quinta-feira, setembro 05, 2013

Planos & atropelos - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 05/09

Interessados em oferecer apenas o voto aberto em termos de cassação de mandatos, os senadores foram atropelados pela realidade. Agora, a ordem é o fim do voto secreto em todas as situações


Os congressistas às vezes pensam que o eleitor é bobo. E muitas vezes em que tentam jogar com a esperteza, terminam atropelados pelos fatos. A PEC do voto aberto é o maior exemplo. Alcançou a unanimidade, uma raridade que só mesmo uma moção de apoio ao papa Francisco poderia conseguir e ainda assim há quem duvide dessa possibilidade. Menos de 24 horas depois, lá estava a proposta de promulgar apenas a parte relativa à apreciação de casos de cassação de mandato. Assim, os congressistas dão uma resposta ao eleitor antes do 7 de Setembro e o resto que... se dane.

Ocorre que não é bem assim que a banda toca. No momento em que a Câmara aprovou o voto aberto para tudo e para todos, o eleitor ficou com gosto de transparência geral na boca. Quer agora o voto aberto em todas as situações e não pretende recuar. Nem mesmo os argumentos de que o governo pode conseguir manter os vetos presidenciais, no caso de uma votação aberta, parece fazer efeito.

Aliás, para o governo, essa tese do voto aberto para vetos presidenciais é um perigo. Já tem senador do PT dizendo que, se o voto aberto para os vetos presidenciais for aprovado, o governo que se prepare para uma temporada de dificuldades muito maiores do que aquelas enfrentadas hoje no Congresso. Afinal, como é que você, leitor, acha que o deputado vai votar na hora de apreciar o fim do fator previdenciário no período pré-eleitoral que vem por aí? Com os desejos de Dilma Rousseff e suas razões de caixa da União, ou com o desejo daqueles que podem reconduzir o deputado ou o senador ao Congresso? Obviamente, com o eleitor. Ou seja, a história do toma-lá-dá-cá não se sustenta muito. Como dizia ontem o senador Valter Pinheiro (PT-BA), “PEC salame parece coisa de padaria, com todo respeito à padaria”. A bola agora está nas mãos de Renan Calheiros.

Enquanto isso, na CPI...
Os senadores se reúnem na semana que vem para ver como tocar a CPI da Espionagem. O problema é que a maioria acha que o caminho para tratar do tema deve ser os fóruns internacionais e não uma comissão parlamentar de inquérito. Ontem, pode até ter parecido brincadeira o comentário que fiz aqui sobre convocar Barack Obama ou os arapongas da CIA, mas é sério. Espionagem não é um problema restrito ao Brasil. Deve ser discutido em comissões técnicas do Parlamento brasileiro, no parlamento dos Estados Unidos, nos BRICS (Brasil, Rússia, índia, China e África do Sul), na Organização das Nações Unidas, no Parlamento Europeu, na Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Organização dos Estados Americanos (OEA), enfim, em todas as instituições internacionais que tenham algum poder de auxiliar no sentido de restabelecer a confiança entre governo e povos. Caso contrário, vamos passar pelo vexame de ver as autoridades internacionais mandando os mais sinceros pedidos de desculpas pela ausência com o bordão “nothing to declare” (nada a declarar). A CPI, pelo visto, já foi atropelada pelos fatos antes mesmo de começar.

E em São Paulo...
A novela sobre o destino do ex-governador de São Paulo, José Serra, está perto do fim. Há quem diga que o prazo final da resposta dele ao PPS é a véspera do Dia da Pátria. E está pintando um atropelo de planos aí, uma vez que a maioria dos deputados do PSDB de São Paulo já avisou a Serra que ficará no partido. Mas essa é outra história.

E o Sete de Setembro, hein?
Quem se lembra da posse de Lula em seu primeiro mandato e da primeira festa de Sete de Setembro de seu governo não vai acreditar nos tapumes colocados no meio da Esplanada dos Ministérios. O gramado central foi todo fechado, como forma de evitar que o povo tenha uma vista privilegiada do palanque presidencial. Jamais poderia imaginar ver um governo petista afastando a população de suas autoridades. Vivemos, realmente, tempos muito estranhos. Mas essa é outra história.

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