quarta-feira, outubro 10, 2012

Hora da reforma - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 10/10


Nem só de julgamento do mensalão e segundo turno eleitoral vive a política nesses dias de outubro. A preparação para as votações intensas no Congresso e também a eleição do presidente da Câmara e do Senado começam a despontar na agenda. Os senadores, por exemplo, chegam do primeiro turno de ressaca. Dos cinco que decidiram disputar eleições municipais, só dois passaram ao segundo turno: Vanessa Grazziotin (PCdoB), em Manaus, e Cícero Lucena (PSDB), em João Pessoa. Esse desempenho fez com que os líderes do governo levassem o seguinte recado ontem ao Planalto: o Senado atendeu o governo quando da votação da Emenda 29, da Saúde, mas não quer arcar com o desgaste de tirar os 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a área de Educação.

Esse raciocínio tem a ver com o resultado eleitoral. Afinal, Inácio Arruda (PCdoB-CE), Wellington Dias (PT-PI) e Humberto Costa (PT-PE) tiveram resultados fracos nas capitais de seus estados. Esse é, hoje, o ingrediente visível, mas não o principal motor do desejo dos senadores de não mudar o texto que veio da Câmara. Atrás desse cenário estão, por exemplo, os senadores da base aliada de Dilma tentando fazer com que ela veja o quanto eles são importantes, em especial, o PMDB.

Os peemedebistas sabem que Dilma não dispensará o vice-presidente Michel Temer na primeira curva da estrada. Aliás, vale lembrar que o PT precisa da voz de Gabriel Chalita (PMDB) neste segundo turno em São Paulo e deseja conquistar também Geddel Vieira Lima (PMDB), para ajudar no combate a ACM Neto (DEM) em Salvador. Os peemedebistas sabem que não será fácil convencer Geddel a apoiar Nelson Pelegrino (PT), porque, como maior nome do PMDB baiano, Geddel prefere apoiar Neto para, assim, aproximar um antigo desafeto para ser seu aliado numa eleição de governador daqui a dois anos, quando Jaques Wagner (PT) não será candidato à reeleição.

Para completar os problemas entre PMDB e PT, depois que o PSB dobrou seu número de prefeituras, há quem considere ser melhor o PMDB fazer uma espécie de “seguro eleitoral” para evitar surpresas no futuro. Afinal, justo em São Paulo, onde Lula fez tantos pedidos para que Chalita apoiasse Haddad logo no primeiro turno, o PMDB não atendeu a demanda. Para evitar mais disse-me-disse e desacertos nesse campo, os presidentes do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), e o do PT, Rui Falcão, marcaram um encontro para amanhã, quando tentarão acertar os ponteiros sobre as eleições municipais.

Por falar em seguro…

As desconfianças mútuas entre PT e PMDB, o crescimento do PSB e a perspectiva de voo solo de Eduardo Campos em 2014 formam o caldo para que os peemedebistas queriam demonstrar sua importância ao governo. A hipótese de o Senado simplesmente chancelar os 10% do PIB para a Educação não deixará de ser um desgaste para a presidente Dilma Rousseff, já que o governo insiste em chegar no máximo a 8% do PIB para o setor. A proposta original era de 7% do PIB. Os estudantes fizeram barulho ao longo da tramitação do projeto na Câmara e vão repetir a dose no Senado. Ou seja, se Dilma vetar os 10%, será um baile para a oposição. E, para não repetir a dose, ela terá que garantir todo o apoio da base aliada.

Nessa perspectiva, os aliados vislumbram uma reforma ministerial até o fim do ano para Dilma Rousseff começar 2013, quando não haverá eventos eleitorais, com força total para aprovar projetos importantes no Congresso, como os royalties do petróleo, o marco regulatório da mineração e a propalada reforma tributária. Enquanto 2013 não chega, o PT pretende aproveitar os próximos meses para curar as feridas das condenações do mensalão, tentar reavivar o partido e reorganizar o governo. Essa batalha começa no fim de outubro.

Enquanto isso, no blog do Dirceu…

A carta aberta que José Dirceu postou ontem em seu blog logo que o placar do STF indicou sua condenação mostra que ele não ficará calado nesse segundo turno eleitoral. “Minha sede de justiça, que não se confunde com o ódio, a vingança, a covardia moral e a hipocrisia que meus inimigos lançaram contra mim nestes últimos anos, será minha razão de viver”, diz ele, ao encerrar o texto. Parte do PT não gostou. Preferia que ele esperasse passar outubro para anunciar que se sente vítima de uma injustiça. Há um receio de que esse barulho levante mais a poeira do mensalão e turve a campanha de seus partidários nos próximos dias, em especial, a de Fernando Haddad em São Paulo.

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