sexta-feira, outubro 04, 2013

O ano de 2013 e a economia - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA DE SP - 04/10

Restrições no Brasil são como freio de mão, que torna estímulos ao consumo em calor e inflação


Entramos no último quarto do ano de 2013 com a fotografia da economia brasileira e mundial quase que no seu desenho final. Dificilmente os próximos meses trarão grandes mudanças, embora surpresas como a derrota humilhante de Silvio Berlusconi no Congresso italiano ainda possam ocorrer.

Mesmo a batalha campal na Câmara dos Representantes do povo americano não deve trazer surpresas pela razão simples e cristalina de que, como nas outras vezes, no fim tudo vai acabar em pizza. Passada essa pequena tempestade, a economia americana deve continuar em sua trajetória de recuperação. Os dados mais recentes sobre emprego e produção industrial apontam nessa direção.

Política pode ser também uma ópera-bufa e cabe ao analista separar a espuma do conteúdo e considerar apenas os fatores que realmente comandam a dinâmica da economia. E nos Estados Unidos a retomada se dá sustentada por fatores estruturais importantes, como a inflação sob controle, uma redução vigorosa do deficit fiscal e, principalmente, uma revolução industrial gerada pela descoberta de uma nova fronteira energética.

Estimulado por esses fatores --e mais a política monetária do Fed (BC dos EUA)--, o velho espírito animal do capitalismo americano deve ressurgir, após cinco anos de crise, e criar as condições para um novo período de crescimento sustentado na maior economia do mundo.

Do outro lado do globo terrestre, a economia da China, hoje sob nova direção, mostra sinais evidentes de retomada depois de um período de incertezas gerado pela transição do poder político. Os novos líderes do país já dão mostras de ter controle absoluto das rédeas do governo e de que vão seguir o pensamento central estratégico da nova revolução chinesa: "Reformar a economia para manter o poder do Partido Comunista".

O melhor sinal disso é a decisão recente de dar continuidade ao projeto de replicar em Xangai as regras capitalistas de Hong Kong. A região em torno da maior e mais dinâmica cidade chinesa vai trabalhar, de agora em diante, com as regras da mais capitalista das cidades asiáticas que é a antiga colônia britânica e que voltou ao controle chinês na virada do século.

Certamente vamos entrar no ano novo com a segunda maior economia global em velocidade de cruzeiro, que parece ser hoje 7% ao ano.

Outro bloco relevante para a economia do mundo --a Europa Unida-- também deve entrar em 2014 com uma dinâmica de crescimento mais clara. A recessão terrível dos últimos anos deve ficar para trás, mas a dificuldade maior continuará a ser a tensão gerada pela diferença entre o crescimento dos vários países do bloco. A origem desse problema, que é estrutural, agravou-se ainda mais nos últimos anos.

Voltamos ao eterno drama europeu, em que a superior eficiência alemã na economia --que tem sua origem no comportamento particular de seus cidadãos-- acaba por gerar dificuldades em países com menor disciplina individual de seus cidadãos. Os anos recentes mostraram que, no arcabouço institucional da moeda única, esse comportamento, que já existiu antes das duas grandes guerras mundiais, ficou ainda mais deletério.

Não por outra razão é que a economia com recuperação mais forte na região é a do Reino Unido, que manteve sua moeda.

Mas para 2014 o que deve prevalecer na Europa é uma variação positiva de mais de 1% na taxa de crescimento de seu PIB agregado e, por isso, um estímulo a mais para a economia mundial.

Finalmente, na economia brasileira, os dados já conhecidos até o mês de setembro mostram uma desaceleração ampla em vários setores e a convergência para um crescimento de 2,5% ao ano.

As restrições que pesam sobre a economia --nos níveis micro e macro-- funcionam como um freio de mão puxado e que transforma a maior parte dos estímulos ao consumo, criados pelo governo, em calor e inflação. Com isso, a indústria derrapa e o consumo cresce a taxas menores do que a metade do crescimento que tivemos até 2011.

Apenas um programa de ajustes e reformas estruturais por vários anos pode reverter esse quadro. Mas isso fica para depois...

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