redução da dívida externa e/ou acumulação de reservas.
O "modo de produção asiático", digamos, com seus trabalhadores mal pagos, ainda barateou bens de consumo pelo mundo e por aqui. Juros baixos e a louca expansão do crédito mundial também ajudaram. O conjunto dessa obra (a atitude do BC "alemão" do Brasil, a alta das commodities e o capital sobrante no mundo) valorizou o real, o que significou um aumento adicional do poder de compra da população.
Então chegamos a meados de 2008, quando o BC elevava os juros devido ao excesso no gozo dessa dita bonança. Haveria então redução no crescimento, menor talvez que a hoje imposta pela crise. Como nem a recessão tem suscitado revolta, menos ainda o faria a contenção do PIB ditada pelos juros. Mas não foi possível testar a retomada do "business as usual" no Brasil, pois veio a crise.
A despiora na economia mundial, porém, criou uma situação que replica, de modo caricato, os dias finais do período de bonança de 2008, de alta especulação. Há discreta melhora na China. Cai o medo de novo desastre financeiro (há "apetite por risco"). Há excesso de dinheiro barato (juro zero no mundo rico), mas EUA e cia. não consomem. O tsunami de dinheiro então sobrante derruba o dólar, encarece o real, infla commodities: desembestam os capitais à procura de rentabilidade.
Não se sabe se tal bolhinha vai estourar. Mas o resumo da ópera é que o Brasil segue flutuando nessas marés, anestesiado pelo pacto luliano e pela dependência da China. Mudar tal situação (e pois a "armadilha cambial") implica mudar um pacto político interno e a relação com o resto do mundo. Nada simples.

FERNANDO CALAZANS

A força e o peso

O GLOBO - 31/05/09

Não tenho certeza se, no momento em que vocês me leem, alguém já tem conhecimento de quanto tempo Adriano pretende jogar hoje no Flamengo, contra o Atlético Paranaense, no Maracanã. 
O bom senso recomendaria que ele não fosse escalado, pelo menos de início. Nem é preciso ver Adriano de corpo inteiro para compreender que ele ainda está fora de forma, ainda está acima do peso.
Basta ver o seu rosto, ainda bem roliço. O time, que já esteve sem artilheiro por muito mais do que 90 dias, poderia passar sem ele por mais 90 minutos — sem precisar correr o risco de que Adriano sofra alguma contusão, sinta dor num músculo ou coisa até pior, que deixe o Flamengo mais 90 dias sem contar com um homem para decidir as jogadas de gol.

Adriano passou muito tempo parado, enquanto se divorciava da Itália, enquanto reatava seu romance com o Rio, enquanto se aposentava momentaneamente do futebol, enquanto passava as noites na ativa, enquanto passava os dias na favela soltando pipa, enquanto desfrutava a companhia dos amigos da meninice.

Começou a recuperar a forma há pouco tempo, nos treinos do Flamengo. Sua volta tem que ser muito bem estudada, tem que ser aos poucos, sem precipitações, mesmo que o time sinta a falta de um atacante de peso e de força.
Justamente por isso, é mais importante a presença de um Adriano em plena forma — na força e, sobretudo, no peso.

O presidente do Fluminese, Roberto Horcades, talvez até com atraso, tomou as medidas necessárias para pôr um mínimo de ordem na casa, que estava de pernas pro ar.
Vândalos não deveriam poder entrar no clube, como tampouco deveria poder entrar em campo um cidadão armado e, ao que parece, preparado para dar tiros para o alto. 

Pior é Fernando Henrique (não sei se outros jogadores também) defendendo a presença e a atitude do atirador, que ele diz ser seu despachante e que chamou também de seu “salvador”. Despachante, segurança, motorista, secretário, seja o que for — um campo de futebol ou de qualquer outro esporte não admite a presença de gente armada de 
revólver.
Não sei se a suspensão por um jogo — este de hoje, contra o Náutico — é a punição certa para Fernando Henrique (acho até que não é, porque prejudica o time), mas que ele merecia uma punição, merecia. Ao menos, quem sabe, para começar a escolher melhor as companhias.

