quarta-feira, dezembro 05, 2012

Retaliação israelense ajuda os radicais - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 05/12


Construção de casas para colonos entre Jerusalém e Maale Adumim dividiria a Cisjordânia em duas e enfraqueceria ainda mais o futuro Estado



Como ameaçara, Israel retaliou duramente a decisão da ANP de apresentar à Assembleia Geral da ONU uma moção elevando seu status para Estado observador, aprovada por 138 votos, com 41 abstenções e nove contra. O premier Benjamin Netanyahu mandou acelerar a construção de assentamentos judaicos em territórios ocupados e reter o repasse de US$ 100 milhões em impostos à ANP (Israel ficara encarregado de recolhê-los pelos acordos de Oslo, de 1995).

A iniciativa israelense provocou resposta áspera de países europeus, como Reino Unido, França, Espanha, Suécia e Dinamarca, que convocaram os respectivos embaixadores do Estado judeu a suas chancelarias para explicações. Nada parece abalar Israel, que rejeitou as críticas e continuou com as atividades, dentro da prática habitual da região do “bateu, levou”. Nada de sensatez. A aprovação da proposta palestina na Assembleia Geral foi esmagadora, o que aumentou o isolamento israelense, apoiado apenas por EUA, Canadá e sete outras nações de menor expressão. Mas mesmos os EUA reprovaram a retomada dos assentamentos.

A punição da ANP faz menos sentido ainda quando se considera que seu presidente, Mahmoud Abbas, é o único interlocutor reconhecido, até pelo Estado judeu, como credenciado para negociar o status futuro do povo palestino. Enfraquecê-lo equivale a fortalecer o movimento radical palestino Hamas, que se tornou dono da Faixa de Gaza depois de vencer uma eleição e expulsar de lá a ANP, hoje restrita à Cisjordânia. Enquanto Abbas reconhece o direito à existência de Israel, o objetivo do Hamas continua sendo destruí-lo.

A reação europeia e americana se explica pelo fato de Netanyahu ter ordenado a construção de novas casas na área E1, entre Jerusalém e o assentamento de Maale Adumim, o que seria um golpe fatal para a solução “dois povos, dois estados”. A colonização ali praticamente dividiria a Cisjordânia em duas, inviabilizando um Estado palestino contínuo. Além disso, cortaria a ligação com Jerusalém Oriental, reclamada pelos palestinos como sua futura capital. Netanyahu age de olho nas eleições de 22 de janeiro, em que é favorito.

Bateu, levou. A ANP respondeu na mesma moeda. Enviou carta à ONU afirmando que, ao expandir a colonização, Israel comete “crime de guerra”. A expressão acende o sinal amarelo no Estado judeu: é uma velada ameaça de Abbas de recorrer ao Tribunal Penal Internacional, algo a que agora tem direito em sua nova condição de estado observador.

É a lógica dos falcões. O máximo que se consegue, com ela, é um cessar-fogo, depois de muitas mortes. Legítimas negociações do contencioso israelense-palestino só parecem possíveis com muita pressão internacional e a decisão dos respectivos líderes de trocarem visões de curto prazo por um compromisso com a História — algo ainda muito difícil.

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