terça-feira, dezembro 23, 2008

COLUNA PAINEL

Querido Papai Noel


Folha de S. Paulo - 23/12/2008
 

Em reunião na sexta-feira, o comitê gestor do PAC decidiu incluir no programa um punhado de obras com padrinhos políticos influentes. No sábado, a deputada Marinha Raupp (PMDB), mulher do líder peemedebista no Senado, Valdir Raupp, recebeu telefonema da secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra. A obra premiada era o asfaltamento da BR-429, que corta Rondônia, e de acessos rodoviários a Porto Velho. "Fazia tempo que eu pedia. Estar no PAC é importante para não haver cortes", diz a deputada.
Já Eunício Oliveira (PMDB) festeja a inclusão no programa de duas barragens e de uma adutora no Ceará, no valor total de R$ 250 milhões. "Terminei bem o ano", afirma o deputado e ex-ministro.

Veja bem
A Casa Civil não divulgou a lista das novas obras. O governo diz que o PAC é constantemente avaliado com a ajuda de governadores, prefeitos e congressistas. As ações incluídas seriam "estruturantes" e enquadradas nos pré-requisitos legais. 

Em obras 1
O edital da reforma do Palácio do Planalto divulgado ontem mostra que a Presidência da República não pretende economizar. Somente o sistema de ar condicionado vai custar R$ 15 milhões, valor próximo ao total gasto na reforma do Alvorada, que saiu por R$ 18 milhões. 

Em obras 2
Segundo o edital, os elevadores sairão por R$ 1,5 milhão. A reforma do espelho d"água custará R$ 551 mil, e novos móveis estão orçados em R$ 425 mil. No total, o novo Palácio do Planalto deverá custar R$ 88 milhões. 

TubarãoAo descartar a idéia de passar uns dias de folga em Fernando de Noronha, Lula contou que tem medo de descer ao fundo do mar. "Não faz sentido ir pra lá e não mergulhar!", disse o presidente. 

Balão
Recém-chegado de viagem ao exterior, João Santana não pára de receber telefonemas de gente interessada em comparecer à festa de Ano Novo que o marqueteiro de Lula promoveria em Trancoso. Não há festa, diz Santana, em contagem regressiva para o nascimento da neta. Para ele, tratou-se de "pegadinha" de algum (muy) amigo.

SOS.
Aécio Neves (PSDB) anuncia hoje a prorrogação, por 60 dias, dos prazos de pagamento das contas de luz nos municípios atingidos pela chuva em Minas. O pacote do governador inclui uma linha de crédito de R$ 50 milhões para empresas dessas áreas. 

Plano B
Caso a reforma do estádio do Morumbi não venha a satisfazer as muitas exigências da Fifa, o tricolor Gilberto Kassab (DEM) já tem alternativa, na zona norte de São Paulo, de local para a construção da arena que será usada na Copa de 2014. 

Sucata 1
O Judiciário de São Paulo está "gravemente enfermo", e o quadro é "caótico", afirma o desembargador Ivan Sartori, do TJ-SP, que colocou na internet dados sobre o "acelerado processo de sucateamento" no Estado. 

Sucata 2
Os 2.296 magistrados paulistas não têm estrutura para dar vazão aos processos, sustenta Sartori em seu blog. A dívida com servidores e juízes chega a cerca de R$ 2,5 bilhões, e não há "prognóstico de resgate". 

E eu?
Gilmar Mendes foi na semana passada. Protógenes Queiroz, ontem. Mas Fausto De Sanctis, outro personagem de destaque da Operação Satiagraha, não foi convidado para o "Roda Viva", da TV Cultura. O juiz federal analisa proposta de outra emissora. 

Sumiu
Dorme há 20 dias no Senado uma nota técnica da consultoria legislativa que considera inconstitucional a devolução por Garibaldi Alves (PMDB-RN), da MP das filantrópicas. A Mesa Diretora não pretende adotar o documento para não constranger o presidente, candidato à reeleição. 

Tiroteio

"Num momento de crise mundial, a adesão da Venezuela amplia o protagonismo e fortalece as economias dos membros do Mercosul. A oposição dos tucanos revela ignorância política."


Do deputado 
DR. ROSINHA (PT-PR), sobre o a aprovação pela Câmara, à revelia da bancada do PSDB, da entrada da Venezuela no Mercosul.

Contraponto

Desejo de Natal

Na semana passada, quando o Conselho Monetário Nacional se reuniu pela última vez em 2008, Guido Mantega achou por bem, uma vez encerrada a pauta, dirigir algumas palavras de agradecimento aos assessores presentes.
-Sem o belo trabalho de vocês não teríamos alcançado esses resultados-, disse o ministro da Fazenda não apenas a seus subordinados mas também aos funcionários do 
Planejamento e do Banco Central que estavam na sala.
A turma toda já se despedia, trocando votos de feliz Natal e próspero Ano Novo, quando o
ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, resolveu dar sua mensagem:
-E não esqueçam de consumir, por favor!

DORA KRAMER

Palavra de presidente


O Estado de S. Paulo - 23/12/2008
 

No café da manhã em que se reuniu com os repórteres credenciados no Palácio do Planalto, quinta-feira da semana passada, o presidente Luiz Inácio da Silva reafirmou a tendência de patrocinar o nome da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para sua sucessão, mas não traçou um perfil exatamente generoso da pretensa candidatura.

A julgar pela versão de Lula, Dilma ainda tem léguas a percorrer antes de se tornar uma candidata competitiva. Em 2010.

Candidaturas bem-sucedidas - descontadas as exceções que confirmam a regra, diga-se logo para contraditar a inevitável lembrança de Fernando Collor - precisam ter um forte componente de naturalidade. 

Nomes impostos, mesmos os conhecidos, em geral tendem ao fracasso. A Dilma descrita por Lula naquele encontro é uma candidata artificial. Tomemos como verdadeiras as palavras do presidente. 

Segundo ele, os dois nunca conversaram sobre a hipótese da candidatura, o que significa que as cartas não estão postas na mesa pouco mais de um ano antes do início da campanha de um personagem ainda desconhecido por 48% dos brasileiros, não obstante a exposição quase diária da “mãe do PAC” durante 2008 todo. 

Lula informou que, por enquanto, Dilma Rousseff está “em teste” junto à população, ao mundo política e sob a observação pessoal dele. “Estou vendo como ela se comporta.”

Testes são adequados a produtos, mercadorias, algo que se pretende lançar no mercado. Pessoas que precisam ser escolhidas por outras pessoas necessitam transmitir confiança, empatia ou representar algo capaz de mobilizar a razão ou a emoção do eleitorado. 

Por exemplo: Fernando Henrique Cardoso em 1994/1998 mexeu com o racional; Luiz Inácio da Silva em 2002/2006 buliu com o emocional do brasileiro. 

A Dilma Rousseff retratada naquele café da manhã por Lula assemelha-se a uma peça recém-fabricada na fase de testes, embora, como ele diz, “tecnicamente” perfeita. É de se perguntar quais seriam os atributos “técnicos” de um candidato a presidente da República e se Lula dispõe dessas características.

Está bem, o atual presidente é um caso à parte, admitamos. Mesmo assim, Lula ainda mostra lacunas na sua predileta. Acha que ela precisa ter mais disposição para “tratar com jornalistas, dar mais entrevistas”, pois só o “gabarito” profissional na ministra não basta para ganhar uma eleição.

“Assunto”, acrescenta ele, para tratar nessas entrevistas não falta a Dilma Rousseff. É possível que a ministra da Casa Civil esconda suas qualidades de boa conversadora e de pessoa de bom trato.

Por ora, consegue levar platéias inteiras ao sono solto em suas apresentações “técnicas” de balanços do PAC ou provocar absoluto terror de uma reprimenda súbita naqueles que tiveram oportunidade de acompanhá-la nas explicações sobre o dossiê FHC, de uma rispidez à prova de qualquer teste. 

