segunda-feira, junho 01, 2009

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O velho e bom capitalismo


O Estado de S. Paulo - 01/06/2009
 
Pode ser que a crise não tenha sido superada, mas é preciso admitir que muitas coisas importantes estão encaminhadas - e bem encaminhadas.

Os maiores bancos americanos, não por acaso os que se encontravam em maiores dificuldades, estão conseguindo levantar capital novo com a venda de ações e bônus e com a transformação de dívida em ações.

E todo mundo dizia que era crucial a recapitalização dessas instituições, para que pudessem voltar a emprestar a empresas e a pessoas.

Outra encrenca grande, formada por General Motors (GM) e Chrysler, também parece bem administrada. Aqui, o caso é mais simbólico, pois o eventual desaparecimento das montadoras não deixaria os Estados Unidos sem automóveis e sem suas fábricas. Mas levaria boa parte de seu orgulho.

Barack Obama representa esse orgulho nacionalista, o que, aliás, como muitos temem, pode levá-lo a atitudes protecionistas. De certo modo, o esforço e a quantidade de dinheiro público colocado na GM já configuram uma política de proteção aos campeões nacionais. Mas, como todos os governos estão fazendo a mesma coisa com "suas" montadoras, ficam elas por elas.

Mesmo que a GM entre em concordata, continua sendo um processo organizado, sob a total e completa direção do governo Obama, como ocorre com a Chrysler.

Nos dois casos - bancos e montadoras - o governo sairá dessa história como grande acionista. No caso da GM, será majoritário.

E é assim que a coisa termina, com o capitalismo liberal americano cedendo lugar ao capitalismo de Estado?

Aí já não é tão simples. Perguntaram ao presidente Obama o que ele pretendia fazer com as companhias de que se tornava o controlador. E ele respondeu: livrar-me delas o mais rápido possível.

Então por que pôs dinheiro público nelas a ponto de se tornar acionista majoritário? 

Resposta simples: porque sem isso as companhias quebrariam e desapareceriam. Seria o caminho de mercado. No caso das montadoras, de novo, sem problemas. Outras empresas ou a outra indústria automobilística americana (a sadia: Honda, Toyota e Hyundai, por exemplo, mais as europeias e as chinesas que estão querendo chegar) simplesmente ficariam com as partes boas de GM e Chrysler - e seguiria a vida.

Com os bancos, não. Uma quebradeira no sistema financeiro levaria ao naufrágio pessoas e empresas, comprometendo toda a economia americana e, daí, a mundial.

Assim, na falta de dinheiro privado, se tornou necessário colocar dinheiro do contribuinte para evitar uma catástrofe maior, no caso dos bancos, e para evitar um ferimento maior no coração americano.

Mas a continuidade, nos dois casos, será o governo vender suas ações e deixar que as empresas sigam no mercado privado. Até a próxima quebra, diriam os céticos.

Isso à parte, voltamos ao início: então, terminou a crise?

Depende do que se entende por terminar.

Se por isso se entende a volta ao crescimento espetacular do início deste século, é evidente que não estamos nem perto. Na verdade, uma boa discussão está aqui: quando o mundo conseguirá engrenar um processo de expansão global tão intenso e diversificado quanto na abertura dos anos 2000?

Gente, o produto mundial crescia a 5% ao ano; o comércio total, a 10%! Tão sensacional que muitos acham que passarão muitos anos antes que se repita algo parecido.

É verdade que alguns fatores da base daquela expansão continuam por aí. A Tecnologia da Informação, essa bela combinação de telefones com computadores, ainda tem muito a dar para elevar a produtividade das economias nacionais.

A globalização continua por aí. Embora as medidas protecionistas apareçam um pouco por toda parte, têm sido episódicas e limitadas. Nenhum governo, nenhuma região, nenhum bloco pensou em fechar fronteiras.

Assim, o Brasil, por exemplo, se animou com alguma retomada das exportações e com a perspectiva de abertura de novos mercados, como frangos para a China.

A GM diz que uma das saídas é vender, nos Estados Unidos, carros produzidos por ela mesma, mas... na China.

Falou-se muito na morte do capitalismo, mas, como não apareceu nada para substituí-lo, as soluções seguem por aí. Com mais intervenção do Estado por toda parte. Mas podem anotar: a recuperação só virá de verdade quando o setor privado pegar no embalo.

Mais exatamente, a volta do crescimento virá quando o sistema financeiro, privado, estiver de novo em condições plenas de distribuir capital barato pelo mundo afora.

Assim, pode-se dizer que o mundo escapou da crise neste sentido: o pior já passou, a catástrofe não se deu e há sinais de recuperação por toda a parte. Mas é claro que não se sai de uma crise assim, sem cicatrizes.

Haverá mudanças e a mais imediata é a elevação da intervenção do Estado, tanto direta, no controle de empresas e de setores, quanto indireta, na forma das regulações e dos controles.

A intervenção direta será a primeira a ser abandonada, a começar por Obama. Quanto à segunda, vai depender da escolha entre uma economia mais regulada, com menos risco, mas também com menos crescimento, e uma economia mais aberta, com mais risco e mais capacidade de inovar e se expandir.

Como tem sido ao longo da história do capitalismo.

