segunda-feira, junho 18, 2012

Vinte anos depois - GEORGE VIDOR


O GLOBO - 18/06
Há 20 anos, na Rio 92, contava-se nos dedos as empresas que efetivamente haviam incorporado, em suas rotinas de trabalho, métodos ou iniciativas de preservação da natureza. A palavra sustentabilidade não fazia parte do jargão econômico ou mesmo do noticiário. Coleta seletiva de lixo era algo que ainda chamava a atenção de turistas estrangeiros que visitavam cidades ricas da Alemanha.
reciclagem? Aqui nos trópicos, só de papel usado, e olhe lá, pois o Brasil quase não produzia latinhas de alumínio, por exemplo. O etanol era apenas um substituto do chumbo na gasolina. Energia eólica? Apenas uma experiência promissora.

Vinte anos depois, o consumo de combustíveis fósseis, continua a crescer, mas a emissão de material particulado poluente pelos ônibus que utilizam óleo diesel diminuiu 88%. A indústria desperdiça menos matéria-prima, a agropecuária se tornou mais produtiva, e a evolução das comunicações poupa deslocamentos e tempo.

E o mais importante: mais gente está preocupada com o ambiente (infelizmente não em número capaz de constranger quem joga lixo no chão em uma avenida movimentada do Centro do Rio, como a Rio Branco, que é varrida quatro vezes por dia, ou que recorre a queimadas para reiniciar o plantio).

O mundo está longe de alcançar a sonhada sustentabilidade, de encontrar um modo de compatibilizar as comodidades da vida moderna com a preservação da natureza, mas não precisamos cair no desespero, como é o caso de uma ONG fundada nos Estados Unidos, cuja proposta é a autoextinção da humanidade por absoluta falta de confiança no futuro do ser humano. Com a Rio 92, o ambientalismo deixou de ser algo visto como exótico, estilo "natureba". A sustentabilidade entrou na agenda como assunto sério, sem ser tema restrito a fundamentalistas e ecochatos. Hoje os governos são pressionados a adotar programas de tratamento de esgoto, reflorestamento, preservação de diferentes biomas, melhora da qualidade da água e do ar, Assim, como na Rio 92, da Rio+20 não sairá solução mágica para todos nossos problemas. Mas certamente a partir dela, o bloco da sustentabilidade crescerá.

Na próxima segunda-feira haverá a aula inaugural dos cursos de qualificação profissional de candidatos a trabalhar no estaleiro da OSX, no Açu (São João da Barra). Cerca de 19 mil pessoas se inscreveram, dos quais 3.100 foram selecionadas para os cursos que serão ministrados pelo Senai. Metade delas, mulheres, o que mostra que não está mais longe o dia de o setor de construção naval no Brasil deixar de ser um clube do Bolinha ("menina não entra", alertava o aviso em cima da porta).

O estaleiro da OSX está em contagem regressiva para funcionar. Aproveitando uma breve passagem por Campos dos Goytacazes, município vizinho, fui ver as obras. O canal que está sendo aberto por três dragas avançou dois quilômetros continente adentro, e já com trezentos metros de largura. A máquina que assentará as paredes de concreto (com tamanho de 26 metros e 90 centímetros de espessura) do píer lateral do estaleiro estava no local onde iniciará o serviço. O estaqueamento dos principais prédios industriais acabará em julho e várias bases, com alguns pilares de sustentação, em duas unidades importantes (recebimento de chapas de aço e corte), são visíveis.

Enquanto isso, a LLX, empresa do mesmo grupo (Eike Batista), que terá um cais na outra margem do canal e, por isso, divide as despesas de dragagem com a OSX, espera receber agora em julho seis imensos "caixões" de concreto que formarão parte do quebra-mar na entrada do canal. É uma tecnologia inédita no Brasil e vai permitir que o quebra-mar, internamente, sirva como um píer de atracação de embarcações. Os seis primeiros "caixões" estão sendo fabricados no Porto do Forno, em Arraial do Cabo. Cada um deles tem 60 metros de comprimento e mais de 16 meses de altura. Serão rebocados até o Açu, e lá "afundarão" até encontrar um leito de pedra britada. Os "caixões" serão preenchidos com areia da dragagem. Como se interligam, na superfície receberão uma laje contínua de concreto, para formar o píer de atracação.

Nas obras do estaleiro estão trabalhando mais de duas mil pessoas, a maioria recrutada nas cercanias. No pico da obra , esse número triplicará, sem contar os que estarão sendo treinados para a produção. O corte da primeira chapa de aço, um marco em qualquer estaleiro, é previsto para o primeiro trimestre do ano que vem. Nesse mesmo período, estarão sendo montados módulos para futuras plataformas de petróleo da OGX, a companhia de petróleo do grupo.

O tempo era curto, e depois de testemunhar as obras do estaleiro, só deu para passar rapidamente passar por outras áreas, sob responsabilidade da LLX, a companhia de logística. Os terrenos das três fábricas de tubos flexíveis para poços de petróleo no mar (NKT, Technip e InterMoore) foram preparados, e pelo menos um deles, o da dinamarquesa NKT, está na fase de estaqueamento. O píer do terminal de minério de ferro está quase pronto, e já com 50% das esteiras transportadoras.

Em plena Rio+20, não podia deixar de subir num mirante e dar uma espiada na reserva particular de proteção natural, que se estende por 40 quilômetros quadrados junto ao complexo industrial. O mirante faz parte do centro de visitantes, onde há sempre um quitute da Dona Zilce (o bolo de limão é especial). Proprietária de uma pousada em São João da Barra, Dona Zilce se tornou fornecedora para pequenas recepções a visitantes ao complexo do Açu. Por conta das obras, ela agora tem hóspedes a semana inteira.

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