Vão quebrando o galho com essa aí, logo mais colocarei outra saborosa.domingo, novembro 16, 2008
DORA KRAMER
Domingo, 16 de Novembro de 2008 | ESTADÃO
Sob o rigor da lei de Gérson
Tenta, já sabendo que não terá a menor chance de sucesso, que o PMDB deixe de lado a "falsa malandragem" da dubiedade como arma de pressão eterna e assuma uma posição de fidelidade explícita e permanente ao governo Luiz Inácio da Silva.
Em todos os aspectos: do respeito ao acordo pelo comando das presidências do Congresso, deixando o Senado para Tião Viana do PT, até a permanência do partido na aliança governista na eleição de 2010.
Mesmo se for para perder?
"Mesmo assim."
A menos, ressalva, que o PMDB tenha algum "político tarimbado" para se apresentar à disputa marcando uma posição de protagonista. Como, na visão dele, esse personagem não existe no horizonte, não há razão para suspense: "É ficar com o PT".
A repetição do jogo da divisão pragmática entre as canoas mais bem posicionadas pode manter o PMDB no poder, ganhe quem ganhar. Mas, na opinião do governador, "só vai aprofundar o desgaste do partido".
Para ele, passou da hora de o PMDB "eliminar esse tipo de postura". Qual seja, a de levar vantagem em tudo, certo?
Na última reunião em Brasília para tratar das eleições na Câmara e no Senado, Cabral diz que defendeu uma definição nítida e imutável. Em vão.
"Temos as maiores bancadas, o direito de reivindicar o comando das duas Casas, mas, por uma questão de confiança e espírito de aliança, deveríamos apoiar o PT no Senado, ficar com a Câmara e, assim, consolidar a parceria."
Não haveria por trás dessa enfática defesa da fidelidade a mesma visão pragmática que orientou o discurso do candidato a prefeito Eduardo Paes, a quem Cabral levou a se reconciliar com Lula em nome do trânsito livre de verbas de Brasília para o Rio?
De fato, mas até o pragmatismo requer regras de confiabilidade e reciprocidade. O tratamento que Lula dá ao PMDB como um todo justificaria, na concepção de Sérgio Cabral, o abandono da ambigüidade.
"Nunca fomos tratados com tanta respeitabilidade, com entrada franqueada pela porta da frente; agora seria a hora de retribuir na mesma moeda."
Inútil especular sobre as chances de acontecer. Sérgio Cabral faz a crítica, mas não atropela os interesses do partido.
Ponta cabeça
Se o ministro da Saúde for abatido pela permissividade do presidente Lula frente a um cada vez mais atrevido PMDB, José Gomes Temporão deixará como legado o melhor serviço prestado nos últimos tempos à transparência das relações entre o Poder Executivo e sua base de apoio no Legislativo.
A reação do partido - dono da "cota" da Saúde - ao desabafo de Temporão sobre a corrupção e a ineficiência existentes na Fundação Nacional de Saúde não deixa dúvida sobre a noção de governabilidade reinante na Esplanada.
"Reconhecemos em Temporão um técnico muito conceituado, mas ministro é também função de liderança política. É preciso saber ouvir, interagir, respeitar e ter a sensibilidade da boa convivência", diz o líder da bancada na Câmara, deputado Henrique Alves, traduzindo a seu modo as reclamações de que o ministro não dá a devida atenção aos parlamentares nem à liberação dos recursos das emendas ao Orçamento.
Quer dizer, o ministro da Saúde faz tudo direito. Cuida prioritariamente das tarefas afetas à pasta e, quando se vê confrontado com lobbies contra a transferência da política de saúde indígena para a jurisdição de seu gabinete, põe o dedo na ferida exposta da corrupção na Funasa, objeto de reiteradas e públicas denúncias.
Ainda assim, ou por isso mesmo, o PMDB pede sua saída; e o faz pelo motivo errado: a prioridade dada pelo ministro aos assuntos atinentes à saúde do público em detrimento das conveniências do partido.
Este mesmo PMDB, vale lembrar, reivindica a pasta da Justiça sob a qual está a Polícia Federal.
Olha cá
O senador José Sarney registrou seus primeiros desconfortos em relação ao presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, sexta-feira, em seu artigo semanal na Folha de S. Paulo.
Sarney não gostou do excesso de informalidade no discurso da vitória, achou de mau gosto as referências ao cachorrinho das filhas, censurou a retórica "com cheiro de demagogia, comum aos populistas sul-americanos".