GOSTOSA PELO SISTEMA DE COTAS DO BLOG


AFRO-DESCENDENTE (ANTIGA NEGRA)

CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

MARCELO DE PAIVA ABREU

Autópsia de outro fracasso


O Estado de S. Paulo - 01/06/2009
 
A ação diplomática do Brasil nos últimos tempos pode ser criticada com base em diversos critérios: excessiva complacência com vizinhos atados a populismos variados, que vão do "bolivarianismo" ao neoperonismo; ênfase desmedida em protagonismo, às expensas de substância, na seleção de parceiros "estratégicos"; avaliações descoladas da realidade sobre as possibilidades da política externa. Tais críticas são feitas tendo como pano de fundo o consenso de que o serviço exterior do Brasil é competente e tem tido sucesso em fazer ouvir a voz do País. Acontecimentos recentes sugerem que tais premissas podem estar comprometidas.

Os últimos meses foram marcados por controvérsias sobre postulações internacionais envolvendo interesses brasileiros. Em jogo estavam as escolhas do diretor-geral da Unesco, da sede dos Jogos Olímpicos de 2016 - o Rio de Janeiro compete com Chicago, Madri e Tóquio - e, surpreendentemente, de integrantes do Órgão Permanente de Apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC). O destaque, neste último caso, decorreu de o nome indicado ser o de Ellen Gracie, ministra e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). O cargo em si, embora disputado entre especialistas, é de dedicação parcial (até 100 dias por ano) e não tem o mesmo prestígio da direção de organismos multilaterais.

A estratégia do Itamaraty ficou exposta, porque o ministro das Relações Exteriores deixou claro que não haveria apoio oficial à candidatura de brasileiros à direção da Unesco, inclusive de funcionário do órgão com chances efetivas de ser escolhido. O Brasil, em nome da aproximação política aos países árabes, estava comprometido com a candidatura egípcia e concentraria esforços na defesa de outras candidaturas brasileiras: a da cidade do Rio e a de Ellen Gracie. Esse apoio foi mantido mesmo após ter sido constatado que o candidato egípcio, apoiado pelo Brasil, notabilizou-se por comentários antissemitas.

O fracasso em relação à candidatura da ministra Gracie ao Órgão Permanente de Apelação da OMC deixa ainda mais exposta tal estratégia. E, no entanto, as dificuldades quanto à candidatura eram óbvias. Foram minimizadas pelo governo, que, movido por interesses relacionados à política interna, estimulou a avaliação de que o cargo na OMC era mais importante do que de fato é. Diversos fatores indicavam ser improvável a escolha da ministra. Luiz Olavo Baptista foi um dos sete membros do Órgão de Apelação durante quase oito anos e a OMC tem 153 membros. Em qualquer cenário haveria dificuldade em fazer prosperar a candidatura brasileira, em face de pressões por rotatividade na representação dos membros.

A ministra Gracie tem currículo distinto, postura de grande dignidade e desfruta de prestígio como a primeira mulher a presidir o STF. Mas a sua candidatura não atende aos requisitos do artigo 17.3 do Entendimento relativo às normas e procedimentos sobre solução de controvérsias na OMC: "O Órgão de Apelação será composto de pessoas de reconhecida competência, com experiência comprovada em Direito, comércio internacional e nos assuntos tratados pelos acordos abrangidos em geral."

Ventilou-se que o ministro Celso Amorim protestou em conversa "dura" com Pascal Lamy, diretor da OMC. Melhor justificativa teria tido Lamy para ter conversa de tal teor, pois o Brasil levou à OMC uma candidatura para resolver assunto de política interna. O ministro deveria reservar seus momentos de dureza para conter incontinências de vizinhos como Lugo ou Chávez.

O Brasil, desde a criação do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio (Gatt, na sigla em inglês), sempre teve prestígio na instituição, além do que poderia ser explicado por sua participação no comércio mundial. O embaixador Álvares Maciel teve atuação destacada na Rodada Tóquio e Paulo Nogueira Batista foi influente na Rodada Uruguai. Embaixadores no Gatt e na OMC - Ricupero, Lafer, Lampreia, Amorim - foram depois ministros de Estado. No sistema de solução de controvérsias, o Brasil tem tido relevância em "panels" decisivos. O Brasil, no âmbito da OMC, tem participado de reuniões em formatos G-4 e G-7 com os protagonistas desenvolvidos. É uma lástima que tal reputação de competência e operosidade seja comprometida por avaliações incorretas sobre as reais chances do País na indicação de brasileiros para ocupar posições de destaque na organização.

O episódio Ellen Gracie é o último de uma longa lista de tropeços. Nos últimos anos o Brasil vem acumulando espetacular sequência de insucessos em postulações para ocupar posições em organismos multilaterais, muitas delas com engajamento do Itamaraty. Candidatos brasileiros foram derrotados na escolha de dirigentes da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), da Organização Mundial do Comércio, da União Internacional de Telecomunicações (UIT), da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Wipo, na sigla em inglês). Esses processos quase sempre explicitaram posições divergentes do Brasil com seus vizinhos latino-americanos e até mesmo do Mercosul.

O que explicaria esse retrospecto de time de várzea? A hipótese caridosa é que a deterioração na capacidade analítica da diplomacia brasileira se deva à postura politizada assumida pelo Itamaraty desde 2003. De qualquer forma, é triste ver o País passar vergonha por conta desses erros de avaliação. Esperemos que lições relevantes sejam tiradas. Podem ser úteis na postulação do Brasil no quadro da reforma da ONU. Senão, a vergonha poderá ser ainda maior.

