domingo, junho 07, 2009

ELIO GASPARI

Serra é santo de procissão, quer andor

FOLHA DE SÃO PAULO - 07/06/09


O PSDB quer as prévias, mas não quer; quer chapa puro-sangue, mas também não quer


O TUCANATO ASSUSTOU-SE diante da conjunção do repique da popularidade de Lula com a redução da distância que separa José Serra de Dilma Rousseff (de 30 pontos para 22). Assombração sabe para quem aparece.
Um partido que tem dois nomes para oferecer, mas o favorito reluta em anunciar sua candidatura, não poderia esperar outra coisa. Faltam 16 meses para a eleição de 2010, e José Serra guarda o imponente silêncio dos santos de andor. É cedo? O companheiro Obama anunciou sua candidatura 21 meses antes da eleição.
Ao seu estilo, o PSDB tem um candidato que não diz que é candidato, quer fazer prévia, mas não quer fazer prévia, quer montar uma chapa puro-sangue, mas não quer montar uma chapa puro-sangue. Em 2006, José Serra saiu da disputa com Geraldo Alckmin sem ter anunciado publicamente que era candidato à Presidência. Nunca se saberá direito até que ponto ele saiu do caminho porque temeu a divisão de sua base ou porque percebeu que marcharia para uma segunda derrota.
Sem candidato (ou sem candidatos disputando prévias, o PSDB acorrentou-se ao projeto-procissão, no qual o santo percorre um trajeto com destino certo, cabendo aos devotos acompanhá-lo com suas preces.
A imobilidade do PSDB é responsável, em parte, pela persistência do fantasma de uma nova candidatura de Nosso Guia. Se Serra ou Aécio botassem a cara na vitrine, desencadeariam um processo que dificultaria uma manobra queremista do comissariado. Jogando na retranca, alimentam-na.
Pode-se dizer que Lula já informou que não pretende buscar o terceiro mandato, mas ele nunca disse isso numa frase que não contivesse uma saída de emergência. Numa de suas últimas versões, repetiu que não pretende entrar na disputa, mas disse que não via nenhum mal no continuísmo chavista.
Se algum dia Lula quiser encerrar essa discussão, pode recorrer a um modelo formulado em 1871 pelo general americano William Sherman (o devastador do Sul dos Estados Unidos durante a Guerra Civil). Ele mandou uma carta a um jornal dizendo o seguinte:
"Nunca fui e nunca serei candidato a presidente. Se algum partido me indicar, não aceitarei a escolha. E se eu for eleito, mesmo que seja por unanimidade, não ocuparei o cargo".

COMPARAÇÃO
O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, deveria ser nomeado titular interino da Defesa sempre que um assunto tivesse que ser explicado à opinião pública.
Temporão lidou com a crise da gripe com a qualidade técnica de um apresentador e a competência acadêmica de um sanitarista. Depois do desastre da Air France, o ministro Nelson Jobim foi ao holofotes, disse que não discutiria hipóteses, informou que haviam sido achados destroços do avião e acabou especulando sobre tubarões, "abdomes íntegros", entre outras platitudes.

CAIADO NA AGULHA
Já surgiu no DEM uma bancada que pretende oferecer o deputado Ronaldo Caiado como candidato a vice-presidente numa chapa do PSDB.
Deve ter sido ideia do PT.

MINC GRELHADO
O ministro Carlos Minc está na frigideira e corre o risco de ficar na porta dos fundos. Sua antecessora, Marina Silva, saiu pela porta da frente porque avisou que podia perder o cargo, mas não perderia o juízo.

BIG BROTHER
A ideia do comissário Tarso Genro de criar um Observatório da Justiça para monitorar o funcionamento do Poder Judiciário tem o valor de uma nota de três reais.
O jurisconsulto petista ainda não foi informado de que entre as suas atribuições não está (felizmente) a de fiscalizar outro Poder.
Genro acha que há um precedente: o Observatório português, vinculado à Universidade de Coimbra que, como se sabe, não está anexa ao Poder Executivo.

DIA D + 65
O primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, deveria cair fora depois de ter se esquecido de incluir a rainha Elizabeth na comitiva que comemorou os 65 anos do desembarque aliado na Normandia. A monarca é a única chefe de Estado que se pode intitular veterana da Segunda Guerra.
Uma das justificativas da amnésia foi o interesse de preservar um papel preponderante para o presidente francês Nicolas Sarkozy. Eremildo, o Idiota, aprendeu no colégio que em 1944 a França foi invadida porque estava ocupada pelos alemães e tinha um governo colaboracionista. Põe colaboração nisso. Os nazistas administraram a França com 1.500 servidores alemães, número semelhante ao de funcionários do setor de comunicação da Petrobras.
Deixaram a rainha de fora, e é falta de educação lembrar que ao fim do dia do desembarque os melhores resultados foram aqueles conseguidos pelas tropas inglesas e canadenses. A resistência alemã levou o comandante da operação a cogitar a retirada dos americanos da praia Omaha.
Sarkozy, o anfitrião da festa, ainda não havia nascido. No Dia D, seus pais viviam na Hungria e iam bem, obrigado. Eles só fugiram quando o Exército Vermelho chegou perto de suas propriedades.
Passados 65 anos, o mundo deu voltas. No Dia D, Joseph Ratzinger, com 17 anos, acabara de desertar de sua unidade da Juventude Hitlerista (O papa Bento 16 contou que nunca deu um tiro nem carregou sua arma.) Aos 26 anos, Kurt Waldheim, que viria a ser secretário-geral da ONU (1972-1981) e presidente da Áustria (1986-1992), era um tenente da Wehrmacht e servia no Estado-Maior de um general fuzilado pelos iugoslavos.

AS SEIS REGRAS DA PRISÃO DE ZHAO ZIYANG

Para quem tem interesse nos métodos do governo chinês.
Há 20 anos, depois da repressão aos estudantes de Pequim, o secretário-geral do Partido Comunista, Zhao Zyang, foi deposto e mantido em prisão domiciliar até sua morte, em 2005.
Sem que os espias percebessem, ele gravou 30 fitas com um depoimento de 60 horas que acaba de virar livro. Noves fora a narrativa política, nele se aprende que Zhao às vezes saía de casa para ir jogar golfe ou visitar amigos. A certa altura, o governo apertou a cana e ele foi informado de que seus movimentos estariam sujeitos a seis normas. Quais? Não havia burocrata capaz de informar.
Zhao batalhou e um comissário apareceu em sua casa com um papel onde estavam as seis regras. Ele pediu para lê-las. Nada feito, podia apenas ouvi-las. Como não era proibido anotá-las, Zhao escreveu o que ouviu. Diante disso, o comissário recusou-se a ler o produto do ditado e esclareceu que o texto do ex-todo-poderoso secretário-geral do partido era de sua exclusiva responsabilidade.
(Zhao foi autorizado a jogar sinuca duas vezes por semana num clube, sempre pela manhã. Ele foi três vezes e desistiu, pois não encontrava parceiros. O comissariado esvaziava o clube nos dias de suas visitas.)
O golpe das seis normas poderia ser copiado por Lula para organizar o comportamento dos seus ministros envolvidos em questões do meio ambiente.

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