Não são os adversários que esquadrinham o perfil da ministra em busca de defeitos. É o próprio presidente quem aponta o árduo e longo trabalho a ser feito com Dilma Rousseff antes que ele possa ter na ministra uma candidata para chamar de sua. Pelo menos uma à altura da tarefa de conquistar a maioria dos 130 milhões de corações votantes. 

Retrato fiel

O deputado Ciro Gomes deu uma entrevista para a edição de domingo do Globo, afirmando sua independência em relação ao PT na eleição de 2010, “se necessário for”. 

Uma irrelevância, considerando a distância dos acontecimentos. Como ele mesmo diz, “tudo o que se vê hoje é uma remotíssima pista daquilo que provavelmente ocorrerá”.

Relevante de fato foi a análise feita pelo deputado a respeito do funcionamento do Poder Legislativo, da escala de prioridades vigente principalmente na Câmara e nos critérios de escolha para a ocupação de postos-chave.

Diz Ciro Gomes: “Na Câmara há uma seleção às avessas. Quanto mais mérito alguém tem, mais irrelevante é. Um exemplo: a Comissão de Constituição e Justiça tem entre seus quadros o ex-governador Roberto Magalhães, Ibsen Pinheiro, Flávio Dino. Todos brilhantes. E a CCJ, por esse acordo PT-PMDB e por essa hegemonia moral estranha, escolheu o jovem Leonardo Picciani e, em seguida, Eduardo Cunha. Isso está errado. É grave que os melhores, os mais sérios, os mais qualificados sejam preteridos, num coletivo onde se ajuíza o futuro da nação, por aqueles que não têm os mesmos dotes.” 

E por que essa situação? Quis saber o jornal.

“Porque não se tem hegemonia moral e intelectual. O que preside a hegemonia hoje é a fisiologia, é a repartição de privilégios. É uma panelinha que escolhe entre si.”

Ciro Gomes provavelmente contratou mais inimizades internas. Em compensação, ajudou o público externo a compreender um dos motivos pelos quais o Congresso continua a surpreender em sua inesgotável capacidade de dar de ombros aos cidadãos que deveriam representar.

ELIANE CANTANHÊDE

Bom emprego!


Folha de S. Paulo - 23/12/2008
 

O meu melhor voto neste Natal é justamente esse: bom emprego! A coisa está feia, sem sinais de que vá melhorar. Ruas de comércio e shoppings estão cheios em grandes e pequenas cidades, como sempre, mas as sacolas parecem bem vazias, como raramente nesta época do ano.
Isso indica que o medo e a desconfiança, que começaram pelos mercados e avançaram pela produção, começam a atingir o consumo.
Como disse ao "El País" Miguel Angel Fernández Ordoñez, do Banco da Espanha, a desconfiança é total, o que gera um círculo vicioso: "Os consumidores não consomem, os empresários não contratam, os investidores não investem, e os bancos não emprestam. Há uma paralisação quase total, nada escapa".
As previsões parecem cada vez mais sombrias. Em 2008, os EUA perderam mais de 10 milhões de postos de trabalho, 533 mil só em novembro, e a taxa de desemprego bateu em 6,7%, a pior desde 1974, quando o país vivia uma recessão. E é só o começo.
No Brasil, 2008 foi um bom ano para a economia e, portanto, para os empregos. Mas o que era bom começou a ficar ruim, mais de 40 mil empregos acabam de evaporar, as previsões de crescimento para 2009 não param de cair e o próprio ministro do Trabalho, Carlos Lupi, admitiu, na direção oposta do que diz o presidente da República, seu chefe, que as perspectivas de emprego não são nada animadoras.
Lula mandou todo mundo gastar, mas Lupi previu, em entrevista à 
Folha, um primeiro trimestre "brabo", o que soou assim: fechem bolsos e carteiras agora, porque vocês podem precisar muito amanhã.
O tempo dirá quem tem razão, se o FMI, o Banco da Espanha, o ministro do Trabalho ou Lula. Pelo sim, pelo não, você não deve abusar.
Ótimo Natal, mas sem exagero. E não se esqueça de pedir ao Papai Noel o melhor presente para você e para sua família: manter a poupança. E os empregos.

IDIOTAS UNIDOS


LUIZ GARCIA

De vereadores a orelhas


O Globo - 23/12/2008
 

Senado e Câmara estão brigando sobre o número de vereadores de que o Brasil precisa. Ou numa visão talvez mais realista, sobre a quantidade de vereadores que os municípios podem agüentar, sem que vá pelos ares o orçamento local ou a paciência do eleitorado. 

Tudo começou com um projeto de lei apresentado este ano pelo deputado Pompeu de Matos (alguém na arquibancada sabe quem é?), propondo distribuir novos sete mil, trezentos e quarenta e três vereadores por dois mil e poucos municípios. 

Sem muita discussão, a Câmara aprovou o aumento - mas incluiu no texto um acréscimo na contramão da proposta: corte de 50% nos gastos dos legislativos municipais. 

Ficou meio difícil entender: os municípios precisam de mais vereadores, mas de menos recursos para eles trabalharem? Se fosse exatamente o oposto, não faria mais sentido? Ou seria insensata manifestação de confiança? 

Para o respeitável público - ou, melhor, para o público que se respeita - não parece existir injustiça na premissa implícita: quanto maior o número de vereadores, maior o desperdício de dinheiro público. 

No capítulo seguinte da novela, os senadores aprovaram mais vereadores e rejeitaram menos recursos. E foram além da proposta original, decidindo que o aumento do número de representantes seria imediato, aproveitando suplentes não eleitos nas eleições deste ano. 

Com isso, o Senado mostrou que gosta mesmo é de uma boa briga: além do choque com a Câmara, bateu de frente com o Tribunal Superior Eleitoral, que só admite aumento no número de vereadores nas eleições de 2012. 

Quem está de fora e não é sobrinho nem cunhado de vereador, possivelmente tende a ficar do lado dos deputados e da Justiça Eleitoral. O panorama do país mostra uma preponderância de municípios pequenos, com maior tendência ao desmembramento do que à fusão. E o bom senso leigo sugere que a pulverização de autoridade e recursos costuma ser menos eficiente do que mudanças em sentido oposto. 

Sexta-feira passada, o presidente Lula foi taxativo: "Não são mais sete mil vereadores que vão resolver os problemas das cidades." Palavras de aparente bom senso. Seria uma beleza se ele se lembrar de repeti-las, com a autoridade do cargo e da popularidade pessoal, aos senadores e deputados que, presume-se, seguem sua orientação no Congresso. 

Para que ninguém pense que produziu apenas uma frase de palanque, dessas que são jogadas ao vento apenas para impressionar crédulas orelhas.

INFORME JB

STF, o Papai Noel dos vereadores


Jornal do Brasil - 23/12/2008
 

O ministro do STF Carlos Alberto Direito concedeu ontem liminar a favor da Câmara Municipal de Belo Horizonte autorizando o pagamento do 13º salário dos vereadores. BH, acrescente-se, não é a única cidade do país a dar o privilégio. Mas o Tribunal de Justiça do estado vê aí uma inconstitucionalidade. Nos seus argumentos, em nome do Supremo, Direito diz que o TJ não é instância para resolver o caso. A benesse sai a poucas semanas de a corte maior julgar o caso da Câmara Federal, que não endossou a decisão do Senado sobre a criação de mais 7 mil vereadores – para tomar posse em janeiro. Se isso é um sinal de que o STF vai legislar, mais uma vez, em nome do Congresso, e abrir a porteira para os futuros edis, é cedo para saber. O fato é que cada um dos 41 vereadores de BH vai receber esta semana mais R$ 9.288,05.

Cofre cheio

Os gastos previstos da Câmara Municipal de BH para 2009 são de R$ 115 milhões, ou 2,26% do Orçamento da prefeitura.