Paulo Calçade, comentarista da ESPN Brasil que prima pelo bom gosto na sua apreciação do futebol, chamou a minha atenção para um dado estatístico. 
Barcelona 2 x 0 Manchester United, na grande final da Liga dos Campeões. Sabem quantas faltas houve? Dezessete faltas ao todo. Vejam só: 7 faltas do Barcelona, 10 faltas do Manchester United no jogo todo.
Observem bem: era uma decisão, era o jogo final da mais importante competição da Europa!

O vencedor — e grande campeão — fez apenas 7 faltas. Quem fez mais faltas perdeu: o Manchester United. Mas cometeu apenas 10 faltas, e assim mesmo porque o marrentíssimo Cristiano Ronaldo ficou nervosinho no segundo tempo e desandou a entrar de forma desleal nos adversários, sobretudo em Puyol, que sofreu nas mãos, quer dizer, nos pés de Cristiano.

Enquanto isso... aqui, continuamos com 40, 50 faltas, às vezes 60 numa partida, mesmo com a moda de “deixar o jogo correr”, “deixar pra lá”, haja o que houver. 
O problema, meus caros exegetas do futebol, não está só no juiz. Deem uma olhadinha no comportamento dos técnicos, os “comandantes”, e nos jogadores, seus “comandados”. 

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO


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CLÓVIS ROSSI

O G8 morreu, o G20 respira pouco

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/09

SÃO PAULO - O governo brasileiro está batalhando, sem sucesso, para entronizar o G20, o clubão das maiores economias do planeta, como gerente informal das finanças mundiais, o que lhe asseguraria um posto na linhas de frente.
Mas, por desinteresse de países ricos, entre eles o que preside o G20 no momento, o Reino Unido, o grupo não saiu do lugar desde a cúpula de Londres. Todo o trabalho de coordenação e definição da reforma da arquitetura financeira global ou não caminha ou fica a cargo de iniciativas isoladas. Estados Unidos e União Europeia já divulgaram seus planos para regular os derivativos e para vigiar os bancos, respectivamente.
Mas nada coordenado, o que combina com o abandono da tese, que o Brasil defendeu, de que deveria haver um sistema supranacional de regulação.
Até aí, no entanto, o governo brasileiro não se preocupa. Aceitou que as resistências a que estranhos xeretem Wall Street ou a City londrina são grandes e poderosas demais para serem vencidas. O que incomoda o governo é que o G20 não se dotou de um processo próprio de trabalho sobre a regulação do sistema financeiro desde a cúpula de Londres, realizada já faz dois meses (2 de abril).
O que há é apenas um calendário de reuniões que serve para reforçar a sensação de paralisia do grupo. A próxima reunião ministerial será apenas em setembro, em Londres, três semanas antes da nova cúpula, a terceira do G20, marcada também para setembro, nos EUA.
Reuniões de cúpula, como sabem todos os que as acompanham, são apenas a cereja de um bolo que tem que ser preparado antes pelos técnicos. Não há ninguém batendo esse bolo, o que cria um vácuo de gerenciamento financeiro global: o G8 morreu, mas ainda não foi enterrado, e o G20 nasceu, mas não consegue sair da incubadora.

TOSTÃO

Meu modelo é outro

JORNAL DO BRASIL - 31/05/09

Luxemburgo, no empate do Palmeiras contra o Nacional do Uruguai, e Sir Alex Ferguson, pisaram na bola no meio da semana. Não sei qual dos dois foi pior. Na derrota do Manchester United para o Barcelona, não foi surpreendente a escalação e a estratégia do time inglês, dirigido há 23 anos por seu vitorioso treinador.

Vi várias vezes o Manchester ganhar e ser elogiado com o mediano sul-coreano Park no lugar de outro muito melhor. Park é chamado de jogador moderno, que vai e volta, defende e ataca. Fora isso, não faz mais nada.

Vi várias vezes o Manchester ganhar e ser elogiado com Cristiano Ronaldo de centroavante e com Rooney atuando pela ponta, correndo atrás do lateral. Um desperdício. Não há nenhuma justificativa para colocar os dois melhores jogadores do time fora de suas posições.