GOSTOSA PELO SISTEMA DE COTAS



CLIQUE NA FOTO PARA AMPLIAR

JUCA KFOURI

Acabou a farsa


Folha de S. Paulo - 01/06/2009
 


Fez-se de conta que é a Fifa quem escolhe as cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 e não a dona CBF

O PRESIDENTE da CBF acredita que vive num país de néscios, razão pela qual passou meses repetindo que a Fifa é quem escolhe as cidades-sede da Copa do Mundo. Verdade que há ex-jornalista em atividade que repete a falácia na TV, apesar de saber que o formal não existe no futebol, só existe o informal e a politicagem. 
Mas vale saudar a escolha de quatro cidades do Nordeste, região que mais tem a ganhar com a Copa. E lamentar a escolha de Cuiabá, no Mato Grosso do governador "motosserra de ouro", título dado a Blairo Maggi pelo Greenpeace, em homenagem ao maior produtor de soja do mundo e um dos maiores desmatadores do país. 
Para uma Copa que se pretende ecológica, nada menos apropriado, embora Maggi tenha bem mais de um milhão de razões para influenciar decisões no mundo do futebol. Tão natural como a escolha de Manaus para representar a espoliada Amazônia, apesar de Belém ter mais tradição futebolística, teria sido a de Campo Grande para mostrar as belezas do Pantanal. Mas, de tudo, o que mais salta aos olhos é a indefinição sobre quem fará a abertura da Copa. Claro está que Ricardo Teixeira esperará quanto tempo puder para se definir entre São Paulo e Minas Gerais, ou melhor, entre José Serra e Aécio Neves, além de guardar Brasília como uma terceira hipótese, mais para constar e disfarçar o que está, de fato, em jogo. 
Não fosse a dúvida sobre qual dos dois será o candidato tucano à sucessão de Lula e o cartola já teria se resolvido pelo ungido, embora seu coração penda claramente para Neves, seu amigo e mais parecido com o yuppie Fernando Collor -até pelo silêncio que impõe à imprensa mineira, como se fosse a alagoana-, a quem o ex-genro de João Havelange chamava de "meu presidente". Se ele pudesse ver José Serra pelas costas já estaria vendo, também pela presença de José Luís Portella no governo paulista, alguém que Teixeira desgosta tanto que ameaçou não entrar na cerimônia de lançamento do Museu do Futebol, no Pacaembu, quando soube da presença do atual secretário dos Transportes Metropolitanos no local. Portella, lembremos, foi o arquiteto do Estatuto do Torcedor. 
A fragilidade do primeiro projeto de reforma do Morumbi foi a senha para justificar a dúvida, embora até o mais ignorante dos cartolas da Fifa saiba que São Paulo é a principal cidade do país, palco óbvio, ao menos, para a abertura da Copa. 
Que o Mineirão é mais agradável que o Morumbi ninguém pode negar. Só que como nada justifica a construção de uma arena para a Copa em São Paulo, a não ser a ganância dos de sempre, a festa inaugural tem de ser mesmo na casa tricolor. De resto, é bom dizer que orgulha trabalhar num jornal que tenha feito o editorial que esta Folha fez, no sábado, sobre a miséria de nosso futebol. E tenha dado a cobertura que deu, ontem, sobre a escolha das sedes, revelando quem é quem na Fifa e suas folhas corridas. Em vez da celebração acrítica que cabe aos publicitários e aos donos da bola, o dedo nas feridas. E não porque a CBF discrimina a Folha, mas porque o jornal não bajula a CBF para ter furos.

BRASIL S.A

Conversa com Patrícia


Correio Braziliense - 01/06/2009
 

O Estado não deve ter nenhum papel nas decisões individuais tomadas sem ferir a lei

Numa discussão pública qualquer sobre política e economia, se você vir alguém saindo de fininho, cabisbaixo, não tenha dúvida: trata-se de um liberal. A patrulha ideológica voltou forte como nunca. Durante o governo FHC, os autoproclamados de esquerda reclamavam da “interdição do debate” por um “pensamento único”, representado pelo Consenso de Washington. Hoje, com mais de seis anos de lulismo e uma grave crise econômica ainda inacabada, a equação se inverteu. Todo mundo se pretende intervencionista, keynesiano... Mais um pouco, cria-se um Comando de Caça aos Liberais (CCL). 

Na coluna da segunda-feira passada, tratei do que considero ser o devido papel do Estado. Em resposta, recebi um recorde de 12 e-mails. Além de ficar feliz por ter mais de uma dezena de leitores, algo muito estranho me chamou a atenção. Primeiro, o placar: 10 mensagens a favor do Estado social-liberal e duas contra. Esperava mais críticas que elogios. Bem, petistas, socialistas e assemelhados estão muito ocupados loteando o espaço na burocracia federal e estatais, em especial Petrobras e Banco do Brasil, para ler jornal. 

O que mais causou estranheza, porém, foi o temor de quem escreveu apoiando. Os liberais estão acuados. Um leitor, servidor público federal, afirmou que “precisamos parar de apontar culpados (muitas vezes inventados, como os imperialistas americanos) e começar a trabalhar em busca do Brasil que a gente quer”. Nos termos escritos aqui, defendeu que as pessoas deixem de ver o Estado como solução de todos os problemas e lamentou: “Todas as vezes em que ponho essas ideias em rodas de conversa, mesmo entre amigos, sou praticamente apedrejado. Nunca há debate, somente agressão”. 

