sábado, maio 02, 2009

PAINEL

Vamos falar sério

RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 02/05/09

Na antevéspera de apontar "hipocrisia" nas denúncias sobre o uso irregular de passagens aéreas por deputados e senadores, Lula ouviu dos presidentes Michel Temer (PMDB-SP) e José Sarney (PMDB-AP) um misto de desabafo e recado. Em visita ao Alvorada na noite de quinta, os dois reclamaram que há três meses o Congresso só faz apanhar, enquanto o Executivo flana em aprovação popular, e que o elevado grau de insatisfação nas duas Casas ameaça explodir na forma de CPIs das quais o governo não quer nem ouvir falar, como as da Petrobras e do Dnit -esta com o requerimento já repleto de assinaturas peemedebistas.De maneira bastante explícita, Temer e Sarney pediram a solidariedade de Lula. E conseguiram.




Fermento. A rebeldia da base aliada também deriva de sucessivas contrariedades no mundo do loteamento de cargos. O irmão de Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado, acaba de rodar na Infraero. O mesmo ocorreu com um apadrinhado de Almeida Lima (PMDB-SE), presidente da Comissão de Orçamento, que ocupava a direção dos Correios em Sergipe. 

Portfolio. Outro banco que contratou a Contact, empresa em nome de "laranjas" do ex-diretor do Senado João Carlos Zoghbi, para intermediar a operação do crédito consignado foi o Daycoval, que concedeu R$ 79,3 milhões em empréstimos entre 2006 e 2009. 

O especialista. Zoghbi contratou o criminalista Antonio Carlos Almeida Castro, cuja lista de clientes de ontem e de hoje inclui Law Kin Chong, Daniel Dantas, ACM e José Dirceu. Bordão conhecido em Brasília: "Quando a casa cai, chame o Kakay". 

Gênese. Um dos alvos da artilharia do casal Zoghbi em entrevista à revista "Época", a contratação de uma empresa de taquigrafia pelo Senado foi decidida numa época de três CPIs simultâneas -Correios, Mensalão e Bingos. 

Vapt-vupt. Antes mesmo de terminar o evento que marcou a primeira extração de petróleo no campo de Tupi, já estava no ar a peça publicitária marcando o "ano um de uma nova era" da Petrobras, com direito a clipe de "Rapaziada", de Gonzaguinha. 

Volume. O Movimento PT, tendência que historicamente se associa às majoritárias na disputa interna, resolveu lançar nome para concorrer à presidência nacional. Estão no páreo os deputados Geraldo Magela e Maria do Rosário.

Onde e quando. Dilma Rousseff estava em NY no meio de março, num seminário sobre o Brasil para investidores estrangeiros, quando recebeu de seu médico a notícia de que um exame de rotina havia identificado um gânglio na axila esquerda da ministra. 

Alma do negócio. A bancada do PT na Assembleia paulista prepara ofensiva contra os gastos do governo Serra em publicidade. No cálculo dos técnicos petistas, foram R$ 127 milhões somente na primeira quinzena de abril. 

Espalha-brasas. Em visita ao Paraná, José Dirceu acertou o apoio do governador Roberto Requião (PMDB) à candidatura a deputado federal de seu filho Zeca (PT), prefeito de Cruzeiro do Oeste. O ex-ministro aproveitou para lançar farpas contra o senador Osmar Dias (PDT), cortejado pelos petistas locais para aliança na sucessão estadual. 

Divórcio. Depois da troca de cotoveladas com o PMDB baiano, Jaques Wagner (PT) rompeu com o PSDB, que o apoiava desde o início do governo. O motivo foi a adesão dos tucanos à marcha de prefeitos patrocinada pelo ministro peemedebista Geddel Vieira Lima (Integração). 

Cobrança. O procurador-geral do Ministério Público do Trabalho, Otavio Brito, irá ao ministro Carlos Lupi na próxima semana para pedir que o MPT integre a coordenação das ações do Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo em todo o país. Brito também reivindica "políticas públicas mais firmes" de reinserção dos trabalhadores resgatados nas operações, para que não retornem às condições degradantes.

Tiroteio
"Ao admitir o descontrole, o próprio ministro confirma as denúncias que chegaram à CPI e que o governo manobrou para abafar."


Do deputado GUSTAVO FRUET (PSDB-PR) sobre Tarso Genro, que se disse receoso de "falar a respeito de determinados assuntos no celular", pois o país vive uma "síndrome do grampo".

Contraponto

Superfaturamento

Em 1981, quando era governador de Pernambuco, Marco Maciel visitou São Bento do Una, acompanhado do Secretário de Transportes e outras autoridades, para inaugurar a rodovia que liga o município a Belo Jardim. No palanque, os políticos faziam discursos cada vez mais entusiasmados, até que o presidente da Câmara Municipal apresentou o verdadeiro milagre da multiplicação:
-De São Bento do Una a Belo Jardim são 21 quilômetros, e vice-versa. Obrigado, portanto, por estes 42 quilômetros.

