sexta-feira, maio 18, 2012

A primeira vítima - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZIIENSE - 18/05

Em tempos de CPI, muitos personagens acabam abalroados sem precisar sentar-se no banco dos depoentes para aparecer na TV com aquela cara de quem não está confortável na cadeira. O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), por exemplo, atingiu um de seus objetivos antes de levar o adversário à luz da comissão que investiga as relações do contraventor Carlos Cachoeira. Bastaram as imagens postadas em seu blog para que o PT, em suas conversas mais reservadas, decretasse que o governador do Rio, Sérgio Cabral, se inviabilizou como candidato a vice numa (ainda) hipotética chapa capitaneada pelo ex-presidente Lula em 2014. Afora os óbvios, ele é o primeiro a sair arranhado.

Cabral, enquanto governador, foi apresentado como os heróis em ações policiais cinematográficas nas favelas do Rio. Entre uma viagem e outra a Paris, cuidava da sua imagem nos morros cariocas. Era o rei da segurança pública. Nesse contexto, o zeloso governador chegou a ser citado como o primeiro da fila numa chapa, caso Lula fosse candidato.

É fato que o PT tenta preservar o governador do Rio como aliado. Ontem a CPI terminou a semana com cara de acordão para tirar Marconi Perillo (GO), Agnelo Queiroz (DF) e Cabral do banco de depoentes — mesmo que seja no papel de testemunhas. Mas, nos bastidores, garantem que esse processo deixará o governador em débito com o PT.

A imagem de Cabral confraternizando com Fernando Cavendish, o ex-dono da Delta, e o fato de não demonstrar os gastos de todas as suas viagens tiveram o mesmo efeito que um balde de água raz teria se jogado sobre uma bonita pintura. É verdade que ele ainda tem tempo para se explicar em relação às viagens, e não é crime beber um vinho em Paris com amigos. No caso de um governador de estado, desde que pague por ele e não deixe o empreiteiro bancando a sua conta, está tudo certo.

Só para situar quem não tem acompanhado essa novela, dadas as idas e vindas de humor da presidente da República, Dilma Rousseff, existe uma turma dentro do PT torcendo para que Lula seja candidato. Seus expoentes não vêem a hora de tirar o PMDB da vaga de vice e entregar o lugar de Michel Temer a Eduardo Campos, presidente do PSB e governador de Pernambuco. Essa conversa já é conhecida de quem lê a coluna. A novidade é que agora os petistas já estão cuidando de direcionar a candidatura a vice. E apostam no climão de CPI para jogar no mercado futuro.

Por falar em Dilma…
A própria Dilma terminou candidata por esses lances que vão, aos poucos, deslocando quem está mais à frente na fila de uma candidatura presidencial. Ela só conseguiu ser candidata porque toda a cúpula do PT ruiu na esteira do mensalão e as ondas que o processo trouxe. José Dirceu e Antonio Palocci, por exemplo, viviam uma guerra de bastidores sobre quem seria o sucessor de Lula. Hoje, os dois são aplaudidos apenas nos encontros do próprio partido onde o conceito de “malfeito” varia de militante para militante, como se fosse um elástico.

A aposta do PT que torce pela volta de Lula é a de que Dilma está nessa briga com a classe política e colocou o PMDB em ministérios de periferia justamente para limpar o caminho a um terceiro mandato de Lula. Embora o ex-presidente diga dia e noite que não pretende voltar, ninguém acredita. O problema é que a briga de Dilma com a classe política a fortalece a cada dia. E a CPI, embora ainda relute, vai terminar desaguando em desvendar malfeitos dos políticos, seja de qual partido for. A impressão que se tem é a de que, nesse contexto, Dilma sequer desmanchará o penteado ou terá problemas com a maquiagem. Ela parece ser dura como o velho laquê que nossas avós usavam.

Por falar em CPI…
A comissão parece finalmente ter encontrado um caminho nessa investigação sobre os negócios de Cachoeira. A lavanderia internacional parece ser um achado e tanto. E, sinceramente, conforme eu conversava ontem pela manhã com um amigo ao telefone, é difícil acreditar que essa lavanderia na Coreia do Norte tenha sido ideia do próprio Cachoeira. Alguém apresentou esse esquema a ele. Cabe descobrir quem foi. Hora de chamar a Interpol e a CIA para nos ajudar a desvendar esse mistério.

Quanto aos governadores, bem... Em outras CPIs tentaram-se diversos acordos para salvar A, B ou C. Alguns vingaram, outros não. Esse processo sempre depende do que vem pela frente. No mesmo caso está a matriz da Delta, no Rio de Janeiro, preservada ontem da quebra de sigilo. Se aparecer algo que mereça a convocação dos governadores ,os acordos vão ruir. No Congresso, vale a máxima: é melhor jogar um ao mar do que terminarem todos afogados

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