quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Política e economia dos protestos - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 13/02

Governo quer aproveitar o momento para "abafar" manifestantes mais violentos


AS MINORITÁRIAS manifestações de janeiro e fevereiro bastavam para causar algum estremecimento político mesmo antes da morte do cinegrafista Santiago Andrade.

Como é sabido, a confusão rediviva nas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro é de mau agouro para os governos, o de Dilma Rousseff em particular, que sofreu infarto e derrame de popularidade no trimestre mais intenso de protestos, de junho a agosto de 2013.

A investigação da morte de Santiago Andrade talvez cause outra reviravolta nas idas e nas vindas das manifestações, desta vez com tendência de baixa. O aumento da aversão pela violência, o recuo tático ou a debandada de alguns grupos mais violentos, o provável aumento da repressão policial e o fracasso de estima dos revolucionários rueiros podem atenuar o "risco rua" para políticos no poder.

Especulativo, decerto. Mas parece evidente, quando se conversa com gente do governo federal, que se vai aproveitar a oportunidade de encurralar os promotores mais ativos do tumulto. Na verdade, essa era a política do governo, mais comedida, desde setembro, pelo menos.

Do ponto de vista mais pragmático ou calculista do governo federal, o "risco rua" não é apenas imediatamente político-eleitoral, o de um repeteco de junho de 2013 a três ou quatro meses da eleição.

Há gente no governo que se preocupa com as reverberações econômicas ou financeiras de um tumulto grande, ou mesmo apenas de um país tomado por manifestações pacíficas, mas de bom tamanho.

Não é nada improvável que a manada internacional de financistas olhe com estranheza e mesmo repulsa para um país com uma "Primavera" em curso, sabe-se lá de que espécie e com qual futuro.

Não é preciso que se trate de nenhuma avaliação séria ou de algum sentimento duradouro sobre o Brasil. O humor já não está bom, tanto faz que o estado da economia brasileira não pareça tão mau quanto a cotação refletida nos índices de risco e das taxas de juros mais longas.

O fato é que a imagem do Brasil está em baixa, como é mais do que sabido. O país cresce pouco faz três anos, tem inflação desagradável faz meia década e deficit externo crescente de modo incômodo faz outro tanto. Os narizes financeiros costumam ficar ainda mais torcidos em anos de eleição. Caso se adicione tumulto às injúrias, a degradação financeira pode aumentar.

Injusto? É. Alarmista? Não. Os porta-vozes dos ditos mercados, "analistas" empregados pelos donos do dinheiro grosso, podem inventar modas e mitos que podem, por vezes, ser muito danosas. Basta lembrar quantas vezes Argentina, Brasil e México foram chamados ao palco para ganhar o título de "rainhas do baile", queridinhos do mercado. Um lustro depois, tais países voltavam a ser a "bola da vez", para ser chutada, tanto por culpa de políticas ineptas desses países como por causa de vandalismos dos "mercados".

Num ano de faniquitos da finança mundial, de baixo crescimento econômico no Brasil e de eleição, algumas manifestações ruidosas podem suscitar a ideia de que sejamos também "politicamente instáveis" ou qualquer outra justificativa dessas usadas em momentos de liquidação dos ativos financeiros de um país.

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