GOSTOSA


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RUY CASTRO

Máscaras

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/05/09

As máscaras cirúrgicas, onipresentes nos jornais e na televisão durante a semana, já estão se tornando o símbolo da gripe suína. A todo instante, as imagens mostram pessoas desembarcando em aeroportos com o nariz e a boca cobertos, para não contaminar os nativos com os vírus ou bactérias possivelmente adquiridos em seus países de origem. É uma visão dramática, inclusive no sentido da teatralidade. 

Agora que a OMS (Organização Mundial de Saúde) promoveu a gripe para a categoria 5 de pandemia (num máximo de 6), teme-se que a produção de máscaras em cada país não chegue para as necessidades e venha a faltar justo para os que mais precisarão delas: os profissionais da área da saúde. 

Na verdade, já deveríamos ter adotado o uso dessas máscaras no Brasil muito antes de a gripe suína nos obrigar a isso. E começando pela Câmara dos Deputados, em Brasília, assim que estourou a farra das passagens aéreas para o exterior pagas pelo contribuinte. 

Diante do escândalo, que não livrou nem os poucos parlamentares que ainda pareciam imaculados por maracutaias, o ideal seria que os deputados só se apresentassem em público equipados com elas. Imagine o risco de um deles espirrar na frente de um cidadão comum e lhe repassar o vírus do cinismo e da cara-de-pau. 

O Judiciário também poderia aderir às máscaras, nem que fosse para abafar os bate-bocas que alguns de seus ilustres representantes andaram protagonizando. Mas elas serviriam principalmente para impedir que as bactérias emanadas por certas sentenças contaminassem as pessoas que ainda continuam acreditando na Justiça. 

Por fim, e já que os aloprados do poder continuarão à solta, o exemplo deveria vir de cima, e o primeiro a adotar o uso compulsório das máscaras seria o Executivo.

FERNANDO RODRIGUES

A cultura do privilégio

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/05/09

BRASÍLIA - Um funcionário público organizava um evento há algumas semanas e encafifou com o fato de haver apenas copos de plástico para servir água às autoridades. Queria comprar copos de vidro. Alguém então teve a coragem de perguntar: "Qual é o problema de beberem água em copos de plástico?". Economizou-se dinheiro.
Esse episódio prosaico ilustra a cultura vigente no poder público nacional. Chefes de repartição exigem tratamento especial. Copos de plástico? Nem pensar. Para ministro, juiz ou congressista, a deferência requerida vai ao paroxismo. Há exceções, mas a regra dessa turma é sentir asco por ficar numa fila ou carregar a própria mala.
Essa ausência de valores republicanos está no DNA da atual onda de escândalos. Basta ver a sem cerimônia das respostas dos protagonistas. Para eles, tudo é legal. No Executivo, o ministro Hélio Costa (Comunicações) usa motorista e secretária pagos pelo Senado. Acha o despautério natural. No Congresso, metade dos deputados viajou ao exterior usando passagens aéreas destinadas ao exercício do mandato. O presidente da Câmara, Michel Temer, declarou considerar tudo "lícito".
Pelo menos dois ministros de altas cortes de Justiça tiveram integrantes de suas famílias recebendo tratamento especial quando em viagens ao exterior. Os benefícios oficialmente solicitados incluíam furar as filas de embarque e dispensa de abrir as malas na alfândega. O presidente do STF, Gilmar Mendes, aquiesceu: "O auxílio se presta nos aeroportos sem nenhuma conotação de privilégio".
Com seu poder de síntese, Lula resumiu o jeito macunaímico de fazer política no país: "Eu não sei o que vocês veem de novidade no que acontece na Câmara (...). Que um deputado utiliza passagem? Isso é utilizado desde que o Congresso é Congresso, gente". Em resumo, a cultura do privilégio está aí para ficar. Não há risco de melhorar.

COISAS DA POLÍTICA

Comissão atrapalha e não resolve

Villas-Bôas Corrêa

JORNAL DO BRASIL - 02/05/09

A LIÇÃO TANTAS VEZES repetida que ficou gravada na memória ensina que, quando a burocracia, em todos os seus níveis, manobra para adiar para as calendas uma decisão enrascada em dúvidas, não há melhor saída do que criar uma comissão. Daí em diante é só deixar o tempo correr até que a pedra do esquecimento soterre o indesejável na poeira dos arquivos.

Foi com esta ponta de desconfiança que analisei a decisão do presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), de criar uma comissão composta pelos integrantes da Mesa e pelos diretores da Casa para apresentar uma sofisticada proposta de modernização da estrutura do mandato parlamentar. Francamente, se não é, tem todas as características de uma jogada protelatória, para esperar que baixe a poeira das surdas reclamações de decepcionados deputados com o fim da orgia com as cotas de passagens aéreas, antes que as articulações entre a Câmara e o Senado fechem o acordo sobre o delicado tema das mordomias, vantagens e mutretas dos representantes do povo.

E, se não é bem assim, para que comissão? A farra dos saques ao cofre da Viúva chegou a tais extremos de desfaçatez que não é necessário mais que uma avaliação crítica para separar o que não salta a cerca do razoável da lista dos absurdos do despudor.

