terça-feira, março 26, 2013

O fator Chipre - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 26/03

O plano de resgate de Chipre, revelado na madrugada de segunda-feira, tem importantes consequências para a economia mundial.

Uma delas é que, pelo menos na Europa, acaba de ser rejeitado o princípio de que banco não pode quebrar por ser grande demais (too big to fail).

Esse princípio de qualidade duvidosa havia sido restabelecido em setembro de 2008, quando as autoridades dos Estados Unidos decretaram a falência do Lehman Brothers, que nem grande era. Tratava-se do quinto banco de investimentos (nem era banco comercial) do país. Seu fechamento gerou ondas de pânico pelo mundo. A partir de então, as autoridades se apressaram a socorrer quaisquer outras instituições financeiras ameaçadas.

A solução para Chipre garante só os depósitos até 100 mil euros - cujo seguro não havia sido respeitado na primeira versão do plano, rejeitada pelo Parlamento. O Banco Popular, segundo maior do país, foi fechado. Seus maiores correntistas apenas receberão o dinheiro quando os ativos (empréstimos e aplicações) voltarem, no vencimento dos contratos. O mais irônico é que boa volume desses ativos é título da Grécia que as próprias autoridades europeias submeteram a cortes unilaterais (haircuts).

A outra instituição na corda bamba, o Banco de Chipre, vai ser resgatada. Mas os correntistas com mais de 100 mil euros em depósitos e aplicações serão obrigados a converter boa parte dos seus direitos em ações do banco e não têm prazo para resgatar a outra parte.

O sistema bancário cipriota remanescente está agora submetido a grande leva de saques. O mais grave talvez não seja essa corrida, mas o estrago produzido pela perda de confiança. Mesmo que o sistema bancário de Chipre permaneça de pé, durante anos não receberá depósitos.

Mas a consequência mais importante deverá ser o que ocorrerá no sistema bancário da Europa. O cristal trincou em toda a área do euro. Banco europeu suspeito de fragilidade provavelmente sofrerá de temporada de retiradas ou de queda de novos depósitos. É o que explica as ações dos bancos caírem nesta segunda-feira nas bolsas, sobretudo na Espanha, na Itália, na França e em Portugal. A contrapartida é a revoada de recursos para economias e sistemas bancários considerados sadios.

As autoridades do euro estão impondo reforço de capital aos bancos mais frágeis. Como não está claro que bancos são esses e qual o tamanho dessa fragilidade, mais um ponto de incerteza se acrescenta ao quadro geral já incerto.

Em outras palavras, os dirigentes agiram de maneira a restabelecer um nível mínimo de risco moral (moral hazard), que castiga não somente bancos mal administrados, mas também aplicadores pouco cautelosos nas suas aplicações.

A situação só chegou a esse estágio porque as próprias autoridades deixaram que as dívidas nacionais alcançassem esse patamar e que segmentos importantes do sistema bancário atuassem ou como paraísos fiscais ou como administradores irresponsáveis de recursos de terceiros.

CONFIRA

Modelo. As perdas de valor dos bancos nas bolsas se acentuaram nesta segunda-feira depois que o presidente do grupo do euro, Jeroen Dijsselbloem, declarou para o diário Financial Times que o plano de salvação de Chipre servirá de modelo para outros casos. Depois, o holandês contemporizou. Queixou-se de que foi mal interpretado e que só quis dizer que os problemas bancários deverão ser resolvidos no seu começo, não depois.

Precedente. As explicações de Dijsselbloem produziram algum alívio. No entanto, mesmo que ele não assuma tudo o que falou, a solução será inevitavelmente entendida como precedente para eventuais soluções para novos casos semelhantes.

Será por aí. Outras autoridades, inclusive a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, advertiram que, daqui para a frente, as lambanças dos bancos terão de ser resolvidas pelos próprios bancos ou por seus correntistas, não com mais dinheiro do contribuinte.


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