sexta-feira, novembro 16, 2012

Privatizar a indignação com o lixo na rua - LEÃO SERVA

FOLHA DE SP - 16/11


Campanhas eleitorais seguem ignorando o lixo jogado nas ruas. Tóquio também era suja nos anos 50, antes de ganhar o direito de organizar uma Olimpíada


O Brasil está perdendo uma grande oportunidade de mudar os hábitos de civilidade da população com relação à limpeza urbana.

Ao preparar a organização de dois grandes eventos esportivos, nosso país poderia reproduzir o que aconteceu antes com cidades que se tornaram exemplos de asseio. Mas o tempo passa e pouco se fala de sujeira das ruas. Quando o assunto aparece, é como crítica a governos. Melhor seria privatizar a indignação: quem joga lixo na rua são pessoas, que repassam à sociedade a conta de seus maus hábitos.

Nos últimos meses, as campanhas eleitorais para prefeitos ignoraram a questão. E assim seguimos nos preparando para receber milhões de turistas de todo o planeta com ruas e calçadas sujas pelo mau hábito de jogar detritos.

O ano de 2014 passará para a história do Brasil como ano da realização da Copa do Mundo de Futebol e também do inicio da vigência da Lei de Resíduos Sólidos, que altera a forma como as cidades vão processar seus detritos. Dois anos depois, será realizada a primeira Olimpíada da América do Sul, no Rio de Janeiro. A conjunção dessas três ótimas oportunidades deveria fazer a sociedade estudar formas de melhorar o trato de seus detritos.

Nos anos 1950, quando o Japão conquistou o direito de organizar uma Olimpíada, a limpeza não era típica de Tóquio, como se tornou a ponto de hoje parecer característica eterna da cultura nipônica.

A capital oriental sentia as consequências da sujeira das vias públicas, inclusive com enchentes atribuídas ao entupimento de bueiros e da rede de drenagem por conta de detritos. Tudo muito parecido com as cidades brasileiras, como Brasília, São Paulo, Porto Alegre, Natal, Manaus, Belo Horizonte, que vão receber jogos da Copa, ou com o Rio de Janeiro, sede da Olimpíada.

A mudança cultural entre os japoneses aconteceu nos anos que antecederam a olimpíada e uma grande campanha de conscientização foi feita para que a população alterasse seus hábitos quanto ao descarte de detritos. Seul e Pequim fizeram o mesmo mais recentemente.

A experiência do oriente mostra que é possível melhorar o jeito como o brasileiro lida com o lixo. E isso seria fundamental para os jogos serem motivo de pleno orgulho. Além de uma oportunidade de que a mudança de comportamento beneficie a cultura do país dali para a frente.

Mas a julgar pelo silêncio até agora, já a um ano da Copa das Confederações, é provável que estejamos plantando sementes do fracasso.

A população brasileira tem consciência do problema. Pesquisas mostram que a população de São Paulo atribui à falta de higiene da população a maior causa das enchentes. É provável que o mesmo ocorra aos brasileiros de todos os cantos. Essa convicção sugere ser possível, com um esforço talvez não tão grande, interromper o ciclo vicioso da sujeira.

O trabalho de mudança de hábito exige campanhas de educação envolvendo todos, poder público, empresas de limpeza pública, sindicatos patronais e de trabalhadores no asseio e todos os setores da sociedade, pois é preciso que participem os que limpam e os que sujam.

Já que perdemos a chance de discutir o assunto nas eleições municipais, é preciso fazer um esforço redobrado para aproveitar a boa coincidência que temos pela frente para que, como aconteceu com o Japão, em algumas décadas ninguém mais lembre quando e como mudamos nossos hábitos de limpeza urbana. E o brasileiro seja reconhecido como um povo limpo.

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