quinta-feira, dezembro 18, 2008

ANCELMO GOIS

Operação abafa


O Globo - 18/12/2008
 

O deputado Miro Teixeira tem recebido pressão política para desistir da proposta de criar uma CPI do COB. 

É gente que diz temer que o barulho da CPI atrapalhe a candidatura do Rio às Olimpíadas de 2016. É. Pode ser. 

Malan sai do conselho 

Com a fusão Itaú-Unibanco, alguns conselheiros dos dois bancões não vão continuar na nova sociedade. 

Um é o ex-ministro Pedro Malan, que era do Unibanco. 

Partido da Boquinha 

No mesmo dia em que o PMDB confirmou sua indicação para disputar a presidência do Senado, Garibaldi Alves Filho, que já comanda a Casa, emplacou a indicação de Paulo Varella para o cargo de diretor da Agência Nacional de Águas. 

A fila anda 

Com a previsão de saída hoje da Câmara do deputado Walter Brito, por infidelidade partidária, a fila de processos no TSE vai começar a andar. 

Quatro casos de deputados que trocaram de partidos ainda não foram julgados - Clodovil, Geraldo Resende, Paulo Rubem Santiago e Davi Alves.

MÓNICA BÉRGAMO

De Sanctis é "premiado" por Fernando Meirelles


Folha de S. Paulo - 18/12/2008
 

O juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Criminal de São Paulo e responsável, entre outras, pela prisão do banqueiro Daniel Dantas, ostenta em sua mesa, orgulhoso, um troféu que a revista "Veja São Paulo" entregou aos "Paulistanos do Ano" há uma semana.

Não, o juiz não estava entre os premiados (um grupo que incluía a atriz Sandra Corveloni, a geneticista Mayana Zatz e o jornalista Laurentino Gomes). O troféu acabou em sua mesa porque o cineasta Fernando Meirelles, homenageado na categoria cinema, decidiu enviá-lo ao juiz junto com uma cartinha.

"Ao subir no palco para receber o troféu, disse que me sentia honrado pelo reconhecimento mas que havia um paulistano que merecia o prêmio muito mais do que eu, que nos orgulhava pela sua postura e capacidade de resistir às pressões e que como ele não estava na lista dos contemplados da noite eu repararia o lapso e daria a ele meu prêmio. Este paulistano evidentemente é você [Fausto] e o prêmio, conforme o prometido diante de muitas testemunhas, aí está", escreveu Meirelles ao juiz.

Os dois não se conhecem, mas, na carta, o cineasta se derrama ainda em elogios e dá os "parabéns" ao juiz "pela sua coragem, correção e fibra, que são inspiradoras. Seu exemplo tem uma dimensão transformadora que raras figuras neste país igualam".

Sobre a placa no troféu que leva seu nome, o cineasta colocou um papel e escreveu, a caneta, o nome de seu homenageado particular.

Côncavo

A defesa do caso em que Antonio Palocci é acusado de ordenar a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo se dividiu. Os advogados do ex-ministro pediram ao STF (Supremo Tribunal Federal) o desmembramento do processo. Eles ficaram contrariados com mais um pedido de adiamento do julgamento feito pela defesa de Jorge Mattoso, ex-presidente da CEF (Caixa Econômica Federal), onde o sigilo foi quebrado.

CONVEXO 
O advogado de Mattoso, Alberto Toron, afirma que pediu o adiamento do julgamento, que seria realizado nesta semana, porque vai viajar para os EUA. E diz que não se opõe ao desmembramento do caso.

CADEIRA ELÉTRICA 
Depois de Gilmar Mendes, presidente do STF, entrevistado na segunda passada, a TV Cultura leva o delegado Protógenes Queiroz, da Operação Satiagraha, ao centro do "Roda Viva" na próxima semana.

COMPANHEIROS


QUINTA NOS JORNAIS

Globo: Petróleo tem maior corte de produção da História

Folha: Governo libera até R$ 95 bi para crédito

Estadão: Bancos terão R$ 95 bi a mais para emprestar

JB: Rio acelera desmatamento

Correio: Aumento de servidor fica para depois...

Valor: Juro zero nos EUA muda mercado e dólar desaba

Gazeta Mercantil: Governo injeta mais R$ 100 bi na economia

Estado de Minas: Minas debaixo d'água

quarta-feira, dezembro 17, 2008

ÉLIO GASPARI

Um bom motivo para mudar a sede do Copom


O Globo - 17/12/2008
 

O papeleiro Bernard Madoff deu um tombo de US$50 bilhões de dólares nas melhores praças do mundo, de Nova York a Palm Beach, de Tóquio a Genebra. Esse ervanário equivale a toda a carteira de financiamentos de automóveis do Brasil no início deste ano. 

Madoff era um "Senhor do Universo", ex-presidente do conselho da Bolsa Nasdaq, financiador do Partido Democrata. Morava num apartamento de 9 milhões de dólares, com iate nas Bahamas. Desde 1991 seu fundo rendia 10,5% ao ano. 

Quem quiser, acredite na seguinte história: no final de novembro, quando o índice Standard & Poor"s registrava uma queda de 37,65%, o fundo de Madoff rendia 5,6%. Na terça-feira da semana passada, depois de ter mencionado que seus investidores pretendiam sacar US$7 bilhões, ele disse aos dois filhos, com quem administrava o negócio, que pretendia distribuir um bônus de US$200 milhões na empresa. No dia seguinte eles confrontaram-no com o problema de caixa, e Madoff confessou que estourara. Um de seus filhos chamou o advogado, que procurou as autoridades. Na quinta-feira, o "Senhor do Universo" estava preso. (Foi libertado com uma fiança de US$10 milhões.) 

Os filhos de Madoff, como Nosso Guia no caso do mensalão, de nada sabiam. Tudo bem. Essa história só será conhecida quando um dos repórteres do mercado financeiro que acompanha o caso publicar um livro contando o que soube. 

Segundo Madoff, seu fundo não passava de "um gigantesco esquema de Ponzi". Referia-se ao estouro de Carlo Ponzi, que em 1920 lesou 30 mil pequenos investidores americanos oferecendo-lhes rendimento de 50% em 45 dias. Era o velho golpe da pirâmide. Como não havia atividade econômica, muito menos preços de mercadorias que remunerassem a festa, ela acabou. Ponzi detonou algo como US$200 milhões em dinheiro de hoje. Uma ninharia. 

Há uma diferença entre Ponzi e Madoff. Um enganou o andar de baixo. O outro lesou o de cima, de maganos de clubes de golfe, fundos de Wall Street e grandes bancos globais. Ponzi foi um vigarista episódico. Madoff é um vigarista num mercado financeiro neoponziano. Beneficiou-se da leniência dos serviços reguladores americanos. 

Durante nove anos driblou denúncias, até que entrou mal num cruzamento e capotou. Ao contrário de Ponzi, Madoff oferecia um rendimento modesto, semelhante à Bolsa Copom de Nosso Guia. O estouro derivou da má-fé do doutor, mas operadores de má-fé fazem parte do jogo. A anomalia esteve na falta de fiscalização, num ciclo econômico durante o qual demonizou-se a vigilância do poder público. 

Madoff irá para a cadeia, de onde dificilmente sairá, pois tem 70 anos. 

Ponzi pagou mais caro. Ele tinha 38 anos quando foi encarcerado e passou 11 preso, muitos dos quais costurando cuecas. Libertado, chegou ao Brasil em 1939 e viveu no Rio de Janeiro tentando pequenos negócios e lecionando inglês. Contava que na cadeia convivera com Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, os anarquistas eletrocutados em 1927. 

Paralítico e cego, morreu em 1949 no hospital da Santa Casa. Vivia à custa da previdência social brasileira. Morou na Rua Engenho Novo 118, apartamento 102. 

O doutor Henrique Meirelles deveria comprar o prédio e instalar nele a sede oficial do Copom. 

