quinta-feira, novembro 08, 2012

Cartas na manga - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 08/11


A quarta-feira foi de especulações a respeito da ausência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no jantar que serviu para estreitar a aliança entre PT e PMDB. A versão oficial é a de que Lula não foi porque se tratava de um reforço à relação institucional da presidente Dilma Rousseff com o maior partido da base, e o ex-presidente não teria função nesse encontro. Ok, mas, dentro do PMDB e do próprio PT, há quem veja outras razões nessa ausência.

A primeira delas é não comprometer desde já a maior liderança do PT nem com as candidaturas do PMDB à presidência da Câmara e do Senado nem com o plano A dos dois partidos para 2014 — a chapa Dilma Rousseff-Michel Temer. Assim, Lula vira uma espécie de curinga do baralho petista, descomprometido, pairando acima do governo para outros projetos, caso a aliança PT-PMDB apresente algum problema mais à frente.

Dentro desse raciocínio, a falta de Lula no jantar já produziu alguns reflexos. Por exemplo, fez refluir os movimentos do PMDB rumo a uma candidatura alternativa à de Henrique Eduardo Alves (RN) para presidir a Câmara e uniu ainda mais a cúpula do partido ao senador Renan Calheiros (AL), o nome para o Senado. Da parte da Câmara, ninguém dentro do PMDB esquece o movimento do PT, que, em 2005, lançou dois candidatos a presidente da Casa — Luiz Eduardo Greenhalgh, de São Paulo, e Virgílio Guimarães, de Minas Gerais. Deu Severino Cavalcanti (PP-PE).

O partido de Michel Temer não quer dar essa brecha ao deputado Júlio Delgado (PSB-MG), que se movimenta a olhos vistos, tampouco ao deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), que, assim como Severino, tem dezenas de amigos na Casa. “Não há hipótese de que, no PMDB, alguém fique contra Henrique. Ele é unanimidade dentro do partido”, afirma o deputado Lúcio Vieira Lima, da Bahia, estado apontado como um reduto rebelde. A frase de Vieira Lima tem a seguinte leitura: se não é o céu ter Henrique na presidência da Casa, há a certeza de que será muito pior sem ele.

Enquanto isso, no Senado…

O raciocínio da Câmara vale também para o Senado. O PMDB está convencido de que as presidências das duas Casas representam um “seguro” para a composição de 2014, quando o partido conta com a candidatura a vice na chapa de Dilma e uma parceria no governo federal. Portanto, Câmara e Senado são as cartas que o PMDB deseja conquistar para ter como jogar e evitar que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB, termine por tirar lugar de um de outro. Os peemedebistas souberam por terceiros que o governador da Bahia, Jaques Wagner, acena com a hipótese de o PT ceder a cabeça de chapa aos socialistas em médio prazo e começam a sentir cheiro de “vou sobrar” logo ali na frente. E vão jogar com todas as cartas que tiverem para que isso não ocorra.

Eduardo Campos é considerado, entre os políticos, quem mais dispõe de cartas para o futuro. Pode sair candidato a presidente em 2014 de forma a preparar o terreno. Pode ainda se aproximar ainda mais do candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves. Ou pode ficar onde está desde que o PT lhe ceda a vaga para o futuro. Mas, nesse caso, obviamente, irá pedir a vice de Dilma, e aí o bicho pega para os peemedebistas.

E no Planalto…

Para sorte do PMDB, Dilma está mais desconfiada de Eduardo Campos do que dos peemedebistas. Ela está fechada com Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros. Considera que é hora de impor uma derrota ao governador pernambucano, de forma a evitar que ele ganhe ainda mais fôlego para combatê-la no futuro próximo. Prefere o PMDB, que não tem candidato a presidente, do que o PSB, que, se obtiver a presidência da Câmara, pode criar asas. Da parte dos socialistas, entretanto, o jogo continua. Na semana que vem, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), outro cheio de cartas na manga, virá a Brasília. Conversará com seu partido, será homenageado e estreitará laços com os partidos da base aliada de Dilma. Mas Kassab hoje tem mais afinidade com Eduardo Campos, a quem considera um dos nomes da nova geração, do que com o PMDB.

Para azar dos peemedebistas, Lula também tem mais proximidade com Eduardo Campos do que com o partido de Michel Temer. Os socialistas são parceiros históricos dos petistas. E essa sombra do passado nas salas peemedebistas está deixando o jogo trancado. As próximas semanas deixarão claro as cartadas de cada um. Vale acompanhar.

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