O deputado Michel Temer, os membros da mesa e os diretores da Casa ligados ao controle das verbas da Câmara, trancados numa sala, longe do vozerio do baixo clero e de seus aliados, não teriam a menor dificuldade em cortar ou rever as parcelas da relação dos premiados com um dos melhores empregos do mundo.

O prazo de um mês, para o que pode ser feito em horas, cutuca na suspeição que tirava a sua soneca com o sedativo do corte na farra das passagens aéreas. A leitura das parcelas que compõem o buquê dos subsídios parlamentares forneceria à ilustre comissão os elementos suficientes para o corte de mais da metade. Reconheça que R$ 16.519 mensais está muito abaixo do padrão de vida de um parlamentar. Mesmo com a ajuda de custo de R$ 33.339 e um subsídio a mais no início e no fim de cada sessão legislativa.

Convém respirar fundo e tapar o nariz para a travessia no lamaçal das mutretas geradas nos quase 50 anos da mudança da capital para Brasília. Uma das mais imorais é a verba indenizatória de R$ 15 mil mensais para o ressarcimento das despesas durante o fim de semana no seu feudo eleitoral. Trata-se de um rolo de arame farpado de trampas. Não há nada que justifique o prêmio ao privilégio do parlamentar não morar em Brasília, com a família, com excelentes apartamentos mobiliados à disposição e que se deterioram no desleixo do abandono.

De uma só cajadada abatiam-se dois abusos: a cota de passagem e a verba indenizatória. E o Congresso recuperaria com a compostura as condições ideais para o seu funcionamento. Auxílio-moradia de R$ 3 mil mensais para o sofisticado que recusa morar em Brasília ou utilizar o apartamento funcional seria um puxão de orelhas no descaro da ganância.

Um nicho intocável e suspeito, e que custa uma fortuna, espalha-se por corredores e anexos do Congresso com os gabinetes individuais dos senadores e deputados, fornidos com verbas de fazer inveja a um encalacrado milionário com a crise econômica. São R$ 60 mil mensais para contratar até 25 assessores. O nível dos debates parlamentares, transmitidos pela TV-Câmara, é um bom índice para avaliar a utilidade dos 25 assessores, que não cabem em pé em muitos gabinetes dos anexos.

O Congresso continua a merecer o crédito de confiança reconquistado com a decisão dos presidentes das duas Casas de acabar com a escandalosa farra dos bilhetes aéreos. É uma pena que não tenha continuado na mesma trilha, preferindo o atalho da criação da comissão para rever benefícios sabidos e expostos ao desprezo da opinião pública. Na desculpa para a madraçaria, invoca-se sempre a desculpa de que o governo mumificou o Congresso com o uso e abuso das medidas provisórias, uma fila de inutilidades que tranca a pauta e impede a votação de matérias que envelhecem antes de serem votadas.

Seria mais simples cortar o mal pela raiz. Bastaria o Congresso acabar com as medidas provisórias com uma emenda constitucional aprovada pelo voto do brio dos representantes do povo.

EX-DIRETOR ACUSA AGACIEL DE TER TERCEIRIZADAS

João Carlos Zoghbi e sua mulher afirmam à revista "Época" que o ex-diretor-geral é sócio de todas as prestadoras de serviço da Casa

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/05/09

O casal não mostrou provas das acusações, mas insinuou que Agaciel usa seus irmãos como laranjas; ele não foi localizado para comentar 

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O ex-diretor de Recursos Humanos do Senado João Carlos Zoghbi e sua mulher, Denise Zoghbi, acusaram o ex-diretor-geral da Casa Agaciel da Silva Maia de ser dono de todas as empresas terceirizadas que atuam na Casa.
"Esses anos todos, o Senado tem dono. Um único dono", disse Denise, sobre Agaciel. "Ele é sócio de todas as empresas terceirizadas [que têm contrato com o Senado]."
As declarações estão na última edição da revista "Época". Zoghbi já havia admitido ter usado a ex-babá Maria Izabel Gomes, 83, para ocultar os filhos como donos da Contact, empresa que atua como correspondente de bancos no mercado de empréstimo consignado do Senado.
A revista também mostrou que Maria Izabel é dona de outras quatro empresas. Na entrevista, o casal afirma que Agaciel atua em parceria com os primeiros-secretários.
"Ali, acho que ele divide tudo com o primeiro-secretário", disse Denise. "É a sintonia. Porque o primeiro-secretário, em última análise, é ele que delibera", complementa João Carlos.
"Ele [Agaciel] fica com a parte do leão. Agaciel está milionário", diz Denise.
A Folha não conseguiu localizar Agaciel, João Carlos nem sua mulher ontem.
O casal, no entanto, não apresentou provas das acusações, mas insinuou que Agaciel usa irmãos como laranjas.
"Quer uma ponta? Ele [Agaciel] tem uma penca de irmãos. Mas tem um que trabalha no Senado. É o Oto Maia, que é o mais próximo. Pode ter outros, mas esse, necessariamente, tem o nome dele", disse João Carlos, em outro trecho.
"Uma coisa é certa: ele não está concentrado em cima de uma pessoa. Ele tem braços porque foram 14 anos no comando. Deve ter umas dez terceirizadas", afirmou ele.
Na quinta-feira, Zoghbi entrou com pedido de aposentadoria no Senado.
A medida não interromperá a sindicância interna aberta na semana passada para apurar se ele favoreceu bancos em operações de empréstimo em folha de pagamento no Senado.
Na Casa, há 36 bancos habilitados para fazer empréstimo consignado. Segundo a "Época", 27 instituições bancárias fizeram empréstimos para servidores do Senado nos últimos três anos, num negócio que movimentou R$ 1,2 bilhão.
O banco Cruzeiro do Sul, que repassou R$ 2,3 milhões à Contact como comissão, é o líder no ranking dos empréstimos.
O casal tenta convencer senadores a dar uma punição mais branda. Ambos temem que ele possa ser demitido "a bem do serviço público", o que fará com que perca seus direitos de aposentadoria. No Senado, ele tem como padrinho Edison Lobão (PMDB-MA), que está licenciado e ocupa o Ministério de Minas e Energia.
Em março, Zoghbi deixou o cargo de diretor, "exonerado a pedido", após revelar que vive em uma mansão em Brasília, mas não abriu mão do apartamento funcional, onde deixou um filho morando de graça.