É mole?

No Rio, ainda é mais vantajoso ser vereador. Os 50 edis recebem 15 salários de R$ 9.200 por ano: o 13º, sim, mais dois salários de auxílio-paletó – um no início do ano e outro, no fim.

2 x 2

Ou seja, em dezembro e janeiro, ganham quatro salários.

Os sem-voto

A aprovação no Senado da PEC dos Vereadores, como é chamada a porteira para os novos 7 mil que não tiveram votos suficientes, é considerada um acinte pela Mesa Diretora da Câmara.

Posse extra

O prefeito eleito do Rio, Eduardo Paes, juntou os 50 vereadores da capital num almoço ontem. Pelo visto, terá governabilidade total.

Pré-acordo

O vereador Jorge Felippe (PMDB) é pule de 10 para ser o presidente da Câmara. O líder do governo, já adiantado aqui, será Adilson Pires (PT).

O lenhador

Lula, sem querer ou sem saber, jogou mais lenha na fogueira da briga entre os defensores dos aeroportos Santos Dumont e Galeão. O Aerolula, que de praxe e há anos desce no Galeão, ontem aterrissou no Centro do Rio.

Lá e cá

O presidente Lula chegou um dia depois de Solange Vieira, presidente da Anac, defender mais vôos para o Centro. Gente da Infraero diz que o Santos Dumont chegou ao teto de operações e, agora, quer priorizar o Galeão.

Au revoir, com grana

Os investidores que captavam recursos de milionários brasileiros para o fundo de Bernard Madoff – que outrora fizeram a festa da turma mas desta vez afundaram num saldo de tormentas – mesmo assim vão passar o Natal na França, com filhos, sobrinhos, netos.

O outro

O TSE vai inserir nas urnas das eleições a partir de 2010 as fotos dos candidatos à Presidência e à Vice, e ao Senado, além de seus suplentes. Já era hora, para um Senado que hoje tem um terço de suplentes que sequer tiveram um voto.

Balanção do Toffoli

Na mania de balanço de tribunais, a Advocacia Geral da União resolveu fazer um. E saiu-se bem. Diz o ministro José Antonio Toffoli que a AGU economizou para o país R$ 640 milhões barrando ações contra a União.

Currículo atualizado

A Justiça Federal condenou o ex-governador do Espírito Santo José Ignácio Ferreira a cinco anos de prisão em regime semi-aberto e ao pagamento de multa de 180 salários mínimos. Tudo por causa de um empréstimo mal explicado de R$ 2,6 milhões, do Banestes, em 1998, antes de assumir o governo.

Luta do Rio

A bancada do Rio não luta só para segurar a Escola Superior de Guerra. Há outros órgãos ameaçados de deixar a cidade. O deputado Otávio Leite (PSDB) lembra que o Decex, do Ministério do Comércio Exterior, partiu há um ano para Brasília, deixando centenas de funcionários órfãos.

Luta do Rio 2

A mais recente ação da turma do poder de Brasília foi a tentativa de capturar a sede da Funarte. Mas tudo ficou como estava.

ILIMAR FRANCO

Agenda e factóide

Panorama Político
O Globo - 23/12/2008
 

A aprovação, na CCJ da Câmara, da constitucionalidade da emenda que acaba com a reeleição foi um factóide natalino. Com o fim do recesso, em fevereiro, o governo Lula enviará proposta de reforma política com cinco projetos de lei, um projeto de lei complementar e uma emenda constitucional. Nenhum dos projetos prevê o fim da reeleição. Eles estão na Casa Civil. Prioridade para financiamento público e para o voto em lista. 

José Anibal está levando 

Com o adiamento para fevereiro da escolha do líder do PSDB na Câmara, o deputado Paulo Renato Souza (SP) tem 40 dias para tentar reverter a tendência da maioria da bancada. Uma lista com 37 assinaturas, dos 58 da bancada, é a favor de acabar com o sistema de rodízio na liderança e reconduzir o atual líder, José Anibal (SP). Essa batalha tem reflexos na luta interna nacional do partido. Anibal quer concorrer ao governo do estado em 2010, mas sua pretensão não está nos planos do governador José Serra. Anibal e Paulo Renato eram da linha de frente da candidatura de Geraldo Alckmin à prefeitura de São Paulo. 

Não tenho ganância pelo poder, fiquei seis anos sem mandato" - Patrus Ananias, sobre a disputa no PT mineiro para concorrer ao governo, em 2010 

ACOMPANHANDO A CRISE. Os efeitos da crise ficaram palpáveis ontem, quando o Ministério do Trabalho informou que foram fechados 40 mil empregos formais em novembro. Ainda assim, o ministro Carlos Lupi prevê que neste ano terão sido criados cerca de 1,9 milhão de empregos com carteira assinada. A pesquisa Seade-Dieese revelou que a taxa de desemprego caiu a 13% em novembro nas seis regiões metropolitanas pesquisadas. 

Quatro mãos 

A fala de fim de ano do presidente Lula foi redigida pelo ministro Franklin Martins (Comunicação de Governo) e João Santana. Foram consultados sobre o texto Guido Mantega (Fazenda) e Celso Amorim (Relações Exteriores).

CPI do barulho 

A CPI do Aborto nem começou e a confusão está formada. O deputado Chico D"Angelo (PT-RJ) vai entrar com representação na Comissão de Ética do partido contra Luiz Bassuma (PT-BA). Acusa o colega de "oportunismo religioso". 

O confronto na esquerda 

Aliado histórico do PT, o PCdoB não diverge apenas nas eleições para a presidência da Câmara, onde foi lançado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para se contrapor ao candidato apoiado pelo PT, Michel Temer (PMDB-SP). No movimento sindical a guerra é ainda maior. Numa votação apertada, o Sindicato dos Metroviários de São Paulo decidiu abandonar a CUT, a central petista, e se filiar à CTB, central criada pelos comunistas. 

"A verdade, onde estiver" 

O juiz espanhol Baltasar Garzón publica artigo atual na revista da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, alusiva aos 60 anos da Declaração Universal. Num dos trechos, ele afirma: "Justiça a la carte não é justiça. Aqueles que desejam passar por cima de alguns casos, o que pedem é uma justiça a la carte". O jurista, do caso Pinochet, está empenhado agora em saber o paradeiro dos órfãos, de mães republicanas e que foram dados para adoção, da guerra civil espanhola. 

PREVISÃO do presidente da Funcef, Guilherme Lacerda: "O crescimento do PIB no terceiro semestre será de 0,5%. O PIB vai fechar o ano em 5,7%". 

REAÇÃO do líder do PMDB, Henrique Alves (RN), às críticas de Ciro Gomes: "O destempero do Ciro Gomes já é conhecido de todo o país. Aos seus absurdos, prefiro ficar com o julgamento do povo , que acabou de fazer do PMDB o maior partido do Brasil". 

O PRESIDENTE mandou recado para a cúpula petista: não vai reformar o Ministério para colocar no governo quem será candidato daqui a um ano.

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: Emprego formal cai pela primeira vez na era Lula

Folha: Emprego em novembro tem pior taxa em 10 anos

Estadão: Emprego com carteira cai pela primeira vez em 6 anos

JB: Viagens de fim de ano em risco

Correio: Plano regulariza 389 igrejas no DF

Valor: Tolerância de fornecedor alivia o aperto de crédito

Gazeta Mercantil: Crédito opõe bancos de médio porte e BC

Estado de Minas: Ônibus aumenta acima da inflação (pág. 1)

Jornal do Commercio: Polícia captura a gangue do arrastão

segunda-feira, dezembro 22, 2008

VIVA A FRANÇA!