ANCELMO DE GOIS

Paes vai a Davos


O Globo - 17/12/2008
 

A primeira viagem ao exterior de Eduardo Paes será ainda em janeiro, mês da posse. Vai com Sérgio Cabral ao Fórum Mundial de Davos, na Suíça, dia 28. 

Os dois irão divulgar o Fórum Econômico Mundial da América Latina, que será no Rio, de 14 a 16 de abril. 

Aliás... 

Trazer essa versão latina de Davos para o Rio não foi fácil. O presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, por exemplo, tentou levar o evento para a sua Bahia. 

Em tempo: no livro de ocorrências do Palácio Guanabara, sede do governo do Rio, há outros registros de má vontade de Gabrielli com o estado. 

Lula e Roger 

Quinta retrasada, dia 4, um dia depois de a Vale anunciar a demissão 1.300 empregados no mundo, Lula teve, na Base Aérea do Rio, uma conversa com Roger Agnelli, comandante da mineradora. 

O presidente estava muito irritado com a decisão da Vale. 

O destino de Carla 

Segue o mistério sobre o que Nicolas Sarkozy e Carla Bruni farão depois do dia 23, quando acaba a agenda oficial no Rio. 

Uma opção, além de Fernando de Noronha, é o Txai Resort, em Itacarezinho, BA, já inspecionado pelos franceses.

Disque-denúncia 

Um promotor eleitoral de Seropédica, no Rio, está ameaçado de morte. As ameaças chegaram ao TRE-RJ.

AUGUSTO NUNES

Brasil faz bonito no ranking fora-da-lei

Jornal do Brasil 17.12.08

NA CABEÇA DO BRASILEIRO,o segundo lugar é o primeiro dos últimos, ensinou o piloto Nelson Piquet, duas vezes campeão mundial da Fórmula-1. No país que só festeja o vitorioso, é isto ou aquilo. É a taça ou o fiasco. O aplauso ou a piada. A ovação ou a vaia. A medalha de ouro ou o nada. O topo do ranking ou as profundezas do inferno. Um vice não merece festa. E qualquer coisa abaixo disso é motivo de vergonha nacional, notícia a confinar em cantos de página, desastre a esquecer. Melhor fazer de conta que nem aconteceu. Essa megalomania sem pé nem cabeça já não se restringe a esportes praticados em público, sugere o descaso com que foi tratado pela gente da terra um acontecimento histórico: neste começo de dezembro, o Brasil subiu para a quinta colocação no ranking dos 10 países mais corruptos entre os 22 mais ricos do mundo. A avaliação é feita pela ONG Transparência Internacional, idealizadora da competição, que atribui aos concorrentes notas de 0 a 10. Quanto menor, maior é a roubalheira. A nota 7,4 conferida à corrupção verde-amarela fez justiça a uma performance extraordinária. Pela primeira vez, o Brasil empatou com a poderosa Itália, várias vezes campeã, e derrotou rivais do calibre de Taiwan e Coréia do Sul. Só não superou as potências do G-4: Rússia (5,8), China (6,5), México (6,6) e Índia (6,8). Nada disso pareceu impressionante aos olhos sempre exigentes da nação. A cobrança é a mesma, seja qual for a modalidade. O País do Futebol é tão rigoroso com a Seleção de Dunga quanto com a equipe que representa a pátria em campeonatos fora-da-lei. A corrupção nasceu com o Descobrimento, mas só neste começo de século o Brasil assimilou os fundamentos necessários a quem pretende fazer bonito ladroagem de alto rendimento. Desde sempre, como no atletismo e em outros esportes olímpicos, o país dependeu do talento individual dos campeões de nascença, que seriam vencedores mesmo se viessem ao mundo pelo Haiti. A roubalheira em equipe, mais complexa e mais eficaz, também é bem mais recente. Estreou oficialmente em 1993, quando emergiram dos porões do Congresso os "Anões do Orçamento", assim batizados em homenagem à baixa estatura e alta periculosidade. A quadrilha formada por deputados federais de distintos partidos mostrou como se age em grupo, e em parceria com prefeituras e empreiteiras. O tamanho da bandidagem e a inventividade dos álibis avisaram que a roubalheira ficara mais atrevida. O parlamentar pernambucano João Alves, por exemplo, atribuiu à sorte os milhões que lhe caíram repentinamente no colo: acertara 221 vezes na Loteria Federal. A chegada da corrupção brasileira aos tempos modernos consumou-se em julho de 2005, com a drenagem do pântano do mensalão. Em perfeita afinação, agora a jogavam juntos delinqüentes recrutados em todos os poderes e na iniciativa privada. O Executivo cedeu artilheiros em ação nos ministérios e nas estatais. O Legislativo contribuiu com dribladores veteranos ou em ascensão. O Judiciário escalou os juízes mais clementes. O presidente da República fez de conta que não viu nem a fase de treinos. Apoiada por banqueiros e publicitários, a multidão de corruptos deixou claro que podia jogar de igual para igual com os piores adversários. O quinto lugar no ranking ficou de bom tamanho, mas a turma já pode sonhar com a liderança, informaram dois casos de polícia recentíssimos. A captura do mensaleiro com euros na cueca avisou que a turma vai voltando à rotina do pecado. A descoberta da quadrilha chefiada pelo presidente do Tribunal de Justiça capixaba provou que até desembargadores entraram em campo. É só questão de tempo. A taça vem aí.


As 60 temporadas do craque
Mirem-se no exemplo de Villas-Bôas Corrêa, sugiro aos jornalistas que vêm chegando. Nascido para caçar notícias e criado para interpretá-las com argúcia, há 60 anos Villas esbanja, em textos sempre refinados, talento, independência, coragem, equilíbrio e todas as outras qualidades que fazem um grande craque da imprensa. Ele não é apenas o mais experiente. É o melhor de todos nós.

NAS ENTRELINHAS

Caminho de tormentas


Correio Braziliense - 17/12/2008
 

Neste ambiente de incertezas econômicas, o PT começou a manobrar na Câmara para mudar as regras do jogo da sucessão presidencial


O Brasil fecha o ano navegando em mar de incertezas. A crise mundial atormenta o governo, os empresários e a oposição, mas a maior indefinição — por causa das projeções econômicas — é a sucessão presidencial. Como dizia o poeta lusitano, tudo é incerto e derradeiro, tudo é disperso, nada é inteiro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo as pesquisas, ostenta os melhores índices de sua avaliação, mas a do governo e a confiança na economia já são arranhadas pela crise. Como Lula não pleiteia um terceiro mandato, a sucessão presidencial é apenas uma linha no horizonte, para usar a imagem de Fernando Pessoa. 

Todas as medidas adotadas pelo governo dos Estados Unidos e pela União Européia não foram suficientes para evitar a recessão mundial. A crise do mercado financeiro continua sendo um baú de surpresas desagradáveis. O espanto da semana foi a falência dos fundos geridos pelo ex-presidente da Nasdaq Bernard Madoff, calculados em US$50 bilhões. As bolsas dos Estados Unidos e da Europa foram atingidas, bem como investidores brasileiros que aplicavam em fundos geridos pelo Santander e HSBC. O fundo era uma pirâmide “Ponze”, uma operação financeira que pagava altos rendimentos aos seus investidores com dinheiro de novos clientes, como se fossem lucros reais. Ou seja, puro estelionato. Ontem, o Goldman Sachs anunciou prejuízo líquido de US$ 2,12 bilhões. Entre os emergentes, dois gigantes, Índia e Rússia, estão sentindo fortemente o baque; a China também, porém é mais robusta. O Brasil aparece em melhor situação, mas também sente o tranco. 