Liberal, não direitista 
Os outros nove apoiadores da coluna escreveram, em algum momento, algo parecido. Fiquei intrigado e perguntei à economista Patrícia Carlos de Andrade, presidente do excelente Instituto Millenium, por que esse fenômeno está ocorrendo. Segundo ela, o termo “liberal” é traduzido erroneamente no Brasil como “direitista” ou “apoiador de ditaduras militares”. Na guerra pela opinião pública, a dita esquerda sempre levou a melhor, diz. Passo-lhe a palavra. 

“Os liberais estão, sim, acuados. Eles nem gostam de ser chamados de liberais, pois quando você diz ser liberal, as pessoas entendem isso não pelos valores e princípios que você defende e sim pela suposta negação daquelas bandeiras politicamente corretas que a esquerda abraçou e impõe à sociedade em nome da proteção de direitos, principalmente dos mais necessitados. Os valores que os ditos liberais defendem são os que tornam moderna e avançada qualquer sociedade. Com base nesses princípios e valores, qualquer sociedade se torna capaz de levar bem-estar para a maioria da sua população”, assegura. 

Patrícia constata que até mesmo nas sociedades baseadas no modelo do bem-estar social, em que o Estado e não o indivíduo tem um papel central, esses valores estão presentes: direito de propriedade, liberdades individuais, livre-iniciativa, meritocracia, transparência, eficiência, democracia representativa e igualdade perante a lei. Ela ensina: “Ao Estado, nas esferas limitadas pelas instituições constituídas sob o estado de direito, ou sob o império da lei, atribui-se a responsabilidade de servir a cada um e a todos no provimento, principalmente, de segurança, justiça, igualdade de oportunidade através de saúde e educação básicas e qualidade ambiental. E ponto”. 

Politicamente incorreto 
A economista continua, afirmando que o Estado não deve ter nenhum papel nas decisões individuais tomadas sem ferir a lei. “Não tem que dizer onde fumo ou deixo de fumar, que remédio eu devo tomar, que transporte eu devo escolher, que carro eu devo comprar, o que meu filho deve estudar. O Estado não tem que ter empresas, sejam elas bancos, petrolíferas, redes de televisão, rádios. Não tem que salvar empresas, não tem que escolher qual empresa deve prevalecer, que telefônica deve comprar qual telefônica”, afirma. Quanto mais o Estado cresce e se intromete em assuntos privados, mais ele tira a liberdade do cidadão de fazer suas próprias escolhas. 

Pergunto a Patrícia se o liberalismo está fora de moda. “É politicamente incorreto ser liberal, pois o liberal quer justamente ficar livre da tirania do politicamente correto, que justifica cada vez mais a redução das liberdades”, diz. Hoje, no Brasil, defender a meritocracia e ser contrário a cotas em universidades, por exemplo, rende o rótulo de “racista” que quer manter as “classes oprimidas” no andar de baixo da sociedade. Quem defende a propriedade privada, contrariamente às invasões dos sem-terra, passa a ser identificado como “protetor de latifundiários”. 

“Há um preço a ser pago por defender a liberdade, pois o liberal perdeu a batalha da comunicação e é visto como um ser mau, insensível ao sofrimento humano, defensor do empresário ganancioso”, diz. “E há, principalmente, o preço da responsabilidade. É muito mais difícil ser adulto do que ser criança tutelada por uma entidade abstrata e distante. Um paizão que, supostamente, cuida de você nos momentos de dificuldade e toma várias decisões por você. O cidadão de uma sociedade livre tem que ser muito mais consciente de seus direitos (e não só dos deveres que o Estado imenso exige) e cuidar deles. Isso dá trabalho”. Eu não poderia concordar mais.

O IDIOTA


NAS ENTRELINHAS

Mais uma visita de Palhares, o canalha


Correio Braziliense - 01/06/2009
 

Esconde-se atrás da ideia do terceiro mandato a figura do ditador benevolente. Trata-se de uma praga que a história eliminou e que tenta ressuscitar valendo-se da pouca fé democrática de alguns imbecis contemporâneos

Acho que ainda não deu sete da noite. Estou na Redação lendo mensagens que me chegam pelo computador. Divirto-me em especial com a de uma assessoria de imprensa paulista. Avisa ela que dois de seus clientes “já confirmou” presença num fórum não sei das quantas. Pelo visto, só um deles vai. É quando toca o telefone. Reconheço a voz grave e preocupada do secretário da Redação. — O Palhares está lá em baixo de novo. Disse que não sobe. Está te esperando. 

O Palhares, já disse antes, é o canalha fundamental. Ainda hoje anda por aí de casaca, cabelo rigorosamente passado na brilhantina, fino bigode talhado à navalha. Conversa sobre política, história e filosofia. Mas quem o conhece sabe que a rasa intelectualidade não passa de subterfúgio para impressionar as mulheres. Certa vez, no corredor da casa, agarrou a cunhada e beijou-lhe a boca. Daí o epíteto, “Aquele que não respeita nem as cunhadas”. 

Pois bem, desci a encontrá-lo. — Que queres, Palhares, que grande motivo o traz? Fumava. Ele sempre fuma nessas ocasiões. — Tens que escrever sobre o terceiro mandato, sussurrou. Achei estranho. Haveria alguém a segui-lo? E mais, se houvesse, qual o problema em debater tal tema livremente, em alto e bom som? — Por que estás falando assim, sorrateiro?, perguntei. — Não percebes? Não percebes?, seguiu, ainda em tom de espião. — Há uma onda, não sei se marola ou tsunami — e, por favor, não me venha com trocadilhos! —, sobre isso. É capaz de algum desses deputados aí querer mudar a Constituição. Se o povo começar a apoiar, daqui a pouco temos um tiranete a dar ordens até sobre a hora de sair na rua. 