CARLA BRUNI CHEGA AO BRASIL

Vem também um tal de Sarkozi

MÓNICA BÉRGAMO

Voz alta


Folha de S. Paulo - 22/12/2008
 

A defesa da pichadora Caroline Pivetta quer convocar o ministro Juca Ferreira, da Cultura, para testemunhar no processo que ela responderá por dano ao patrimônio público. Ferreira foi uma das vozes mais sonoras em defesa da libertação da jovem.

CORDA 
Os advogados de Caroline vão indicar também o curador da Bienal, Ivo Mesquita. É dele a idéia do espaço vazio da mostra que, alega a defesa, era um convite para que pessoas como a pichadora fizessem suas intervenções. Mesquita criticou a "tática terrorista de arrastão" dos pichadores.

SEGUNDO ANDAR
O ex-presidente do Bamerindus, José Eduardo de Andrade Vieira, foi condenado, em segunda instância, a pagar R$ 400 mil ao advogado Marcos Malan, irmão do ex-ministro Pedro Malan, da Fazenda. Vieira afirmou, em entrevista concedida há dez anos, que Marcos Malan ofereceu a ele serviços de lobby para que o banco não fosse liqüidado no governo Fernando Henrique Cardoso.

PAPAI NOEL 
O presidente Lula finalmente ganhou a camisa do Corinthians autografada por Ronaldo, que o clube havia mandado para ele. O presente foi entregue pelo ministro do Esporte, Orlando Silva, na festa de Natal do chefe, na quinta-feira da semana passada.

FAMÍLIA SILVA 

Gloria em busca de Lindu

Irmãos e sobrinhos do presidente Lula abriram as portas de um centro comunitário em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, para receber parte da equipe do filme "Lula, o Filho do Brasil". Além da produção, também foram ao encontro a atriz Gloria Pires, que viverá dona Lindu, mãe do presidente, e Milhem Cortaz, que será Aristides, pai de Lula. Conversaram com os familiares em busca de trejeitos e memórias da família de retirantes Silva.

Os irmãos Frei Chico, Vavá, Jaime, Sebastiana, Marinete e Maria levaram ao encontro álbuns de fotografia no churrascão com arroz e salada de maionese. "A família não queria que fôssemos embora", diz o diretor do longa, Fábio Barreto. "No começo estavam mais quietos, mas avisaram que era porque estavam tímidos com nossa presença. Dizem que são de gritar, pular. No fim, rolou tietagem, sim, com a Gloria. É um pessoal simples e animado," completa o diretor.

Lula perdeu a confraternização da família, mas recebeu Gloria Pires -a quem chamou de "mainha"- em Brasília. Ela quis saber dele como era o temperamento de dona Lindu. Lula disse que era "muito bem-humorada" e que "adorava contar piadas".

COLUNA PAINEL

Força bruta


Folha de S. Paulo - 22/12/2008
 

Resolução com a assinatura de 86 deputados e 26 senadores pede mais poderes para a já poderosa Comissão Mista de Orçamento do Congresso, palco no passado de um grande escândalo que, no entender de muita gente, cedo ou tarde irá se repetir.
Sob a liderança do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), o documento defende aumentar de 40 para 48 o número de integrantes, facilitar o remanejamento de verbas e multiplicar as emendas de bancada. Um ponto em especial preocupa o governo: o item 6 proíbe o Executivo de preservar de cortes áreas inteiras do Orçamento, como a social. "Cabe exclusivamente à comissão decidir isso", diz Padilha.

Hardcore
A versão inicial do documento era ainda mais radical: previa o fim do rodízio anual de todos os membros da comissão, medida adotada em 2006 para reduzir os vícios do processo. 

Os infiltrados

Os signatários pretendem votar a resolução logo na volta do recesso. O governo é contra, mas o abaixo-assinado está repleto de integrantes da base aliada. 

Secou
O relatório do Orçamento de 2009 deu um puxão de orelha no governo por ter descumprido o critério legal de distribuição dos recursos para irrigação. O Nordeste, que teria direito a 50% do total, ficou com 80,6%. O Centro-Oeste, que deveria ficar com 20%, recebeu 2,2%. 

Corpo fora 1
Diante da repercussão negativa da aprovação da emenda que cria mais de 7.000 novas vagas de vereadores e aumenta o gasto com as Câmaras Municipais, Garibaldi Alves (PMDB-RN) declara: "Eu não tenho esse interesse todo em ver implementada a medida, até porque vi o desgaste que ela trouxe..." 

Corpo fora 2
Garibaldi, que não votou porque presidia a sessão, diz que, ao enfrentar a Câmara por ter rejeitado a emenda, pretende apenas "reafirmar a prerrogativa do Senado" no debate sobre a promulgação. "Naquela madrugada, nós não visualizamos direito todos os aspectos dessa emenda", afirma. 

A calhar
Líderes governistas avaliam que, com o provável naufrágio das reformas tributária e política em 2009, crescerá o apelo por uma Constituinte sobre os temas em 2011. Para isso, uma proposta do deputado Flavio Dino (PC do B-MA) está pronta para ser votada na Comissão de Constituição e Justiça.

Gold
A Secretaria de Comunicação da Presidência terá um diretor só para cuidar da conta de R$ 15 milhões da assessoria de imprensa do Brasil no exterior. Será o diplomata Rodrigo Baena, que já foi porta-voz-adjunto de Lula e está voltando de Buenos Aires. Pela CDN, empresa contratada, o titular será Alexandre Pinheiro, atual chefe da comunicação do presidente do BC, Henrique Meirelles. 

Charme
Tem o dedo do marqueteiro de Lula, João Santana, a preferência pelo vermelho detectada no guarda-roupa da ministra e presidenciável Dilma Rousseff. 

Sincronicidade
De um deputado que acompanhou o "depoimento" de Tarso Genro à CPI dos Grampos, tomado no Ministério da Justiça: "Por que será que a PF marcou para o mesmo dia a divulgou do seu balanço de 2008?". 

Ouvidor
No encontro, Tarso admitiu acatar recomendação da CPI para reexaminar a permissão da Polícia Rodoviária Federal de fazer escutas. Sobre as turbulências da Operação Satiagraha, disse: "Há um conflito de gerações dentro da Polícia Federal". 

Feliz 2009
Em conversas internas, o diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa, disse esperar para o ano que vem mais operações, mas regionalizadas. Grandes ações como a Satiagraha devem escassear.

Tiroteio

"Ciro Gomes tenta se passar por Donatela, mas, na verdade, ele está mais para Flora."

Do deputado EDUARDO CUNHA (PMDB-RJ), sobre as críticas feitas a seu partido por Ciro -cuja mulher, Patrícia Pillar, faz a vilã em "A Favorita".

Contraponto

Assim não vale

Em recente discurso, o líder do PTB na Câmara dos Deputados, Jovair Arantes (GO), afirmou que seu partido, "fundado por Getúlio Vargas nos anos 40", era o mais antigo do Brasil. Professor de história, seu colega Chico Alencar (PSOL-RJ) protestou:
-Não! O mais antigo é o Partido Comunista, de 1922, cuja herança é reivindicada tanto pelo PCB quanto pelo PC do B. O PTB nasceu 23 anos depois!
Jovair coçou a cabeça, pensou por um instante e, diante do plenário silencioso, emendou:
-Bem, eles ficaram anos na clandestinidade, com registro cassado. Aí, para mim, não conta...

PARA....HIHIHIHI


LOIRA


Uma loira chegou com seu carro novinho numa loja de acessórios e disse pro
vendedor:
Quero instalar um pára-raios no meu carro.
E o vendedor explicou:
Olha, eu nunca ouvi falar nesse equipamento pra veículo. Por que é que você
quer instalar um pára-raios no seu carro?
E a loura:
- Heloooooooooouuuuuuuu! Nunca ouviu falar de seqüestro relâmpago não,
ô desinformado?

