sábado, maio 09, 2020

A escassez é um fato da vida - EURÍPEDES ALCÂNTARA

O Globo - 09/05

Governos podem emitir moeda, mas não podem criar riqueza


‘Porque o dinheiro é escasso, a comida é escassa, a gasolina é escassa, as pessoas no Ocidente pensam que o amor também é escasso. O amor não é escasso. Quanto mais você dá, mais você recebe.” Essa frase é do guru indiano Rajneesh, o “Osho”, que foi um dos ópios da juventude na década de 1980. O guru, que foi revisitado em um documentário recente, pregava o sexo livre, tinha uma frota de carros Rolls-Royce, fundou uma comunidade no Oregon, mas entrou em declínio, voltou para a Índia e morreu em 1990, aos 58 anos.

A pregação de Osho sobre o amor é correta. A parte da escassez também. A escassez é um fato da vida. A Covid-19 deixa isso cruelmente evidente todos os dias. Quando a pandemia for debelada, e a vida voltar a seu novo normal, a escassez continuará impondo sua lei. Não há amor ao próximo que a revogue. Escassez, limites e tetos são inerentes à existência humana. Tetos de gastos inclusive — seja de pessoas, empresas ou governos. Fora de certas ilhas da fantasia em Brasília e de suas seitas econômicas de apoio não existe a possibilidade de um país quebrado se levantar do chão emitindo moeda indefinidamente.

Governos podem emitir moeda, mas não podem criar riqueza. As ajudas emergenciais em dinheiro nesse vale de lágrimas da pandemia precisam existir e chegar às mãos de quem precisa o mais rápido possível. Mas elas não podem se perenizar. Não podem no sentido exato da palavra. Se existe poder terrestre capaz de multiplicar a moeda, só o poder divino pode multiplicar o pão. Brasília tem como ajudar emergencialmente os estados da Federação a recompor seus caixas esvaziados pela queda na arrecadação, mas não tem poder para manter essa operação de salvamento por muito tempo. A vida não pode ser uma emergência.

Plano Marshall com o próprio dinheiro não existe. O plano de reerguimento da economia europeia depois da Segunda Guerra Mundial, que ficou conhecido pelo nome de seu criador, o general George Marshall, foi feito com dinheiro dos contribuintes americanos — não sem interesse ou por filantropia como às vezes se dá a entender. Quem exporta capital importa demanda. Essa é outra lei da economia pouco conhecida. Os americanos ajudaram a levantar a economia da Europa e ganharam um excelente mercado consumidor de seus produtos.

É assim que o mundo real funciona. Os americanos derrotaram e, depois, salvaram o Japão em 1945. O alto comando do general Douglas MacArthur, que recebeu em mangas de camisa a rendição japonesa na famosa cerimônia a bordo do encouraçado Missouri fundeado na Baia de Tóquio, redigiu uma nova Constituição para o Japão que vale até hoje sem nenhuma emenda. Em troca, os Estados Unidos ganharam fatias relevantes de grandes empresas japonesas e um aliado político de peso na Ásia, que hoje é essencial para contrabalançar o poder da China naquela região.

O verdadeiro Plano Marshall brasileiro para depois da pandemia, como escreveu o cientista político Luiz Felipe D’Avila no VirtuNews, é arrumar as finanças e diminuir a burocracia dos governos brasileiros em todos os níveis com o objetivo de nos tornarmos atraentes aos investidores estrangeiros. Por mais que pareçam objetivos distantes nesse instante dramático em que tentamos, pelo menos, diminuir o número de mortos pela Covid-19 no Brasil, o que D’Avila propõe é o correto. Temos que fazer as reformas estruturais do Estado de modo que o capital privado estrangeiro e brasileiro possa ver retorno em investir com segurança jurídica no saneamento e outras deficiências crônicas do Brasil para as quais o Estado brasileiro não tem solução. Fora isso, a saída é acender um incenso para a alma do guru Rajneesh e orar para que, além do amor, o dinheiro, a comida e os combustíveis também deixem de ser escassos.

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