domingo, junho 03, 2012

Hora da vigília - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 03/06

Com uma semana de feriadão à frente, os integrantes da CPI e os líderes partidários prometem passar esses três dias de trabalho mergulhados nos bastidores para tentar buscar meios de sair do imbróglio da CPI de Carlos Cachoeira sem chamuscar muita gente. O problema para esses líderes é que movimentos de contenção das investigações estão cada vez mais difíceis, porque, mal surgem, já estão estampados nos jornais com uma força em contrário, apesar do silêncio dos personagens chamados a depor.

Primeiro, tentou-se segurar o sigilo da matriz da Delta Construções e evitar a convocação de governadores — manobras que não tiveram a validade de um iogurte. Eis que, hoje, os governadores Marconi Perillo e Agnelo Queiroz estão convocados e o sigilo da Delta, quebrado. Agora, tenta-se segurar as informações sobre as empresas que receberam dinheiro e a quem repassam. Outra manobra que promete dar em nada.

Basta ver a reportagem de hoje do Correio Braziliense sobre os R$ 300 mil que o ex-funcionário da Delta Cláudio Abreu tirou de sua conta em espécie em plena corrida eleitoral de 2010. É, no mínimo, muita coincidência alguém com tantos laços políticos retirar R$ 300 mil em dinheiro vivo, justamente na reta final de campanha, momento em que os políticos ficam ávidos por recursos. Ou seja, dia menos dia, a CPI chegará às eleições, como chegou aos depósitos feitos na conta de Bruna Bordoni, filha do jornalista Luiz Carlos Bordoni, que diz ter sido parte do pagamento das despesas de campanha do governador Perillo, o que ele nega. Mas o caso está aí e uma investigação mostrará a verdade dessa história. Afinal, Perillo se prontificou a comparecer à CPI.

Por falar em comparecimento…
Outra manobra em curso, talvez um pouco adiantada, é de ausências programadas de senadores simpáticos a Demóstentes Torres no dia do julgamento no plenário da Casa. Ora, esse movimento não tem a menor chance de prosperar. Primeiro, embora a votação seja secreta, essa história de faltar para não dar quórum ou reduzir a margem contra Demóstenes nos leva ao seguinte raciocínio: quem não estiver na sessão, estará praticamente declarando o voto em favor do senador goiano. Se os senadores mal o cumprimentam quando passa para não serem fotografados ao lado dele, quero ver quem vai querer ser carimbado como o ausente que o protegeu.

Por falar em votação secreta…
O senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) deflagrou esses dias na Casa um movimento para permitir a declaração de voto por parte dos senadores, antes da votação. Só tem um probleminha aí: se as declarações de voto contra Demóstenes forem superiores ao número real apresentado no painel eletrônico, estará caracterizada a mentira de alguns. E mentir no plenário é considerado quebra de decoro.

No caso de Luiz Estevão, cassado há 12 anos, a curiosidade nesse campo foi tal que o então senador José Roberto Arruda promoveu a quebra de sigilo do painel eletrônico, aproveitando-se uma “janela” do sistema. A melhor forma de evitar que os senadores caiam nas tentações de declarar um voto e proceder de outra maneira — ou recorrer a métodos ilegais para saciar a curiosidade é acabar com o voto secreto nesses casos. No Conselho de Ética da Casa, o voto é aberto. Nada mais salutar. Assim, quem quiser votar a favor de Demóstenes ou contra ele, que apresente seus argumentos e fique em paz com a própria consciência. Certamente, reduziria bastante a política rasteira que tenta blindar daqui, esconder dali, proteger de lá. Dessas manobras, a população se cansou há tempos.

O voto aberto é mais saudável para casos de quebra de decoro. Assim, quem quiser defender ou acusar um senador teria que apresentar argumentos bem fundamentados, de forma a ficar em paz com a própria consciência, sem subterfúgios

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