O IDIOTA


CARLOS ALBERTO SARDENBERG

E Lula não liderou


O Estado de S. Paulo - 22/12/2008
 

 Saiu na mesma página no noticiário de sexta-feira: o presidente Lula dizendo que nenhum empresário tem motivo para demitir neste momento e informações sobre demissões em diversos setores.

O presidente disse, ainda, que eventuais negociações para a flexibilização de contratos de trabalho devem ficar por conta de empresas e trabalhadores - governo de fora. Logo em seguida, desprezando a contradição, como costuma fazer, disse que governo e empresários devem buscar soluções para a crise.

Tempos atrás, no início de sua primeira administração, o presidente dizia coisa ainda mais diferente. Sustentava que sua história como líder sindical não-pelego lhe dava todas as condições para tratar das reformas trabalhista, sindical e previdenciária. Do mesmo modo dizia, aliás, que o MST simplesmente desapareceria em seu governo, porque ele concluiria a reforma agrária.

Muita gente foi nessa onda, incluindo analistas econômicos e políticos, representantes dos empresários e jornalistas. Como se entedia que a reforma deveria flexibilizar a legislação, retirando direitos trabalhistas da Constituição e permitindo que empresas e sindicatos negociassem um maior número de itens do contrato de trabalho, concluía-se que apenas Lula seria capaz de levar os sindicatos a recuar da posição de defesa intransigente da CLT. E como isso foi encaminhado? Com a formação de comissões, reunindo representantes dos trabalhadores, dos empresários e... do governo.

Não deu em nada, por uma combinação de dois fatores. Primeiro, a economia foi-se ajustando, voltou a crescer e a urgência desapareceu. Mas o segundo motivo foi mais importante: os sindicalistas pensaram exatamente o contrário, que a presença de Lula no Planalto e de diversos líderes sindicais no Ministério e nas estatais abriria espaço para impedir qualquer flexibilização na legislação. E, mais do que isso, era o momento de incluir mais direitos na lei, como a redução da jornada de trabalho sem redução de salários - tema posto na pauta pouco antes da eclosão da crise, com apoio explícito de ministros e ao menos a concordância indireta de Lula.

Tudo considerado, naquelas comissões tripartites se formou uma aliança tácita entre representantes do governo e das centrais sindicais, que não quiseram sequer discutir a reforma da legislação trabalhista. Para essa aliança, era preciso acertar a reforma sindical de modo a preparar sindicatos para a fase de negociação.

Também esse era um tema do Lula sindicalista. Lembram-se? O pessoal combativo do ABC era contra o Imposto Sindical e toda uma estrutura que favorecia o peleguismo. Se ao menos essa reforma saísse, já seria um avanço. Mas também não deu em nada. No poder, os sindicalistas pensaram diferente e conseguiram até ampliar a distribuição do dinheiro do Imposto Sindical para as diversas centrais.

Resumo geral: não saiu reforma nenhuma. Lula, em vez de liderar pelas mudanças, usar sua autoridade moral de líder sindical e sua autoridade efetiva como presidente, simplesmente recuou e aceitou as pressões dos companheiros.

E assim chegamos à crise da desaceleração da economia brasileira, com espaço reduzido para negociação entre empresas e trabalhadores com carteira. E nenhuma proteção para a maioria dos trabalhadores sem carteira.

No caso dos trabalhadores formais, há ainda outra diferença: entre aqueles que contam com bons sindicatos, como os metalúrgicos do ABC, e os outros, a maioria, com sindicatos pelegos. No primeiro caso, há até boas negociações. No segundo, não tem conversa: ou é o pleno emprego garantido ou a demissão. Mesmo no primeiro caso, há limitações legais às negociações, de modo que não adianta o presidente Lula dizer que é um problema de empresas e sindicatos. O governo não está de fora, porque, se for para fazer algo sério, será preciso alterar legislações. Além disso, em diversas medidas anticrise está implícito um aumento do gasto público. E isso nos remete a outra coisa que não foi feita.

Os diversos programas de estímulo à economia exigem uma combinação de redução de impostos e aumento de investimentos públicos. Dito de outro modo, exigem a redução de gastos não-investimento, exatamente o contrário do que fez o governo nos anos de bonança. E também perdeu a reforma tributária. Agora...

Agora vai - Se o juro é o preço do dinheiro e se o Fed, o banco central dos EUA, colocou a taxa básica de juros em zero, isso quer dizer que o dinheiro vai sair de graça para os bancos. Esses bancos estavam sem confiança para emprestar a empresas, pessoas e a outros bancos. Recuavam diante do risco de calote. 

Agora o pessoal se pergunta: “Tendo dinheiro de graça, será que não vão emprestar?” 

Por via das dúvidas, o Fed não apenas colocou a taxa perto de zero. Disse que vai ficar ali por um bom tempo e anunciou vários programas de compra de títulos de bancos, agências hipotecárias, companhias de cartão de crédito, empresas que fazem empréstimos estudantis, além das compras de papéis das grandes empresas (notas promissórias). Disse ainda que, no início de 2009, vai estender facilidades de crédito a famílias e a pequenas empresas. Só falta comprar carro usado.

Quando toda essa história começou, o Fed só podia emprestar para bancos comerciais. Agora dá crédito para todo mundo. São medidas ortodoxas, heterodoxas, novas, velhas, deste e do outro mundo. Ou seja, é um enorme esforço para restabelecer o funcionamento do sistema de crédito.

Acrescente aí o programa de gastos de Obama em infra-estrutura e novas tecnologias, que, dizem, pode chegar a US$ 800 bilhões, 6% do PIB! Uma bomba atômica contra a recessão.

Demora algum tempo para pôr os programas em operação, mas não é possível que não funcione.

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Polícia ataca finanças do tráfico na Cidade de Deus

Folha: Obama amplia pacote para salvar emprego

Estadão: Crise vai brecar crescimento da classe média

JB: Rio recebe hoje Lula e Sarkozy

Correio: Caixa reduz juros de 21 tipos de empréstimos

Valor: Lula e Sarkozy dão início hoje a ação estratégica

Gazeta Mercantil: Commodities lideram queda de preço dos produtos exportados

domingo, dezembro 21, 2008

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Somos todos ladrões?


O Globo - 21/12/2008
 

Não, sério mesmo, somos todos ladrões? Gostamos muito de criticar "o brasileiro", como se não fôssemos brasileiros também. Mas somos e, portanto, o certo não é perguntar se o brasileiro é ladrão, mas se podemos ser descritos como um povo constituído basicamente de larápios, aí compreendidos os corruptos de toda sorte, até mesmo os que recebem um "por fora" com a expressão honrada de que não estão fazendo nada de errado, estão fazendo o que há séculos vem sendo feito. Foi a primeira coisa, por exemplo, que o presidente Lula disse, quando começou a revelação de irregularidades no financiamento de sua campanha política - é assim que sempre se fez neste país. 

Ele tinha razão, claro. É assim que sempre se fez e assim se continua fazendo, em todos os setores. E é interessante esse negócio de "o brasileiro" nunca incluir quem está fazendo a crítica. Ele pessoalmente é honestíssimo, mas o brasileiro é desonesto por natureza. Os políticos ladrões, por exemplo, são uma espécie extraterrestre vinda não se sabe donde, não são gente como nós, com a mesma língua, os mesmos costumes e a mesma cultura. Observação igual pode ser feita em relação a juízes e desembargadores ladrões, policiais e fiscais idem e assim por diante. Tudo "brasileiro", é impressionante. 

Não me esqueço de uma festinha a que fui, faz muitos anos. O dono da casa era sogro de um amigo meu e nos conhecemos nessa noite. Bem-falante, articulado e espirituoso, iniciou, quando soube que eu era jornalista, uma longa palestra sobre a desonestidade do brasileiro. Com toda a certeza a razão principal era que descendíamos do que de pior havia em Portugal, degredados, criminosos de toda espécie, a escória mesmo. Daí estar no sangue a desonestidade do brasileiro, políticos e autoridades eram de enojar, de causar asco invencível. Ele, em sua longa carreira de funcionário da alfândega (ou coisa semelhante, foi mesmo há muito tempo e não lembro direito), já tinha visto de tudo, não acreditava em mais nada, o brasileiro era preguiçoso, lerdo, descarado e ladrão, a verdade era essa. 