— Vai-te, Palhares, preciso voltar à Redação. Não te preocupas. O próprio Lula repete todo dia que não quer saber de terceiro mandato. Acreditemos nele. O canalha estendeu a mão em despedida. Riu, só com o canto da boca e enquanto soltava a fumaça de uma funda tragada. Fitou-me. — Tchau, jornalista. Eu acredito nele. Deu as costas e sumiu na escuridão. 

Reminiscências 
O terceiro mandato assombra o país como um personagem antigo de literatura. Os defensores da idéia usam a alta popularidade do atual presidente para lustrar a falsa tese de que a continuidade dele no poder por mais quatro anos tem legítima fundamentação democrática. Seria, portanto, válida. 

Esconde-se atrás do terceiro mandato, porém, a figura antiga do ditador benevolente. É algo exaustivamente estudado na Ciência Política. O grande debate a respeito é quase frugal: para quê despender recursos em eleições, se o governante já distribui bem-estar à sociedade em nível majoritário? Se ele exerce o poder em benefício do povo e do povo obtém amplo apoio e aceitação? 

Muitas são as respostas do lado contrário desse debate. Mas uma em especial merece menção: a dos chamados institucionalistas. Segundo eles, os costumes forjam instituições. Essas instituições podem levar ao desenvolvimento ou ao atraso. A alternância de poder na Presidência da República é uma dessas coisas. 

Onde existiu e foi respeitada, garantiu a formação contínua de líderes políticos e aperfeiçoou a administração do Estado. E ainda manteve o ocupante do cargo e seu grupo permanentemente preocupados em beneficiar a maioria da sociedade. Justamente pelo fato de poderem ser apeados do poder na eleição seguinte. 

Aboli-la ou enfraquecê-la, e falo da alternância de poder na chefia do Executivo, em geral rende os efeitos contrários. Sufoca o aparecimento de novos e melhores líderes (essa inclusive é uma crítica do PT aos governos militares, sobretudo quanto ao movimento estudantil). E ainda afasta gradativamente o dono do poder político dos melhores interesses da sociedade como um todo. 

Os presidentes e primeiros-ministros das grandes democracias industriais servem de exemplo para uns. Os déspotas esclarecidos do século 18, para outros. 

O terceiro mandato presidencial, pois, nos remete a uma praga que a história eliminou. E que tenta ressuscitar valendo-se da pouca fé democrática de alguns imbecis contemporâneos. 

O presidente Lula, é certo, exerce seu poder com base no carisma. Isto é, na crença de que é capaz de fazer coisas impossíveis para outros. Seria muito melhor se todos acreditássemos que o bom governo não depende tanto assim de uma única e abençoada pessoa. 

Parece algo tão cristalino que o próprio Lula se nega a subscrever a tese. Até os canalhas, como Palhares, estão acreditando na boa-fé do presidente.

COISAS DA POLÍTICA

CPI foi presente da oposição ao PMDB

Tales Faria

JORNAL DO BRASIL - 01/06/09

Na terça-feira esta coluna publicou entrevista com o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), na qual o peemedebista falava do interesse do partido em apoiar a candidatura presidencial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, oferecendo até o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), como vice da chapa. Mas o líder cobrava do PT a contrapartida de apoio nos estados. Ao longo da semana o PT, na figura do presidente da legenda, Ricardo Berzoini, veio a público dizer que estava disposto a negociar e abrir mão de algumas posições regionais em favor do PMDB para ter o apoio do partido à candidatura Dilma. Os problemas são mais ou menos conhecidos.

Em Minas Gerais, o PMDB tem hoje o candidato mais bem colocado para governador: o ministro das Comunicações, Hélio Costa, mas o PT tem dois nomes fortes: o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel e o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social). A situação é delicada, porque ainda tem o atual governador, Aécio Neves, que deve sair para o Senado e a quem o governo quer adular para não fazer forte oposição à candidatura de Dilma Rousseff, e o ex-presidente Itamar Franco, um fortíssimo nome para senador. Ou seja, se quiser ajudar Dilma Rousseff em Minas, o PT terá que abrir mão da candidatura a governador e convencer Patrus e Pimentel de que só um deles pode sair para o Senado.

No Rio, a retirada da candidatura do prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, em favor da reeleição do governador Sérgio Cabral (PMDB), não é lá muito difícil. Já está próxima de se concretizar. No Pará, também não é impossível costurar para que a governadora Ana Júlia (PT) apoie a candidatura do deputado Jader Barbalho (PMDB-PA) ao Senado. Em Mato Grosso do Sul, a ideia é convencer o PT a apoiar a reeleição do governador André Puccinelli e convencer o PMDB local a destinar as duas vagas de uma eventual aliança local para o Senado aos petistas Zeca do PT e Delcídio do Amaral.

