sexta-feira, setembro 27, 2013

Clichês estúpidos nunca morrem - BARBARA GANCIA

FOLHA DE SP - 27/09

Devia ter dito que leis como a Maria da Penha têm um componente simbólico, que servem para fazer refletir


Muitas vezes, a sina do jornalista parece como a do professor: somos condenados a repetir a mesma matéria ano após ano.

Já estou além do estágio de quebrar a cabeça com a enésima reportagem "diferenciada" sobre o Dia das Mães, mas vira e mexe esbarro no chato de galocha que vem com aquela pergunta que nunca cala.

Nesta semana, ele surgiu no meio de uma entrevista com a Maria da Penha que deu nome à lei que protege contra agressão as mulheres. Veio na forma de um e-mail assinado Anacir e fazia a seguinte pergunta: "A mulher quer direitos iguais, não? Então por que exige uma lei só para ela?"

Recuperada da ânsia de golfar as sobras do almoço sobre o equipamento de última geração da BandNews FM, passei a mão no microfone e soltei aquela fera que reside no fundo do âmago de meu ser íntimo e que costumo atirar sobre quem me faz as seguintes perguntas:

"Por que não existe uma camiseta 100% branco?'"; "Por que direitos humanos servem só aos bandidos?" e "Por que dar terra para índio, que é preguiçoso e pinguço?"

Veja bem. Também acho um exercício de futilidade absoluta continuar a produzir lei ante lei ante lei se nem mesmo as que temos são colocadas em prática. Mas algumas delas, como a lei da Ficha Limpa, a Afonso Arinos e a Maria da Penha, carregam um componente simbólico, servem de bandeira.

Leis que protegem minorias estão aí, entre outros, para fazer a sociedade refletir, movimento que o sr. Anacir mostra-se incapaz de colocar em prática.

Se olhasse à sua volta, quem sabe ele enxergaria que vive em uma sociedade especialmente injusta. Somos o sétimo país em homicídios de mulheres no planeta. E olha que existem bem mais do que sete países com leis obrigando a mulherada a usar burcas ou véus --vá lá que muitas delas acreditam estar fazendo isso de forma voluntária sem se dar conta da objetificação a que são submetidas.

Sobre os índios, talvez seja necessário explicar ao sr. Anacir que proteger culturas diferentes da sua significa preservar a identidade e a biodiversidade e que preservar parques nacionais deveria ser uma questão de dignidade. Já pensou se o norte-americano resolvesse deixar estrangeiros fuçar o solo do Grand Canyon atrás de petróleo?

Pressuponho que o sr. Anacir ache que falar de direitos iguais das mulheres seja empáfia da nossa parte. Pois essa convicção costuma andar de mãos dadas com outra, a de que direitos humanos não passam de uma extravagância quando aplicada aos jovens do sexo masculino que vivem amontoados nas nossas detenções, na maioria negros, mulatos e pardos, de baixas renda e escolaridade e criados em família monoparental (só pela mãe).

Talvez o sr. Anacir imagine que eles tenham acesso aos mesmos advogados do pessoal do mensalão. Sei não, mas algo me diz que eles não se beneficiam de tipo nenhum de justiça. E que quanto menos direitos tiverem, mais improdutivo e fracassado será o nosso futuro.

Na entrevista com Maria Penha, aprendi que os homicídios não diminuíram nos sete anos da prática da lei. Sem a criação de juizados e centros de referência, cumprimento efetivo de penas e aquelas coisas todas que a gente já sabe, nada irá mudar. E mudará menos ainda enquanto batráquios como o sr. Anacir, que deveria pertencer à parcela mais esclarecida, continuar com esse tipo de pergunta beócia. Ou se insistir na fixação de que a distribuição de Bolsa Família não passa de um mero instrumento eleitoral. Ora, vá se informar, Anacir!

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