sexta-feira, janeiro 20, 2012

Rio de Janeiro da desesperança - BARBARA GANCIA

FOLHA DE SP - 20/01/12


No Vidigal, crianças brincam sentadas ao lado de fezes. O entorno cheira a podre, não há para onde fugir



Subi o morro do Vidigal -que vista mais linda!- com uma equipe de filmagem. Fui verificar as mudanças desde a expulsão formal dos traficantes. Peço desculpas se opto por "expulsão dos traficantes" em vez de termos mais rebuscados como "tomada do morro pelas forças da paz". É que eu não sou gerente de marketing nem a Tropa de Choque parece ser composta pelos capacetes azuis da ONU.

E quem usou a imagem da polícia carioca como "força de paz" também poderia ter optado pelos termos D.D.Drin ou Roto-Rooter. Daria na mesma, já que a imagem que se busca é a da supertropa removendo, espantando e eliminando a praga do tráfico do morro.

Parentes e o pessoal que viveu e se beneficiou do tráfico, gente que não foi fichada, mas que bem ou mal tinha e continua a ter algum vínculo com o comércio de drogas não foi corrida da favela. Ainda está lá, tranquila e pacificada como sempre esteve. Como poderia ser diferente?

Sejamos realistas. Não vamos nos ater ao problema do vício, nosso foco aqui é outro. Há um universo de consumidores, no asfalto e no morro, que usa sem se viciar. É um mercado imenso que movimenta uma economia igualmente portentosa. E para atendê-lo faz-se legítimo envolver uma população carente que eventualmente também consome e que serve para escoar a produção. E sem essa de culpar o consumidor. Em vista da esmagadora vitória das substâncias ilegais na chamada "guerra contra as drogas", se fosse para moralizar, os primeiros da lista a ser responsabilizados seriam os EUA e o DEA, yes?

Vender a ideia de que basta montar delegacias com nome bonito (Unidade de Polícia Pacificadora) e mandar reforço para resolver o problema de violência é pensamento positivo na sua forma mais rudimentar e mística -por mais bem conduzida que tenha sido a operação no Vidigal e em outros morros.

Vá lá que há um pacote de ações sociais prometido com as UPPs. Mas, como já se vão 1.512 anos de negligência nos morros, não me animo nem mesmo a chamar favela de comunidade. Em São Paulo, 23% das pessoas vivem como ratos amontoados, no Rio são 19,1%, com fios de alta tensão passando rente às têmporas dos moradores, sem qualquer cuidado sanitário, com risco iminente de desabamento etc. e etc. E a gente ainda acusa o morador da favela de descaso quando há um incêndio queimando não sei quantos barracos de uma vez.

Um cabo da Tropa de Choque me disse que agora a coisa anda porque ninguém mais fará barulho após as 22h. Mas que tipo de melhora é essa em locais que nunca experimentaram uma commodity chamada privacidade? Onde nunca existiu o direito de brigar com o marido, namorar ou fazer lição de casa em paz.

Crianças brincam de casinha sentadas ao lado de fezes. O entorno cheira a podre, não há para onde fugir. Converso com uma senhora que está vendendo o barraco: "Aqui somos da mesma região do Ceará, a gente se ajuda". Minha produtora entra para pegar a assinatura dela para os direitos de transmissão e encontra uma guria de dez anos com o nariz grudado na TV. "É minha filha, está paralisada e não enxerga, não sei o que fazer com ela". Como é que ela vai descer a menina por aquelas escadarias todas?

No vácuo entre o abandono do poder público e a lei de talião do tráfico aumentou a violência contra as mulheres. Um sargento diz que a culpa é delas, muito "oferecidas". Quer saber? Da próxima vez que vierem glamorizar favela para mim, eu meto uma estopa suja de graxa na boca de quem falar.

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