De fato, nada comparado ao discurso de Lula ao ser eleito em 2002: "Quando a gente está apaixonado, que a gente quer casar, a gente senta com a nossa namorada e fica alimentando os nossos sonhos, discutindo o que a gente pode fazer. E a gente casa. E nem sempre o que a gente quis fazer a gente consegue fazer com a rapidez que a gente imaginava fazer".
JOÃO UBALDO RIBEIRO
Domingo, 16 de Novembro de 2008 |
Obama e o pré-sal
Não, não tem nada conspiratorial hoje, aliás lamentavelmente, porque confesso que sou meio chegado a pelo menos um complozinho engenhoso, costumo acreditar em tudo o que me contam. Imagino que o olhar de quem escreve romances acaba ficando meio torto, prestando atenção em coisas que outras pessoas nem notam. Estou pensando em todo o oba-oba internacional e brasileiro por causa da eleição de Barack Obama. Aqui, li e ouvi coisas que ficavam apenas um pouco abaixo de quem anunciava a chegada de um Messias, o mundo subitamente virou um lugar decente porque ele foi eleito.
Foi bonito ele ser eleito, concordo. Mas foi bonito principalmente por causa do muito de feio que houve antes. Nós costumamos bater no peito mestiço com vergonha de termos sido o último país (não fomos, até mesmo porque a escravidão ainda é legal em alguns países e praticada inclusive aqui, no Brasil) a abolir a escravidão. Esquecemos que, até bem pouco tempo, negros americanos não votavam, não freqüentavam escolas ou universidades brancas, eram, certos Estados, proibidos de casar com brancos (já na década de 60, um casal foi condenado a dois anos de cadeia por ela ser branca e ele ser negro), às vezes não encontravam um lugar onde fazer xixi numa cidade negra como New Orleans, esquecemos que não vemos soldados negros nos filmes deles sobre a Grande Guerra porque as Forças Armadas deles só foram integradas durante ou logo depois da Guerra da Coréia, que o reverendo Martin Luther King lutou para tirar da lei aquilo que discriminava sua raça e por aí vai. Esquecemos até mesmo que, para quem conhece inglês americano razoavelmente, se sabe logo se quem está falando no rádio é branco ou negro, excetuados os casos em que o sotaque é estudadamente mudado. E o apartheid foi tanto que o antigo inglês "errado", "degenerado" ou "corrupto", falado pelos negros, adquiriu autonomia e acabou reconhecido como um ramo legítimo do inglês do qual se originou, o chamado Black English. Hoje é tido pelos lingüistas como um dialeto, com suas próprias regras e usos corretos.
Então realmente o progresso foi colossal, indescritível, para esta que é a única verdadeira raça, a raça humana. Não há o que discutir sob esse ponto de vista. Só que esse triunfo, que não é somente dos negros, mas de toda a humanidade (desculpem, mas não consigo resistir a um parêntese impertinente; não é verdade que eles foram o primeiro grande país do Ocidente a eleger um presidente negro; pelos critérios deles - uma gota de sangue negro faz um negro - acho que todos os nossos foram negros desde Deodoro, tirantes aí o general Geisel e o general Médici, os únicos que agora me vêm à cabeça), não se estende além desse campo. E já é campo suficientemente vasto e valioso para justificar grande atenção para ele.
Em outros campos, deve-se lembrar que, antes de ser negro, Barack Obama é homem. E, depois de homem, é americano. Os negros de nações diferentes são tão irmãos entre si quanto um branco francês de um branco alemão, vizinhos da mesma raça que sempre se detestaram e se consideram absolutamente diferentes em tudo, se duvidar até na cor. Até agora mesmo, num congresso literário realizado no Recife, escritores de países africanos se revelaram de saco cheio dessa besteira de Mama África e de serem apresentados sempre de bolo, como "escritores africanos". E é verdade, o que existe lá são dezenas ou centenas de nações diversas entre si, num continente enorme e complexo, chegando mesmo a ser um insulto o sujeito abrir a boca e falar em "cultura africana", como se lá só houvesse uma cultura, tudo "cultura de negro".
Portanto Barack Obama só é irmão dos negros brasileiros em Cristo. E aí somos todos, pelo menos os que crêem em Cristo. E os que conhecem rudimentos da antropologia física contemporânea sabem que raça não quer dizer nada em termos biológicos e pesquisas comprovaram fatos surpreendentes, tais com o de Daiane dos Santos provavelmente ser muito mais "branca" do que alguns que são tidos como negros claros ou morenos. Barack Obama é homem, americano, presidente e democrata. Os democratas sempre tiveram uma política externa fechada aos interesses de gentinha como nós, pois são dados a protecionismo comercial, a subsídios agrícolas e a outras políticas prejudiciais a nossos interesses e benéficas aos interesses deles. Como Barack Obama não é irmão de ninguém aqui, vai fazer o que achar melhor para os americanos, porque é esse o papel dele. Se por acaso o que ele resolver também for bom para nós, ele faz. Se for ruim, faz do mesmo jeito, é claro.