Isso se passava numa casa muito ampla e confortável, entre doses generosas de uísque escocês e outras bebidas estrangeiras, com fundo musical saindo de um esplêndido aparelho americano. Num dos intervalos da palestra, o genro dele e meu amigo comentou que, bebendo daquele uísque, estávamos a salvo de falsificações, era tudo legítimo, apreendido como contrabando. Isso mesmo. Aquele Catão cuja voz tornava a reverberar de indignação moral contra gatunos e corruptos estava servindo uísque contrabandeado, ouvindo uma eletrola (naquela época, aparelho de som se chamava assim) contrabandeada, numa casa que seu salário não permitiria etc. etc. Naquela época, ainda muito jovem, achei que ele era exceção, mas um diabinho aqui insiste em que é a regra, a qual, quanto mais vivemos, mais se comprova. Podia haver catadura mais austera e severa do que a do juiz Lalau? 

E vocês já notaram como o brasileiro (nunca nós, nós não, nós estamos fora dessa), se bem observado, fala no político ladrão com um ar meio cúmplice, quase admirando a esperteza do indigitado? Quando é do tipo rouba-mas-faz, a admiração às vezes até se manifesta abertamente. São raras a indignação, a raiva ou a revolta. Mesmo os que o chamam de ladrão safado dizem isso muitas vezes quase carinhosa e compreensivamente. Em outras culturas, o furto de dinheiro público é mais grave do que o furto de um bem particular. Não sei se devem existir gradações nesse caso, mas, entre nós (perdão, leia, em vez de "entre nós", "para o brasileiro"), há bastante mais compreensão ou mesmo simpatia para com o ladrão do dinheiro público. 

Além disso, ninguém é punido, a não ser o pobre mesmo. São raríssimos os casos em que o ladrão rico vai para a cadeia. Quando vai, demora pouco e não devolve o dinheiro afanado. O provérbio está com a conjunção errada, é uma aditiva, não uma adversativa. Não é "a justiça tarda, mas não falta"; é "a justiça tarda e falta". Em toda parte, em qualquer setor de atividade, todo dia se revela mais um caso de roubalheira ou maracutaia. Mas ninguém que tenha poder, seja econômico ou político, é punido. Suspeito que o brasileiro presta mais atenção no que as pessoas fazem e não no que elas dizem e aí fica patenteado que roubar pouco é que é burrice. Roubar muito é o certo e o brasileiro é esperto e malandro. Cada um procura suas melhoras e fala mal quem tem inveja, ou não teve coragem e competência para se locupletar. 

O brasileiro é tão irremediavelmente safado, que nós, outros, temos até dificuldade em ajudar o próximo. Diante da tragédia em Santa Catarina, nós demonstramos solidariedade e fraternidade. De todo o país seguiram doações, inclusive dinheiro, e apresentaram-se voluntários para ajudar de alguma forma, o país se mobilizou. Mas o brasileiro, sabe como é, o brasileiro não tem jeito. E lá foram pilhados diversos brasileiros furtando as doações, a ponto de aqueles entre nós que mandaram dinheiro desconfiarem que a grana foi parar no bolso de algum deles. 

Bem, tudo isso já foi dito e redito e nunca adiantou nada. Claro que não somos ladrões, ninguém aqui é ladrão, ladrão é o brasileiro. Temos de mudar a mentalidade e os valores do brasileiro e, verdade seja dita, estamos aperfeiçoando o regime aos poucos. Agora mesmo, o Senado aprovou a recriação de mais de sete mil vagas de vereador, que haviam sido extintas. Os senadores garantem que não haverá aumento nos gastos federais, porque há um limite constitucional para o repasse de verbas, que permanece inalterado. Menos mal. Só falta agora que os vereadores não sejam brasileiros, porque o brasileiro é realmente sabidíssimo e começa a carreira de ladrão no município mesmo. 

ÉLIO GASPARI

O exame do Ipea reprova seu comissariado


O Globo - 21/12/2008
 

Os doutores que zelam pela doutrina da fé econômica do governo fazem inveja aos bons tempos do cardeal Ratzinger. Em 2000, o Banco Central armou um concurso para 300 analistas e, na prova de títulos, desqualificou a Unicamp, considerada um ninho de pensamento crítico da ekipekonômica tucana. Felizmente a armação foi desfeita. Agora, o comissariado do Ipea foi por um caminho parecido e piorado. Abriu um concurso para 62 vagas de técnico de planejamento (R$11 mil mensais) e submeteu os candidatos a uma prova que ofendeu o idioma, banalizou a qualificação dos candidatos e beneficiou conhecimentos de almanaque. 

Exemplificando, primeiro pela agressão ao idioma, numa pérola pinçada por Madame Natasha: "Considerando aspectos da configuração das redes urbanas regionais no Brasil e do imbricamento dessa morfologia com a economia produtivista nacional, julgue os itens que se seguem (...)." 

A prova agrediu a complexidade do pensamento do sociólogo Francisco de Oliveira ao atribuir-lhe a afirmação de "não haver capitalismo monopolista sem o Estado". Tudo bem, mas Dadá Maravilha poderia ter dito a mesma coisa. (Nunca é demais lembrar que em 2003 Nosso Guia mandou tirar um texto de Oliveira de um livro publicado pelo Instituto da Cidadania.) 

Uma questão mostra a opção por conhecimentos inúteis: "Uma política de conservação dos cavalos-marinhos deve ser voltada para o Gerenciamento Costeiro e Marinho e a Fiscalização Contra o Comércio Ilegal, dispensando uma articulação com a Política Nacional de Recursos Hídricos e as práticas agrícolas no Continente." Certo ou errado? 

Esse concurso atraiu 8 mil jovens que estudaram a sério e querem servir ao Estado. Não deveriam ser testados por examinadores rudimentares, até mesmo desleixados. Acusar os comissários de terem produzido um teste de conhecimento esquerdista é elogio impossível. A prova é apenas burra. Durante a ditadura, foi o rigor acadêmico do Ipea, associado a uma certa tolerância com o pensamento dissidente, que preservou o acervo intelectual de uma geração de economistas como Pedro Malan. 

A Petrobras poderá aliviar a crise coreana 

A Petrobras atendeu ao apelo de Nosso Guia para estimular a economia. Na Coréia. No primeiro semestre, a empresa resolveu contratar doze unidades de perfuração. Anunciou seu interesse ao mundo, apareceram cerca de 15 interessados e a indústria brasileira arrematou dez das doze empreitadas. Um negócio de US$18 bilhões ao longo de mais de dez anos. 

Agora, o comissariado da empresa quer contratar uma unidade de perfuração para águas profundas em área internacional. Há uma certa corrida contra o tempo para fazer o negócio com a empresa Vantage, que está construindo um equipamento na Coréia. A companhia é uma sociedade de americanos, taiwaneses e noruegueses. 

Trata-se de um contrato que pode chegar a US$1 bilhão em cinco anos. 

Como a unidade será usada fora do Brasil (talvez na Líbia, Turquia ou Angola), a Petrobras não está obrigada a cumprir as exigências da legislação brasileira. A contratação poderá ser justificada pela pressa que a Petrobras tem de receber a unidade. Não deixa de ser esquisito que ela conduza o negócio sem uma comunicação formal e pública ao mercado. 

Bastaria anunciar à praça o interesse pelo equipamento. Se de fato não houvesse no mundo um fornecedor capaz de concordar com o preço e o prazo, a escolha seria natural como o nascer do sol. 

Papai Noel 


É falta de educação puxar conversa sobre o tombo do fundo Fairfield Greenwich em rodas do andar de cima de Pindorama. 