O IDIOTA


DORA KRAMER

O voto obtuso

O ESTADO DE SÃO PAULO - 02/05/09

Livre para decidir se participa ou não de eleições, em novembro do ano passado o cidadão norte-americano escolheu reagir ao baixo-astral pós W. Bush votando. Ficou horas em pé nas filas quilométricas, produziu um comparecimento às urnas como há muito não se via, uma típica ação afirmativa.

Se o voto nos Estados Unidos fosse obrigatório – como insiste a maioria dos países sul-americanos em contraposição ao restante do planeta –, talvez o negativismo acumulado na era Bush tivesse resultado na pregação em prol do voto nulo.

Navegando fundo nas asas do hipotético, nesse caso é possível que fosse agora Sarah Palin, a simplória vice-presidente republicana, e não Barack Obama, o sestroso presidente democrata, o centro das atenções nas comemorações dos 100 dias do novo governo nos EUA.

No Brasil de escândalos intermináveis, o ambiente é de universo em completo desencanto com a política. Terreno fértil para a semeadura das campanhas em defesa do voto nulo. Comprovadamente inúteis, uma tolice à qual político algum – decente ou indecente – dá a menor importância.

Serve para dar vazão a protestos, mas não tem serventia alguma para alterar coisa nenhuma no atrasado cenário da política brasileira.

Se em 2010 houvesse uma quantidade absurda de votos nulos não aconteceria nada. O assunto seria debatido por uns dias chegar-se-ia a duas ou três conclusões sobre a despolitização do brasileiro, a desmoralização da política e neste aspecto, dias piores viriam, pois o Congresso daí resultante certamente seria pior que o anterior, vale dizer, o atual.

Raciocinemos: supondo que uma campanha pelo voto nulo consiga um volume significativo de adeptos, em tese seriam os mais interessados no processo gente com capacidade de indignação e, portanto, imagina-se, potencial de discernimento.

Esses ficariam de fora. Iriam ao voto por obrigação e fariam uma farra da indignação, teclando bobagens nas urnas, invalidando votos.

Como só contam os válidos para efeito de eleição, participariam da escolha, aqui também em tese, os mais permeáveis à manipulação. Estes cumpririam direitinho o compromisso obtido mediante as embromações de sempre.

O Parlamento produzido a partir disso obviamente teria uma grande chance representar majoritariamente o voto “inconsciente” em detrimento daqueles deputados e senadores cujos compromissos com a opinião pública é que lhes garantem os mandatos.

Conclusão: o voto nulo ajuda o atraso, cuja presença é garantida por meio da obrigatoriedade do voto.

Se o eleitor indignado quer mesmo mexer com os brios dos políticos, sacudir a roseira e caminhar no sentido da tomada da consciência, o instrumento mais eficaz seria a cobrança pelo voto facultativo.

Esta mudança, sim, apavora os políticos. Tanto que o voto obrigatório é uma quase unanimidade. Usa-se o argumento de que, “no atual estágio” (note-se, “atual” há décadas) do país, o voto facultativo só favoreceria as elites, pois deixaria de fora o eleitor menos mobilizado, mais despolitizado.

Uma falácia, cuja real intenção é assegurar uma reserva de mercado de votos. Sem a necessidade de atuar na mobilização positiva do eleitor.

Ademais, se a referida “elite” significa o que há de melhor em termos de pensamento político em contraposição às conhecidas ações da arraia-miúda, escória mental e espiritual, palmas para a nata da política.

Esta, pelo menos, tem nome a zelar, reputação a preservar, muito a perder e precisar pensar duas vezes antes de prevaricar.

Entulho

Em sua defesa da manutenção parcial da Lei de Imprensa – no tocante ao direito de resposta – o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, a certa altura do julgamento perguntou em nome do que se justificava a revogação: “Só no fato de ter sido criada pelo regime militar?”

Principalmente nesse fato. Como, de resto, resumiu em seu voto a ministra Cármen Lúcia: “O ponto de partida e chegada da lei é garrotear a liberdade de expressão.”