Mesmo quando jogava mal e/ou era mal escalado, o Manchester raramente perdia. Chelsea, Liverpool e Arsenal, grandes times ingleses, destaques mundiais, são adversários bem conhecidos. Não surpreendem. As equipes médias e pequenas da Inglaterra são fracas, iguais às pequenas e médias equipes da Espanha e da Itália.

Desta vez, o Manchester, que tem um grande time, enfrentou uma equipe diferente, que coloca a bola no chão, troca muitos passes, faz somente sete faltas em um jogo decisivo e que possui o melhor jogador do mundo (Messi) e os dois melhores armadores do mundo (Xavi e Iniesta). Os dois comandaram também a seleção da Espanha, brilhante campeã da Eurocopa.

São três baixinhos fenomenais. Os talentosos baixinhos, de todo o mundo, de quem diziam não terem condições de enfrentar os grandalhões do futebol moderno, estão novamente por cima.

O Barcelona e a Espanha jogam em um estilo próximo das grandes equipes do Brasil do passado. Já o São Paulo e a maioria dos times brasileiros e de todo o mundo atuam no estilo das antigas e medianas equipes da Europa, com excesso de marcadores, bolas longas, pouca troca de passes e muitas jogadas aéreas. É o "chuveirinho" moderno.

O São Paulo, tricampeão brasileiro por seus méritos e por executar bem o que é planejado, influenciou bastante a maioria dos técnicos e grande parte da imprensa. Passou a ser modelo de como ser vitorioso, como se houvesse apenas uma maneira de vencer.

Alguns times reagem contra essa mesmice, mesmo que ela seja eficiente, como o Cruzeiro, que procura jogar um futebol leve, envolvente e bonito. A dificuldade do time mineiro é não conseguir jogar tão bem fora do Mineirão.

Na quarta-feira, vi talentos no meio campo, como Xavi, Iniesta e Marquinhos Paraná, e também alguns brucutus, como Eduardo Costa. Ele, Fabrício e Richarlyson distribuíram pontapés. Nenhum foi expulso. Os brucutus continuam fortes e com prestígio com os treinadores.

Não será tão surpreendente se o São Paulo ganhar do Cruzeiro hoje e na segunda partida pela Libertadores, vencer o Brasileiro, a Libertadores e até o Mundial de Clubes. Se isso acontecer, vou exaltar novamente seus méritos, mas não vou mudar minha preferência. Gosto de ver outro futebol.

O IDIOTA

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Países

O GLOBO - 31/05/09

A Itália talvez seja o país mais simpático do mundo. Simpatia, claro, é um critério subjetivo e vago. Muita gente diria que a Itália pode ser pitoresca e amável, mas os italianos... Para a maioria, no entanto, os defeitos dos italianos fazem parte do seu charme, e se juntam à paisagem e à riqueza arquitetônica como atrativos do lugar. Tudo é perdoado pela simpatia e até seus buffones e mascalzones se integram no espetáculo irresistível de um país decididamente delicioso, além de fotogênico. Mas o Berlusconi desafia esse indulto tácito dado a tudo que é italiano. Não é simpático, tem o charme de uma batata e não é nem um bom ator, como o Mussolini. E no entanto foi eleito para governar a Itália mais de uma vez e atualmente tem um índice de aprovação pública altíssimo. Dizem que é sua imagem de empresário de sucesso que inspira os italianos mas o exemplo que ele dá é do pior tipo de empreendedor, com mais ganância do que escrúpulos. Agora Berlusconi lidera um movimento de repulsa a imigrantes inédito no seu radicalismo até numa Europa cada vez mais xenófoba. Parte da sua boa aprovação se deveria a esse endurecimento com os imigrantes. A deliciosa Itália fica amarga.
PERFEITO
Uma vez vi um homem desenhar na mesa de um bar o que ele chamava de O País Perfeito. O país não existia, ou existia mas não era bem um país. Seus limites arbitrários estavam no desenho do homem e incluíam toda a Provence no sul da França e o Piemonte e a Toscana no norte da Itália. Mônaco e um naco da Suíça entravam como brindes e para não fracionar o mapa. Cujo autor citava as razões pelos quais aquele seria o melhor país do mundo para se morar, numa equação que incluía qualidade de vida, qualidade de comida e bebida, qualidade de clima e qualidade de gente. Deve ser dito que isto foi em tempos pré-Berlusconi. Cada um pode inventar seu próprio país perfeito e até ignorar restrições geográficas e juntar, por exemplo, a Dinamarca, Vancouver no Canadá e o seu bairro. Que países você gostaria que começasse na porta da sua casa e fosse seu vizinho dos fundos?
GLUB, GLUB, GLUB
As ilhas Maldivas, no Oceano Índico, formam o país mais baixo do mundo. Sua elevação mais alta tem só uns quatro metros. Já calcularam que, com o degelo nos pólos e os mares subindo, as Maldivas estarão embaixo d’água antes do fim do século. E li que o governo está fazendo o seguinte: procurando um lugar para mudar o país. Toda a população será levada para uma área comprada, por exemplo, na Austrália, onde as Ilhas Maldivas serão refundadas, e onde um dia terão que explicar às novas gerações aquele “Ilhas” no nome. Dizem que já há milhares de corretores imobiliários se apresentando para agenciar o gigantesco negócio. 

