domingo, março 20, 2016

O último capítulo (2) - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O ESTADO DE S. PAULO - 20/03

Já comentamos que o governo Dilma Rousseff entrou no seu último capítulo. Nestas últimas semanas, o acúmulo de evidências nessa direção foi avassalador. Chamo a atenção para os principais eventos: a) A prisão do marqueteiro do PT, João Santana. Existem notícias de que sua mulher, pelo menos, faria uma delação premiada.

b) Delações bombásticas vieram a público, especialmente a de Delcídio Amaral. Outras estão a caminho. Falamos aqui dos executivos da Andrade Gutierrez e do ex-deputado Pedro Corrêa.

c) As gigantescas manifestações de domingo, dia 13 de março, mostraram que o País não está dividido como nas eleições, mas que está contra o PT, Dilma e Lula, em grande maioria. Aliás, as últimas pesquisas de opinião já mostravam essa situação. Os apoiadores tradicionais do governo calaram-se, abstendo-se de lançar bobagens, como "varanda gourmet", "coxinhas" e outras tentativas de desqualificação semelhantes.

Ademais, avança rapidamente a percepção de que a situação econômica e social continua a se deteriorar acentuadamente. Em particular, o meio empresarial começa a se dar conta de que: a) As empresas que,nos últimos anos, se abraçaram ao governo e suas benesses, na imensa maioria dos casos, quebraram ou estão a caminho da insolvência. Aliás, é essa uma lição que resultará: após a queda do governo, veremos uma substancial melhora da governança pública e privada do País, e isso será uma das alavancas da reconstrução de nossa capacidade de crescer, totalmente destruída pela "genialidade" da política econômica dos últimos anos.

b) O espaço de manobra para acomodar problemas empresariais está se tornando muito pequeno. Fundos de pensão estatais, Caixa Econômica Federal e o BNDES estão sofrendo de falta de recursos e fazendo frente a uma elevação no número de investigações sobre suas operações realizadas nos últimos anos.

c) A crise financeira das empresas só aumenta. Nunca se viu tanta gente grande totalmente atrapalhada e até considerando soluções mais radicais. Mesmo empresas que não têm nada a ver com o governo, como as do comércio, estão sofrendo. Muitas delas já estão em recuperação judicial ou discutindo essa possibilidade com seus advogados e bancos. O mercado de bônus fechou completamente.

Isso está obrigando os empresários e suas representações a sair da zona de conforto, a ir para a rua (como no último domingo) e a apoiar uma mudança rápida de governo, como a única forma de recuperar a perspectiva de voltar a crescer. Ninguém vem a público para apoiar o Executivo já há muito tempo. Ao contrário, muitos líderes empresariais estão falando abertamente que a mudança tem de ocorrer e rápido.

Não dá mais. O PT, Lula e Dilma devem prestar atenção: não é apenas o "mercado", mas todo o mundo empresarial chegou finalmente à conclusão de que não dá mais, que o governo é irrecuperável e que tem de terminar logo.

Mas,e o Lula? Não vai resolver a situação?

Minha percepção é que o ex-presidente não conseguirá alterar o curso de final de feira em que o governo se transformou. A deterioração da situação avançou muito em todas as frentes e ninguém mais está disposto a abrir créditos de confiança. O mais importante de tudo é que o grupo que está agarrado ao poder está subestimando gravemente o grau de indignação que tomou conta da sociedade, abrangendo regiões, idades, níveis de renda e níveis de educação, como ficou expresso nas manifestações do último dia 13 e nas pesquisas recentes.

Ofensas. Não bastasse isso, desde o final de quarta-feira até o momento em que acabo de escrever este artigo, na sexta-feira à tarde, tudo andou errado com o novo superministro. As gravações que vieram a público ofenderam gravemente, e numa linguagem de muito baixo nível, todo o judiciário, o que levou o ministro do Supremo Celso de Mello a fazer uma das mais duras intervenções dos últimos tempos. Ofenderam também a Procuradoria da República, o Congresso e praticamente todos os outros elementos da sociedade.

Um volume inusitado de ações judiciais trava neste momento a posse efetiva da Casa Civil. Além disso, até agora nenhuma mudança relevante ocorreu, quer no Ministério, quer na política econômica. Claro que isso ainda pode ocorrer, mas parece razoável imaginar que teremos apenas mais do mesmo, e isso é totalmente insuficiente para melhorar a situação econômica.

No Congresso Nacional, as indicações são de elevação no suporte ao processo de impeachment, o que levou a quase totalidade dos analistas políticos a colocar na faixa do 60%-70%a probabilidade de vitória do impedimento.

Em resumo, tudo indica que o cenário com o qual a MB Associados vem trabalhando desde setembro do ano passado vai se materializar ao final deste semestre. Neste caso, no segundo semestre viveremos num outro país, muito melhor e mais promissor.

Recentemente,alguém me lembrou de uma frase antológica do Ministro Mario Henrique Simonsen, que se aplica com precisão ao ex-presidente Lula: "O problema do trapezista aparece quando ele começa a pensar que sabe voar. Aí, vai ao chão".


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