O enigma 
Todos os economistas que falam sobre a crise (alguns permanecem na muda) defendem categoricamente a redução da taxa de juros. Até agora, a única justificativa para mantê-la no patamar atual é a preservação da autoridade do Banco Central, a chamada credibilidade da autoridade monetária. É uma razão subjetiva demais para uma situação onde todos os fatores objetivos apontam em direção contrária. A expansão da economia atingiu seu ponto máximo em outubro. A arrecadação de novembro caiu. As projeções para o primeiro trimestre do ano apontam para a forte redução da atividade econômica, apesar do otimismo do discurso do presidente Lula. É que a demanda de bens de consumo desabou, principalmente de bens duráveis, como automóveis, e o crédito ficou mais curto e caro. A inflação está domada, mas o Banco Central argumenta que não baixa os juros porque ainda há muitas incertezas na economia. Ou seja, para preservar a credibilidade, promove a insegurança. 

A manobra 
Nesse ambiente de incertezas econômicas, o PT começou a manobrar na Câmara para mudar as regras do jogo da sucessão presidencial. O relatório do deputado João Paulo Cunha que propõe o fim da reeleição e mandatos de cinco anos foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça. A proposta abre espaço para a reapresentação do projeto de plebiscito que permitiria ao presidente Lula disputar o terceiro mandato. A reforma eleitoral também ameaça acabar com as coligações, restabelecer a cláusula de barreira e abrir a janela para o troca-troca partidário um ano antes da eleição. É um atalho para o golpismo continuísta. Lula não embarcou na aventura, mas o “queremismo” pode ganhar força com a crise. Enquanto isso, os governadores tucanos José Serra e Aécio Neves afiam os floretes. 

A terceira via 
Quando a candidatura do Michel Temer parecia consolidada, com a adesão do bloco de oposição PSDDB-DEM-PPS ao acordo PMDB-PT, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) se lançou candidato a presidente da Câmara com apoio do bloquinho PSB-PDT-PCdoB. Ambos são ex-presidentes da Casa e enfrentarão Ciro Nogueira (PP-PI) e Milton Monti (PR-PR). Essa eleição promete um segundo turno imprevisível. Na Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN) tenta uma estranha reeleição, mais um sinal de que o candidato petista Tião Viana (AC) não consegue o apoio da bancada do PMDB para ocupar a Presidência da Casa. Por incrível que pareça, os dois movimentos são mais sincronizados do que se imagina. Sinalizam que a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), ainda não empolgou os aliados de Lula.

DORA KRAMER

Condutor e passageiros


O Estado de S. Paulo - 17/12/2008

O governo pode não saber direito se as medidas pró-consumo terão algum efeito real sobre os efeitos da crise econômica no Brasil, mas o presidente Luiz Inácio da Silva sabe perfeitamente o que faz quando pega no microfone e enche a alma do brasileiro de otimismo, dando à crise um sentido de intriga da oposição.


Os resultados das últimas pesquisas de avaliação de desempenho mostram com nitidez a habilidade de Lula no manejo de emoções. Sem um dado preciso para embasar as opiniões, 62% das pessoas consideram que as medidas do governo estão no rumo certo e apenas 29% já sentem conseqüências negativas no dia a dia.

Compare-se a quantidade de entusiastas ao contingente de afetados e não será difícil compreender a ascensão dos índices de popularidade de Lula à casa dos 80%. Se a maioria ainda não sentiu o problema no bolso, natural que a maioria prefira acreditar que nada de mau acontecerá.

O equívoco de quem se surpreende com a capacidade de Lula de ficar no alto na adversidade é acreditar que popularidade está necessariamente ligada a razões objetivas, enquanto quase sempre guarda relação com motivações subjetivas.

Lula pegou a coisa no ar quando a crise explodiu nos Estados Unidos. Jogou a culpa no colo de George Bush, depois transferiu responsabilidade ao “sistema” neoliberal e, enquanto apontava seus adversários políticos como torcedores do desastre, montava com capricho o nicho de onde reina quando é preciso tirar o corpo fora.

De um lado, anunciando medidas para não vir a ser acusado de apatia governamental e, de outro, construindo o discurso triunfalista em ritmo de Brasil grande.

Resultado, a maioria, quando perguntada, não tem dúvida: a crise é grave, mas o governo faz a sua parte.

Uma brevíssima reflexão ensejaria a dúvida a respeito de qual parte mesmo se trata, mas no mundo das percepções captado pelas pesquisas, convenhamos, isso não passa de detalhe.

Quase tão irrelevante quanto a relação direta entre os índices de preferência eleitoral obtidos pelo rol de possíveis candidatos a presidente e o comportamento do eleitorado daqui a um ano e dez meses.

Só influem nas movimentações partidárias em torno dos pretendentes. Fora isso, vale quase zero saber que a oposição venceria qualquer candidato que não fosse Lula, que Dilma Rousseff é desconhecida por 48% das pessoas a despeito de sua exposição praticamente diária como candidata há dez meses e que 43% poderiam votar em quem o presidente pedisse.

A transferência automática de votos observada na recente eleição municipal falou bem melhor sobre a distância entre o ato da venda e a decisão de compra do produto eleitoral.

Bolha

Um tantinho demasiada a interpretação de alguns senadores de que a pretensão do presidente do Senado, Garibaldi Alves, de se reeleger poderia abrir espaço à idéia de um terceiro mandato para governantes em geral - Lula em particular.

A questão de Garibaldi não é institucional, embora seja matéria constitucional. Além disso, o plano diz respeito a um segundo e terceiro mandato.

Como as excelências estão cansadas de saber disso, há má-fé por parte dos intérpretes: tanto dos que recorrem à alegação para não assumir a rejeição a Garibaldi Alves de novo, quanto dos eternos praticantes do “se colar, colou”.

A história é simples de ser resolvida. Se o PMDB quiser mesmo lançar o nome dele, uma rodada de consultas informais a ministros do Supremo Tribunal Federal resolve o problema da segurança jurídica.

As condições e conveniências políticas da candidatura podem ser obtidas mediante sondagens no Senado mesmo. Considerando que o partido não vai entrar numa empreitada dessas para comprar briga com a Constituição nem com as intenções de voto dos senadores, a celeuma é desnecessária.

A menos que haja no PMDB e no PT gente interessada em alimentar o contencioso entre os dois partidos para amanhã transformá-lo em pretexto. 

Cerca Lourenço

A motivação dos pemedebistas para o acirramento do conflito com os petistas seria 2010. Hoje o partido arrasta um bonde pela candidatura de José Serra não por amor às suas olheiras, mas por carinho ao primeiro lugar nas pesquisas.

Uma minoria assume, a maioria faz juras de fidelidade ao presidente Lula a fim de manter uma política mais que de boa vizinhança, de ótima permanência.

Entre os minoritários assumidos estão as seções do partido em São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Piauí e Roraima.

Entre os majoritários enrustidos se incluem todos os ministros, governadores e demais interessados nas verbas e nos cargos, cujo desfrute ainda se estende por mais dois anos. São facilmente reconhecíveis pelos elogios enfáticos em público e a descrença veemente em particular à candidatura Dilma Rousseff.

SAPATADA

QUARTA NOS JORNAIS

Globo: Que país é este, em que se rouba flagelado?

