segunda-feira, maio 21, 2012

Mafiosos - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 21/05

Intrigante! Ou não é? O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), membro da CPI do Cachoeira, usou o celular para mandar uma mensagem ao governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) onde dizia: “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic)”. Ora, com o que mesmo Cabral deveria se preocupar? E por quê?

Cabral não é personagem relevante nem sequer marginal do objeto que a CPI se oferece para investigar: eventuais práticas criminosas desvendadas pelas operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, com o envolvimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira e de agentes públicos ou privados.

Políticos a mancheias
, entre eles os governadores de Goiás e do Tocantins e auxiliares do governador do Distrito Federal, são citados nos milhares de telefonemas trocados por Cachoeira com integrantes de sua quadrilha, e grampeados pela Polícia Federal. E Cabral? Não. Cabral não é citado.

Resta farto
 material apreendido pela polícia na casa de Cachoeira e de outros, que ainda está sendo periciado antes de ir ou não parar no Supremo Tribunal Federal — e dali na CPI. A respeito de tal material ainda não se pode dizer nada. Mas naquele de posse da CPI não há uma única referência direta nem indireta ao governador do Rio.

De volta
, pois, à intrigante pergunta que suplica por uma resposta: com o que mesmo Cabral não deveria se preocupar se ele “é nosso” (ou seja: do PT de Vacarezza) e se “nós” (o PT de Vaccarezza) é dele? O uso do “nosso” e originalmente do “teu” denuncia uma relação de cumplicidade e de proteção mútua entre o PT e Cabral.

Pode até azedar, 
como antecipa Vaccarezza, a relação do PT com o PMDB, o partido de Cabral. Mas Cabral não deve se preocupar. A frase construída pelo ex-líder do PT na Câmara é de deixar a máfia siciliana com inveja. Por que ela não a imaginou antes? E por que não a incorporou aos ritos secretos de admissão de novos mafiosos?

Provocado a decifrar 
a mensagem enviada a Cabral, Vaccarezza não o fez. Escapou: “Sou amigo do PMDB. Nossas relações nunca serão azedadas”. A mensagem teria sido escrita “num momento de irritação” de Vaccarezza com o PMDB. Irritação por quê? Vaccarezza não diz. Só garante que ninguém será blindado pela CPI. Você acredita?

Bem, anote aí
 por que Vaccarezza estava irritado com o PMDB quando se correspondeu com Cabral: o partido resistiu a apelos de Lula para forçar a mão e comprometer a VEJA com os crimes de Cachoeira. Por anos, Cachoeira foi informante da VEJA. Lula acusa a revista de ter deflagrado escândalos que atingiram seu governo.

Anote aí 
o que de fato preocupa Cabral e o leva a pedir proteção: uma investigação ampla dos negócios da empreiteira Delta do seu compadre e parceiro de luxuosas viagens ao exterior, Fernando Cavendish. Cabral é padrinho das filhas gêmeas dele. Cavendish anda ameaçando entregar podres de políticos e de partidos que financiou.

O mineiro Marcos Valério,
um dos cérebros do mensalão,ameaçou contar o que sabia se fosse depor na CPI dos Correios. Depôse não contou. Retomou a ameaça ao notar que começara a ficar sem dinheiro. Cabeças estreladas do PT pediram a Lula que o socorresse. Desconheço o que aconteceu, mas Marcos Valério não ficou sem dinheiro.

Cavendish não 
corre o risco de passar aperto. No ano passado, apesar da receita da Delta ter caído apenas 10%, de R$ 3 bilhões para R$ 2,7 bilhões, o lucro despencou 85,5%, de R$ 220,3 milhões para R$ 32 milhões. Um dos motivos foi o aumento do pagamento de dividendos a acionistas, que subiu de R$ 13 milhões para R$ 64 milhões.

Esperto Cavendish, 
não? Junto dele, Cabral é um bobo. Tudo bem: extraiu vantagens da companhia generosa de Cavendish, o sedutor de nove entre dez políticos à cata de dinheiro para pagar dívidas de campanhas ou se eleger. Agora, a popularidade de Cabral caiu. Menos do que ele calculou. Seu futuro político tornou-se opaco.

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