Seu dono, o investidor Walter Noel, tinha excelentes relações com famílias notáveis do Rio de Janeiro. Pode-se especular que as aplicações de brasileiros com Noel tenham passado do bilhão de dólares. 

Coisa parecida, em ponto muito menor, só aconteceu em 1995, quando quebrou a casa de câmbio do banqueiro Jorge Piano. 

Aos 72 anos, Noel viveu a reapresentação da Belle Époque. Há alguns anos comprou uma mansão de US$9 milhões perto do Lago Agawan, em Nova York. Não era uma casa qualquer, pois fora projetada pelo arquiteto Stanford White, o quindim da plutocracia americana no início do século passado. É de White o palácio do filme "O grande Gatsby". 

Stanford White foi assassinado por um corno em 1906. A cena está no filme "Ragtime", com o escritor Norman Mailer no papel do arquiteto. 


Sábios da banca 


Nos últimos meses, os sábios do banco de investimentos Morgan Stanley previram em duas ocasiões que o Brasil corre o risco de entrar numa recessão a partir do mês que vem. 

Nada contra previsões, até porque essa possibilidade é real. O que não se entende é que esses mesmos sábios jamais façam previsões sobre o desempenho das casas onde trabalham. 

O Morgan Stanley fechou o ano com um prejuízo de US$2,2 bilhões. 

Somado ao buraco de 2007, o prejuízo dos acionistas ficou em quase US$6 bilhões. 

Se os sábios da banca tivessem previsto os seus próprios desastres, a conta da geléia financeira de 2008 teria sido menor. 

Eremildo, o Idiota 


Eremildo é um idiota e estava na Praia de Sauípe quando chegaram os governantes de 31 países da América Latina e do Caribe para discutir a integração política e econômica da região. 

Ele decidiu que em abril irá à reunião da Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, para propor a criação, para ele, do cargo de integrador de todos os organismos de integração americana. 

Pela conta do idiota, as Américas e o Caribe têm 35 nações, e os organismos integradores, globais ou setoriais, executivos ou consultivos, existentes ou projetados, são 17. A saber: 

OEA, Mercosul, Unasul, Alba, Aladi, ACS, BID, Caricom, Cepal, Comunidade Andina, Cúpula das Américas, Grupo do Rio, Nafta, SIC e, no forno, o projeto americano da Alca, a proposta do FuSul, do presidente do Equador, e a última novidade, a OEA do B, sem os Estados Unidos. 


Zé Emanuel 


No início de novembro, quando Barack Obama anunciou a escolha de Rahm Emanuel para a chefia da Casa Civil de seu governo, o jornalista Tutty Vasques escreveu: 

"Guardem bem este nome: Rahm Emanuel. É o Zé Dirceu do Obama. Depois não digam que não avisei." 

De arrecadador de fundos para Bill Clinton em 1992, passou a operador político de seu governo. Saiu da Casa Branca e associou-se a uma boutique de investimentos, onde juntou US$18 milhões em dois anos e meio. Com amparo da turma do papelório, elegeu-se deputado. 

Obama ainda não tomou posse e o nome de Emanuel já queimou um filme. 

Apareceu no radar das conversações com o governador do Illinois, que leiloava a cadeira de senador de Obama.

ANCELMO GOIS

Fator Mão Santa


O Globo - 21/12/2008
 

Um experiente político brasileiro explicou a um amigo por que reluta em aceitar ser candidato a presidente do Senado: 

- Não tenho mais idade nem disposição para ficar sentado na presidência, ouvindo o Mão Santa falar. 

Fala pelos cotovelos... 

Segundo levantamento do Instituto DataGois, com base em dados do Congresso, o peemedebista do Piauí já usou a palavra 2.478 vezes em seis anos de mandato. 

Mão Santa fala dia sim, outro também. Já proferiu algo em torno de 10.167.234 palavras nos microfones do Senado. Acaba no "Guiness". 

Segura o leão 

Lula pediu a Raúl Castro, na visita ao Brasil, que ajude a segurar Hugo Chávez para evitar certos radicalismos verbais. 

Aliás... 

Raúl não tem o carisma do irmão, Fidel. Mas foi aprovado no quesito simpatia nesta visita ao Brasil. 

Antes de sair de Havana, o cubano ouviu uma aula de duas horas de Brasil, ministrada pelo amigo Frei Betto. 

Os alienígenas 

O produtor Luiz Carlos Barreto, espécie de guardião-mor do cinema brasileiro, não se conforma com a decisão da mexicana Embratel e a da espanhola Telefônica de excluir o Canal Brasil de suas grades de TV a cabo: 

- Os dois grupos estrangeiros demonstram que não estão preocupados em valorizar os conteúdos brasileiros 

Segue... 

Barretão acha que o governo e a sociedade brasileira têm de cobrar da Embratel e da Telefônica um compromisso maior com o país onde operam. 

Em tempo... 

A Anatel, ao aprovar semana passada a compra da Brasil Telecom pela Oi, exigiu que o grupo ofereça, até 31 de março de 2010, um canal de conteúdo nacional e independente nas suas grades de DTH e cabo.

INFORME JB

Começa a batalha da Escola de Guerra

 Leandro Mazzini
Jornal do Brasil - 21/12/2008
 

 Começou sexta-feira, num restaurante do Rio, a batalha no campo político para evitar a transferência da Escola Superior de Guerra para Brasília ano que vem, conforme pretende o ministro da Defesa, Nelson Jobim. O deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB) encontrou-se com o comandante da ESG, almirante-de-esquadra Luiz Humberto Mendonça. Os dois partiram para o contra-ataque. Itagiba enviou telegramas para a bancada federal do Rio, o governador Sérgio Cabral e o prefeito eleito Eduardo Paes. Quer formar uma força-tarefa a fim de cobrar de Lula um recuo. "Será preciso construir um prédio novo, com alojamentos. Aqui já temos a ESG e outras escolas, como a Naval, além da proximidade com centros tecnológicos de São Paulo".

Outro front

Por outro lado, na capital federal, sede do Quartel General, um grupo forte de militares quer nova sede em Brasília. E têm lobby político. Vai ser dura a batalha.

Outro front 2

O general Alberto Cardoso, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência no governo FHC, dá sua opinião: "Parece-me que a transferência visa a aproximá-la fisicamente da sede do ministério para facilitar contatos, assessoramentos e inserção no ambiente-fonte da grande política e estratégia nacional".

Tô aqui ainda

O prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), prestes a deixar o cargo, mandou um recado para o Palácio do Planalto. Espera convite do presidente Lula para assumir um ministério. Sonha com Previdência ou Turismo.

Paparazzo

O delegado da PF Protógenes Queiroz, que se notabilizou ao prender Daniel Dantas, usou sua máquina fotográfica para registrar suspeitos que o seguiram nos últimos meses. Acha que é gente da Abin e da própria PF.

Relatório extra

Protógenes encaminhou todos os registros para o Ministério Público Federal. E mandou esta: vai cobrar satisfações do governo, algum dia, sobre o quanto se gastou para monitorá-lo com dinheiro público.

Na telinha

O Ministério das Cidades faz licitação para contratar três agências de publicidade. A conta é boa: coisa de R$ 125 milhões para campanhas de educação no trânsito e socioeducativas a respeito de meio ambiente e saneamento.

Dilma na folia

A foto acima é de Dilma Rousseff vestida de Carmen Miranda num Carnaval? Não. Mas parece. O registro é de uma sósia anônima, num baile de... 1920. A foto faz parte de exposição permanente da História de Muriaé, em Minas, no centro administrativo da cidade.

Cadê você?

O deputado federal Jader Barbalho (PMDB-PA) sumiu da Câmara. Seu índice de faltas é de 43%. E não aparece nem nos encontros semanais da Comissão de Ciência e Tecnologia, da qual é titular.