Portanto, solto foguetes a uma pisadela maiúscula nesse atraso de vida que é a noção de raça, mas não solto foguete nenhum a mais um presidente americano de quem ainda não vi nada. Foi assim que, ao pensar nele, pensei no pré-sal, que já resolveu tudo, embora ninguém saiba direito o que é, como é que se vai chegar lá e nem mesmo se o petróleo será a fonte de energia que é hoje, daqui a uns 15 anos, quando se calcula que ele poderia entrar em produção. Verdade, mas é domingo e sejamos otimistas: tanto Obama quanto o pré-sal nos salvarão. Vão esperando aí.
PARA...HIHIHIHI
ANCELMO DE GÓIS
Quem sabe outro dia
| O Globo - 16/11/2008 |
É claro que, de público, ninguém fala, temendo o grito político dos excluídos. |
JÂNIO DE FREITAS
Muita coisa nas cabeças
| Folha de S. Paulo - 16/11/2008 | |
O PRÓPRIO Lula pôs em dúvida a seriedade de que "tem um nome na cabeça" para sucedê-lo, claro que "o de Dilma Rousseff", como disse em Roma aos jornais italianos. Àquela frase, juntou o inacreditável: "Ainda não falei com ela, mas creio que poderá ser uma boa candidata". Ou já falou, porque do contrário nem ela entenderia o levá-la a tiracolo para lá e para cá, há tantos meses; ou não falou mesmo, e se não o fez até hoje é porque Dilma pode ser um dos nomes, mas não "o nome" na sua cabeça. Ao que nos cabe acrescentar que ninguém esquece o próprio nome. Por outros motivos que não a tendência do Lula presidente para negar-se, também o trecho final da frase é duvidoso. Dilma Rousseff tem qualidades que poderiam fazer dela uma ótima presidente. Integridade (ah, como estava sumida esta palavra, por tão escassas oportunidades de uso), inteligência, conhecimento dos problemas nacionais, disposição e competência técnica para o trabalho, e ainda outras. Bom candidato, porém, é de outro feitio. Simpatia, ao menos uma pitada de carisma, linguagem e mensagem bem acessíveis pelo grande público -e por aí vão as condições, nunca percebidas em Dilma Rousseff, que elevam ao cimo um candidato sem raízes eleitorais. As reações políticas incluíram, nos governistas como na oposição, a crítica a Lula por precipitar o debate de sua sucessão. Não dá para crer que seja exatamente essa a sua intenção. Pela timidez das reações petistas, no entanto, vê-se como um partido de tal tamanho, e com quadros tão diversificados, esvaziou-se na sujeição às inversões do governo Lula: não tem nem sequer um nome com relevo para representar a evidente reserva partidária à candidatura de Dilma Rousseff. Em sentido oposto ao de Lula, seus sócios peemedebistas querem a cabeça do ministro José Gomes Temporão, da Saúde. A crítica do ministro à Fundação Nacional da Saúde, Funasa, é motivo falso. Antes de tudo, porque a Funasa é razão de muitas suspeitas, inclusive oficiais, no uso de seus vastos recursos. A Funasa está entregue por Lula ao PMDB. A inconveniência de Temporão está em que olha para a Saúde e não para os pedidos de políticos. Isso o PMDB não admite, por negar grande parte da sua própria razão de ser. Certo é que, se o PMDB conseguir derrubar José Gomes Temporão, logo virá nova orgia de "operações sanguessuga" e similares. Outro ministro, Carlos Minc, parece avançar com as palavras e recuar nas providências, revelando entre umas e outras certa fraqueza de cabeça, no que se refere à memória. A polêmica em torno da entrada de um combustível diesel com fumaça menos venenosa, essencial para a saúde dos indiferentes paulistanos, pela segunda vez foi adiada por mais seis a sete anos. Estava prevista para janeiro. Indagado na sexta-feira, por André Trigueiro (GloboNews), sobre sua posição a respeito ao assumir o Ministério do Meio Ambiente, disse Carlos Minc em referência à Petrobras e à indústria automobilística: "O que eu disse foi "ou cumpre ou faz acordo com a Justiça". (...) Foi feito o acordo" -para o adiamento. Não é verdade. O que Carlos Minc disse, com ênfase quase fúria, foi isto: "Garanto que em janeiro (de 2009) vai estar vigorando, de qualquer jeito. Não tem adiamento". Mellhor faz a indústria automobilística. Ou fazem por ela. Para reduzir-lhes "as dificuldades", Lula concedeu aos bancos e financeiras das montadoras R$ 4 bilhões. E José Serra repicou com mais R$ 4 bilhões. As montadoras tão gentilmente socorridas estão na cabeça da relação de setores que mais enviam dinheiro para o exterior, como lucros e dividendos. São autoras de 25% das remessas. Até setembro remeteram quase três vezes o enviado no mesmo período de 2007. Ou seja, como o algarismo 4 ficou meio cabalístico, enviaram US$ 4,839 bilhões. Que, na moeda do generoso socorro, vêm a ser cerca de R$ 11 bilhões. Socorro! |
