sábado, setembro 28, 2013

Os mísseis do Corcovado - ALBERTO DINES

GAZETA DO POVO - 28/09

Concebido como monumento católico, transformado em símbolo da hospitalidade brasileira, a estátua do Cristo Redentor no Morro do Corcovado, no Rio, converteu-se, oito décadas depois de inaugurada, em representação balística da maldição do país do futuro.

Em 2009, na capa do semanário britânico The Economist, a estátua estava acoplada a um foguete que subia com toda a força. Na capa desta sexta-feira, apenas quatro anos depois, o mesmo míssil, agora desarvorado, parece embicar rumo ao solo.

Os dados em que se basearam as duas reportagens são majoritariamente econômicos, numéricos, difíceis de contestar. Porém, a indagação na capa mais recente – “O Brasil estragou tudo?” – agrega fatores políticos ao lembrar as manifestações de junho, os desacertos na administração pública, a corrupção e a falta de apetite para uma reforma política.

Pergunta penosa, inconfortável, terrivelmente injusta: quem é este Brasil genérico, impessoal e visivelmente incompetente que desperdiça tantos saltos e deixa escapar tantas oportunidades? Este Brasil colocado na berlinda é o governo, sua base política, a oposição, suas elites e inclusive sua mídia? Este Brasil é o seu povo ou sua sociedade, sua esquerda ou sua direita, os crentes ou seus descrentes? É o país das milícias ou das UPPs? É criação nossa ou dos Shakespeares que a cada seis meses nos reinventam na telenovela das nove?

O nascimento, num passe de mágica, de dois novos partidos políticos (o Pros e o Solidariedade) enquanto a Rede Sustentabilidade de Marina Silva fica penando na fila é obra deste Brasil que está pondo tudo a perder?

Aquele país que decola do alto do Corcovado é o mesmo cujo motor está rateando e parece apontado para a sua plataforma de lançamento? E se forem apenas homônimos? Quem é quem?

Caricaturas – mesmo virtuais – são desprovidas de sutilezas. Charges não devem ser tomadas ao pé da letra, valem pelas impressões que despertam. E a impressão que se tem do Brasil hoje é a mesma de outrora: gigante adormecido. Talvez ensimesmado, ruminando maneiras de soltar-se no grande pulo à frente. Ou desligado.

As capas da Economist querem dizer que estamos marcando passo. Apenas isso. E para chegar a essa conclusão não é necessário deslocar-se até Londres; nós mesmos, aqui, abaixo do Equador, temos condições de perceber que a fase não é boa. Há uma mesmice pastosa no ar que absorve os movimentos, neutraliza trepidações, amarra ímpetos e deixa tudo como está.

A solução, por ora, talvez seja deixar de comprar a Economist.

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