quarta-feira, junho 27, 2012

Uma agressão ao Parlamento e ao povo - ROSÂNGELA BITTAR


Valor Econômico - 27/06


Nenhum partido vai bem na CPI do Cachoeira. Aliás, a política vai mal, muito mal nesse palco iluminado com velas. Todas as legendas estão divididas e não acertaram até agora sua atuação. Ninguém conseguiu analisar denúncias e comparar dados. Não existem exceções e quem vai pior são os dirigentes com responsabilidade de liderar o grupo de investigadores. A CPI é uma interminável sucessão de negações: não, nada, ninguém, nenhum.

As gravações telefônicas da Polícia Federal continuam sendo a base da arguição do relator, que não sai do lugar na sua peroração de assessoria. Fez até um treinamento para aprender a inquirir, sem resultados, gira em torno do já gravado, já apurado, já comparado, já investigado.

O que há não é nem palanque eleitoral. É discurso vazio, gritaria da pior qualidade, torcida de times perna de pau. A CPI se irrita quando um depoente usufrui do direito de ficar calado, mas quando ele fala não tem o que perguntar, não sabe o que precisaria saber.

CPI faz inquérito sob o filtro da negação

Os dados recebidos estão empilhados, o sigilo fiscal e bancário da Delta, a grande empreiteira envolvida no caso, foi quebrado, mas nenhuma informação serviu ainda ao inquérito, pois ninguém estuda aquele calhamaço.

Uma maneira de CPIs burlarem a trabalheira que é levantar irregularidades com base no sigilo quebrado é convocar os dirigentes das empresas e as pessoas que com eles têm ligação explícita para, a partir dos seus depoimentos, localizar os dados que servirão a possíveis provas. Essas pessoas, no caso desse inquérito, entraram na disputa partidária e foram perdoadas por antecipação.

A CPI já nasceu causando perplexidade e assim continua. Primeiro pela sua composição, pois estavam lá, e ainda estão, parlamentares como o senador Fernando Collor, presidente que sofreu impeachment depois exatamente do trabalho de uma comissão parlamentar de inquérito criada a partir de denúncias da imprensa, e o deputado Protógenes Queiroz, ex-delegado que fez sua história política na esteira de uma investigação baseada em grampos por ele interpretados com grande capacidade de distorção, atingindo culpados e inocentes. No caso em tela, tem inclusive seu nome nos autos por suspeita de ligação com os réus. O PT entrou dividido, tem um grupo que age em nome dos réus do mensalão e que tenta não deixar a CPI perder o rumo inicial de ser manobra diversionista do grande escândalo de corrupção do governo Lula.

O relator nomeado pelo PT é alma penada, esbraveja, acusa e esperneia em entrevistas pós sessões de arguição em que repete o que está nas gravações da polícia. O PMDB, o cindido de sempre, colocou lá um presidente que não lidera o processo, ficando o partido entretido com a defesa política dos seus. A oposição, velha coitada, sem número para fazer valer posições, alvo da investigação por intermédio de um governador importante, atém-se à disputa partidária e foge da investigação. Há os éticos de CPI, desgarrados de seus partidos, tentando fazer inquérito, entre os quais se destacam Miro Teixeira e as revelações Pedro Taques e Randolfe Rodrigues, mas e os resultados? Zero.

Nem o objetivo diversionista do início a CPI consegue atingir. Lula a estimulou como instrumento para os réus do mensalão fazerem um samba enredo contra o procurador-geral da República e contra a imprensa, incluindo de quebra o governador de Goiás, seu desafeto pessoal. O barulho não desviou as atenções do julgamento do mensalão, ainda. A aguardar a combustão da CPI em agosto, a ver se tem carta na manga. O que a CPI oferece à sociedade é degradante, é uma manipulação grosseira das atribuições do Parlamento, que também deveria se sentir ofendido. Carlos Augusto Ramos Cachoeira, Fernando Cavendish, Delta Engenharia, Luiz Antonio Pagot, passam muito bem, obrigado, na plateia desse espetáculo de quinta categoria.

A maior autoridade do Brasil, ao contrário das organizações não governamentais que atuam na área e entraram no encontro para fazer o embate político-ideológico independentemente do que ali ocorresse, em defesa de suas posições, não está nada decepcionada com a conferência ambiental da Organização das Nações Unidas, a Rio+20. A presidente Dilma Rousseff sabia o que queria do encontro e cumpriu à risca seus objetivos, como faz em tudo o mais que diz respeito ao governo.

Evitou lá chegar com o telhado de vidro do Código Florestal aprovado no Congresso, e depois de sucessivas reuniões com equipes enormes de ministros, fez os vetos que considerou necessários para, também de acordo com seus critérios, respeitar a maioria do Parlamento e ao mesmo tempo suprimir questões que por princípio já havia condenado, como tirar do texto tudo o que pudesse ser entendido como anistia a desmatadores.

Também à parte da performance política das ONGs, suplicando retirada do registro de sua presença dos documentos oficiais, dentro também de seu script político, o governo queria que lá estivessem, e lá estiveram.

Textos que compatibilizam posições de dezenas de países são sempre os possíveis, é um axioma ao qual essa conferência não fugiu e outras não fugirão.

E só os desinformados estranharam as ausências de líderes de alguns países desenvolvidos, anotando o fato como algo surpreendente e significativo. Dilma sabia e divulgou, um mês antes do anúncio oficial, que Angela Merkel não vinha, bem como era notória, avisada e justificada a ausência de Barack Obama. No meio que frequentam a presidente e a diplomacia que a assessora, compreendia-se que o presidente americano estava numa campanha difícil, e que os presidentes europeus, afogados em crise econômica, não conseguiriam pensar em outros problemas. A presença de Hillary Clinton foi uma surpresa positiva, a expectativa era de uma representação até menor.

O Brasil esteve, e ainda está, olhando o futuro, muito satisfeito com a presença da China e da França, países com os quais a presidente queria aproveitar, e aproveitou, encontros bilaterais para fazer negócios. Dilma Rousseff aceitou, também, de bom humor, o pitoresco, em cotação alta na conferência.

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