ÉLIO GASPARI
Dedicação total a você... Bang, Bang
| Folha de S. Paulo - 16/11/2008 | |
SAMUEL KLEIN , o dono das Casas Bahia, precisa baixar na sede de sua empresa para conjurar um atentado à preciosa marca da maior rede varejista do país. Ela tem 550 lojas em dez Estados, atende 15 milhões de clientes por mês e faturou R$ 12,5 bilhões no ano passado. É caso de faxina na diretoria. Na segunda-feira, Alberto Milfont Júnior, um trabalhador de 23 anos, foi com a mulher a uma filial na zona sul de São Paulo para comprar um colchão. Enquanto ela estava na fila da caixa, ele esperava, sentado num sofá. Um segurança desconfiou da aparência do rapaz, bateram boca e, apesar da tentativa pacificadora de um gerente, ele matou-o com um tiro no rosto. O casal tinha um filho de cinco meses. Inépcia, preconceito e demofobia. Mesmo assim, o crime foi conseqüência de um ato individual, coisa de pessoa física. A reação das Casas Bahia foi de arrogância de pessoa jurídica. Logo ela, que se orgulha de "dedicação total a você". A empresa informou que o "incidente" (pode me chamar de assassinato) foi um "fato isolado" (ainda bem). Lembrou também que o serviço de segurança de suas lojas é terceirizado. E daí? Que tal discutir a indenização da viúva e do órfão? A firma Gocil, responsável pela conduta do segurança, informou que o assassino possui "competência ilibada e todos os cursos exigidos para atuar na profissão". Os doutores da Gocil (e das Casas Bahia) ainda não perceberam que, quando uma pessoa dá um tiro na cara de outra, algo de terrível aconteceu. Talvez acreditem que faltaram a Milfont "competência ilibada" e os "cursos exigidos" para comprar um colchão. Samuel Klein é hoje um dos homens mais ricos do Brasil e chegou aqui nos anos 50 com pequenas economias. Conseguiu isso porque fez freguesia entre os consumidores de baixa renda. Quando um cliente é assassinado numa de suas lojas ele não deve permitir que o caso seja tratado como um mero episódio contratual, burocrático. Klein já conviveu, num ponto muito maior, com a banalidade do mal e a irrelevância de vida. Durante a Segunda Guerra ele foi prisioneiro nos campos de concentração de Maidanek e Auschwitz. Salvou-se porque recebeu a graça da solidariedade humana. O GURU DO JUIZ DE SANCTIS ACABOU EM CANA Coube ao juiz Fausto De Sanctis, sócio-atleta da Operação Satiagraha, oferecer uma explicação erudita e audaciosa para exorbitâncias de alguns delegados, juízes e promotores. |
sábado, novembro 15, 2008
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA
Black is beautiful, fase 2
A eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos pode ser entendida, entre outras coisas, como a fase 2 do "black is beautiful", o movimento de orgulho negro com origem no programa libertário dos anos 1960. A essa luz, é uma revolução no gosto o que a presença de um negro na Casa Branca prenuncia. Claro que, se foi preciso surgir um movimento enfatizando que "negro é bonito", é porque negro era feio. Além de um ser inferior, conforme as doutrinas racistas, era também um erro, sob o ponto de vista estético. Não se veria filme de Hollywood estrelado por uma diva negra, nem anúncio em que o produto fosse recomendado por um galã negro. A fase 1 do "black is beautiful" insurgia-se contra esse estado de coisas. Na fase 2 a estratégia é outra e outros são os objetivos, mas a possibilidade de abalar a hegemonia da estética branca é maior.
