sábado, julho 05, 2014

Comícios em série - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP-05/07

Às vésperas de encerrar-se o prazo legal, governantes que disputarão cargos eletivos inauguram o que podem, do jeito que for possível


Formou-se, como costuma dizer a mídia esportiva, uma rede nacional para que --"todos juntos, um só coração"-- fosse possível assistir ao espetáculo. Não se tratava, porém, de um jogo da Copa. O que motivou tanto empenho das autoridades, nestes últimos dias, foi o calendário eleitoral.

Encerrando-se o prazo para participar de inaugurações de obras, a presidente Dilma Rousseff (PT) assumiu o papel de âncora, digamos, de uma cerimônia para a entrega de moradias à população de baixa renda. Eram 5.460 unidades do programa Minha Casa Minha Vida, distribuídas em 11 cidades.

Ainda que os aeroportos estivessem "impecáveis", como afirmou a presidente neste momento de relativa bonança logístico-organizacional, seriam municípios demais para Dilma visitar de uma vez só. Restringiu-se, pois, a um evento no Distrito Federal, enviando ministros diversos para reproduzir a solenidade nos demais cenários.

Graças a um telão, as imagens e as palavras da presidente se avantajaram aos olhos do público presente em todos os comícios, espalhados de Duque de Caxias a Juazeiro do Norte, de Joinville a Jequié.

Terá sido por esse milagre da ubiquidade eletrônica que, para a celebração em Betim (MG), foi convocado o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação? Clelio Campolina acedeu à missão, inédita para alguém com suas atribuições.

Há pressa --ao menos para inaugurar. Disputando a reeleição, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), também via acabar o prazo para dar por concluído o que havia por perto --a saber, um novo trecho do Rodoanel.

Pintavam-se ainda as faixas de trânsito, e quase todos os postes de iluminação estavam sem lâmpadas; pormenores, para o governo estadual, perto do que importava comemorar e do que era melhor considerar menos importante.

A obra deveria ter sido concluída em março, mas a empresa concessionária atrasou sua construção. Outro segmento, de quase seis quilômetros, só em setembro estará disponível para o motorista. O setor norte do Rodoanel, segundo se prevê, ficará pronto em 2016. Ou em 2018? Novas eleições imporão a necessidade de repetir o ritual.

No fundo, talvez não passe disso mesmo: um ritual, remanescente do tempo em que a presença física do candidato e do cidadão compunha o evento básico de uma campanha eleitoral. O comício era o momento de distribuir benefícios, numa visão de mundo paternalista.

Hoje, inaugurações subsistem mais como gestos rotineiros, em contextos dominados tanto pelo profissionalismo dos marqueteiros como pela falta de originalidade nas propostas de campanha. A parafernália dos telões nada faz para alterar esse quadro tão repetitivo.

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