GOSTOSA


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PAINEL

Último recurso

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/09

Antes mesmo de vir à luz o novo Datafolha, no qual a avaliação de Lula, que já era confortável, retoma o patamar pré-crise econômica, o presidente disse a um grupo de auxiliares que o momento exige "atenção especial", pois "a oposição está sem alternativa de discurso e só tem as CPIs para se agarrar".
Lula expôs seu raciocínio em reunião da coordenação política do governo, na quinta-feira. A oposição, afirmou, apostou primeiro na crise como um todo. Depois, no descontentamento dos prefeitos com a queda nos repasses do FPM. Em seguida, na mudança das regras da poupança. Em todas essas ocasiões, "ficou falando ao vento". O Planalto está empenhado em fazer com que o padrão se repita na CPI da Petrobras.




Veste Prada. Diante do acirramento das tensões entre governo e oposição devido à CPI da Petrobras, um ministro vaticina: "Junho será pior que maio e melhor que agosto. E, em outubro, todos os diabos vão estar de roupa nova". 

Perguntar pra quê? O mico da semana ficou com Álvaro Dias (PSDB-PR), autor do requerimento da CPI, que postou em seu blog uma enquete sobre quem foi o melhor presidente do Brasil. Resultado: 66% marcaram Lula; 34%, FHC. Restou ao senador escrever nota na qual diz que "não concorda", mas "respeita" a opinião dos internautas. 

Tudo isso. Um assessor presidencial define o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, como "o político mais próximo de Lula hoje". Credita ao cacique do PSB papel fundamental na definição da estratégia da campanha de Dilma Rousseff e de alianças país afora. 

Veto. Dilma perguntou a Marta Suplicy de que deveria falar no almoço com um grupo de mulheres na casa da ex-prefeita, no dia 6. "Tudo menos PAC", sugeriu Marta. Dilma brincou: "Se eu falar de PAC, pode me pôr na rua".

Vingança. Responsável pela interpretação que permitiu contornar o bloqueio da pauta por MPs, Michel Temer (PMDB-SP) deve se deparar com um monte delas para assinar e remeter ao Congresso durante sua interinidade na Presidência, que começa hoje.

Braços. Vencedora de licitação de R$ 94,5 milhões da Secretaria de Pesca, a agência de eventos Dialog, que também realizou o encontro de prefeitos no início do ano em Brasília, possui uma "irmã" chamada Projects Brasil. Ela funciona no mesmo endereço, pertence ao mesmo dono e, em casos como o da licitação da Pesca, concorre também.

Para dois. Se a era Collor teve como marco inicial um pato laqueado degustado em Pequim, a reaproximação entre Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ex-presidente também tem sido feita à mesa. Os dois senadores almoçam frequentemente no italiano Bottarga, escondido numa loja de móveis no Lago Sul. 

Checão 1. Mesmo depois das promessas da direção do Senado de impor regras mais duras para a prestação de contas da verba indenizatória, Gilvam Borges (PMDB-AP) mantém o velho estilo: declara ter gasto o teto de R$ 15 mil por mês, a título de "aluguel de imóveis para escritório político, compreendendo despesas concernentes a eles". 