Não tivesse sido essa a intenção, não teria a Lei de Imprensa nascido exatamente sob a ditadura.

Quanto ao exemplo citado por Gilmar Mendes – cujos donos foram injusta e moralmente massacrados pela conjunção de erros da polícia e da imprensa – o massacre não teria sido, como de fato não foi, evitado por obra daquela lei agora extinta.

O episódio é uma mancha no trabalho da imprensa brasileira que paga até hoje o preço. Onde mais dói: na credibilidade.

O descalabro foi cometido por um grupo de repórteres de São Paulo, incensados por um delegado e avalizados pelos respectivos editores. Mas o castigo foi generalizado, com razão, porque a lição nesses casos deve ser apreendida coletivamente.

A existência da lei nunca serviu para corrigir esse tipo de coisa. Sua permanência só prolongaria a convivência do Brasil com resquícios da concepção autoritária.

CLÓVIS ROSSI

Jack e a gripe suína

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/05/09

SÃO PAULO - Um estraga-prazeres chamado Andrew Cook, historiador britânico, está dinamitando a lenda de Jack, o Estripador. Diz que não passou de uma invenção para vender mais jornais. É o que relata o "Times" de ontem, com base no livro "Jack, o Estripador: Caso Encerrado". Nele, Cook afirma taxativamente que Jack é um personagem de ficção inventado pelos jornalistas e que os crimes no East End londrino, em 1888, foram obra de diferentes homens, sem nenhuma ligação entre eles.
O foco principal do livro é o jornal "The Star", lançado pouco antes de os assassinatos começarem e que foi o primeiro a sugerir um "serial killer". Coincidência ou não, o "Star" viu sua circulação aumentar em 232 mil exemplares durante o período em que noticiou à exaustão os crimes atribuídos a Jack.
Sou obrigado a confessar que, ao ler a história do "Times", não consegui deixar de pensar no mais recente "serial killer" a frequentar a mídia, a tal de gripe suína, agora rebatizada para H1N1. Com uma ressalva essencial: jornais como esta 
Folha dependem quase nada de venda avulsa, ao contrário de tabloides. Mas um sucessor do "Star", o tabloide "The Sun", vazou ontem relatório (de setembro) do Departamento de Saúde britânico prevendo que, na eventualidade de uma pandemia, 750 mil pessoas morreriam (só no Reino Unido) e 1,2 milhão seria hospitalizado, levando ao colapso "total ou parcial" da infraestrutura de saúde.
Quando se sabe que até ontem apenas dez pessoas haviam morrido -e no mundo todo-, é inevitável o paralelismo entre um "serial killer" que não existia e um que parece estar sendo exagerado. Pergunta também inevitável: quantas pessoas morrem, no mundo, de gripe comum no mesmo período em que morreram as dez vítimas da H1N1?

MÍRIAM LEITÃO

Futuro de rodas

O GLOBO - 02/05/09

O mercado americano, em crise, tem o tamanho de 12 milhões de carros. É isto que anima a Fiat, que, por causa da crise, virou acionista da Chrysler e entrou nos Estados Unidos. Se der certo, ela terá 51% da Chrysler. O presidente da Fiat no Brasil, Cledorvino Belini, diz que, aqui, o mercado voltou a acelerar e fecha o primeiro quadrimestre com o mesmo número de carros vendidos que no mesmo período de 2008.

Belini contou que o acordo com a Chrysler permitirá à Fiat entrar no mercado americano com uma plataforma de produtos compactos, com motores econômicos e flex. Ao mesmo tempo, a italiana poderá voltar ao mercado com o Alfa Romeo.

A Chrysler entrou em concordata com grande chance de recuperação, porque já negociou previamente com os grandes credores e com os trabalhadores. Agora, negociará judicialmente com os pequenos credores. O novo conselho da empresa terá três representantes da Fiat, um do governo canadense, um dos trabalhadores e quatro do governo americano. Ou seja, mais governo que setor privado. A Fiat, quando completar a transferência de tecnologia, aumentará sua participação para 35% da Chrysler e poderá, entre 2012 e 2016, comprar os outros 16% e chegar a 51% do capital. Belini admite que o mercado americano é um dos que mais sofre neste momento, mas diz que a empresa está animada de entrar nos EUA. “Mesmo rodando menos, é um grande mercado. Era um mercado de 15 milhões de carros e, agora, é de 12 milhões, mas ainda são 12 milhões!”

O mercado americano, viciado em SUVs e trucks, vai se acostumar com carros pequenos? Ele acha que sim. “É uma mudança de comportamento. Aquele tempo dos carros grandes passou. O mundo vive agora uma nova realidade.”

Na entrevista que me concedeu na Globonews, o presidente brasileiro da Fiat disse que a redução do IPI, decidida pelo governo, foi fundamental para que o setor se recuperasse por aqui. “O Brasil tinha uma média diária de vendas de 11,5 mil veículos em setembro, caiu em novembro para 8,5 mil, queda de 36%, e agora em março fechou em 11,8 mil. Vamos fechar o quadrimestre com o mesmo número de carros vendidos que no mesmo período do ano passado”, diz Belini.