Este é um assunto com o qual o Brasil, como país de maior população negra fora da África, tem muito a ver. Como tantas outras coisas, o Brasil abraçou desde sempre os códigos do gosto formulados nas matrizes americanas e européias. O resultado eram perversidades cujo efeito, à falta de uma expressão concreta, dá apenas para imaginar. Suponha-se uma menina negra que se encantasse com a mocinha da novela, ou o menino negro que admirasse a coragem do mocinho do filme. Entre eles e seus heróis havia, a rebaixá-los, e fazer com que se sentissem exilados do mundo do glamour, a diferença de cor. O desterro cultural dos negros vinha de longe. Em A Escrava Isaura, clássico da literatura brasileira de 1875 tido como um libelo contra a escravidão, a heroína-título é branca. Tudo bem o autor, Bernardo Guimarães, insurgir-se contra a escravidão; já se apresentasse a escrava como negra teria rompido a fronteira do bom gosto.
O "black is beautiful", em sua primeira encarnação, teve sucesso parcial. São resultados dele filmes de Hollywood com atores negros (embora raramente, talvez nunca, o casal romântico), modelos negras nas passarelas, apresentadores negros na TV americana. O Brasil foi atrás. Mas o movimento ancorava-se na afirmação negra pela diferença, não pela igualdade. Seu ponto de honra era a trancinha rastafári. Seu ideal de sociedade, uma utopia situada em algum ponto entre o socialismo e a fantasia regressista de uma África onde um dia todos foram bons e iguais. Por isso mesmo, o primeiro "black is beautiful" encontrou seu limite; sua opção fora pela marginalidade.
Esta fase 2, encarnada por Obama, tem como principal característica a renúncia à marginalidade. Obama chega sem trança rastafári e sem utopias. É no centro do sistema que vai operar. E é no centro do centro do centro, ou seja, a residência/escritório conhecida como Casa Branca, que o mundo verá alocada a função a ser protagonizada pelo casal negro Barack e Michelle Obama, pelas filhas negras Malia Ann e Natasha ("Sasha") e, eventualmente, por irmãos, pais, cunhados, primos e outros parentes negros do casal. Desde John Kennedy, não há família presidencial que chame mais atenção. O primeiro "black is beatiful" de certo modo coonestava a fórmula "iguais mas separados" em que se assentava a discriminação legal nos EUA. Os negros queriam se impor por modas, costumes e valores próprios. O "black is beautiful", fase 2, ataca pelo lado oposto. A família Obama apresenta-se como igual a todas as famílias americanas de classe média bem-sucedidas, só que negra.
A feição que a revolução do gosto assume com Obama é fruto de sua estratégia política. Decorre do fato de ele se ter recusado a concorrer como "candidato dos negros". Nem por isso tem menor potencial transformador, nos EUA como no Brasil e no resto do mundo. No Brasil, sempre atrasado, ainda faltam negros não só no centro do poder. Sua ausência é mais notória ainda nos melhores bairros (a não ser como empregados), nos melhores restaurantes, nos melhores shopping centers (nos dois casos, até mesmo como empregados), nas festas e recepções da classe média para cima, na própria classe média. Mas a menina negra brasileira a partir de agora verá no Jornal Nacional as pequenas Malia e Sasha e – milagre – não sentirá, a rebaixá-la, a diferença de cor. Não é pouca coisa.
PARA...HIHIHIHI
Telefonema urgente do S.U.S.
O telefone toca e a dona da casa atende Alô! Sra.Silva, por favor
É ela. Aqui é Dr. Arruda do Laboratório. Ontem,quando o médico enviou a biopsia do seu marido para o laboratório, uma biopsia de um outro Sr. Silva chegou também e agora não sabemos qual é do seu marido e infelizmente, os resultados são ambos ruins... O que o senhor quer dizer? Um dos exames deu positivo para Alzheimer e o outro deu positivo para AIDS. Nós não sabemos qual é o do seu marido. Nossa! Vocês não podem repetir os exames? O SUS somente paga esses exames caros uma única vez por paciente. Bem, o Sr. me aconselha a fazer o que? O SUS aconselha que a senhora leve seu marido para algum lugar bem longe da sua casa e o deixe por lá. Se ele conseguir achar o caminho de volta, não faça mais sexo com ele.
