segunda-feira, outubro 17, 2011

PAULO SANT’ANA - Martins, o barbeiro


Martins, o barbeiro
 PAULO SANT’ANA
ZERO HORA - 17/10/11

O Martins é meu barbeiro. Ele também é cabeleireiro, mas quem faz o meu cabelo há muitos anos é o Pedrinho, do mesmo Salão Dia e Noite, na Rua Andrade Neves, onde trabalham.

Mas o Martins é meu assunto de hoje. Ele trabalha nos sete dias da semana. Trabalha nos sábados e nos domingos.

No salão, a maioria dos cabeleireiros e barbeiros trabalha num só turno, ou pela manhã, ou pela tarde.

O Martins, ao contrário, trabalha pela manhã e pela tarde. Os seus colegas ficam espantados. Ele trabalha nos feriados. Só há dois feriados por ano em que o Martins não trabalha, o Natal e a Sexta-Feira Santa.

O Martins mora em Cachoeirinha, ele vem de ônibus pela manhã pela freeway, começa a trabalhar às nove da manhã e vai até as oito da noite, só interrompe para um lanche ao meio-dia.

Uma capacidade de trabalho notável. Uma entrega ao trabalho estupenda.

Na maior parte da minha vida, fui assim como o Martins, trabalhei como um mouro. Eu chegava ao ponto de fazer o Jornal do Almoço e o Gaúcha Hoje nos sábados, isto é, levantava aos sábados às sete da manhã para falar no rádio.

Acho que é por essa identificação com o Martins que eu o admiro tanto.

Quem trabalha assim como o Martins, e como eu trabalhei quase toda a minha vida, não tem tempo para cuidar da família. Gozado, a gente trabalha assim exaustivamente para sustentar a família, mas não tem tempo para cuidar dela.

Esses barbeiros e cabeleireiros alugam suas cadeiras de trabalho por um valor x por dia.

Eles, então, têm de dar máquina para pagar o aluguel da cadeira e ainda fazer um lucro para seu sustento.

Ninguém sabe onde o Martins bota tanto lucro. Não se sabe se ele tem carro, mas casa própria ele já adquiriu em Cachoeirinha.

Eles não têm patrão nem carteira assinada, formam uma exótica classe de profissionais liberais. Se não descontarem para a aposentadoria como autônomos, estão fritos.

Para os clientes, o Martins é uma bênção, basta telefonar para ele em qualquer dia, domingos e feriados, que ele está pronto para barba, cabelo e bigode.

O Martins é um desses casos de pessoas que vivem só para trabalhar. A vida não lhes ofereceu qualquer outra atração.

São admiráveis, são homens de bem, são sustentáculos da nação.

O Martins é um herói brasileiro e seu exemplo é tão marcante, que eu me dei ao desplante de dedicar esta coluna inteira para esse destacado abnegado no nosso meio social.

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