Checão 2. Gilvam, conhecido como "Chinelo" entre os colegas, arredonda num único recibo o que declara ser aluguel e despesas com um prédio em Macapá onde funciona seu escritório político. 

Emplumado. Depois de ter sido convencido a ficar no DEM, o ex-governador baiano Paulo Souto voltou a flertar com o PSDB, pelo qual gostaria de disputar a sucessão estadual. Mas a cúpula do DEM diz que deu a ele o comando regional do partido e que não aceitará ser abandonada. Ameaça romper com os tucanos se a troca se concretizar.


com VERA MAGALHÃES e SILVIO NAVARRO

Tiroteio

"É uma obsessão de certos setores da oposição e da base tratar deste assunto inviável. O objeto desse desejo, que é o presidente Lula, não aprova." 

Do presidente do PT, deputado RICARDO BERZOINI, sobre a tentativa de aprovar emenda que permita a Lula disputar o terceiro mandato.

Contraponto

Justiça nada cega Nizan Guanaes aguardou por mais de três horas, na quinta-feira, para depor como testemunha de defesa do colega Duda Mendonça no processo do mensalão. Para descontrair o ambiente depois de tão longa espera, a juíza Silvia Maria Rocha, da 2ª Vera Criminal Federal de São Paulo, comentou com o publicitário:
-Nossa, como o senhor está magro!
-Fiz cirurgia para reduzir o estômago- explicou Nizan, o que deu origem a breve discussão sobre o tema.
Quando a oitiva ia começar, a juíza ainda opinou:
-Posso dizer uma coisa? O senhor está bonitão!
Na saída, Nizan comentou:
-Se eu contar pra minha mulher, ela não vai acreditar...

JANIO DE FREITAS

Neo e antilulistas

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/09


Problema mesmo, para a corrente pelo terceiro mandato, é o tempo, melhor aliado dos contrários



SÃO DUAS correntes de dimensões idênticas a dividir a opinião brasileira, entre favoráveis e contrários à permissão legal para Lula concorrer ao terceiro mandato -o que já valeria como um fenômeno eleitoral de presente inesperado e futuro de consequências incertas. Mas, com o fenômeno, vem um mistério: as duas correntes incorporam setores com grande capacidade de influência decisória, e a tendência é de uma disputa mais interessante, porque mais tática, do que as urnas propriamente.
A satisfação da camada de poder econômico está acima de todo o positivo que pudesse desejar de Lula. Aquele "eu estou com medo" que simbolizou, na disputa presidencial de 2002, o esperado de Lula pelos conservadores e o que as táticas da Guerra Fria lhes ensinaram, transformou-se em um sentimento próprio dos premiados.
"Lulinha paz e amor" neutralizou as inquietantes agitações do PT e de movimentos sociais, esvaziou o movimento sindical e suas greves e reivindicações, não mexeu nem no menor parafuso da estrutura socioeconômica: Lulinha pacificador. E com o Banco Central, fortalecido antes do caseiro falastrão pelo vivo Antonio Palocci, assegurou a proteção e a multiplicação do que compõe os objetivos permanentes dos conservadores: feito de Lulinha amoroso.
Onde não haja o velho direitismo extremado, seja ideológico ou religioso (ou este a fazer aquele), na classe média e daí para cima os que preferem a continuidade de Lula a qualquer risco são, diria a gíria, figurinhas fáceis. Por menos que se exponham -razões de classe, digamos. Atitude compreensível: a eleição de um adversário de Lula e do PT sempre será uma possibilidade de substituir paz e amor pela restauração das fermentações.
O que importa, diante da disputa que o empate das opiniões sugere, é que, mesmo minoritário na corrente desejosa do terceiro mandato, o lulismo conservador é parte da camada nacional que influi nas lideranças partidárias, nas práticas dos meios de comunicação e, daí, tanto na formação da opinião política como nas pressões mais diretas.
Mas nada disso é suficiente para subestimar a força política da corrente contrária ao terceiro mandato, localizada nos mesmos baluartes dos neolulistas. Na classe média, o grosso dos contrários a Lula parece estar na sua parcela mais participativa e com hábito de mobilização, uma espécie de zona sul carioca reproduzida nas capitais e cidades maiores. Aquela das marchas, das pinturas no rosto, dos slogans.
Em termos convencionais, a corrente do conservadorismo contrária ao terceiro mandato é mais forte, nem que seja porque mais numerosa, do que os favoráveis. Por si só, o embate já é interessante. Há, porém, um terceiro fator em campo: o contingente animado pelas bolsas disso e daquilo, pelos "nunca neste país" e "nunca mais neste país", pelas promessas grandiosas que independem de realização, os comícios diários em solenidades, em praça pública e, com fartura exaustiva, nos meios de comunicação.
Curiosa é a contradição nesse campo: nele há, em potencial, uma força imensa de mobilização e influência, mas o próprio Lula extinguiu-lhe, com a anulação do PT e do sindicalismo, a já precária capacidade de organização e ação consequente. O que não significa que a mobilização não possa ser recuperável. Ou seja, tudo vai depender, para um lado e outro, não só de sua força, mas, sobretudo, de sua tática.
Como sempre, Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, já antecipou o seu voto, caso o terceiro mandato resulte em julgamento: "Seria um casuísmo e inconstitucional". Pode ser, assim como a reeleição de Fernando Henrique terá sido uma coisa e outra. Seria inconstitucional se a Constituição não for submetida à necessária adequação para permiti-lo. Já o ministro Ayres Britto, aderente à moda antecipativa de Gilmar Mendes, previne que considera um terceiro mandato antirrepublicano, porque República exige o rodízio no poder. Mas, nem a ideia de República prevê prazos para rodízio, nem, como exemplo histórico, os Estados Unidos foram mais plenamente republicanos do que no período das quatro eleições sucessivas de Franklin Roosevelt.
Problema mesmo, para a corrente pelo terceiro mandato, é o tempo, melhor aliado dos contrários.