PMDB e PT têm outros problemas nos estados para a composição de vagas do Senado. No Piauí, por exemplo, o peemedebista Mão Santa deve disputar a reeleição para senador contra o atual governador, Wellington Dias (PT). Em Sergipe, Almeida Lima (PMDB) enfrentará o ex-senador e presidente da BR Distribuidora José Eduardo Dutra (PT). Na Bahia, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), não aceita apoiar a reeleição do governador petista Jaques Wagner se o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, concorrer contra ele ao Senado. No Paraná, o problema é o governador Roberto Requião (PMDB), que será candidato ao Senado, e gostaria de não concorrer com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT).

Enfim, são problemas, mas não são insolúveis. Seriam mais difíceis se o PT de hoje fosse o partido de antigamente, mais intransigente. Os tempos mudaram, e a legenda está mais sob as rédeas do presidente Lula do que jamais esteve. Cederá na maior parte dos pontos acima. E, onde não der para ceder, o PMDB compreenderá. Mais do que nunca, os dois partidos têm interesse em se acertar. Não tanto pelo peso eleitoral que o PMDB tenha no apoio a Dilma Rousseff.

Como bem lembrou ontem o sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, em artigo no jornal Correio Braziliense, o PMDB, como legenda, só encanta a 5% do eleitorado. Não se sabe quantos destes estariam dispostos a votar para presidente em um nome de outro partido sugerido por peemedebistas. Ou seja, o PMDB estaria dando muito pouco voto para um esforço tão grande do governo.

Mas não é pelo peso eleitoral do PMDB que Lula e o PT querem o apoio do partido. Em 2002, os peemedebistas uniram-se no apoio formal à candidatura do tucano José Serra a presidente, e quem se elegeu foi o petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula e Dilma querem o apoio do PMDB, porque o partido é forte no Congresso. Se os peemedebistas quiserem tumultuar na Câmara e no Senado, aí, sim, terão um forte poder. E isso poderia refletir-se nas eleições. É o caso da CPI da Petrobras, por exemplo. PSDB e DEM deram ao PMDB um verdadeiro presente de Natal ao lutarem pela criação desta CPI. Os peemedebistas tornaram-se ainda mais necessários, a ponto de ressuscitarem o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL). Agora, serão adulados pelo PT e pelo governo até outubro de 2010. No mínimo.

GOSTOSA


CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

PAINEL

Encontro de contas

RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 01/06/09

Palacianos preocupados com a elevação da temperatura entre PT e PMDB sugerem um ponto de partida para as negociações regionais: um se comprometeria a apoiar o candidato do outro nos Estados em que já governam -o PT comanda 5; o PMDB, 9. Pelo mapeamento do Planalto, essa jogada só seria difícil de executar no Acre (PT) e em Santa Catarina (PMDB).
Para colocar água na fervura, assessores de Lula lembram que o PT já fez um gesto de boa vontade ao proibir definições de seus candidatos nos Estados antes de fevereiro de 2010 -o PMDB, porém, gostaria de antecipar decisões em seu favor, e não de postergá-las. De todo modo, "cabe aos que têm responsabilidade reduzir ao máximo essa tensão", diz um governista.




Potencial 1. A reação média dos petistas ao novo Datafolha é composta de duas partes. A primeira enfatiza o crescimento de Dilma Rousseff e minimiza a divisão do eleitorado em relação à ideia de terceiro mandato, pois "isso simplesmente não existe". 

Potencial 2. Na segunda parte da resposta, os petistas cuidam de lembrar que o apoio ao terceiro mandato atingiu metade do eleitorado sem que Lula tenha mexido uma palha nessa direção. "Imagine se tivesse", afirma um líder do partido. 

Fim de feira. Um ministro põe em dúvida a alegada disposição de Lula para substituir todos os ocupantes da Esplanada que disputarão a eleição de 2010 por seus respectivos secretários-executivos. "Serão 14 candidatos. Não dá para atravessar a campanha sem nenhum político no governo", observa. 

Atalho. Diante do congestionamento de candidatos ao Senado por Pernambuco, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, tem dito a aliados que pode desistir da reeleição para coordenar as campanhas tucanas. Nesse caso, concorreria a uma vaga na Câmara. 

Junta médica. A equipe que tenta salvar algo da agonizante reforma política, sobretudo a questão do financiamento público de campanha, é comandada por Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), Flávio Dino (PC do B-MA) e Henrique Fontana (PT-RS). O prognóstico é dos piores. 

Pollyanna. O TSE resolveu instalar um link em seu site para que partidos e candidatos declarem "sobras de campanha". O mecanismo já vale para informações sobre as eleições municipais de 2008.

Questão pessoal. Do PT ao PSDB, a menção ao nome de José Sérgio Gabrielli é invariavelmente acompanhada do adjetivo "arrogante". Até mesmo no governo, muitos consideram que a atitude do presidente da Petrobras em suas tratativas com os senadores acabou contribuindo para a criação da CPI. 

Roberto Carlos? Como Arthur Virgílio (PSDB-AM) prometeu na tribuna "mudar de nome" caso algum dos petistas da CPI atue para evitar investigações sobre a Petrobras, a brincadeira agora na bancada tucana é listar opções para rebatizar o líder. 

A seguir. A CPI da Petrobras nem começou a funcionar e o governo já foi avisado de que outra comissão, para investigar irregularidades no Dnit, está prestes a sair do forno. Trata-se de mais uma retaliação da oposição pelo fato de ter sido alijada dos postos de comando da investigação sobre a estatal. 

Estrangeiro. Dos 41 briefings feitos à imprensa pelo porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach, desde o início de 2008, 35 versaram sobre a agenda internacional de Lula. Basicamente, ele relata a programação do presidente no exterior. Não raro, menos de cinco jornalistas aparecem para acompanhar suas apresentações.