Folha: Juro nos EUA cai para quase zero

Estadão: Para combater recessão, EUA deixam juros perto de zero

Correio: A crise deles...EUA reduzem taxa de juros a 0,25% ao ano... e a nossa: R$ 44 milhões para apartamento de deputado

Valor: Redução de custo tira o sono de empresários e executivos

Estado de Minas: As duas faces de uma tragédia anunciada

segunda-feira, dezembro 15, 2008

ADRIANA FERNANDES

E petização da Receita chega a escalões intermediávios

  Estadão:

Em meio à crise financeira que já mostrou forte impacto na arrecadação de novembro, a secretária da Receita Federal, Lina Maria Vieira, promoveu nos dois últimos meses a mais profunda mudança de pessoal dos últimos 40 anos. As trocas, que no início do mês chegaram aos escalões intermediários com a substituição de mais de 50 coordenadores, têm provocado um grave problema de descontinuidade, paralisando setores como a fiscalização, combate à sonegação e repressão ao contrabando.
Auditores fiscais experientes já falam em "colapso" e "falta de comando" nessas áreas. Segundo eles, a estratégia de ações de fiscalização traçada para esse ano foi interrompida desde que a nova secretária assumiu o cargo em julho passado.Com o agravamento da crise, a reestruturação da Receita numa "tacada só" já levou apreensão à Casa Civil e a áreas do Ministério da Fazenda que lidam diretamente com a preparação de medidas tributárias, negociações com o Congresso, simulações, previsão e acompanhamento de arrecadação.
A avaliação dos fiscais é que a secretária foi politicamente inábil ao fazer uma mudança tão profunda de uma vez só e em meio à crise. Lina Maria mudou também o regimento da Receita e fez uma reforma ampla na estrutura do órgão. "Mesmo que os nomeados sejam competentes, não se muda todos os chefes sem prejuízos para a administração. É assim também nas empresas", disse uma fonte do Palácio do Planalto. Segundo a fonte, com a "crise chegando" na arrecadação o ministro da Fazenda, Guido Manteg, terá de dar uma atenção maior à Receita. No dia-a-dia, é o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Machado, quem lida com a área. É ele o "padrinho" da escolha da secretária para o cargo.
Além de mudar os secretários-adjuntos, a secretária promoveu substituições nos cargos mais estratégicos. Entre eles, os superintendentes regionais, trocados majoritariamente por sindicalistas, conforme publicou o Estado em novembro passado.
Agora, as mudanças, publicadas no Diário Oficial da União de 5 de dezembro, chegaram ao escalão intermediário. O subsecretário Carlos Alberto Barreto, único remanescente da cúpula da equipe anterior, deve sair no início do ano.

UMA GOSTOSA SEMANA


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COLUNA PAINEL

Jardim suspenso


Folha de S. Paulo - 15/12/2008
 

O projeto do túnel ligando o Congresso ao Palácio do Planalto foi para a geladeira, mas o Senado tem pelo menos quatro concorrências em fase de tomada de preços na reta final do mandato de Garibaldi Alves (PMDB-RN), com gastos que atingem R$ 750 mil. A mais cara das obras é "um viveiro de plantas totalmente ecológico e auto-sustentável", ao preço de R$ 315 mil. Inclui banheiros em granito e escada caracol.
O pacote de benfeitorias inclui a construção de um arquivo de fitas para a TV Senado (R$ 173 mil) e de subestações para a gráfica da Casa (R$ 183 mil), além da reforma completa de banheiros e cozinhas de quatro apartamentos funcionais (R$ 82 mil).

Serviços 1
O Senado também contratou a Plansul, vencedora de concorrência para fornecer 337 funcionários à TV da Casa, ao custo de R$ 1,9 milhão por mês durante um ano. A empresa substituirá a Ipanema, que teve o contrato suspenso após denúncias de fraudes reveladas na Operação Mão-de-Obra da PF. 

Serviços 2
Especializada em terceirização de pessoal, a Plansul vem ampliando seus negócios na Esplanada. Faturava, em média, cerca de R$ 3 milhões anuais em contratos, mas em 2007 foram R$ 9,9 milhões. Antes de vencer no Senado, já havia conseguido R$ 5,5 milhões neste ano. 

Canelada
Do ministro Tarso Genro (Justiça), sobre a afirmação de Nelson Jobim (Defesa) de que o Supremo assegurou a presença do Exército na Raposa/Serra do Sol: "O que o ministro Jobim está dizendo é o óbvio, que o Ministério da Justiça defende desde o começo para manter a continuidade [da reserva]". 

Credenciais
Diante dos pedidos para que sua fala fosse breve na reunião da ala petista Mensagem ao Partido, Marina Silva alegou que era difícil falar só 20 minutos, "por três motivos": "Sou mulher, professora e política!". 

Meteorologia
No mesmo encontro, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, listou as medidas do governo anticrise e, com ar hesitante, concluiu: "Todo esse quadro é um quadro indeterminado quanto ao seu efeito final".

Gol contra. Já defendida publicamente pela ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), a redução no preço da gasolina ainda não saiu pela preocupação do governo com a saúde financeira dos usineiros de álcool, que estão em plena entressafra. O aumento no desemprego rural seria grande. 

Fronteiras
Um dos pontos altos da reunião das cúpulas latino-americanas, que começa hoje na Costa do Sauípe (Bahia), será a discussão para aprovar o Código Aduaneiro do Mercosul, último passo para a união aduaneira no Cone Sul, sonho antigo de Lula. 

Lembra?
Candidatos à liderança do PSDB na Câmara, Paulo Renato e Emanuel Fernandes têm repetido à exaustão na bancada que, há dois meses, foi acertado que "não haveria recondução do líder". Argumentam que, à época, José Aníbal (SP), que agora quer ficar no posto, avalizou. 

Pano
Presidente do PSDB, o senador Sérgio Guerra (PE) contemporiza: "A Executiva está acompanhando o processo e não vai ter crise". Mas já há quem afirme na cúpula tucana que um novo nome surgirá para abafar a disputa. 

Gaveta
Caminha para o arquivamento a investigação da Corregedoria da Câmara contra Ademir Camilo (PDT-MG) e João Magalhães (PMDB-MG), alvos da Operação João de Barro da PF. O argumento é que o STF se recusa a fornecer documentos. 

Forcinha
O Ministério do Esporte repassou R$ 25 milhões à Confederação Brasileira de Futebol de Salão para a organização do mundial da categoria, em Brasília e no Rio de Janeiro, em outubro.

Tiroteio

"Nas eleições deste ano, não houve demanda por quantidade, e sim por qualidade. Mas, como em 2010 haverá outra eleição, mais vereadores equivalem a mais cabos eleitorais."


Do deputado 
CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), sobre emenda aprovada na CCJ do Senado para criar mais 7.343 cadeiras de vereador no país.

Contraponto

Na marca do pênalti

Autoridades em série prestigiaram, na quarta passada, a posse de Ubiratan Aguiar no Tribunal de Contas da União. Embora satisfeito com o evento, o novo presidente, vascaíno apaixonado, estava um tanto sentido com o rebaixamento de seu time para a segunda divisão.
Encerrada a solenidade, o governador Jaques Wagner (PT) disse em tom grave ao grupo que o acompanhava:
-Eu estou muito preocupado com a fiscalização do TCU sobre as contas da Bahia...
A má sorte do Vasco havia sido decidida no domingo anterior, na última rodada do Campeonato Brasileiro, com uma derrota por 2 a 0 para o Vitória da Bahia.

INFORME JB

Garibaldi já tem a maioria no PMDB


Jornal do Brasil - 15/12/2008
 

Na bancada do PMDB, pelo menos 13 dos 20 senadores já apóiam a idéia de reeleição do presidente do Senado, Garibaldi Alves (RN). Garibaldi revelou o sonho na sexta. Telefonou para José Sarney (AP), o guardião do partido. Sarney achou ótima idéia. Renan Calheiros (AL) soube, ainda tem dúvidas. Sarney, outrora cotado, agora quer cuidar da saúde da filha, a senadora Roseana (MA). Para tentar a reeleição, Garibaldi se sustenta em pareceres jurídicos que encontraram brechas no regulamento da Casa. Mas o apoio da maioria não basta. Ele tem que desbancar dentro do partido os ministros Hélio Costa e Edison Lobão. Os nomes serão postos à mesa na quarta, quando o PMDB – que não abre mão da candidatura – deve escolher seu candidato. Ou reforçar favoritos. Depois, cuidam do PT, que reivindica a vaga para Tião Viana.

Não, Lula Base?

O presidente Lula chamou ao palácio um senador da base governista e pediu seu voto para Leomar Quintanilha (PMDB), que disputa vaga no TCU com o ex-senador José Jorge, do DEM. Ouviu um singelo "não posso".

Que base?

O senador declinou mesmo. Disse que já tinha compromisso com o candidato da oposição.

Confissões mineiras

O ex-presidente Itamar Franco foi dos primeiros a saber que Aécio Neves será candidato à Presidência. Com telefonema do próprio.