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CLÁUDIO HUMBERTO


“Buscamos dar ao povo não só condições materiais, mas espirituais”

MINISTRA DILMA ROUSSEFF (CASA CIVIL), EM MAIS UM DISCURSO DE CANDIDATA, NO RIO DE JANEIRO

BATTISTI: ITÁLIA IGNORA NOVO EMBAIXADOR
O governo italiano se recusa a marcar a cerimônia de entrega de credenciais ao novo embaixador do Brasil em Roma, José Viegas. Trata-se de uma retaliação à decisão do governo Lula de conceder asilo político ao terrorista Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos de inocentes, na Itália. Viegas tentou agendar a cerimônia, mas foi informado de que isso não será feito por enquanto.
TAPA NA CARA
Ex-ministro da Defesa de Lula, o embaixador José Viegas já aguarda em vão há seis semanas o agendamento da apresentação de credenciais.
ESSENCIAL
Receber credenciais é o sinal de que o governo anfitrião reconhece no embaixador o legítimo representante do chefe de Estado do seu País.
SÓ TURISMO
Sem apresentar credenciais ao Palácio Cirineu, em Roma, na prática o embaixador José Viegas está impedido de exercer suas funções.
DOIS PESOS
Enquanto a prefeita de Natal, Micarla Sousa (PV), negou aumento nas passagens de ônibus, a de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), fez o contrário.
SENADORA PROPÕE CABRESTO NA FISCALIZAÇÃO
A proposta de emenda à Constituição da senadora Serys Slhessarenko (PT-MT) que extingue os tribunais de contas municipais, estaduais e da União já está na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O propósito é transformá-los em “Auditorias de Contas,” controladas pelas Casas Legislativas respectivas, subordinadas aos seus presidentes. Ou seja, o TCU e TCEs ficarão à mercê das vontades do Legislativo.
CONTROLE DO TCU
Segundo a assessoria da senadora Serys, o projeto apenas transforma os TCs em “órgãos de controle externo”.
DOIS MESES
O relator do projeto na CCJ, senador Valter Pereira (PMDB-MS), tem dois meses para entregar o relatório da PEC de Serys Slhessarenko.
NOSSA GRANA
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária fechou um contrato de mais de R$ 1,5 milhão para ter brigadistas de incêndio em sua sede em Brasília.
LÁ E CÁ 
O PSDB, segundo seu presidente, senador Sérgio Guerra, também vai manter escritório paralelo à CPI, com especialistas em licitações e que também dominem a estrutura da estatal, para ajudar nas investigações.
SAL COM ENXOFRE
Confirmada para o próximo dia 18 a visita de Lula ao Cazaquistão, que pouca gente sabe onde fica. O país asiático tem uma diversificada pauta de exportações, com destaque para sal, enxofre e ferro fundido.
GABINETE DE CRISE
O Planalto monta uma estrutura para subsidiar os aliados na CPI da Petrobrás, com dados que permitam responder principalmente sobre a gestão de Dilma Rousseff no Ministério das Minas e Energia.
O RETORNO 
Preparando retorno à política, em 1º de julho o ex-presidente Itamar Franco vai reencontrar em Juiz de Fora seus ex-ministros, quando do lançamento de um livro de elogios a ele. A conversa não será literária.