COLUNA PAINEL
Rei do gado
| Folha de S. Paulo - 15/11/2008 |
Apontada no novo relatório da PF sobre Daniel Dantas como eixo de um esquema de lavagem de dinheiro, a Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, no Pará, já era investigada sigilosamente pelo Ministério Público em Marabá antes da Operação Satiagraha. Tiroteio Eleito em segundo turno para a Prefeitura de São Luís, João Castelo encerrava sua campanha no bairro de Cidade Olímpica, na periferia da capital maranhense, onde se gabava de ter construído 7.500 casas populares quando governador (1979-1982). A dada altura da caminhada, o tucano foi abordado por uma jovem: |
CLÓVIS ROSSI
Quanto dura o pior?
| Folha de S. Paulo - 15/11/2008 |
Fátima Bernardes e William Bonner vão despejando uma catarata de más notícias sobre os telespectadores do "Jornal Nacional" da quinta-feira. Na essência, são as mesmas que comporão a capa desta Folha no dia seguinte: é juro do cheque especial que atinge o maior nível em cinco anos, é a inadimplência que dá um salto, é a indústria que corta 10 mil vagas. |
SÁBADO NOS JORNAIS
- Folha: Zona do euro já está em recessão
- Estadão: G20 estuda criar grupo para vigiar grandes bancos
- JB: Economia européia cai e preocupa o Brasil
- Correio: Vem aí a taxa ambiental do Detran
- Valor: FMI alerta para o "efeito bumerangue" na crise
- Gazeta Mercantil: Crise faz crescer 20% as disputas contratuais
sexta-feira, novembro 14, 2008
PARA...HIHIHIHI
Ao invés do esperado "imagina, não são não", ou de uma promessa de cirurgia para aplicação de silicone, ele me vem com uma sugestão insólita:
- Pode parecer estranho, mas eu já vi funcionar. Se quiser aumentar seus seios, pegue todos os dias um pedaço de papel higiênico e esfregue-o entre eles durante alguns segundos.
Aquilo parecia uma brincadeira sem graça, ou uma simpatia sem qualquer fundamento científico - ainda mais para mim. Mas, disposta a tentar qualquer coisa, pego um pedaço de papel higiênico, fico na frente do espelho e começo a esfregá-lo entre meus seios para ver o resultado da estranha dica!
- Quanto tempo demora para funcionar? - eu pergunto.
- Claro que não é um negócio automático, bem! Eles vão aumentar de tamanho ao longo de alguns anos. - responde meu marido.
Parei e, meio que me sentindo idiota, perguntei:
- Você realmente acha que esfregar um pedaço de papel higiênico entre meus seios todos os dias vai fazer aumentá-los em alguns anos?
Sem hesitar um segundo e às gargalhadas, ele diz: - Funcionou com a sua bunda, não funcionou???
Notícias do marido
Está respirando ainda com a ajuda de aparelhos e, talvez, com muita fisioterapia, até que volte a andar novamente.
NELSON MOTTA
Só em português, mais especificamente em brasileiro.
Aqui, o macho predador não faz amor ou apenas sexo: devora a sua presa. Mas depois do feminismo as brasileiras modernas também adotaram a expressão para suas conquistas.
Surpresos e intimidados, os homens ouviram a temida e desejada ameaça: vou te comer! Certamente essa expressão tão brasileira está em sintonia com o conceito de “antropofagia cultural”, lançado por Oswald de Andrade em 1928 e retomado no transe de 1968.
Na época, acreditamos fervorosamente que o nosso destino e vocação— desde 1556, quando o bispo Sardinha foi comido pelos caetés — era devorar a cultura colonizadora, digeri-la e transformála em brasileira e revolucionária.
Em 2008, no mundo globalizado e interligado, com as culturas nacionais interagindo e se misturando, com a fusão de linguagens e gêneros, com os samplers, a computação gráfica e todas as maravilhas da era da informação e das comunicações, não há nada mais anacrônico do que a idéia de antropofagia cultural. Porque hoje qualquer cultura nacional come e é comida, querendo ou não: a “antropofagia” é inevitável e óbvia.
Quanto tempo perdido teorizando sobre Villa-Lobos ou Tom Jobim “comendo” Bach, Debussy ou Cole Porter para produzir uma música brasileira internacional.
Ou Niemeyer degustando Le Corbusier para inventar a arquitetura moderna. Ou Nelson Rodrigues pumamando em Dostoiévski para criar uma dramaturgia tijucana e universal.
A pobre cultura nacional, provinciana e colonizada, ou “antropofágica e antiimperialista”, não tem nada com isso: os méritos são exclusivamente do talento individual desses raros criadores nativos.
Poucos acreditaram tanto nessa bobagem de “antropofagia” como eu. Levamos a sério a piada do velho Oswald, por ela aceitamos muita empulhação. Quantas vezes diverti amigos estrangeiros, embora falasse a sério, exaltando essa esdrúxula teoria como um diferencial da arte brasileira. Como se pode ser tão bobo tanto tempo?
DORA KRAMER
O Supremo Tribunal Federal passou duas reprimendas no Congresso. Elegantes, mas muito bem passadas: confirmou a inconstitucionalidade do troca-troca de partidos e ressaltou que tomava posição a respeito porque o Legislativo é inerte.