Caminhos certos

Dentro do PSDB há gente que explica esse lançamento adiantado. O povo mineiro não perdoa quem abandona uma luta. O fato, por ora, é que José Serra é o candidato ao Planalto, e Aécio ao Senado.

Fera ferida

Depois que Lula mandou o recado a Ciro Gomes avisando que ele não seria o vice de Dilma Rousseff, deu no que deu. O deputado começou a esbravejar contra o PT. Justamente na sexta-feira que a ministra lançou-se, extra-oficialmente, à sucessão do chefe.

Rio que te quero bem

A Anac terá um prédio de oito andares no Rio como sede. A presidente Solange Vieira ficará mais perto de casa.

Olho nele

O prefeito eleito de Juiz de Fora, deputado federal Custódio Matos (PSDB), anuncia hoje o restante de seu secretariado. Serão 18 pastas. Metade dos colaboradores já tinham sido escolhidos.

Pós-Aécio

O tucano foi secretário do governador Aécio Neves até poucos meses atrás, e pode aparecer como opção do governador de Minas para sua sucessão.

Desfiou

Depois que inaugurou sua rede varejista, a Paramount, uma das maiores produtoras de tecidos finos do país, enfrenta boicote das redes de varejo de roupas masculinas, a quem vendia a maior parte da produção de peças de lã fria.

Desfiou 2

O dono da Paramount, Fuad Mattar, prepara mudanças. No final do ano passado, o grupo já rompera uma parceria de 30 anos com a famosa marca Lacoste.

Adiantou nada

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, é membro do Conselho de Administração da Paramount.

Mulheres, atentai

A jornalista Rozane Monteiro, ex-JB, lança na quarta o seu primeiro romance, Sua Excelência, o canalha (Litteris), na qual lembra as agruras de um relacionamento. Na Livraria Da Conde, no Leblon.

ARQUITETURA


ANCELMO DE GOIS

O Natal dos Silva


O Globo - 15/12/2008
 

Ontem, em São Bernardo, na casa de Frei Chico, o irmão que levou Lula para o sindicalismo, teve festa de Natal da família Silva. 

Quem veio para a reunião, diretamente de Paris, onde passa uma temporada, foi a atriz Glória Pires. É ela quem vai viver Dona Lindu, mãe do presidente, em "Lula, o filho de Lindu", cinebiografia que Fábio Barreto vai levar às telas. 

Aperte o cinto 

Amanhã, o bicho vai pegar. É que a Anac realiza uma audiência pública para discutir a proposta da agência de permitir novos vôos no Santos Dumont. 

A mudança agrada à noviça Azul e desagrada a Sérgio Cabral, TAM e Gol. 

Maluco beleza 

Da ministra Dilma Rousseff, nas comemorações dos 90 anos da Farmanguinhos, ao ser apresentada a Mauro Marzochi, subsecretário de Saúde da prefeitura do Rio: 

- Cesar Maia é completamente maluco, mas é competente, talentoso para algumas coisas e não é corrupto. 

É. Pode ser. 

Se beber, não dirija 

O Ministério da Justiça vai começar a distribuir amanhã aos estados 10 mil etilômetros (nome metido a besta dos bafômetros). 

Na primeira etapa, o Rio vai receber 279. 

Festa dos banqueiros 

Calote é coisa feia. Mas o Paraguai tem certa razão em reclamar que a dívida de Itaipu parece um saco sem fundo. 

É que ainda falta pagar US$19,6 bi da dívida, que só vence em 2023 (quase 50 anos depois do início da obra da usina).

No mais 

O Brasil deve manter distância no convescote de amanhã, na Costa de Sauípe, na Bahia, de Rafael Correa. O equatoriano, como se sabe, tenta aplicar um calote no BNDES. 

Lula deve, como lembrou um leitor, mirar-se no protesto de Antônio Callado contra a ida do ditador Costa e Silva a um almoço na ABI, em 1968: 

- Não se almoça com quem quer nos jantar. 


O deputado Marcelo Freixo, do PSOL, relator da CPI das Milícias do Rio, diz que todos os milicianos presos hoje são integrantes do DEM e do PMDB.

RICARDO NOBLAT

O truque de sempre


O Globo - 15/12/2008
 

"Tem gente que vai se deitar rezando: Tomara que a crise pegue o Brasil para esse Lula se lascar." (Lula, como de hábito)

Tomara que, ao fim e ao cabo, Lula esteja certo, e a crise econômica que abala o mundo não passe entre nós de uma marolinha vagabunda, incapaz de ser surfada. Porque, do contrário, seremos obrigados a suportar Lula e seus aliados atribuindo a culpa pela crise aos governos anteriores e, para variar, também à mídia “irresponsável e golpista”.

 

Quanto à oposição, essa não sabe sequer tirar proveito do que se tornou uma marca do discurso oficial do governo e dos seus áulicos: a previsibilidade. Há problemas? A culpa é dos governos que antecederam o atual. O PT meteu os pés pelas mãos? PSDB e DEM meteram antes. O mensalão, por exemplo, foi algo diferente de caixa dois. No caso dele, pagou-se propina a deputados. Caixa dois é dinheiro ilegal doado a partidos.

 

Lula negou o mensalão e admitiu o caixa dois, certamente um crime perdoável aos olhos dele, e cometido por todos os partidos. O Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia do procurador-geral da República contra 40 mensaleiros integrantes “de uma sofisticada organização criminosa” que tentou se apossar de parte do aparelho do Estado. A denúncia distingue muito bem mensalão de caixa dois.

 

Este ano, como o governo reagiu à descoberta do mau uso do cartão de crédito corporativo? Demitiu a ministra da Igualdade Racial, que pagara com cartão as compras em um shopping de aeroporto. Em seguida, a Casa Civil da ministra Dilma Rousseff providenciou um levantamento sobre despesas sigilosas do governo Fernando Henrique Cardoso pagas com cartão. A idéia era a de sempre: se erramos, nossos adversários também erraram.

 

O discurso a ser repetido diante de um possível agravamento da crise por aqui foi testado e aprovado com louvor na semana passada, durante reunião em São Paulo de 240 dirigentes do PT de 26 estados. Ricardo Berzoini, presidente do PT, esteve presente e concordou com ele. O ex-ministro José Dirceu também. Coube ao expansivo Gleber Naime, secretário nacional de Comunicação do PT, resumir o discurso: “A crise tem pai e mãe. Ela é uma crise do modelo neoliberal, daqueles que no Brasil defenderam as idéias de desregulamentação do Estado, ou seja, o PSDB e o DEM. E esse debate o PT vai fazer. Os neoliberais perderam.”

 

Curioso, no mínimo. Com que modelo o PT governou até agora? Com o que recebeu pronto. Antes de começar a governar, havia assegurado, por meio da famosa “Carta aos brasileiros”, assinada por Lula, que não mexeria no modelo — como não mexeu. Antonio Palocci, o primeiro ministro da Fazenda, mimou Pedro Malan, a quem sucedeu. Henrique Meirelles, eleito deputado federal pelo PSDB, foi nomeado presidente do Banco Central.

 

Com o tal modelo, o governo foi bem-sucedido. A decisão de conservá-lo ajudou Lula a alcançar admiráveis 70% de aprovação popular. É pura malandragem faturar o que o modelo ofereceu de bom ou de razoável e culpar a oposição por seus graves defeitos. Quer dizer: tudo que derivou de positivo do modelo deve ser creditado unicamente ao PT e ao seu líder máximo. O que derivou de ruim, a uma oposição que mal consegue se opor.

 

A denúncia do modelo que sustentou o governo, e que foi por ele sustentado, vem acompanhada da crítica à mídia, acusada de “espetacularizar” a crise porque não gosta de Lula e do PT. Nada de original há nisso também. A mídia foi sempre apontada como inimiga do governo toda vez que algum escândalo o ameaçou. A memória coletiva é curta. Confiram nos arquivos como ela tratou os governos passados envolvidos em escândalos.