Tiroteio

"A eleição foi tão antecipada que já estamos no segundo turno: é Dilma e Serra. O resto é especulação." 

Do ministro JOSÉ MÚCIO MONTEIRO (Relações Institucionais), sobre a ideia de terceiro mandato ou de "plano B" para a candidatura petista.


com VERA MAGALHÃES e SILVIO NAVARRO

Contraponto

Profissão de fé Com adversários em todos os partidos e sem acordo para votação, a reforma política era debatida sem entusiasmo no plenário da Câmara, na quarta-feira, quando Chico Alencar (PSOL-RJ) provocou o colega Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), um dos pais da proposta:
-É melhor enterrar logo este cadáver insepulto!
Flávio Dino (PC do B-MA) entrou na conversa:
-Mas Chico, logo você, que é tão católico, não acredita na ressurreição dos mortos?
Alencar pensou um pouco e vaticinou:
-Olha, o milagre pode até acontecer, mas com certeza não será nesta legislatura...

FERNANDO RODRIGUES

Lula, certeza única

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/06/09

BRASÍLIA - Quando a popularidade de Lula caiu cinco pontos percentuais, há dois meses, frequentou os céus de Brasília a hipótese do "ponto de inflexão" para o petista. Pela análise propagada, legítima, estaria em curso a inexorável trajetória crepuscular na taxa de aprovação de todo o presidente rumo ao fim do seu mandato.
A julgar pela pesquisa Datafolha publicada ontem, a inflexão, se é que houve, foi só um soluço. Por ora, está abortada. A popularidade de Lula segue como uma das únicas certezas sobre o cenário sucessório de 2010. Há dúvidas sobre quem serão os candidatos do PT e do PSDB e se a tese do terceiro mandato tem ainda alguma chance remota de prosperar. Mas inexistem pontos de interrogação sobre o poder de influência do atual presidente no processo de escolha do próximo ocupante do Planalto.
Certeza em política, manda a prudência, é algo a ser tomado com muito cuidado ou desdém. Um fator extra campo, para emprestar uma metáfora futebolística ao gosto de Lula, poderia muito bem ceifar a popularidade presidencial. Mas é necessário reconhecer que a gordura acumulada pelo petista confere a ele resistência para atravessar um eventual deserto. O momento, como se sabe, era outro, mas não custa recordar que nesta mesma época, em 2001, Fernando Henrique Cardoso tinha 19% de "ótimo" e "bom" no Datafolha. Lula está com 69%.
A resiliência inaudita do petista não surge por geração espontânea. Tampouco é fruto apenas da capacidade de comunicação do ex-sindicalista. Tudo é resultado de uma complexa estratégia de marketing. O governo brasileiro pré-PT sempre foi o maior anunciante do país. Agora, sob Lula, elevou essa condição ao paroxismo. Chega sozinho a 5.297 veículos de mídia impressa e eletrônica. 
O sabão em pó Omo ou políticos de oposição, por enquanto, não são páreo para Lula.

GOSTOSAS DO TEMPO ANTIGO


CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

INFORME JB

Esse Congresso parece, mas não é

Leandro Mazzini

JORNAL DO BRASIL - 01/06/09

A quem tenta enganar esse Congresso? Pesquisa recente, com 150 parlamentares influentes da Câmara e do Senado, divulgada no sábado, mostra um abismo entre o discurso e a prática. A reforma política num pacote de projetos, tal como queriam alguns, sucumbiu. O presidente da Câmara, Michel Temer, já havia adiantado ao Informe que, a seu ver, o consenso é ter reforma só para 2014. Das duas, uma: ou mentiram muito na pesquisa, ou os líderes decidem os rumos da pauta sem consultar as bancadas. Aos índices: para 46,7% dos senadores e 55% dos deputados, a reforma política deve vigorar já, nas eleições de 2010 – os números passam para 36,7% e 13,3%, respectivamente, para os que defendem as mudanças para os pleitos de 2012. Ou seja, a grande maioria prega a reforma na pesquisa. Mas, na prática, ela continua na gaveta.

Lista fechada Casas divididas

Na pergunta sobre direito a reserva de vagas por sexo, na proposta de lista fechada – e cabendo à convenção escolher a ordem dos nomes: 60% dos senadores e 49,2% dos deputados são contra.

"Defendo a alternância na lista, com uma participação feminina para cada participação masculina": 16,7% e 14,2%, respectivamente

Fidelidade

O engraçado da pesquisa é a fidelidade. A maioria pensa em abrir uma "janela" de seis meses de prazo para troca de partido sem perder o mandato. Mas, na sondagem, 53,3% dos ouvidos no Senado e 39,2% na Câmara defendem a "fidelidade ampla, com a perda do mandato em caso de mudança de partido".

Radiografia

A pesquisa foi feita com 16 perguntas de múltipla escolha, pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos, e o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), em parceria com a Strategos – Empresa Júnior de Consultoria Política da UnB

Reza forte

O governador Jaques Wagner foi para o Pelourinho ontem, devidamente vestido de branco, para assistir por telão, no meio do povo, ao anúncio de Salvador como uma das sedes da Copa de 2014.

Estreia

O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), assumiu a Presidência da República, com a viagem de Lula a El Salvador e a licença de José Alencar, em tratamento nos EUA. Procurador do estado de São Paulo, o deputado vai ganhar homenagem da Anape.

