terça-feira, setembro 11, 2012

Alemanha deveria liderar ou partir - GEORGE SOROS


Valor Econômico - 11/09


A Europa está em crise financeira desde 2007. Quando a quebra do Lehman Brothers colocou em risco o crédito das instituições financeiras, o crédito privado foi substituído pelo governamental, o que revelou uma falha não reconhecida no euro. Ao transferir o direito de imprimir dinheiro para o Banco Central Europeu (BCE), os países-membros se expuseram ao risco de inadimplência, como países do terceiro mundo endividados em moedas estrangeiras. Os bancos comerciais carregados com bônus governamentais de países enfraquecidos tornaram-se potencialmente insolventes.

Há paralelos entre a atual crise do euro e a crise bancária internacional de 1982. Naquela ocasião, o Fundo Monetário Internacional (FMI) salvou o sistema bancário mundial ao emprestar o dinheiro necessário para os países altamente endividados. A Alemanha desempenha hoje o mesmo papel que o FMI na época. O entorno é diferente, mas o efeito é o mesmo. Os credores vêm jogando todo o fardo dos ajustes sobre os países devedores e evitando suas próprias responsabilidades.

A crise do euro é uma mistura complexa de problemas com bancos e dívidas soberanas. As autoridades não entenderam a complexidade da crise nem, muito menos, encontraram uma solução. Por isso, tentaram ganhar tempo.

Normalmente, funciona. O pânico financeiro diminui e as autoridades saem ganhando com sua intervenção. Não foi assim desta vez porque os problemas financeiros vieram acompanhados por um processo de desintegração política.

Quando a União Europeia (UE) foi criada, houve a materialização de uma sociedade aberta. A crise agora torna a UE algo diferente, dividindo países-membros em duas classes: credores e devedores, com os credores no comando.

Como país credor mais forte, a Alemanha emergiu como poder hegemônico. Os países devedores pagam prêmios substanciais de risco para financiar suas dívidas soberanas. Isso é refletido em seu custo geral de financiamento. Para piorar a situação, o Bundesbank, autoridade monetária da Alemanha, continua comprometido com uma doutrina monetária ultrapassada, enraizada na traumática experiência inflacionária do país. Como resultado, reconhece apenas a inflação como ameaça à estabilidade e ignora o perigo da deflação, que é o real perigo atual. Além disso, a insistência da Alemanha em levar a austeridade para os países devedores pode tornar-se contraproducente, uma vez que a relação de endividamento pode aumentar à medida que o Produto Interno Bruto (PIB) cai.

Há perigo real dessa Europa de dois níveis tornar-se permanente. Tanto recursos financeiros como humanos serão atraídos pelo centro, deixando a periferia deprimida, e a periferia fervilha em descontentamento.

A tragédia na Europa não é resultado de uma trama diabólica. Decorre da falta de políticas coerentes. Como nas antigas tragédias gregas, as concepções erradas e a falta de compreensão tiveram consequências inesperadas e fatídicas.

A Alemanha, no papel de maior país credor, está no comando, mas se recusa a assumir mais responsabilidades; como resultado, todas as oportunidades para resolver a crise foram desperdiçadas. A crise se disseminou da Grécia para outros países deficitários e acabou colocando em dúvida a própria sobrevivência do euro.

Mais recentemente, a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, apoiou o presidente do BCE, Mario Draghi, deixando o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, isolado. Isso permitirá ao BCE controlar os custos de captação dos países que se submetam a um programa de austeridade sob supervisão da troica (FMI, BCE e Comissão Europeia). Isso vai salvar o euro, mas também é um passo em direção à divisão permanente na Europa, entre devedores e credores.

Mais cedo ou mais tarde, os devedores acabarão rejeitando uma Europa de dois níveis. Se o euro desmembrar-se de forma caótica, o mercado comum e a UE serão destruídos, deixando a Europa pior do que estava quando começaram os esforços para uni-la, por culpa de um legado de hostilidade e desconfiança mútuas. Quanto mais a separação demorar, pior será o resultado. Dessa forma, é hora de considerar alternativas que até pouco tempo atrás teriam sido inconcebíveis. Em minha opinião, o melhor rumo a seguir é persuadir a Alemanha a escolher entre liderar a criação de uma união política na qual os encargos sejam genuinamente divididos entre todos, ou deixar o euro.

Como toda a dívida acumulada é denominada em euros, faz muita diferença quem continuará no comando da união monetária. Se a Alemanha partisse, o euro iria desvalorizar-se. Os países devedores reconquistariam sua competitividade; sua dívida diminuiria em termos reais; e, com o BCE sob seu controle, a ameaça de inadimplência desapareceria e seus custos de captação cairiam a níveis comparáveis aos do Reino Unido.

Os países credores, em contraste, incorreriam em perdas em seus créditos a receber e investimentos denominados em euros, além de passar a enfrentar maior concorrência em seu próprio mercado por parte dos outros membros da região do euro. O tamanho das perdas dos países credores dependeria do tamanho da desvalorização, fazendo com que seja de seu interesse manter a depreciação sob certo controle.

Após as movimentações iniciais, o resultado tornaria real o sonho de John Maynard Keynes, de um sistema cambial internacional em que tanto credores como devedores compartilham a responsabilidade de manter a estabilidade. E a Europa evitaria a depressão que se aproxima.

O mesmo resultado poderia ser alcançado pela Alemanha, com menos custos, se o país escolhesse se comportar como um poder hegemônico benevolente. Isso significaria adotar a proposta de união bancária europeia; estabelecer condições de jogo mais ou menos iguais para países credores e devedores, com a criação de um Fundo de Redução de Dívidas e a conversão, em algum momento, de todos os títulos em eurobônus; e buscar um crescimento nominal do PIB de até 5%, para que a Europa possa sair do endividamento excessivo por meio da expansão econômica.

Quer a Alemanha opte por liderar ou por partir, qualquer um dos dois resultados seria melhor do que criar uma Europa insustentável de dois níveis. (Tradução de Sabino Ahumada)

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