CORDA BAMBA
O futuro político do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que sonha disputar o governo de Goiás, está ligado à reação da economia à crise internacional e, principalmente, à redução do nível de desemprego. 
TRABALHO ESCRAVO
Na área de siderurgia, as entidades sindicais reclamam de “condições sub-humanas de trabalho” impostas pela Companhia Siderúrgica Nacional de Benjamin Steinbruch, amigão do presidente Lula.
RESTRIÇÃO A TERCEIRIZADOS
Terceirizado não pode atuar em “atividade fim” em concessionárias do serviço público, segundo o Tribunal Superior do Trabalho ao julgar ação contra a Celg, empresa de energia de Goiás, e se estender a todo o País.
NAU SEM RUMO 
A Câmara Legislativa do DF continua desafiando aqueles que ainda defendem sua existência. Das 462 leis aprovadas entre 2004 e 2007, 313 foram declaradas inconstitucionais pela Justiça. Outras estão na fila.
É DIFÍCIL, MAS... 
Antes de votar o veto ao reajuste dos aposentados, em julho, a Câmara deve votar a proposta de política de reajuste permanente para eles. 

PODER SEM PUDOR
RELÓGIO DE PONTO
O presidente Jânio Quadros chegou atrasado à abertura de uma exposição no Museu de Arte Moderna, no Rio. Em meio ao assédio dos eleitores, ele foi abordado por um funcionário do MAM, que pediu com toda humildade:
– Presidente, preciso de um autógrafo para me justificar em casa. O senhor atrasou muito e a patroa não vai acreditar que eu estava trabalhando...
Jânio deu uma gargalhada, sapecou um autógrafo e observou:
– Compreendo o seu desespero. Concordo que é preciso tratar bem as mulheres. Mas é a primeira vez na vida que sirvo de relógio de ponto!

DORA KRAMER

A lei? Ora, a lei...

O ESTADO DE SÃO PAULO - 31/05/09

Quando estourou o escândalo das mordomias no Parlamento britânico, a crise dos abusos nos privilégios no Parlamento brasileiro estava no auge e as comparações foram inevitáveis. Dois pontos chamaram atenção: a semelhança da natureza dos desvios e a diferença no trato da questão. O primeiro mostrava que gente civilizada também prevarica. Em tese, nos colocava ombro a ombro com os costumes do Primeiro Mundo.

Mas o segundo derrubava o argumento, demonstrando a distância existente entre o Brasil e a Inglaterra no tocante à cultura sobre o manejo da coisa pública. Resumindo, a disparidade evidenciou-se na consequência.

Lá, caiu o presidente do equivalente local à Câmara dos Deputados, o primeiro-ministro condenou liminarmente as práticas, não obstante terem sido cometidas por seus aliados, e as pesquisas de opinião de imediato registraram o repúdio do público ao partido envolvido no escândalo.

Michael Martin, o similar inglês de Michel Temer, renunciou ao cargo. Não porque fosse acusado. Nenhuma das denúncias o envolveu, mas retirou-se de cena porque havia sido contrário à divulgação das informações sobre os privilégios em vigor no “clube privado de cavalheiros”, tal como o primeiro-ministro Gordon Brown definiu a Câmara dos Comuns.