O avião sumiu

O MP Federal em Roraima protocolou ação civil pública contra a TAM e a Gol, para que operem quatro vôos diários de Boa Vista para outras capitais. As empresas suspenderam dois. Alegam pouca demanda.

Caos no saguão

O saguão tem registrado tumultos. O cidadão só tem duas opções de vôo: uma de madrugada e outra ao meio da tarde.

Até tu?

O TCU encontrou irregularidades graves em licitações do Ministério das Relações Exteriores para contratar empresa de prestação de serviços de copa, apoio administrativo e de motorista. Multou duas em R$ 10 mil, cada.

AUGUSTO NUNES

Guerra Fria recomeça na Bahia


Jornal do Brasil - 21/12/2008
 

 

Viagem rumo ao passado 

Nenhum país sabe perder uma guerra como a Bolívia: com os muitos milhares de mortos, vai-se também um pedaço do território nacional. Perdeu o trecho de litoral para o Chile em 1879, o Acre para o Brasil no começo do século passado e a região do Chaco para o Paraguai em 1935. Depois dos três confrontos, ficou com apenas 1 milhão dos 2,5 milhões de km² que tinha ao tornar-se independente da Espanha em 1825. É demais, parece achar o presidente Evo Morales. Inconformado com a vitória na Batalha da Petrobrás, que deixou a Bolívia do mesmo tamanho, ele agora anda sonhando com uma derrota tremenda para os Estados Unidos.

À caça de saídas para as enrascadas em que George Bush meteu os americanos, Barack Obama soube do perigo ao Sul na sessão de encerramento da Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc), que agitou por três dias a Costa do Sauípe. Ou o novo presidente marca logo a data em que será suspenso o embargo econômico a Cuba, propôs Morales, ou os embaixadores dos 32 países que integram a Calc são retirados de Washington. "É um ato de rebeldia", explicou. Para sorte de Obama, Lula estava lá.

"Eu sou mais cuidadoso", apartou a briga o anfitrião. É preciso dar tempo ao colega às voltas com as guerras no Iraque e no Afeganistão, bateu no cravo. Mas não muito, deu na ferradura: "A região não pode esperar que um belo dia seja chamada para conversar com o Obama". É bom que o alvo do ultimato se apresse. A Bolívia não está só.

Morales é apenas o mais belicoso passageiro da viagem de volta à Guerra Fria que acaba de fazer uma barulhenta escala no litoral baiano. Começou na montagem da lista de participantes da festa do clube dos cucarachas. Além dos EUA, ficaram fora o Canadá, a Espanha e Portugal. O cubano Raúl Castro foi o convidado de honra.

"Pela primeira vez em 200 anos, todos os países da região estão juntos", entusiasmou-se Lula. Os caribenhos entraram mudos e saíram calados. Os presidentes do Peru e da Colômbia tinham mais o que fazer e mandaram representantes. Sobrou tempo para as apresentações individuais e coletivas dos chefes de governo da América bolivariana.

Só faltou Fidel Castro para que ficasse completo o elenco da comédia de época encenada à beira do Atlântico. Se a má saúde não o obrigasse a trocar o uniforme de comandante pela farda da Adidas, e promover o irmão Raúl a ditador interino, Fidel retribuiria com um discurso de sete horas as homenagens prestadas a Cuba. Coube ao caçula receber a carteirinha de sócio de uma espécie de OEA do B prometida para 2010 e a autorização para manter a democracia na cova. Cada país escolhe livremente o sistema de governo, diz o documento assinado por toda a turma. Os cubanos, por exemplo, escolheram a ditadura.

Fidel gostou de saber que Lula e os companheiros responsabilizaram o imperialismo ianque pela crise econômica e por todos os problemas passados, presentes ou futuros. Mas o abuso vai acabar, informou o venezuelano Hugo Chávez. "O capitalismo, que é o diabo, está morto", matou dois satãs de uma vez. "O que está mais vivo que nunca é o socialismo revolucionário".

Obama conseguiu uma trégua. Os fuzileiros navais americanos só se livrarão da insônia quando Morales garantir que não terão de enfrentar a Marinha boliviana no Lago Titicaca.

 A abulia dos que sustentam a gastança

Fora a diminuta bancada dos que não perderam a vergonha de vez, o Congresso acha muito bem-vinda a Proposta de Emenda Constitucional (podem chamar pela nome de guerra de PEC que ela atende) que aumenta dos atuais 51.924 para 59.267 o número de vereadores em ação no Brasil. A diferença é que os senadores resolveram praticar na sala cheia de crianças o mesmo pecado que os deputados preferem cometer no quarto – não por decoro, mas por malandragem. Só por isso não foi aprovada já na madrugada de quinta-feira a criação de mais 7.343 vagas nas câmaras de vereadores. Serão 7.343 cabos eleitorais em 2010.

O pretexto para a devolução da PEC ao Senado foi a supressão do trecho que proibia o aumento da verba repassada à Câmara pela prefeitura. Como a redução de salários é inconstitucional, a engorda da folha de pagamentos deve ser a bancada pelo corte de outras despesas. Nesse caso, os vereadores andam desperdiçando dinheiro. Se pensassem no país em crise, os parlamentares deveriam exigir a diminuição na gastança e engavetar a PEC ultrajante.

Brasileiro só sai da abulia quando soldados e voluntários roubam flagelados. Não são piores que pais da pátria que surfam na marolinha sob a mansidão do rebanho que paga a conta.

Um tricampeão e o anão da Bahia

O colunista pede perdão aos leitores por dois erros publicados na seção Coisas da Política de quarta-feira passada. O grande Nelson Piquet venceu três vezes (e não duas) o campeonato da F1 (1981, 83 e 87). E o pequeno João Alves, um dos anões do Orçamento, não nasceu em Pernambuco. "A Bahia não se renderá jamais a um engano tão expressivo", diz a mensagem bem-humorada de um amigo. "Vimos requerer uma correção: o deputado João Alves é baiano, sim, de nascimento e de política. A Bahia não merece um esquecimento desse tamanho".

Os culpados exigem mais que o perdão

Antes da roubalheira do mensalão, figurões com culpa no cartório guardavam alguma discrição até que o processo desse em nada. Instaurada a Era da Impunidade, descobriram que já podiam aparecer em público sem virarem alvos de vaias e palavrões. Agora já não basta o direito de ir e vir em paz enquanto esperam o perdão. Exigem também homenagens que sirvam de consolo para os arranhões na imagem. O deputado federal Antonio Palocci, por exemplo, ganhou a presidência da Comissão da Reforma Tributária da Câmara para livrar-se da depressão que o afligiu quando teve de trocar o ministério pelo banco dos réus.

Na semana passada, Palocci foi dispensado de perder de novo a alegria de viver. Como o Supremo Tribunal Federal resolveu adiar o julgamento do processo sobre o estupro da conta bancária do caseiro Francenildo Costa, só no ano que vem o ex-ministro será absolvido "por falta de provas". Depois de contar que Palocci vivia aparecendo na casa suspeitíssima que jurara nem conhecer, Francenildo perdeu o emprego e a chance de encontrar trabalho. Poderia perder até a liberdade se julgado pelo STF, sob a acusação de violar o próprio sigilo só para deixar o ministro mal no retrato. Ainda bem que o caseiro não tem direito a foro especial.

EMPREGOS


DOMINGO NOS JORNAIS

Globo: Projetos na Câmara criam 37 mil cargos por R$ 1,3 bi

Folha: Em meio à crise, gás para indústria em SP subirá 19%

Estadão: Governo tenta evitar que calote afete bancos

JB: Um feliz Natal, apesar da crise

Correio: Uso do cheque especial aumenta com a crise

Valor: Petrobras confirma plano de US$ 31 bi para refinarias

Gazeta Mercantil: Autopeças recebem R$ 3 bilhões do BB