sábado, março 01, 2014

Ar quente - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 01/03

Mais do que o risco de racionamento, o que preocupa as grandes empresas é a alta do custo da energia contratada para o ano que vem. O vice-presidente da Whirlpool, Armando Valle, faz cálculos que dão números espantosos de aumento desse custo em 2015. Ele acha que o preço pode subir no mínimo 40%, se todo o uso das térmicas for repassado para as empresas.

Por atuar nos segmentos de ventilador, geladeira e ar-condicionado, a Whirlpool monitora o clima com atenção. As pesquisas e sondagens com climatologistas são constantes, e, a partir daí, são feitas as estimativas da empresa. Neste ano, o calor está tórrido, e a companhia poderia estar se sentindo favorecida, mas há vários pontos de preocupação.

— A gente brinca que quando faz calor muito forte por dois dias, aumenta a venda de ventilador. Quando são três dias, crescem os ventiladores de teto, quando são quatro dias ou mais, vende-se ar condicionado — disse Armando Valle.
A empresa já esperava temperaturas elevadas, mas achava que elas aconteceriam em dezembro. Vieram em janeiro e fevereiro e com índice de chuvas abaixo do esperado. Mesmo assim, o executivo não teme racionamento. As previsões da empresa são de que os reservatórios vão chegar ao nível de 60% — hoje estão em 34% no sistema Sudeste/Centro-Oeste. Mesmo com esse percentual, as térmicas teriam que ficar ligadas o ano inteiro, e isso aumentaria o risco de energia mais cara.

— O aumento do preço é o que realmente preocupa e nossas estimativas são de que o custo da energia para a empresa pode saltar de 40% a 80% em 2015, com o repasse das termelétricas. Se os reservatórios subirem a 60%, o fornecimento está garantido, mas as chuvas no final do ano terão que vir fortes para que a ameaça não se repita no ano que vem — explicou.

Esse é um dilema complicado para o governo. Se o subsídio for alto, será mais difícil cumprir o superávit primário. Se
decidir pagar apenas uma parte da conta, os preços da energia começarão a subir este ano.

Valle acredita que o país passará por mais períodos secos daqui para frente e que é preciso pensar em racionalização do uso da energia. Diz que há pouca legislação para o segmento comercial, como os supermercados, que utilizam freezers abertos, com alto consumo de energia e pouquíssima eficiência:

— No setor comercial, o que acontece não faz sentido. É preciso pensar em racionalização, porque o clima pode não ajudar daqui para frente. Nossa fábrica em Santa Catarina já teve que parar a produção porque o calor está intenso mesmo em lugares onde sempre foi mais fresco.

A exemplo do que acontece com o setor automobilístico, a indústria de eletrodomésticos está cautelosa em relação aos efeitos da Copa do Mundo sobre as vendas. A expectativa é que o segmento de televisão vai ganhar um impulso, mas isso pode reduzir a venda de outros aparelhos. Por isso, a expectativa é de que o setor fique estagnado este ano, depois de cair 4% em 2013.

As empresas estrangeiras temem também o aumento do dólar. A Whirlpool, que possui custos em moeda americana, como o preço do aço, estima que o dólar pode chegar a R$ 2,60 este ano. O lucro fica menor em dólares quando a nossa moeda perde valor, e isso reduz os dividendos enviados à matriz. Isso alimenta o mau humor dos estrangeiros em relação à economia brasileira.

O mercado de trabalho aquecido garante o crescimento da renda — e das vendas — mas também eleva o custo trabalhista das empresas. Armando Valle acredita que é preciso rever a fórmula de indexação do salário mínimo porque a inflação de serviços tem crescido acima da produtividade.

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