sexta-feira, abril 26, 2013

Sinal amarelo - RODOLFO LANDIM

FOLHA DE SP - 26/04

O Brasil vem procurando segurar seu crescimento via expansão do consumo, mas essa estratégia tem limites


Na década passada, vivemos no Brasil um período dourado depois de algumas décadas em que passamos por grandes dificuldades e vimos o país perder importância no cenário internacional.

Com as instituições democráticas restauradas, as contas públicas em dia e uma ambiência mundial extremamente favorável, fomos incluídos entre os Brics, países com grandes mercados e que seriam as grandes promessas de crescimento em um mundo cuja economia parecia que iria permanecer em franca expansão por muitos anos.

Contribuiu também a escassez de boas opções de investimento no exterior, o que permitiu a atração de capital a custos historicamente muito baixos.

Por alguns anos, a disposição dos agentes privados para investir no país foi muito grande, e projetos, notadamente nas áreas de infraestrutura, habitação e no setor primário, atraíram um notável fluxo de investimentos para o Brasil.

A própria crise mundial ocorrida em meados de 2008, que praticamente congelou o crescimento da economia europeia e americana, parecia mesmo ser uma "marola" para nós. Em 2010, tivemos um crescimento econômico acima de 7%.

Tudo isso trouxe uma série de benefícios como praticamente pleno emprego, aumento de renda per capita e crescimento do consumo.

Mas nem tudo foram flores. As dificuldades para empreender no Brasil foram crescendo e se tornando cada vez mais evidentes.

A falta de mão de obra qualificada, as inúmeras exigências burocráticas, passando pelos intermináveis e por vezes incalculáveis custos de licenciamento ambiental, chegando até a restrições absurdas como a necessidade de pesquisa arqueológica prévia na base das torres de linhas de transmissão, tudo isso, associado ao já conhecido "custo Brasil", trouxe resultados adversos.

A realidade é que muita gente que investiu perdeu dinheiro. Os exemplos são vários e passam pelo setor elétrico, pela indústria de óleo e gás, pela siderurgia, pela mineração e pela agropecuária, entre outros.

A regra, e não a exceção, foi termos projetos muito mais caros e demorados do que os mais conservadores orçamentos indicavam.

A análise das tendências de indicadores reflete a clara reversão de expectativa ao mesmo tempo em que influencia o processo de decisão sobre investimentos.

Se observarmos o comportamento do Ibovespa nos últimos cinco anos, tomando como ponto de partida os meses pré-crise de 2008, veremos um rápido retorno aos patamares iniciais em 2010 e desde então um gradual declínio com perdas acumuladas em torno de 20%.

Só para efeito de comparação, mesmo com uma recuperação mais suave, porém embasada no lento recrudescimento da economia americana, os indicadores da Bolsa de Valores americana já se encontram acima do momento pré-crise.

O Brasil vem procurando segurar seu crescimento por meio da expansão do consumo, mas a adoção dessa estratégia tem limites. A hora parece ser a de procurar novamente convencer a todos de que o país é um bom lugar para investir. Mas algumas coisas têm atrapalhado.

Mesmo em tempos de recuperação mundial, em que o capital tem fugido do risco e o investimento em "utilities" é muito valorizado pela sua previsibilidade de receita, o desempenho dessas companhias em nosso mercado de capitais vem sendo sofrível.

Os movimentos recentes de revisão tarifária na área elétrica, em que ocorreram questionamentos sobre o valor justo de indenização sobre os investimentos realizados pelas concessionárias na vigência dos contratos, geram incertezas que certamente afetarão o interesse em novas concessões.

E, apesar da grande conquista que foi a queda de juros reais no país, o momento não parece ser o de podermos nos dar ao luxo de limitar em patamares muito baixos o retorno de capital em futuras concessões.

Os tempos mudaram e temos que nos adaptar a eles. Precisamos montar uma agenda de desburocratização, criar novos estímulos tirando o peso fiscal sobre os investimentos, pensar seriamente em incentivos à imigração de mão de obra qualificada para cá e gerar novamente um ambiente de confiança aos investidores.

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