terça-feira, julho 03, 2012

Nome próprio da cultura - VLADIMIR SAFATLE


FOLHA DE S.PAULO - 03/07


No Brasil, os debates sobre ação cultural normalmente pecam pelo medo de afirmar as exigências da cultura em voz alta.
De um lado, há aqueles para quem os investimentos em cultura se justificam por permitir o desenvolvimento da "economia criativa". Nessa visão, cultura é bom porque gera empregos, turismo e desenvolvimento econômico.
De outro, há os que veem a cultura como ponta de lança de serviços de assistência e integração social. Mais música e menos violência -é o que alguns gostam de dizer, como se houvesse alguma forma de relação direita possível. O que abre um perigoso flanco: se o índice de violência não baixar, o investimento em música parece perder o sentido.
Por fim, há os que compreendem cultura como um mero complemento para a educação. Todas as ações culturais devem estar integradas em um projeto educacional pedagógico.
Há de lembrar a tais pessoas que a cultura ocidental construiu seu lugar exatamente por meio da recusa dessas três tutelas. Platão e Rousseau, por mais que enunciassem pensamentos distintos, tinham ao menos a similitude de ver a arte como uma pedagogia para o bem-viver em sociedade. Não por outra razão, um expulsou os artistas de sua cidade ideal e o outro brigava para não abrirem um teatro em Genebra. Afinal, Dostoiévski, Francis Bacon, John Cage e Paul Celan não são exatamente companheiros na arte da descoberta do bem-viver. A arte serve mais para desestabilizar visões de mundo do que para referendá-las.
Já a subsunção das discussões culturais aos imperativos da nova "economia criativa" é só mais uma maneira de justificar a lógica de mercador de certos administradores culturais. Assim, eles podem financiar o que circula mais, já que a alta circulação é o critério fundamental para a avaliação dos processos de produção econômica.
Como Britney Spears sempre circulará mais do que Anton Webern, fica justificada a transformação do Estado em departamento de desenvolvimento de subprodutos culturais para a indústria. Daqui a pouco, teremos baile funk pago pela Secretaria da Cultura (ainda por cima, com a desculpa de que se trata de manifestação popular).
Mas o Brasil mereceria um debate cultural que não precisasse de muletas para se justificar e que não tentasse perpetuar falsos dilemas -como cultura elitista x cultura popular, cultura dos países dominantes x cultura da periferia e outros absurdos do gênero.
Aqueles que acreditam que a cultura serve, sobretudo, para desestabilizar visões de mundo e compreender a força crítica das formas estéticas deveriam parar de falar em voz baixa.

Um comentário:

  1. “Como observou Ronaldo Brito, é sempre necessário lembrar que ‘ a arte não nos aliena do mundo’, ao contrário, ‘ela nos faz reencontrá-lo, pleno e diferente. Mais ainda, repõe, em aberto as possibilidades de mundos’.

    (MEIRA, 2010, p. 292)
    MEIRA, Marcel Ronaldo Morelli de. Os novos museus e a estética na contemporaneidade. In: ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ARTE, 6., Campinas, Unicamp, SP, 2010. Disponível em:

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