 

Das figuras políticas mais antigas ainda na ativa, somente o senador José Sarney (PMDB-AP) pode dar testemunho do que é governar de fato com a mídia toda alinhada contra ele. Nem por isso foi por fraqueza que Sarney evitou antagonizá-la. Foi por entender que é melhor para a democracia uma mídia repleta de falhas do que nenhuma mídia. A companheirada prefere uma mídia amestrada. Não terá.

BANALIZAÇÃO


SEGUNDA NOS JORNAIS

Folha: Decreto não barra venda de tele par estrangeiro

Globo: Alta do dólar elevará preço de energia e remédios

Estadão: São Paulo deve rever leilão de rodovias

JB: Shoppings ignoram crise

Valor: S.A. terá de detalhar salário dos executivos

Gazeta Mercantil: Linha do BC poderá custar até US$ 20,5 bi

domingo, dezembro 14, 2008

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Realidade, que realidade?

Estado de São Paulo 14.12.08

A frase “ os números não mentem” nunca deixou de ser verdadeira. Contudo, os números só existem na cabeça do homem, e o homem mente. Ou seja, é fato que os números não mentem, mas há grande fartura de gente que os emprega para mentir.


E os números costumam intimidar quem os escuta, principalmente aqueles, que imagino maioria, em que a matemática ressuscita o terror experimentado nos bancos escolares.

A precisão do número é mortal e dá sempre a impressão de que quem os utiliza, numa argumentação qualquer, tem razão. Isso cria situações curiosas, porque, em certos casos, quanto mais “preciso” o número, mais suspeito ele é. Estatísticas como “37,23 por cento das crianças de tal cidade consideram a freqüência à escola uma perda de tempo” se originam de dados que não podem ser apresentados dessa forma, principalmente porque há neles uma margem de erro que varia de caso a caso. Desconfiar, pois, de números tão certinhos assim.

Desconfiar também de comparações aparentemente inatacáveis, como, para escolher um exemplo fácil, a criminalidade de Nova York com a do Rio ou São Paulo. De primeira assim, o freguês fica inclinado a crer que, olhando as estatísticas de Nova York e olhando as nossas, talvez estejamos até melhor, numa categoria ou outra. Certo? Errado, claro. Eu mesmo já soube de casos de gente que teve seu carro roubado e não se deu ao trabalho de dar parte à polícia. Pode ser até mentira, mas terá seu fundo de verdade.

Um grande número de vítimas de assalto nas grandes cidades brasileiras não dá queixa na polícia, até porque é ameaçada de represálias por parte dos assaltantes, se vier a cometer essa bobagem, aliás inútil na maior parte dos casos. Por essas e muitas outras, é freqüentemente um exercício altamente besteirógeno (gerador de besteiras) a comparação entre estatísticas estrangeiras e as nossas, porque, nas estatísticas, há bastante mais que números.

Uma coisa interessante, por exemplo, aconteceu recentemente.

Viu-se alardeado por todo o Brasil um esplêndido crescimento da classe média, resultado da ação do governo, evidência de que está havendo redistribuição de renda, de que o padrão de vida geral está melhorando.

Certo, certo? Errado, claro.

Não faz também muito tempo, o PT, se não me engano, chegou a sustentar que 600 dólares por mês eram o mínimo para um trabalhador sustentar a família. Mas agora mudaram de idéia e quem ganha 600 dólares não pertence mais ao nível de salário mínimo, mas à classe média.

A classe média, novamente se não me falham os escassos neurônios, é agora do pessoal entre 500 e 2.500 dólares. Notaram a inteligência, sentiram como os números não mentem? Bastou alterar uma bobagem nas definições para os números a refletirem sem equívoco. A classe média aumentou e acabouse.

Quanta gente ia morrer sem ter esse gostinho, se não fosse pela visão social do governo? Lembro o presidente da República saindo garboso do hospital paulista em que acabara de resolver um pequeno problema de saúde e dizendo que recebera o tratamento que qualquer outro cidadão brasileiro receberia. Bem antes, ele já comentara que a saúde pública no Brasil se aproxima da perfeição, de maneira que, sendo ele presidente e eu apenas um dos pagantes, não vou desmentir o homem. Vou até espalhar isso, na minha próxima estada em Itaparica. O pessoal vai gostar de saber que a cirurgia que o médico disse que era urgente, mas só foi marcada para meados do próximo ano, pode ser feita logo, no Albert Einstein. Basta pedir ao SUS a requisição, apresentá-la na repartição pública adequada e receber passagem de ida e volta a São Paulo, com direito a internação e acompanhante.

Eu sei que todo mundo devia ter conhecimento disso, mas a imprensa, como sempre, sabota e a informação não é dada.

Também padeço de torturante confusão mental, quando por acaso assisto a algum noticiário de televisão.

É comum que, no mesmo programa, se afirme indiretamente que a economia está ótima e que o emprego aumentou, para logo em seguida (ou melhor, na seqüência — pois que agora só se fala assim, notadamente entre os narradores de futebol, para os quais nada acontece depois, mas na seqüência) abordarem perspectivas sinistras, que os apresentadores descrevem com os semblantes adequadamente compungidos. Fica sob nossa responsabilidade resolver o que é verdade e o que é falso.

E por acaso a lembrança dos narradores de futebol vem a calhar para o assunto de que estou tratando.

Lembro as primeiras transmissões de jogos de futebol pela tevê, necessariamente ao vivo, pois não existia videoteipe. Os narradores das rádios tiveram de adaptar-se, deve ter sido penoso. Muita gente, inclusive meu pai, baixava todo o volume da tevê e ligava um rádio, só para pegar alguns narradores que, ainda sem se dar conta de que agora o espectador estava vendo o que acontecia no estádio, prosseguiam floreando, enfeitando e puxando a brasa para o time de sua torcida, a ponto, por exemplo, de muitas vezes vermos jogadores dando pulinhos e esfregando uma perna machucada de leve, enquanto, pelo rádio, ele contorcia-se em dores no gramado.

Sim, há várias maneiras de ver a realidade, há até gente que acha que ela não passa de uma alucinação.

É uma boa convicção, que às vezes me tenta. E é mesmo muito difícil estabelecer o que de fato aconteceu. Quando o presidente soltou um palavrão na tevê, todo mundo o u viu. Contudo, ao ser transcrito para veiculação oficial, o palavrão virou “inaudível”. Todo mundo ouviu, mas é mentira. Foi inaudível, do mesmo jeito com que os escândalos envolvendo gente sua foram invisíveis para o presidente.

Qual o sentido que vão abolir agora, “na seqüência”? Faço um apelo que creio não ser só meu: dêem um fim logo no olfato, porque ninguém agüenta mais.

PEDRO MALAN

Onde se lê 2008/2009, leia-se 2009/2010

Estado de São Paulo 14.12.08


A piada é conhecida - e antiga: o que deixa o cargo faz chegar três envelopes lacrados e numerados a seu sucessor. Para serem abertos, um de cada vez, apenas em diferentes momentos de crise. Na primeira crise, o envelope, aberto, traz o conselho: não deixe que a crise o atinja, jogue toda a culpa no(s) seu(s) antecessor(es). Na segunda crise, o envelope, aberto, contém a recomendação: não permita que a crise o alcance, livre-se de pessoas-chave de sua equipe. Na terceira crise, a sugestão do envelope, aberto, é: escreva três cartas para seu sucessor.

O presidente Lula utilizou durante anos, ad nauseam, a sugestão da primeira carta. Esperemos que apenas como esperteza política. Afinal, não lhe seria conveniente reconhecer, de público, algo que ele sabia - ou deveria saber. Que, por exemplo, o risco Brasil se multiplicou por 4 e a taxa de câmbio disparou de R$ 2,30 para R$ 3,99 por dólar entre abril e outubro de 2002 (com todas as implicações sobre os índices de inflação do último trimestre do ano), em larga medida, devido a incertezas, não sem fundamento, sobre o que seria o "modo petista de governar" em matéria de política macroeconômica - entre outras.