Aqui, suas excelências tentaram resistir – com o aval dos presidentes da Câmara e do Senado –, justificando a legalidade das irregularidades, o presidente da República considerou uma “hipocrisia” às críticas aos abusos – aproveitando para confessar seus próprios desvios quando parlamentar –, as infrações foram todas anistiadas, a popularidade do presidente permaneceu intacta e as transgressões continuaram a ser reveladas.

No caso das passagens, o presidente da Câmara teve culpa (confessada) no cartório. No que tange aos privilégios abusivos, o presidente do Senado achou normal – e assim passou a ser considerado no geral – usar seguranças da instituição para vigiar suas propriedades no Maranhão.

Algum constrangimento, alguma concessão ao pudor? Nada. Só uma história de bastidor revelando que o presidente do Senado, José Sarney, cogitara da renúncia ao cargo em conversa com amigos. Não por vergonha das agressões individuais e coletivas às normas da boa conduta, mas por se achar injustamente atingido na majestade pretendida.

Caminhava o escândalo das mordomias no Parlamento brasileiro para o confortável limbo do esquecimento, quando a Folha de S. Paulo noticia que o pagamento ao auxílio-moradia aos senadores não tem sustentação legal.

A autorização desses pagamentos fora cancelada seis anos antes e, mesmo assim, o dinheiro continuou a ser religiosamente depositado nas contas dos senadores. Inclusive nas contas daqueles que têm moradia própria em Brasília e, por óbvio, não precisariam de tal benefício.

Entre os agraciados de maneira duplamente irregular com R$ 3.800 por mês estava ninguém menos que o presidente do Senado. Fiel à regra vigente, primeiro negou e, uma vez, exposto, confirmou.

Não sabia como o dinheiro fora parar em sua conta, uma vez que não havia requerido o pagamento do auxílio. Detectado o equívoco, pediu desculpas e ordenou a devolução.

E o vácuo, o período em que todos os benefícios foram pagos sem sustentação em regra alguma?

Rapidamente deu-se um jeito. Criou-se uma nova norma autorizando os pagamentos e atribuiu-se o passado à conta do equívoco para justificar nova anistia.

Ninguém procurou saber por que houve a suspensão dos pagamentos há seis anos. A fim de não suscitar mais polêmica, convencionou-se que houve “erro burocrático”. Mas será que houve mesmo? Ou na época aquela regra foi revogada em função de alguma denúncia sobre irregularidades na concessão dos auxílios-moradia?

No mínimo, seria necessário conferir. Nada impede de acontecer o mesmo com algumas normas alteradas em virtude da recente crise. Amanhã, numa próxima legislatura, quando suas causas se perderem na memória nacional, podem causar espanto e, para ajeitar a situação conveniente ao momento, ser recuperadas tal qual o modelo anterior.

Suposição? Não, mera constatação da realidade. No Brasil, diferentemente do que ocorre em nações de costumes mais civilizados, quando a legislação provoca qualquer abalo nos interesses de quem tem poder ou influência institucional, muda-se a legislação de forma a satisfazer os interesses anteriormente contrariados.

Talvez seja esse o ponto que separe os escândalos dos Parlamentos no Brasil e na Inglaterra. Lá, suas excelências dobraram-se envergonhadas aos ditames lei. Aqui, correm sem pejo para alterar os princípios da lei.

Isso responde, por exemplo, a uma questão aparentemente inusitada sobre o que há em comum entre o caso do auxílio-moradia e as mudanças na Lei Eleitoral propostas para, entre outras coisas, revogar a fidelidade partidária interpretada pelo Supremo Tribunal Federal conforme o que impõe a Constituição.

O RATO SARNEY


DOMINGO NOS JORNAIS

Globo: PMs presos no Rio saem da cadeia só para matar

 

Folha: 3º mandato de Lula divide o país

 

Estadão: Multa é ‘esquecida’ após infrator ajudar Minc

 

JB: Mulheres invadem a Bolsa de Valores

 

Correio:CPI da Petrobras – Transpetro na mira dos senadores