Anastasia na varanda

O vice-governador de Minas, Antonio Anastasia, já entrou em pré-campanha pelo estado para a sucessão do chefe. E tomou gosto pelo palanque. Na sexta, fez discurso animado na varanda do Grande Hotel Muriahe, prédio secular que foi transformado em centro cultural.

O balconista

O Centro Cultural e Turístico Regional Dr. Pio Soares Canêdo, no hotel (foto), foi homenageado pelo vice-presidente José Alencar. Ele enviou telegrama lembrando ter iniciado no prédio sua "vida de trabalho", na loja A Sedutora.

Pajelança

Anastasia jantou sexta-feira na residência do prefeito de Muriaé, José Braz, e do filho, o deputado estadual Bráulio Braz.

Turbulência

O deputado federal João Bacelar (PR-BA) foi à tribuna pedir a abertura de uma CPI para investigar a TAM. Segundo Bacellar, é uma "das campeãs de reclamações" junto ao Procon.

Saúde

O Núcleo de Ciências da Amazônia lançou novo tratamento para obesos. Garante emagrecimento de 15 quilos em apenas dois meses, através dos "fitoelementos da floresta amazônica".

Reservas

A ministra Dilma Rousseff e o economista Marcelo Neri, da FGV, não participam da próxima reunião do Conselhão, dia 4.

Itamar

A coluna errou, em nota na 1ª edição de ontem. Itamar Franco é ainda o presidente do conselho do BDMG.

RUY CASTRO

1969 errou

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/06/09

RIO DE JANEIRO - Era 1968, 69, por aí. Ia nascer uma nova consciência, uma nova cultura, uma nova era, diziam. Todos teriam o direito de ficar na sua, chamar uns aos outros de bicho e nunca mais tomar banho. Uma geração que até bem pouco se deliciava com Ovomaltine e Grapette estava agora descobrindo a maconha, o ácido, a mescalina, o cogumelo, o ópio e outras substâncias proibidas.
Os novos heróis eram escritores como Carlos Castaneda, Timothy Leary, William Burroughs. Até o venerando Aldous Huxley, morto desde 1963, fora "redescoberto". Em seus livros, eles demonstravam como as drogas abriam as "portas da percepção" e revelavam fabulosos mundos interiores, tornando seus usuários pessoas especiais, talvez até superiores.
A certeza de que as drogas seriam privilégio de uma plêiade adulta e responsável fez com que muitos pregassem sua liberação, mesmo que pessoalmente não se interessassem por nada mais radical do que fumar cachimbo ou mascar chicletes. Mas, para a imaginação liberal daquele tempo, era irresistível o argumento de que ninguém, muito menos o Estado, poderia proibir o cidadão de dispor de seu corpo e de "expandir sua mente".
Bem, isso foi há 40 anos. Por mais mentes "expandidas", ninguém então imaginou as cenas que vemos hoje pelo Brasil: gerações convertendo-se ao tráfico para sustentar sua dependência, crianças de 8 anos fumando crack nas esquinas e morrendo à luz do Sol, e bocas de fumo controladas até por patuscas e insuspeitas mães de família.
Quem poderia prever que aquele sonho mágico se tornaria um negócio de bilhões -o narcotráfico-, responsável pelo esgarçamento do tecido social, a destruição de famílias em massa, a corrupção da polícia, os assassinatos sem conta, a vitória do submundo? Decididamente, 1969 errou longe.

TÁ AQUI PRA VOCES...

FERNANDO DE BARROS E SILVA

O Bolsa-Mídia de Lula

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/06/09

SÃO PAULO - O jornalista Fernando Rodrigues deu uma grande contribuição ao conhecimento da máquina de propaganda do lulismo. A reportagem que publicou ontem na Folha mostra como, na atual gestão, o Planalto adotou uma política radical e sistemática de pulverização da verba publicitária destinada a promover o governo.
Em 2003, a Presidência anunciava em 499 veículos; em 2009, foram 2.597 os contemplados -um aumento de 961%. Discriminada por tipo de mídia, essa explosão capilarizada da propaganda oficial irrigou primeiro as rádios (270 em 2003, 2.597 em 2008), depois os jornais (de 179 para 1.273) e a seguir o que é catalogado como "outras mídias", entre elas a internet, com 1.046 beneficiadas em 2008.
O que isso quer dizer? A língua oficial chama de regionalização da publicidade estatal e a vende como sinal de "democratização". Na prática, significa que o governo promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes neste país.
Exagero? Eis o que diz Ricardo Barros (PP-PR), vice-líder do governo e membro da Frente Parlamentar de Mídia Regional: "Cerca de 50% das rádios e dos jornais do interior pertencem ao comunicador. O dono faz o jornal ou o programa de rádio. Se recebe dinheiro, passa a ter mais simpatia e faz uma comunicação mais adequada ao governo. Há uma reciprocidade".
Enquanto, na superfície, Lula trata de fazer a sua guerra retórica contra a "imprensa burguesa", que lhe dá azia, no subsolo do poder a engrenagem montada pelo ministro Franklin Martins se encarrega de alimentar a rede chapa-branca na base de verbas publicitárias. É o Bolsa-Mídia do governo Lula.
Essa mídia de cabresto que se consolidou no segundo mandato ajuda a entender e a difundir a popularidade do presidente. 
E talvez explique, no novo mundo virtual, o governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí.