sábado, março 16, 2013

O pecado de Bergoglio - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA

CORREIO BRAZILIENSE - 16/03
Já contei aqui que, certa vez, engrossei uma vaia a dom Hélder Câmara, em 1981, no Recife. Nesse dia, em ato público na Universidade Católica de Pernambuco, ele discursava sobre o iminente fim da ditadura no Brasil e alertava os estudantes para os riscos de ações extremistas ou provocações que levassem a um possível retrocesso político. Até então, dom Hélder era um ídolo para mim. Mas, naquele momento, eu me decepcionara.

À época, bobo de galocha e massa de manobra de esquerdistas equivocados, eu pensava o contrário do arcebispo: era preciso aumentar a pressão e lutar com todas as armas para que o regime totalitário terminasse ainda mais depressa. Só muito tempo depois me dei conta do tamanho da injustiça que cometera contra o religioso. Coragem, de verdade, quem tinha era ele, que saía à rua desarmado, de peito aberto, a desafiar os tiranos de plantão.

Foi quando acordei para a verdadeira revolução à qual se propunham e lideravam nomes como Gandhi, Martin Luther King, Hélder. Todos eles defendiam a justiça social, a fraternidade e a igualdade, mas sem a eliminação daqueles que pensam o contrário. Se preciso, Hélder - mesmo fazendo a correta opção pelos mais desvalidos e tomando claras posições políticas sempre que necessário - daria uma hóstia para o mais injustiçado dos seres humanos e outra para o mais opressor. Assim manda o Evangelho que decidiu seguir. Se assim não procedesse, não estaria professando a palavra do Deus em que acredita. E, em vez da Igreja Católica, deveria procurar um partido político...

Todo esse preâmbulo vem a respeito das acusações de que o então cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, hoje o novo papa, teria colaborado com a ditadura argentina ou, no mínimo, sido omisso na defesa de dois padres jesuítas. Contra ele, é bom que se diga, não há uma única prova. Pelo contrário, a seu favor, há o testemunho de uma pessoa até hoje tida como acima de qualquer suspeita: o argentino Adolfo Perez Esquivel, ganhador do prêmio Nobel da Paz.

Conta Esquivel que havia, sim, integrantes da Igreja Católica colaboradores da ditadura no país vizinho. Mas ele afirma não ser o caso de Bergoglio, que teria intercedido a favor de vários perseguidos políticos. O fato é que, mesmo sem provas de que ajudou os carrascos da mais sangrenta tirania latino-americana, as denúncias contra ele devem se avolumar. Principalmente pelo "pecado" de haver sido um severo crítico do governo de Cristina Kirchner. A sagração dele como papa, noticiaram jornais portenhos, foi muito mal recebida pela chefe da Casa Rosada. E o principal acusador de Bergoglio é justamente um ex-motonero e atual kirchnerista.

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