O segundo envelope, aberto em algum momento em 2005, levou à saída do governo do ministro José Dirceu, na prática, até então, o virtual chefe do governo; o verdadeiro "capitão do time", na expressão do próprio presidente. Desde então, o presidente Lula utilizou inúmeras vezes a sugestão da segunda carta, ao jogar ao mar pessoas-chave de seu governo e de seu partido, sempre que crises pudessem eventualmente atingir a sua própria pessoa. E deixou claro que não hesitaria em utilizar a recomendação contida no segundo envelope em eventuais crises futuras.

O presidente Lula ainda não abriu o terceiro envelope. É desnecessário fazê-lo. Em parte, porque o presidente, pessoa bem-humorada, conhece a piada - tanto que a vem seguindo à risca. Em parte, porque ainda tem algum tempo antes de escrever três cartas a seu sucessor.

Seria interessante, embora meio inútil, imaginar qual seria o conteúdo das três cartas do presidente Lula. Mas, seguramente, a primeira carta seria redigida de outra maneira. É possível que o atual presidente pense em sugerir a seu sucessor que procure deixar de lado aquilo que virou uma marca registrada sua: a eterna ladainha do nunca-antes-jamais-na-história-deste-país.

Afinal, já estamos em janeiro de 2008. Passaram-se cinco anos ao longo dos quais o governo Lula se beneficiou de uma combinação positiva de três ordens de fatores: uma situação internacional extraordinariamente favorável de 2003 a 2007, uma política microeconômica não-petista seguida por Antonio Palocci e Henrique Meirelles e uma herança não-maldita de mudanças estruturais e avanços institucionais alcançados na vigência de administrações anteriores - inclusive de programas na área social que foram mantidos, reagrupados e ampliados.

Com esta base, o governo Lula vem construindo a herança que legará a seu sucessor em 2010. Mas, antes disso, este governo será testado, em 2008 e 2009, de uma maneira que nunca foi, desde o seu início, cinco anos atrás.

É verdade que houve um duro teste no início de 2003. Pelo qual este governo passou, e bem, e não apenas porque os ventos da economia internacional passaram a soprar a nosso favor. Vale lembrar, neste conturbado início de 2008, que o fundamental foi a capacidade de resposta da área econômica do governo às conseqüências do pânico que se instaurou nos mercados no segundo semestre de 2002 (no Brasil, por razões conhecidas; nos EUA, por medo de deflação). O ministro Palocci formou sua equipe com profissionais como Marcos Lisboa, Joaquim Levy e Murilo Portugal, na Fazenda, e Henrique Meirelles, Ilan Goldfajn e Beny Parnes, no BC. Essa equipe formulou - e implementou - uma clara resposta de política macroeconômica às turbulências, incertezas e medos que prevaleciam em fins de 2002, início de 2003.

O aumento do esforço fiscal - anunciado e realizado - e a reafirmação do compromisso inarredável com o controle da inflação mostraram, mais uma vez, aos brasileiros e ao resto do mundo, que o Brasil, apesar das aparências em contrário, continuava, gradualmente, a se transformar num país mais "normal", isto é, um país mais previsível, que dispensava tentativas de reinvenção da roda, de radicais rupturas com o passado, de experimentos heterodoxos nunca antes vistos. Um país no qual a política macroeconômica não seria conduzida com argumentos ideológicos ou político-partidários. O governo Lula e a economia brasileira derivaram um enorme benefício desta percepção de que caminhávamos para nos tornar um país mais maduro. E, principalmente, um país com capacidade de mostrar certa qualidade nas suas respostas de políticas microeconômicas e setoriais a situações de crise.

Pois bem, é exatamente esta percepção que estará sendo submetida a duros e múltiplos testes em 2008 e 2009, quando, pela primeira vez desde que assumiu a Presidência, em 2003, o governo Lula não contará com uma situação internacional tão extraordinariamente favorável como até 2007.

Ao mesmo tempo, o País enfrenta uma deterioração da situação fiscal, maiores pressões inflacionárias, gargalos em infra-estrutura, um risco de racionamento de energia, excessos de complacência e voluntarismo de seus governantes, continuado aparelhamento e loteamento político de cargos públicos, contínuo fluxo de bizarrices de sua crescente ala "heterodoxa" e uma extraordinária dificuldade em controlar a excessiva taxa de crescimento dos gastos correntes do setor público - em parte, porque muitos ainda acham que isto não é problema, mas solução para o "raquitismo" do Estado, o crescimento da economia e a sustentação da base política do governo.

Ao responder a isto em 2008, o presidente Lula já estará, na prática, escrevendo suas cartas a seu sucessor.

Feliz Natal e bom 2009 a todos.

GAUDÊNCIO TORQUATO

A sacerdotisa, o cardeal e os bispos


O Estado de S. Paulo - 14/12/2008
 

Sob pesadas nuvens que escondem seus contornos, os horizontes de 2010 costumam ganhar o alcance da vista todas as vezes que os oráculos dos tempos modernos - as pesquisas de opinião pública - levantam os véus do futuro para satisfazer a insaciável sede do ser humano de saber se os deuses deixarão mais aberta ou mais fechada a rota de seu destino. Em se tratando do brasileiro, a curiosidade assume proporções fantásticas, eis que o ethos nacional, balizado por altas taxas de egocentrismo, usa o conhecimento sobre o que virá para ajustar condutas, preencher espaços e tirar proveito de situações. No campo da política, o exercício premonitório virou moda. Para provar que não temos nada a dever aos gregos antigos, o País acaba de ver entronizada sua profetisa, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, elevada ao templo de Oráculo pelo senador José Sarney, que, debaixo do fardão de imortal da Academia Brasileira de Letras, usa a prerrogativa da liberdade poética para batizá-la como “sacerdotisa do governo”. Deve achar que o título de “mãe do PAC” é pobre. A premonição, feita na inauguração de um trecho de rodovia, em Colinas (TO), terminou com a promessa do presidente Lula: “Vou fazer o sucessor em 2010.” A especulação, mania nacional, ganha as ruas.

Para entender melhor a nova qualificação da ministra, candidata in pectore de Lula à sua sucessão, lembremos que, nos idos da Grécia antiga, a sacerdotisa, mulher de vida irrepreensível, era escolhida para se comunicar com os deuses e trazer respostas aos consulentes sobre seu futuro, o da sua família ou da sua pátria. Um dos lugares mais venerados pelos gregos era Delfos, no golfo de Corinto, onde as mensagens de Zeus chegavam aos interessados. Sem sabermos por que o senador Sarney preferiu nomear Dilma pitonisa, em vez de guerreira, como Joana d’Arc, ou mulher do Brasil Nação, como é conhecida Anita Garibaldi, importa, agora, analisar as retas e curvas no caminho da ministra. Vale lembrar que a pesquisa Datafolha da semana passada a colocou num espaço de 7% a 12%. Trata-se de uma pontuação até desejável. A tendência recorrente em disputa eleitoral é de crescimento lento e gradual de quem está atrás e declínio de quem está muito na frente, quando a foto flagra pré-candidatos em ocasiões distantes do pleito.

Mais eficaz é avaliar eventuais impactos que cenários positivos e negativos para o País poderão acarretar aos contendores. Voltemos à simbologia grega do senador Sarney. A região do templo de Delfos era dominada por uma monstruosa cobra Píton, que impedia alguém de passar. Mas Apolo, desafiando a serpente, derrotou-a em vigoroso combate, depositando seus ossos no solo abaixo do Oráculo. Ora, há uma Píton - que recebeu de Lula o nome de “marolinha” - a impedir que a ministra Dilma chegue ao templo de Delfos, ou melhor, ao Palácio do Planalto, um dos lugares cobiçados pelos também pré-candidatos tucanos José Serra e Aécio Neves, que calibram suas possibilidades pelo front das oposições. Digamos que Lula, no papel de Apolo - encenação que toparia fazer com gosto -, domine o bicho, mesmo que este seja tão impetuoso como a “pororoca”, o encontro das águas amazônicas da crise, e pose de deus vitorioso. Sob esses louros, a premonição lulista de que fará o sucessor poderá não dar com os burros n’água, como ocorreu com a promessa de eleger Marta Suplicy prefeita de São Paulo.