Mostrou-se também debochado ao reagir marcando para o quanto antes sua decisão sobre a fidelidade partidária, mas no sentido oposto ao da Constituição: abrindo um espaço para mudanças sem justa causa.
Ou melhor, em causa própria.
Ao contrário do sofisma invocado como justificativa para a liberalidade, não há vedação total a mudanças de partidos. No entendimento do STF, são perfeitamente aceitas quando há criação, fusão ou incorporação de partidos, reiterados desvios em relação ao programa original da legenda ou em casos de discriminação grave contra o filiado - esteja ou não no exercício de um mandato.
Mas o Parlamento não se contenta com isso, no que é acompanhado pelo Palácio do Planalto. Ou vice-versa. Ambos querem mesmo recuperar o poder de fazer os partidos funcionarem ao ritmo das sanfonas, inflando uns e desinflando outros, de acordo com as necessidades do Executivo.
A regra tal como está garante a liberdade de trânsito entre legendas por motivação doutrinária, mas veda aquelas trocas orientadas pelo pragmatismo, no pior e mais pejorativo sentido do termo.
A Justiça expôs as coisas com toda a clareza e muita paciência. O TSE tomou a primeira decisão em março de 2007, o Supremo confirmou a sentença em outubro, no início de 2008 o tribunal eleitoral reiterou a decisão no exame de um caso concreto no início de 2008 e agora acaba de dar o que se imaginava seria a última palavra antes de o Parlamento cumprir o ditame legal.
Mas, não. O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, de pronto pediu tempo para "entender a decisão" e 24 horas depois resolveu repreender o presidente do TSE por ter o ministro Carlos Ayres Britto tido a ousadia de se referir à lentidão do Legislativo no cumprimento de suas tarefas.
Sugeriu que a Justiça carecia de moral para falar sobre demoras nos outros Poderes e ponderou que os parlamentares não costumam fazer o mesmo em relação à morosidade do Judiciário.
Ora, a lentidão da Justiça há muito é assunto recorrente, abordado em toda parte - no Legislativo, inclusive - e já diagnosticado como produto de uma estrutura ultrapassada sob todos os aspectos. Diferente da vagarosidade deliberada e seletiva do Congresso.
Ali as coisas acontecem à velocidade das vontades. Tomemos o próprio caso da fidelidade. O Congresso empurra o assunto com a barriga há mais de 15 anos, mas, quando o Judiciário toma uma decisão contrária aos interesses dos parlamentares num instante eles arrumaram tempo, esforço e consenso para quebrar a austeridade da regra original.
Quando querem, fazem, quando não querem ficam parados ou, como no caso da fidelidade, desfazem. O Parlamento optou por se atritar com o Judiciário na questão. Perdeu, por cabeça torta e vista curta, a chance de ganhar um pouco de moral.
Oficialmente
Não é nada trivial, ao contrário, é singularmente espantosa a declaração do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, de que a corrupção grassa na Fundação Nacional de Saúde.
Temporão não contou nenhuma novidade, mas admitiu sua incapacidade de intervir no funcionamento da Funasa. Ao mesmo tempo, deu recibo oficial às denúncias sobre desvios de dinheiro na fundação comandada pelo PMDB - mais especificamente por um afilhado do senador Renan Calheiros - e ainda se pôs na condição de cúmplice do partido ao qual é filiado.
O ministro falou de manhã durante uma reunião com índios, cuja política de saúde é executada pela Funasa, tentou consertar a declaração à tarde, mas era tarde.
Inverossímil a desculpa de que havia se referido a gestões passadas diante da afirmativa anterior: "As denúncias de escândalo, corrupção, desvio de dinheiro estão todos os dias na imprensa. A situação é muito grave, não podemos deixar como está, temos de mudar".
Seria o caso de o chefe - o presidente da República, não o do PMDB - chamá-lo para esclarecer o que se passa: se há no comando da pasta da Saúde um ministro leviano ou se está lá um homem honesto premido pelas circunstâncias a resistir no cargo a fim de proteger o restante do ministério da sanha dos fisiológicos.
Na segunda hipótese, o herói da resistência receberia todo apoio de cima para desbaratar a referida gang que seria presa numa espetacular operação da Polícia Federal, e expulsa do PMDB com humilhação.
Isso no mundo irreal. No real, Temporão deverá apresentar suas desculpas, atribuir o desabafo a um mal-entendido dos jornais, enquanto o PMDB aproveita o ensejo para espalhar boatos sobre sua insatisfação com o desempenho do ministro.
Dia seguinte a vida segue como se nada houvera.