Ele acha que há uma chance de 2009 terminar também com empate. Em 2008 foram 2,754 milhões de automóveis e comerciais leves vendidos no Brasil, e este ano pode terminar entre 2,5 milhões e 2,7 milhões. Mas, ele repete: isso “se o IPI continuar reduzido”.

Belini contesta a afirmação de que a renúncia fiscal é privilégio dado a um setor apenas. Ele empilha os números que a indústria automobilística apresenta como sendo o seu peso na economia. Diz que representa 22% do PIB industrial. Nessa conta entra todo o aço produzido para o setor automobilístico, todos os outros fornecedores, toda a rede de revendedores. Tudo o que a indústria gira. “O setor, visto assim de forma integrada, emprega 1,3 milhão de pessoas, fatura R$ 150 bilhões e recolhe R$ 33 milhões de impostos. Por isso é que teve a prioridade do governo, mas não temos privilégios. Outros setores estão tendo também queda de impostos.”

Ele argumenta que o governo recolheu mais do que deixou de receber. O aumento das vendas elevou a arrecadação do PIS/ Cofins, ICMS e IPVA.

Belini conta que o mercado americano deve terminar o ano com queda 40%; a Europa também. Os governos europeus estão dando subsídios diretos de até 4 mil euros para a compra do carro novo dentro do programa de renovação de frota. E isso está reanimando o setor. Nos outros países, a Índia não vai muito bem, a Rússia está péssima, outros países da América Latina estão com quedas de 20%, e no México vai piorar. O Brasil está caminhando para a estabilização e a China vai muito bem. “No mês passado, a China vendeu 1,08 milhão de carros. Em parte pelo incentivo do governo, que deu uma redução do imposto deles. Inicialmente para carro 1.0 e depois para carro até 1.6.”

O executivo disse que isso não o surpreende, porque está dentro das previsões de que a China e o Brasil se recuperariam mais rapidamente que os mercados americano e europeu, que sentem a crise de forma mais forte. “No conjunto, o mundo ainda está mal, mas alguns países saíram na frente.”

No médio prazo, a expectativa dele é de aumento do mercado brasileiro. “O Brasil ainda tem pouco carro em termos de densidade por habitante. Para chegar ao nível que está a Argentina hoje, o Brasil teria que ter 8 milhões de veículos a mais. Por isso nós não mudamos nosso plano de investir US$ 5 bilhões no Brasil até o fim de 2010”, diz Belini.

A estrada treme para a indústria automobilística do mundo, particularmente nos EUA e na Europa. Ainda não se sabe como a GM sairá da crise, a Chrysler entrou em concordata, a Ford tenta manter a decisão de não precisar de dinheiro do governo. As japonesas, como a gigante Toyota, têm dado prejuízo. Esta crise tem dois epicentros: o mercado bancário e a indústria automobilística. Da perspectiva da Fiat, pode ser uma chance de entrar no mercado americano. Tudo depende de como o acordo anunciado na quinta-feira vai evoluir.

TESÃO


SÁBADO NOS JORNAIS

- Globo: Deputados cortam 64% dos seus gastos após denúncias

 

- Folha: Lula vê "hipocrisia" no debate sobre passagens

 

- Estadão: Mais dez setores lutam por redução especial de impostos

 

- JB: Petrobras extrai o primeiro barril de óleo do pré-sal

 

- Jornal do Commercio: Pernambuco tem caso monitorado da gripe

sexta-feira, maio 01, 2009

MAIS UMA DO LULA CANALHA

Lula defende uso de passagens por mulheres e admite que levou sindicalistas para Brasília

CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu hoje que usou a cota de passagem aérea da Câmara, quando foi deputado federal, para levar sindicalistas para Brasília. Para Lula, não é crime usar a cota de passagem aérea para essa finalidade.

"Não acho crime deputado dar passagem para o dirigente sindical ir a Brasília. Eu, quando era deputado em Brasília, muitas vezes convoquei dirigentes da CUT e de outras centrais para se reunirem [lá] com passagens no meu gabinete", disse Lula.

CONTNUE LENDO AQUI

FERNANDO GABEIRA

O visitante

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/05/09

Numa das visitas internacionais mais politicamente delicadas do ano, chega ao Brasil Mahmoud Ahmadinejad. De um ponto de vista de nossas relações comerciais e culturais com o Irã, é compreensível.
Os dois países acabam de viver um desencontro.
O Brasil condenou, sem mencionar o nome, a intolerância que Ahmadinejad revelou na sua intervenção, em Genebra, na conferência sobre racismo. Teerã respondeu não ser adequado fazer críticas às vésperas da visita de Ahmadinejad.
Penso exatamente o contrário. A crítica foi feita na hora exata. É importante que ele conheça nossa situação. Somos pela existência de dois Estados, Israel e Palestina. Fiel à nossa política, Lula jamais deixou de mencionar isso, mesmo em conferências onde apenas os árabes estão presentes.
Quando há uma grande crise no Oriente Médio, fazemos no Saara, bairro comercial do Rio, manifestação das duas colônias, insistindo com nosso exemplo de que é possível uma convivência pacífica.
A presença de Ahmadinejad vai provocar manifestações de protesto. E é importante que Lula tenha consciência de que o Irã tem eleições nos próximos meses. Não é bom comprometer a imagem do país, muito simpática no Irã, com as pretensões de Ahmadinejad. Uma coisa é receber a Venezuela no Mercosul, outra, simpatizar com Chávez. De uma forma mais dramática ainda, uma coisa é desejar boas relações comerciais e culturais com o Irã, outra é respaldar um discurso de intolerância e ódio. A elegância para o anfitrião será uma caminhada na corda bamba.
As manifestações que esperam Ahmadinejad são, na verdade, consequência da sua negação do Holocausto. Para nós, a visita é um teste essencial num mundo onde o papel pacificador do Brasil estará sempre sujeito a reações apaixonadas.

