quarta-feira, fevereiro 04, 2015

País desconhece sua real capacidade de gerar energia - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 04/02

A presidente Dilma assegurou que nenhuma crise energética ocorreria no curto, médio e longo prazos, mas suas premissas se mostraram equivocadas


Qual a real capacidade de geração do conjunto das hidrelétricas brasileiras? Especialistas põem em dúvida os números e os modelos utilizados pelas autoridades para dimensionar a água armazenada nos reservatórios, o que torna ainda mais vulnerável o planejamento do setor durante a grave crise hídrica que as regiões Sudeste e Nordeste estão atravessando. Ex-presidente da Eletrobras e atual diretor da Coppe/UFRJ, o físico Luiz Pinguelli Rosa, chega a estimar que os reservatórios do Sudeste só têm água acumulada como reserva para geração de eletricidade por um mês, daí ele considerar o racionamento como algo inevitável este ano.

O Ministério das Minas e Energia prorrogou para 2016 a reavaliação da chamada garantia firme das hidrelétricas. Embora sejam construídas para operar dentro de uma capacidade máxima, nem todas as hidrelétricas chegam a alcançar esse limite. E às vezes atingem tal capacidade por alguns dias ou semanas, no período de chuvas mais intensas. Ao longo do ano, tal capacidade costuma variar muito, especialmente nas hidrelétricas a fio d’água, que funcionam com a vazão natural dos rios onde estão situadas. No caso das barragens com acumulação de água, a geração de eletricidade pode ser mais previsível, dependendo dos volumes armazenados e das quantidades de chuvas nas bacias hidrográficas que as abastecem.

De qualquer forma, é possível calcular uma capacidade média de geração que serve de base para os compromissos de entrega assumidos pelas companhias geradoras. Historicamente, o risco hidrológico era considerado baixo, mas a seca dos últimos anos causou uma reviravolta no setor. Muitas geradoras não conseguiram entregar a energia antes definida como firme, obrigando distribuidoras a buscarem essa diferença no mercado de curto prazo, cujos preços têm se mantido nos valores máximos, e bem acima dos valores originalmente contratados. Parte desse custo foi assumida pelas geradoras e outra passou a ser motivo de discussão entre geradoras e distribuidoras. Por isso é tão importante que se faça uma reavaliação dessas garantias físicas, para que os contratos em ambiente regulado ou livre reflitam a verdadeira realidade do setor elétrico, e para o planejamento do setor em situações críticas como a atual.

A presidente Dilma se vangloriava até bem pouco tempo de ter reintroduzido o planejamento no setor elétrico brasileiro e que isso havia permitido ao país chagar a um quadro sem a mínima possibilidade de crise no “curto, médio e longo prazos”. A crise em andamento, embora seja de fato muito grave, mostrou o quanto eram frágeis as premissas que levaram a presidente a fazer declarações tão contundentes e equivocadas. Além de se evitar que isso aconteça no futuro, os erros precisam ser corrigidos desde já.

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