sábado, maio 09, 2020

Saindo ou não, churrasco é marco macabro - VERA MAGALHÂES

ESTADÃO - 09/05


A esta altura, pouco importa se Jair Bolsonaro vai de fato acender a churrasqueira e colocar carnes para grelhar. Também não muda nada o fato de não haver bebida alcoólica no churrasco anunciado com animação, ao longo de dois dias, pelo presidente da República do Brasil ao término da pior semana até aqui da pandemia do novo coronavírus.

O churras do Alvorada já está inscrito na linha do tempo de declarações lamentáveis de Bolsonaro em meio à emergência nacional. E olha que essa cronologia macabra inclui falas e atos inacreditáveis. A saber:
a primeira de uma série de idas ao Palácio do Planalto no fim de semana, ainda em 15 de março, para confraternizar com manifestantes aglomerados e portando e gritando palavras de ordem contra os demais Poderes e a favor de teses golpistas, como intervenção militar;
pronunciamento em rede nacional de rádio e TV chamando a pandemia de covid-19 de gripezinha e resfriadinho;
tentativa de enfiar como contrabando em uma medida provisória a permissão para revogar decisões de Estados e municípios na mesma pandemia;
rolês sem nenhum cuidado de distanciamento, uso de máscara ou preocupação com as pessoas, apenas para marcar o ponto de que é contra o distanciamento social e que a economia deveria ser reaberta;
marcha com empresários lobistas ao STF para pressionar outro Poder para reabra a economia na marra enquanto ainda se está no pico da pandemia;
demissão do ministro da Saúde em plena pandemia por ciúme e do ministro da Justiça uma semana depois por não ter atendido a sua determinação de trocar o comando da Polícia Federal e lhe dar acesso a inquéritos e relatórios.

A lista não termina por aí. Só a de frases inacreditáveis daria uma antologia. É por isso que fazer ou não o churrasco não é a única coisa grave de mais esse capítulo escrito por obra e graça de Bolsonaro, sem que a oposição precise mover uma palha. Só de cogitar a possibilidade, ou de brincar com ela, o presidente já afronta as famílias que perderam pessoas queridas para o vírus, a memória de mais de 10.000 mortos e aqueles que deveria conduzir em meio a uma crise de gravidade sem precedentes, mas que prefere afrontar diariamente.

E não vai adiantar cancelar o rega-bofe e depois dizer que a imprensa deturpa o que diz, que é claro que estava brincando. Essa brincadeira embute cinismo intolerável por parte de um chefe de Estado de qualquer país civilizado e democrático.


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