sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Nafta, fracasso de uma utopia - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA DE SP - 21/02

O livre-comércio pode ser um instrumento para acelerar o crescimento, mas nunca uma panaceia


Em janeiro de 1994 entrava em vigor, depois de anos de discussões políticas, um ambicioso tratado de livre-comércio entre os EUA, o Canadá e o México. Recebida com grande otimismo à época, principalmente na sociedade mexicana, essa experiência deveria levar a um processo de enriquecimento mútuo pelo canal do incremento comercial entre esses países.

Muitos observadores apontavam esse caminho como o mais natural para outras economias na América Latina, principalmente o Brasil. Criava-se uma grande utopia entre os defensores do liberalismo econômico como principal e mais eficiente via para trazer o progresso para as economias menos desenvolvidas.

O sucesso retumbante das nações mediterrâneas e da Irlanda no espaço comum europeu, naquele início da última década do século passado, reforçava as expectativas e as apostas para o Nafta (North American Free Trade Agreement).

Passados hoje 20 anos do início dessa experiência, os resultados mostram que o grande sucesso obtido inicialmente no comércio na região não resistiu ao passar do tempo e às mudanças institucionais que ocorrem inexoravelmente em um mundo complexo como o que vivemos. Por isso amarras institucionais muito rígidas, em acordos como o Nafta, acabam por se transformar em elementos de desestabilização e de decepções.

Por exemplo, o aparecimento da China, como o grande parceiro industrial dos Estados Unidos nos anos seguintes, ofuscou o dinamismo inicial e a experiência foi perdendo progressivamente a força que seus criadores previam ser perene.

Neste início de 2014, o comér- cio dentro do Nafta voltou ao mesmo patamar que existia antes de 1994. As transações entre seus três membros representam os mesmos 40% de seu comércio total, como era em 1994.

Para o leitor ter uma ideia, no caso da União Europeia esse valor é superior a 60%. Por outro lado, os resultados do acordo, como indutor do desenvolvimento no Mé- xico, também apontam para um grande fracasso. A relação entre o PIB per capita do México e dos Estados Unidos é hoje a mesma que existia em 1994.

Tratando essa experiência --que se esperava revolucionária--, o jornal inglês "Financial Times" descreve os resultados medíocres em uma manchete que traz o tradicional humor inglês em sua essência: "México e Nafta aos 20 anos: o que deu errado para um dos Três Amigos'"?

Nós, brasileiros, também vivemos esse período em que acordos de livre-comércio, como o Nafta, eram apresentados como panaceia para os países emergentes, em busca de um status mais avançado de desenvolvimento. Durante muito tempo fomos assediados pelos norte-americanos para assinar um grande acordo regional com a grande democracia do norte do continente.

Hoje esse sonho foi deixado de lado por falta de entusiastas e porque a política externa dos governos do PT tem outras prioridades geopolíticas. Mas mergulhamos de cabeça --e coração-- na utopia do Mercosul como uma verdadeira zona de livre-comércio.

Felizmente, as regras e as amarras criadas no Mercosul refletiam --e refletem-- muito mais o espíri- to macunaímico latino do que a dureza do espírito anglo-saxão --ou germânico-- do Nafta e da União Europeia. O Mercosul é hoje um amontoado de regras não cumpridas e em acelerado processo de decadência.

Sempre fui cético em relação à criação de zonas muito amplas e complexas de livre-comércio por uma razão muito simples: países e regiões são organismos que sofrem mudanças muito complexas ao longo do tempo, e arranjos rígidos como o Nafta e a União Europeia não conseguem se adaptar a elas com a velocidade necessária para evitar tensões deletérias em sua estrutura funcional.

Dentro da minha opção mais realista sobre as economias de mercado, prefiro os acordos bilaterais, e mesmo assim com portas de saída bem definidas em caso de necessidade.

O livre-comércio entre países, com regras realistas e funcionais, pode ser um instrumento a mais para acelerar o crescimento, mas nunca uma panaceia.

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