INFORME JB

Por ora, a paz no ninho tucano

Leandro Mazzini

JORNAL DO BRASIL - 01/05/09

Do jantar sigiloso de Aécio Neves com José Serra, no Palácio dos Mangabeiras, segunda-feira, em que o bater de asas foi acertado entre os tucanos, um grande do partido revelou o cardápio à coluna: os dois terão agenda conjunta pelos estados, nada de cada um ir para um lado. Houve um pacto de não agressão durante as prévias, que haverá entre dezembro próximo e fevereiro do ano que vem. Ambos trabalham com a estratégia de que o PSDB enfrentará mesmo a Dilma Rousseff (PT). E negociaram adotar "uma posição de extrema cautela" quanto aos holofotes sobre a doença da ministra. Não se tocou no assunto chapa puro-sangue para a campanha. E descobriram que, separados num embate interno, só atrapalham o partido – com fortes chances de retomar o poder.

Nem pensar Homem-sorriso

Aécio, depois do encontro, respondeu a um aliado que queria saber se ele aceitaria ser vice na chapa de Serra, o favorito nas pesquisas: "Essa hipótese não passa pela cabeça de jeito nenhum".

Um amigo viu Serra chegando a São Paulo tão animado quanto chegou a Belo Horizonte. Com amplo sorriso.

Um milhão

A cúpula do PSDB ainda vai decidir como serão as prévias, se por estado ou em evento de apenas um dia. Mas a prioridade, agora, é recadastrar os filiados. Fala-se em 1,1 milhão.

Galeria

No lobby do COB para convencer o COI a escolher o Rio como sede dos Jogos de 2016, valeu até incluir a presidente do comitê, a marroquina Nawal El Moutawakel, na galeria de estrelas internacionais, com foto, em corredor do Copacabana Palace.

Vale-xerox

A Imprensa Nacional contratou a Xerox para manutenção preventiva e fornecimento de peças para as máquinas IGEN3. Vai pagar... R$ 825.347,16.

Arquivo de fogo

Seguindo uma determinação do MP, o Conselho Nacional de Justiça decidiu: os tribunais brasileiros deverão editar normas sobre a guarda e o armazenamento das armas de fogo apreendidas em processos judiciais.

Arquivo de fogo 2

Os tribunais terão de providenciar, em 60 dias, o levantamento de todas as armas e munições sob custódia do Judiciário por prazo superior a um ano.

PT unido

O ex-senador Saturnino Braga (RJ) mandou mensagem para Dilma Rousseff solidarizando-se sobre o linfoma. Lembrou que já teve o mesmo tipo de câncer, há dois anos, e recuperou-se bem.

Merenda do bem

A Secretaria Estadual de Educação e a Comissão de Segurança Alimentar da Assembleia Legislativa vão controlar a venda em excesso de balas, doces, salgadinhos e alimentos gordurosos nas cantinas de escolas do Rio. Parceria entre a secretária Teresa Porto e a deputada Alice Tamborindeguy.

Alô, alô...

Sob a tutela da vereadora Aspásia Camargo, presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia, a Câmara do Rio vota em maio projeto de lei do Executivo que dá incentivos fiscais às empresas de call centers. O objetivo é gerar 100 mil empregos em cinco anos com a redução do ISS de 5% para 2%.

... alô?!

Em oito anos, o Rio perdeu 60 mil postos de emprego no setor de telesserviço. A prevalecer o cenário, a linha vai ficar muda para 8 mil funcionários este ano.

Etanol do Puccinelli

Em almoço na ADVB no Rio, o governador André Puccinelli prometeu transformar Mato Grosso do Sul no maior produtor nacional de etanol até 2015. O MS tem 14 usinas em operação e mais 11 em processo de instalação

País da cerveja

A AmBev instalou nas fábricas de Brasília e Goiânia um "contador de garrafas". A partir de maio, as unidades terão 100% da produção controlada pelo novo sistema. Vai expandir a tecnologia para as outras fábribas.