SEXTA NOS JORNAIS
- Globo: Senado já ameaça devolver MP que perdoa filantrópicas
- Folha: Indústria fecha vagas e inadimplência cresce
- Estadão: Perícia aponta falhas de TAM, piloto, pista e Anac em acidente
- JB: Dengue volta a matar
- Correio: Crise reduz emprego e bancos elevam juro
- Valor: FMI alerta para o "efeito bumerangue" na crise
- Gazeta Mercantil: Crise faz crescer 20% as disputas contratuais
- Estado de Minas: DNIT multa seus próprios carros e ainda dá calote
quinta-feira, novembro 13, 2008
SEM O MENOR PUDOR
'Pilantrópicas' perdoadas
| O Estado de S. Paulo - 13/11/2008 |
Em surdina, como convém às decisões oficiais que têm o que esconder, o presidente Lula editou, na segunda-feira, uma medida provisória (MP) que representa um verdadeiro trem da alegria para as entidades filantrópicas - ou “pilantrópicas”, como costumam ser chamadas - ameaçadas de perder o direito à isenção fiscal por suspeitas de irregularidades. Com a canetada presidencial, pelo menos 2.274 dessas entidades, de um total de 5.630 registradas no País, tiveram automaticamente renovados os certificados que as dispensam de pagar CSLL, PIS, Cofins e contribuição previdenciária patronal. A renúncia fiscal - da ordem de R$ 4,4 bilhões no ano passado - é a contrapartida pelo presumível trabalho das organizações sem fins lucrativos, em parceria com o poder público, nas áreas de saúde, educação e assistência social. Os certificados eram concedidos e renovados pelo Conselho Nacional de Assistência Social (Cnas), do Ministério do Desenvolvimento Social. Doravante, essa função será exercida pelos Ministérios dos setores de atuação das filantrópicas. |
quarta-feira, novembro 12, 2008
AUGUSTO NUNES
Eles só queriam trocar de ditadura
"AINDA BEM QUE A GENTE NÃO CHEGOU AO PODER,
Capital. Só na entrega do diploma
o monitor avisava que, depois da ditadura militar, viria a do proletariado, que substituiria a bala o capitalismo cruel. Os alunos, pinçados na "massa de manobra", não descobriam de imediato que estavam lutando por um regime tão infame quanto o imposto ao Brasil. Os líderes não eram assim tão jovens: quem está perto (ou já passou) dos 25 anos não tem direito a molecagens e maluquices. E todos ficavam sob as asas de tutores com larga milhagem. Tão duros com o rebanho, os pastores obedeciam sem chiar aos comunistas veteranos que chefiavam as seitas. O sessentão Carlos Marighela, por exemplo, ensinava aos pupilos da ALN a beleza que há em "matar com naturalidade", ou por que "ser terrorista é motivo de orgulho". Deveriam orgulhar-se da escolha feita quando confrontados com a bifurcação a bifurcação escavada pelo AI-5, cumprimentava o mestre. A rota à esquerda levava à frente de batalha onde guerreiros apoiados pelo povo aniquilariam o exército da ditadura. Vergonha deveriam sentir os que enveredaram pela caminho à direita, que desembocava na capitulação ultrajante. Surdos aos equivocados profissionais, os que se mantiveram lúcidos desbravaram uma terceira trilha e alcançaram o acampamento da resistência democrática. Estivemos certos desde sempre. Desarmados, prosseguimos a guerra contra o inimigo que os derrotara em poucos meses. E a resistência democrática venceu. Nós lutamos pela implosão dos porões da tortura. Eles estavam longe quando Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho foram executados. E longe continuavam quando militares ultradireitistas tentaram trucidar a abertura política. Eles só voltaram do exílio e escaparam do cárcere porque nós conseguimos a Anistia. A lei deve ser revista? Problema dos vitoriosos, que somos nós. Não deles, os que perderam todas, perderam tudo menos a arrogância. Nós ressuscitamos a democracia. Eles se fantasiam de feridos de guerra. Exigiram empregos, indenizações, mesadas. Agora tentam expropriar a Anistia. Nós não lhes devemos nada. Eles nos devem até vida.
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: Governo reabilita 2.274 filantrópicas suspeitas
- Folha: SP libera R$ 4 bi para montadoras
- Estadão: Serra e Aécio lançam pacotes de incentivo para empresas
- JB: 13º salário vai injetar R$ 78 bi na economia
- Correio: Remédio mais caro por causa da crise
- Valor: Projetos irreversíveis no BNDES somam R$ 64 bi
- Gazeta Mercantil: Empresas do Ibovespa cotadas abaixo do valor patrimonial
- Estado de Minas: Vereadores já batem de frente com Lacerda






