domingo, dezembro 09, 2012

A guerra sem batalhas - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 09/12


Muito melhor do que enfrentar o inimigo no campo de batalha é solapar o moral de seus soldados


Falei aqui de uma China que, em pleno século 18, se julgava um império celestial, centro do mundo civilizado, e que considerava todos os demais povos como bárbaros. Isso está no livro de Henry Kissinger "Sobre a China". Mas se você continua lendo-o, tem outras surpresas, como se verá.

A civilização chinesa, diferentemente da ocidental, não criou uma religião que prometesse a salvação da humanidade, nem acreditava em vida após a morte. Guiou-se fundamentalmente pelo pensamento de um filósofo chamado Confúcio, cuja sabedoria estava voltada para a solução de problemas do mundo real.

Confúcio ensinava que o fundamental para cada um é conhecer seu lugar e buscar uma harmonia superior. Nesse sentido, o imperador era concebido como um soberano supremo da raça humana, a ligação entre o céu, a Terra e a humanidade. Se se desviasse do caminho da virtude, o mundo se tornaria um caos.

Dá, assim, para imaginar a responsabilidade que pesava sobre seus ombros. Por isso mesmo, o protocolo insistia no reconhecimento de sua condição soberana no

"kowtow" -um ato de completa prostração, a que todos estavam obrigados diante dele, tocando o chão três vezes com as costas, a cada reverência.

Essa mescla, que une a divinização do imperador e do próprio reino chinês a uma compreensão prática da vida e da política, é uma das surpreendentes originalidades da China. Tal visão pragmática decorre dos ensinamentos de Confúcio, que ajudaram a formar uma espécie de sacerdócio de funcionários -eruditos, selecionados por meio de exames realizados em todo o país e encarregados de manter a harmonia nos outros domínios do imperador.

Essa elite administrativa desenvolveu uma visão política que norteava as decisões do governo em face das questões que surgiam com os que lhe invadiam o território.

Em vez de tentar derrotar e submeter aqueles "bárbaros", tratava de dividi-los, e se aproveitava dessa divisão para jogá-los uns contra os outros. "Favorecemos um lado ou outro e deixemos que lutem entre si", escreveu um funcionário da dinastia Ming.

Como observa Kissinger, em raras ocasiões os estadistas chineses arriscaram o resultado de um conflito em uma única batalha de tudo ou nada. O seu estilo, pelo contrário, era usar de elaboradas manobras de longa duração. Não é por acaso que o jogo mais antigo da China é o "wei qi", que implica submeter o adversário a um cerco estratégico. Múltiplas batalhas são disputadas simultaneamente em diferentes pontos do tabuleiro. No final do jogo, o tabuleiro está repleto de domínios estratégicos parcialmente interligados e o vencedor nem sempre é fácil de identificar. É o contrário do jogo de xadrez jogado no ocidente, em que a vitória é total e óbvia.

A finalidade do jogo, aqui, é o xeque-mate. Disso resulta que, se o xadrez é uma batalha decisiva, o "wei qi" é uma campanha prolongada. Se o jogo de xadrez visa à vitória total, o "wei qi" busca a vantagem relativa. O jogador de "wei qi" precisa avaliar não só as pedras que estão no tabuleiro, como também os reforços que o adversário está em condições de mobilizar. É um jogo que ensina a arte do cerco estratégico, e nisso se assemelha à teoria militar chinesa, que igualmente busca a vantagem psicológica e procura evitar o conflito direto, como ensina o célebre tratado "A Arte da Guerra", de Sun Tzu, escrito há mais de 2.000 anos.

Conforme observa Kissinger, o que distingue essa teoria militar da teoria ocidental é a ênfase nos elementos psicológicos e políticos, em vez dos puramente militares. Os estrategistas ocidentais testam suas convicções pelas vitórias nas batalhas, enquanto Sun Tzu as testa pelas vitórias em que as batalhas não foram necessárias.

Sun Tzu pergunta em que o estadista deve se mostrar prudente, e responde que a vitória não é simplesmente o triunfo das armas e, sim, a realização dos objetivos políticos que o conflito militar pretendia assegurar.

Por isso, muito melhor do que enfrentar o inimigo no campo de batalha é solapar o moral de seus soldados. No fundo, a estratégia militar, segundo ele, resolve-se em uma disputa psicológica. A suprema vitória consiste em vencer o inimigo sem travar qualquer combate.

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