Há, porém, um cardeal de reza forte que pretende orar no templo do Planalto. José Serra carrega densidade conceitual maior que a da sacerdotisa Dilma, fruto de experiência política e administrativa longa e profícua, e perfil em elevação pelo desempenho à frente do Estado mais poderoso da Federação. É evidente que as ondas (da marolinha ou da pororoca?) puxarão seu corpo para cima ou para baixo das águas eleitorais. Se a crise acarretar estragos, a ponto de mexer com o bolso dos consumidores, o clima de desconforto social deverá ampliar o eco do discurso oposicionista. A recíproca é verdadeira. Quanto menos devastação a crise provocar, Apolo e sua pré-candidata terão melhores condições de ensaiar a ópera da grandeza brasileira, cantando a letra cívica de que não se mexe em time que está ganhando. Serra simbolizaria mudança nas regras do jogo e, com a trombeta do antilulismo/petismo, poderá canalizar energias e mobilizar platéias adormecidas. O desafio que tem é o de segurar o alto índice de 41% que a pesquisa hoje lhe confere. Não será fácil.

Aécio Neves e Ciro Gomes são outros nomes aferidos pelo mesmo levantamento. Como bispos da missa presidencial - e não entra aqui juízo de valor, apenas um registro semântico/simbólico em comparação com os outros -, sua participação na cerimônia dependerá do processo de seleção dos candidatos da situação e da oposição. Aécio carrega a leveza da jovialidade, a fala da convergência, administrando com sucesso o segundo maior colégio eleitoral do País. É mais flexível na dança do que Serra, seu correligionário. Mas, como diria o maioral dos tucanos, Fernando Henrique, há uma questão de precedência. E o governador paulista, no caso, está na ponta e exibe cacife mais pesado. Resta ao mineiro abrir outras portas ou adiar a idéia de resgatar o legado que o destino tirou do avô Tancredo. Ciro figura na planilha alternativa de Lula, sendo mais uma interrogação do que afirmação. É, por enquanto, um bispo sem diocese. Quanto a Heloísa Helena, essa, sim, com jeito de Joana d’Arc, o que se pode prever é uma performance confinada aos parcos recursos e ao estreito palco de seu PSOL.

Pela ciência oracular, só as águias de Zeus poderão apontar com exatidão quem chegará ao Oráculo do Planalto. As duas serão soltas de lugares opostos na terra. Quando o vôo das duas se cruzar, ali, bem embaixo, estará o escolhido. Uns acham que o ponto exato é São Paulo, outros imaginam ser Brasília. Um grupinho aponta Belo Horizonte. Uns e outros apostam tanto na vitória quanto na derrota de Apolo para Píton.

DORA KRAMER

Dicas de candidato

O Estado de S. Paulo - 14/12/2008
 

O PSDB tem, em tese, dois candidatos à Presidência da República: os governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas Gerais, Aécio Neves. Ambos em campanha, ambos com estratégias diversas, embora condizentes com os respectivos objetivos.

Serra pretende mesmo disputar a sucessão de Luiz Inácio da Silva em 2010 e, por isso, diz que não é candidato. Aécio aprendeu política na família, sabe respeitar os fatos, mas sabe também a importância de se ocupar espaços e, por isso, assume postura de candidato, embora hoje a hipótese seja improvável.

Quando os dois falam favoravelmente à realização de prévias no partido em 2009, constroem publicamente o conceito da convergência no presente, mas cientes de que no modelo brasileiro prévia é sinônimo de divergência. 

Portanto, o mais lógico é que o PSDB esteja apostando no caminho da candidatura “natural” e não na contratação de um conflito futuro. Isso não quer dizer que o quadro esteja consolidado.

Há tempo pela frente, tudo pode acontecer. Inclusive as circunstâncias se alterarem e Aécio Neves, por algum motivo, ser o candidato a presidente e Serra disputar a reeleição de governador. 

Significa apenas que cada um cumpre o seu papel, todos engajados num projeto de poder cujo benefício será tão mais compartilhado entre todas as forças do partido quando mais unidas estiverem.

Geraldo Alckmin, por exemplo. Se quisesse hoje estaria preparado para dar aulas de pós-graduação sobre o ato de se esmurrar pontas de facas sem um detalhado exame prévio a respeito das condições objetivas de suportar (e superar) as conseqüências. 

No reino dos inteligentes, os erros existem para se transformar em acertos. Tanto José Serra quanto Aécio Neves, cada um com suas peculiaridades, atuam nessa esfera.

O governador de Minas acabou de demonstrar isso quando conseguiu se recuperar em tempo recorde do equívoco cometido no primeiro turno da eleição municipal em Belo Horizonte e na segunda etapa cumpriu a meta de eleger o prefeito mais harmonioso aos seus projetos. 

Transitou do fundo do poço à borda em 15 dias. Não seria no âmbito federal, num plano da dimensão da conquista da Presidência da República e com seu destino diretamente em jogo que se arriscaria a estender o passo para além das possibilidades das pernas.

Tampouco pode fazê-los menores. A noção do peso de Minas, da aceitação de que dispõe em setores organizados, da possibilidade de ampliar essa vantagem para o eleitorado e das próprias capacidades impedem Aécio Neves de se comportar como um subalterno de uma candidatura supostamente sacramentada. Portanto, no momento Aécio Neves faz o que lhe cabe fazer. 

O governador de São Paulo também. Corrige os tropeços do passado e acerta o caminho futuro. 

Por mais que Serra esteja absolutamente convicto de que a vez é dele, faz o maior esforço (em público, ao menos) para transparecer desprendimento. Trata a postulação de Aécio Neves como uma possibilidade real, defende prévias, promove encontros periódicos com políticos de vários partidos, contém o entusiasmo ante as boas novas das pesquisas e diz que são “apenas uma fotografia do momento”.

Articula com antecedência as alianças, agrega apoios sem excluir novas possibilidades, circula muito à vontade na oposição (em tese, o PT) e ultimamente acrescentou charme, simpatia e muitas entrevistas na relação com jornalistas.

Marca distância do pré-candidato quase auto-proclamado de 2002 e tem se empenhado bastante para levar em conta a legitimidade dos anseios alheios no campo da política, aí incluídos rituais afetivos antes relegados ao terreno das futilidades com as quais não é necessário perder tempo.

Junto a todos esses sinais, José Serra tem revelado aos poucos alguns aspectos do discurso do candidato de 2010 e deixado pistas de como lidaria com algumas questões, se eleito presidente.

A cobrança para que a Fundação Padre Anchieta seja mais eficiente, aumente a captação de recursos e contenha gastos poderia ser vista como uma antecipação da administração Serra para a TV Brasil.

A proposta de avaliação do funcionalismo por critério de desempenho, aprovada pela Assembléia Legislativa, seria uma dica de como o pretendente a presidente abordará a questão do aparelhamento partidário do Estado na campanha de 2010. 

Nas suas últimas entrevistas o governador de São Paulo tem dito que os gastos com custeio e o inchaço político da máquina são os maiores desafios a serem enfrentados pelo sucessor, ou sucessora, de Lula. 

Em conversas particulares, diz que tem a solução. É de se imaginar que, na essência, não sejam diferentes das adotadas no governo do Estado.

Outra pista é a abordagem que Serra faz do cronograma das obras do governo federal. Na avaliação dele, os atrasos são normais porque o processo de investimento é longo e difícil de ser implantado. “Gastar é fácil, investir é mais complicado”, disse na última quarta-feira mostrando que não brigará com a sigla PAC.