GOSTOSA


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MERVAL PEREIRA

Bravatas oposicionistas

O GLOBO - 01/05/09

O PPS deu uma consertada na campanha eleitoral que vem divulgando, admitindo que o governo "vai mexer na poupança como Collor", mas desta vez apenas nos rendimentos, sem confiscar os depósitos existentes. É uma diferença fundamental, que faz com que a denúncia do PPS tenha sido tratada pelo próprio presidente Lula como "irresponsável" e "insana". Mas, mesmo sendo uma abordagem tecnicamente errada, estaria errada politicamente? Os que analisamos a política nacional temos a obrigação de defender que a atividade política obedeça a critérios éticos, e, desse ponto de vista, concordo com os que criticaram a campanha do PPS. Mas temos também que analisar a maneira como a política brasileira vem sendo disputada nos últimos anos, entender quais as raízes de suas distorções e trabalhar para que os erros sejam corrigidos.

Não me lembro, por exemplo, de um programa do PT, quando na oposição, admitindo ter errado na crítica ao governo tucano. Desse ponto de vista, a atitude do PPS já é um avanço.

Mas o deputado Raul Jungmann, autor da "denúncia", levanta uma questão importante: por que o governo não deixa o mercado se ajustar, obrigando os bancos a reduzirem as taxas de administração dos fundos de renda fixa, que chegam a 4%, em vez de apenas reduzir os ganhos da poupança?

Não há dúvida de que foi o PT que iniciou essa maneira de fazer política, ao defender posições apenas para se opor ao governo, sem levar em conta as reais necessidades do país, como faz agora o PPS, ao criticar a mudança nas cadernetas de poupança sem admitir que existem necessidades macroeconômicas que a torna imperiosa.

Mas também o presidente Lula, ao anunciar que o governo mexerá na poupança "para proteger o pequeno poupador", está sendo impreciso, tão impreciso quanto a denúncia do PPS, e tenta engabelar a maioria dos depositantes das cadernetas de poupança.

São abordagens políticas de um tema econômico delicado, e por isso o governo como um todo, e o presidente Lula pessoalmente, estão tão irritados com a maneira de fazer política do PPS, que eles conhecem muito bem. Tão bem que sabem de seus efeitos na população.

Mais de uma vez o passado petista voltou para assombrar seus integrantes no governo, mostrando quanto tempo foi perdido nas reformas do Estado pela ação predatória do PT, as famosas "bravatas" que o presidente Lula já admitiu ter usado como recurso de oposicionista.

No início do governo, as reformas da Previdência e tributária mostraram a incoerência entre o que o PT defendia na oposição e o que fazia no governo, e próceres do petismo explicavam tudo como sendo "luta política".

Basta lembrar que o PT votou contra o Fundef, que mudou radicalmente o financiamento do ensino fundamental no país; contra a criação da CPMF; contra a Lei de Responsabilidade Fiscal; contra a reforma da Previdência; contra a privatização das telecomunicações. Uma enorme lista.

Até mesmo quando o PT conseguiu impor medidas corretas ao governo, ele não as assumiu por questões meramente eleitoreiras. Foi o que aconteceu, por exemplo, na negociação da Lei de Responsabilidade Fiscal, já no segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique.

Estavam incluídos no projeto de lei temas polêmicos, como a proibição de o Banco Central emitir títulos por conta própria, e a obrigação de dirigentes da instituição e do Ministério da Fazenda comparecerem ao Congresso regularmente para prestar contas.

Todos os pontos que diziam respeito à relação do Tesouro Nacional com o Banco Central, porém, foram tirados do texto oficial, pois o governo de então temia que disputas internas interferissem na tramitação do projeto.

Nas negociações no Congresso, no entanto, o PT decidiu só apoiar o projeto de lei se alguns desses pontos fossem novamente incluídos.

Mas o PT recuou, alegando razões políticas, e se recusou a votar o projeto, que foi aprovado contra o voto dos petistas.

O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que como deputado federal votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, disse certa vez que o também ex-ministro Pedro Malan merecia uma estátua por ter renegociado as dívidas dos estados e municípios.

O Partido dos Trabalhadores foi contra também a criação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), que se tornou tão imprescindível para fechar as contas públicas que o próprio governo petista quis transformá-la em permanente na reforma tributária, e desvinculou-a oficialmente dos gastos com a saúde. Depois lamentou profundamente seu fim.

O Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) promoveu uma transformação radical na estrutura de financiamento do ensino fundamental no país e foi implantado em 1998, contra o voto do PT. Mas deu tão certo que o governo petista lançou o Fundeb, para o ensino básico.

A emenda constitucional que quebrava o monopólio estatal nas telecomunicações foi aprovada contra o voto do PT, que foi acusado de defender as corporações estatais. Hoje, o governo reformou a legislação para permitir que surja uma grande empresa nacional privada de telefonia, com a compra da Brasil Telecom pela Oi.

Foram essas posições irresponsáveis que levaram o PT ao governo, e, como a receita deu certo, a oposição se vê tentada a adotar os mesmos métodos demagógicos. Até por que o presidente Lula continua mestre nas bravatas, mesmo no governo. Agora, o PPS denuncia a redução dos rendimentos da caderneta de poupança, tucanos e democratas pedem reajustes maiores do salário mínimo ou cortes maiores nas taxas de juros.

Mesmo que em prejuízo da democracia, quem com bravatas fere...

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