sábado, setembro 01, 2012

O prelúdio e a piada de salão - NELSON MARCHEZAN JUNIOR


ZERO HORA - 01/09

Nos tempos em que se acreditava na impunidade, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares afirmou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que o escândalo do mensalão, classificado como maior episódio de corrupção política da história do país, acabaria ao fim e ao cabo virando "piada de salão".

Imaginava o tesoureiro petista que, com o passar do tempo, a opinião pública seria flexibilizada e o escândalo, em que pese a suas dimensões e graves consequências, findaria melancolicamente entre aqueles episódios que servem para apimentar jocosas e frívolas conversas nos salões do poder.

Nas suas contas, o homem das finanças imaginava, ainda, que a própria Justiça acabaria relevando as dimensões do crime com o baixar da poeira. Na sua fictícia contabilidade, o mensalão do PT viraria um desses episódios de crise política que crescem a partir de uma certa artificialização e morrem com o passar do tempo. Cometia erro duplo: nem a crise era artificial, tampouco o tempo seria benevolente.

Passada a primeira parte do julgamento do mensalão do PT no Supremo, com base nos pedidos de condenação já feitos, Delúbio Soares já sabe que deve esquecer a "piada de salão" e se preocupar seriamente com o prelúdio feito pelo ministro relator Joaquim Barbosa.

Ao pedir, por exemplo, a condenação do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil (BB) Henrique Pizzolato e do empresário Marcos Valério, o ministro enviou sinais de que votará pela condenação de Delúbio Soares, como consequência de sua participação no esquema de distribuição de dinheiro para a compra de apoio político.

Os tons pela condenação ficam mais claros quando o prelúdio de Barbosa abre o foco em torno dos desvios de recursos do Banco do Brasil. Ali, fica absolutamente caracterizado que a SMPB, a DNA e a Graffiti simularam empréstimos junto ao Banco Rural e, além disso, usaram o Banco do Brasil no momento de lavar o dinheiro obtido de forma fraudulenta.

Nesse prelúdio, Delúbio foi citado 50 vezes no voto do ministro relator referente aos desvios de recursos públicos da Câmara dos Deputados e do Banco do Brasil para as empresas de Marcos Valério.

O voto do relator Ricardo Lewandowski, condenando Henrique Pizzolato por corrupção passiva, já seria uma nota grave pós-prelúdio e que tem fortes repercussões no julgamento de Delúbio Soares.

Será muito difícil encontrar acordes dissonantes que possam confirmar a piada de salão proclamada por Delúbio Soares. Como se fosse uma orquestra afinada, embora composta de solistas independentes, o Supremo Tribunal Federal caminha na direção de suprimir a piada de mau gosto e de fazer ecoar nos salões o hino do fim da impunidade.

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